Roi-de-rats 1 663

Terceira multa em quarenta minutos, o dia estava agitado para Bianca e ela gostava disso. Era o sétimo mês trabalhando como periquita da Setran e a moça se divertia como em nenhum outro de seus empregos anteriores. Sentia prazer em multar – ela dizia “Gosto de dar multa porque é tipo um poder que eu tenho pra poder fazer um pouco de justiça”, e a jovem achava que era uma causa nobre. Mas enquanto transitava ensolarada por entre os carros, obstinada na busca pelo quarto infrator estacionado em vaga irregular naquela manhã, Bianca foi atingida por uma bicicleta e caiu de bunda no chão. Nada muito grave, exceto um roxo enorme na nádega esquerda e um baita constrangimento.

Carlos Eduardo, mais conhecido como Cadu, comemorou. Passou ao lado bem na hora, riu, desacelerou e gritou “Tinha era que ter sido um caminhão!” antes de seguir seu trajeto para entregar uns currículos no Campina do Siqueira. Ele não queria que ela se machucasse de fato, longe disso, mas odiava o ofício das moças que multavam. Achava que elas só serviam pra tirar mais dinheiro de quem não tem, e achou especialmente engraçado o fato de a moça ter sido atropelada por uma bicicleta, veículo que atrapalha o trânsito, desacelera os trajetos e nunca precisa pagar multa, “Um absurdo”. Dias antes, foi Cadu quem quase se chocou com uma bicicleta, desceu da moto e se engalfinhou com o ciclista enquanto gritava “Filha da puta! Tem que respeitar o motor!”. Em meia-hora de treta, o rapaz ganhou algumas escoriações e perdeu o prazo de uma entrega e o emprego.

A demissão dele foi a grande alegria do mês para Jorge, ex-colega e maior rival de Cadu na empresa de logística onde trabalhavam juntos. Aos amigos mais chegados, ele passou o dia do desligamento do inimigo repetindo como mantra a frase “Cada um colhe o que planta”, com um sorrisinho preso no canto da boca. O ódio nascera de uma ocasião em que Jorge faltou ao trabalho, e espalhou-se à boca pequena que a ausência se deu graças a uma ressaca violenta, devida a excessos na noite anterior. O fofoqueiro, segundo um dos mais chegados, teria sido Cadu. Sobre a falta, na verdade, a culpa era de um abuso diferente: Jorge passou uma noite e mais algumas horas na cadeia, por conta de um baseado que fumava em um coreto perto de casa, que chamou a atenção de alguns vizinhos e, consequentemente, da polícia. E, na verdade, também, não havia sido Cadu o responsável por espalhar a notícia, mas sim um dos mais chegados. Acabou dando tudo certo, pois Jorge tinha um cunhado médico da rede pública, que lhe arrumou um atestado e garantiu a manutenção de seu emprego. A única consequência, além dos dois meses de serviço comunitário, foi a alcunha de Bob Marley, que o rapaz odiava.

Não foi a primeira vez que Enzo teve de tirar Jorge de alguma enrascada. A outra foi quando o guri precisou fazer um exame toxicológico, devidamente comunicado com antecedência, mas fumou maconha na noite anterior. Enzo teve que mexer pauzinhos e fazer alguns contatos para trocar a urina de Jorge pela de alguém limpo – no caso, ele mesmo. Odiava esse hábito do cunhado, mas estava perdidamente apaixonado por Adriana e ela era meio superprotetora com o irmão mais novo. O médico ajudou mas foi à forra: em várias ocasiões fez questão de avisar “Você me deve uma, safado”, ou colocar Jorge em seu lugar, com alguns “Me respeita, rapaz… Quando precisar de mais mijo cê vai ver só”.

*

Algumas semanas depois, Enzo precisava pagar a conta do condomínio, que iria vencer naquele dia e era acrescida em 10% do valor, caso quitada com atraso. No desespero, apesar dos 17 pontos já comprometidos na CNH, estacionou em vaga de deficientes. Pagou o boleto correndo e voltou a tempo de ver uma periquita da Setran ser atropelada por uma bicicleta, menos de uma quadra pra lá do carro. Sorriu e não conseguiu deixar de soltar baixinho um “Porra, Deus é top demais mesmo”.

 
 

texto de Rômulo Candal

ilustração de Friedrich Wilhelm Schmuck, datada de 1683.

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1 Comment

  1. Cada um com seus podrinhos né. Descubri essa semana que prefeitura em alemão é Rathaus (rat significa conselho), mas parece uma tremenda coincidência, não? De qualquer maneira, talvez sejam mais válidas pequeninas podridões mas grandes nobrezas do que o contrário?

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Escala de Baumé 0 459

Já não se criam mais homens de barro, apesar de continuarmos nos esfarelando. É aceito que hoje somos compostos por água e ansiedade. De barro só os tijolos, com que se ergueram os muros de nossas casas e prisões. A ansiedade só cresce.

