Roi-de-rats 1 565

Terceira multa em quarenta minutos, o dia estava agitado para Bianca e ela gostava disso. Era o sétimo mês trabalhando como periquita da Setran e a moça se divertia como em nenhum outro de seus empregos anteriores. Sentia prazer em multar – ela dizia “Gosto de dar multa porque é tipo um poder que eu tenho pra poder fazer um pouco de justiça”, e a jovem achava que era uma causa nobre. Mas enquanto transitava ensolarada por entre os carros, obstinada na busca pelo quarto infrator estacionado em vaga irregular naquela manhã, Bianca foi atingida por uma bicicleta e caiu de bunda no chão. Nada muito grave, exceto um roxo enorme na nádega esquerda e um baita constrangimento.

Carlos Eduardo, mais conhecido como Cadu, comemorou. Passou ao lado bem na hora, riu, desacelerou e gritou “Tinha era que ter sido um caminhão!” antes de seguir seu trajeto para entregar uns currículos no Campina do Siqueira. Ele não queria que ela se machucasse de fato, longe disso, mas odiava o ofício das moças que multavam. Achava que elas só serviam pra tirar mais dinheiro de quem não tem, e achou especialmente engraçado o fato de a moça ter sido atropelada por uma bicicleta, veículo que atrapalha o trânsito, desacelera os trajetos e nunca precisa pagar multa, “Um absurdo”. Dias antes, foi Cadu quem quase se chocou com uma bicicleta, desceu da moto e se engalfinhou com o ciclista enquanto gritava “Filha da puta! Tem que respeitar o motor!”. Em meia-hora de treta, o rapaz ganhou algumas escoriações e perdeu o prazo de uma entrega e o emprego.

A demissão dele foi a grande alegria do mês para Jorge, ex-colega e maior rival de Cadu na empresa de logística onde trabalhavam juntos. Aos amigos mais chegados, ele passou o dia do desligamento do inimigo repetindo como mantra a frase “Cada um colhe o que planta”, com um sorrisinho preso no canto da boca. O ódio nascera de uma ocasião em que Jorge faltou ao trabalho, e espalhou-se à boca pequena que a ausência se deu graças a uma ressaca violenta, devida a excessos na noite anterior. O fofoqueiro, segundo um dos mais chegados, teria sido Cadu. Sobre a falta, na verdade, a culpa era de um abuso diferente: Jorge passou uma noite e mais algumas horas na cadeia, por conta de um baseado que fumava em um coreto perto de casa, que chamou a atenção de alguns vizinhos e, consequentemente, da polícia. E, na verdade, também, não havia sido Cadu o responsável por espalhar a notícia, mas sim um dos mais chegados. Acabou dando tudo certo, pois Jorge tinha um cunhado médico da rede pública, que lhe arrumou um atestado e garantiu a manutenção de seu emprego. A única consequência, além dos dois meses de serviço comunitário, foi a alcunha de Bob Marley, que o rapaz odiava.

Não foi a primeira vez que Enzo teve de tirar Jorge de alguma enrascada. A outra foi quando o guri precisou fazer um exame toxicológico, devidamente comunicado com antecedência, mas fumou maconha na noite anterior. Enzo teve que mexer pauzinhos e fazer alguns contatos para trocar a urina de Jorge pela de alguém limpo – no caso, ele mesmo. Odiava esse hábito do cunhado, mas estava perdidamente apaixonado por Adriana e ela era meio superprotetora com o irmão mais novo. O médico ajudou mas foi à forra: em várias ocasiões fez questão de avisar “Você me deve uma, safado”, ou colocar Jorge em seu lugar, com alguns “Me respeita, rapaz… Quando precisar de mais mijo cê vai ver só”.

*

Algumas semanas depois, Enzo precisava pagar a conta do condomínio, que iria vencer naquele dia e era acrescida em 10% do valor, caso quitada com atraso. No desespero, apesar dos 17 pontos já comprometidos na CNH, estacionou em vaga de deficientes. Pagou o boleto correndo e voltou a tempo de ver uma periquita da Setran ser atropelada por uma bicicleta, menos de uma quadra pra lá do carro. Sorriu e não conseguiu deixar de soltar baixinho um “Porra, Deus é top demais mesmo”.

 
 

texto de Rômulo Candal

ilustração de Friedrich Wilhelm Schmuck, datada de 1683.

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1 Comment

  1. Cada um com seus podrinhos né. Descubri essa semana que prefeitura em alemão é Rathaus (rat significa conselho), mas parece uma tremenda coincidência, não? De qualquer maneira, talvez sejam mais válidas pequeninas podridões mas grandes nobrezas do que o contrário?

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hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai

Vida comum parte 1 0 1029

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.