Na primeira vez em que fui visitar o Jaime na clínica ficamos em silêncio por quase uma hora, quinze anos de amizade nos poupam de certos diálogos dispendiosos. No momento de ir embora ouvi com clareza o que seus olhos me diziam, não podia abandoná-lo, e não o fiz. Na semana seguinte houve a necessidade de falar, de abraçar, de chorar; é difícil permanecer impassível quando seu colega de quarto é internado após tentar serrar os pulsos com um serrote, dessa vez era isso que seus olhos e braços me diziam. Os suicidas estão à procura de sua própria justiça, na qual a morte é a sentença final. O Jaime não era um suicida, ao menos não nos moldes convencionais, já que tomar uma garrafa de destilado por dia vinha se mostrando uma técnica efetiva para findar com sua vida. Seus sorrisos tornaram-se raros, pequenas ilhas de alívio no caos murado da instituição; os espaços cada vez menores, a alma tumultuada, a mente entulhada. Não sei o que tive mais medo de ver, se um surto ou a depressão profunda, um conforto mórbido me tomava ao vê-lo flutuar entre ambas hipóteses. Foi na décima terceira semana que decidimos que algo precisava ser feito.

Nunca concordei com essa internação, entendo-a, não é fácil para família alguma ter alguém fora de controle, mas não posso compactuar com isso. Lá fora o Jaime era a materialização da beleza na desordem, um furacão que arrasa um campo de rosas para se encher de cor, aqui ele não passa de um sopro, incapaz de espalhar as pétalas de um dente de leão. Onde esse ímpeto se perdeu? Na abstenção do álcool ou da vontade própria? Troquei minhas mágoas pela vergonha depois de descobrir o motivo de não ter sido ouvido em algumas visitas; certo dia trocaram o Jaime de quarto, sem consentimento algum ele foi amarrado em sua cama e transferido para outro cômodo, frio e com janelas menores. A crise de identidade se apossou dele, não se sentia mais um homem, era agora objeto. Não tinha mais nome, por isso não atendia quando o chamavam, tornou-se coisa, dessas que trocamos de lugar por mero paisagismo e descartamos quando causam problemas. Definitivamente, não existe amor sem empatia.

Uma hóstia podre e carcomida pelos vermes ainda é o corpo de cristo? Era a pergunta que me fazia todos os dias em que tinha que encarar um Jesus deteriorado na sala de espera da clínica. Dois mil anos com os pulsos pregados, quanto tempo mais era possível aguentar esse tipo de tortura? Na décima quarta semana cumpri com o combinado, depois que o Jaime voltou a ser alguém, a gente mergulhou num saudosismo afável, de quando éramos quem queríamos ser: bêbados que culpavam o álcool pelas próprias frustrações artísticas.

Pouco dormi na semana que antecedeu esse dia, nos momentos em que o cansaço venceu a angústia sonhei com prédios ruindo, maldito sonho que não me abandona. Deixei o carro embaixo da figueira de sempre, há quem diga que ela é a árvore da vida, também dizem que foi onde se deu o enforcamento de Judas Iscariotes. Minhas mãos suam, agora seria incapaz de dar um nó em qualquer corda. Como já me é habitual, encaro Jesus, com todas as minhas dúvidas.

Enfim chamam pelo meu nome. No caminho até o quarto o enfermeiro elogia minha decisão de trazer toddynho e trakinas para meu amigo, diz que nos últimos dias os internos passaram à pão e água, só meneio com a cabeça. É minha vez de engolir as palavras, sento em frente a ele e respondo com os olhos o seu questionamento. Trouxe? Estico a mão e lhe entrego, sinto medo, receio, vontade de me livrar logo disso e seguir em frente. Ele sorri nervosamente, a ansiedade lhe obriga a contrair seu maxilar, tomado pela dúvida, se espera o momento certo ou se entrega agora. Suo frio, quero ir embora, mas não consigo nem me levantar, nem virar o rosto, ele fura a superfície de alumínio com o canudinho e bebe tudo num gole só. Sorri com leveza, me abraça com calor, me pede pra voltar na semana seguinte. Vou embora me arrastando, as costas arqueadas carregam o peso de uma cruz, quantas mentiras conseguimos contar durante a vida?

Procuro no calendário onde foram parar os dias da semana que se foi, não há negociação, já é véspera de visita novamente. Encaro a prateleira do supermercado, água de coco ou suco de laranja? Nunca fui um bom alquimista, li dia desses que vão menos conservantes na água de coco, sei lá que diferença isso faz. A cena é cinematográfica, chego em casa e busco a sacola com meu kit, me sinto um coadjuvante de Trainspotting com uma seringa pontuda em mãos. Furo o fundo da caixinha de água de coco e retiro metade do líquido, a mão que segura a garrafa de vodka treme, encho novamente a seringa e preencho a embalagem usando o mesmo furo de antes, tapo a abertura com um pedaço milimétrico de durex. Torno a pegar a garrafa de vodka, a mão ainda tremendo, sirvo uma dose e bebo num gole só. Choro, por mim e por todos os bêbados que insistiram em criar descrença em seus queridos. Sóbrios ou não, permanecemos assistindo a ansiedade tomar conta.

Crédito da Imagem: Robert Mapplethorpe

Chegada 0 1832

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai