Serviço Nacional de Contrainformação Otomano 1 119

Constantinopla, 25 de março de 1830.

 

– As coisas não andam nada bem. Por que diabos fomos matar aquele inglês intrometido? Se o tivéssemos capturado e dado um título no nosso império, é bem capaz que até escreveria alguns poemas a nosso favor.

 

– Sei lá, filelenos, vai entender…

 

– É, vai saber o que esses aí têm na cabeça. Ficar cultuando um troço que teve seu auge já faz dois mil anos. É muita falta do que fazer.

 

– Pior nem é isso. O que mais irrita é essa coisa de ficar enchendo a bola dos gregos, como se eles tivessem inventado tudo.

 

– Outra guerra que estamos perdendo. Já é chato vê-los se vangloriando pela independência, vê-los tomando o crédito até pelas colunas jônicas, aí já é demais.

 

– Eles têm tomado o crédito por isso também?

 

– Aham!

– Cretinos! Perderam os limites mesmo.

 

– Olimpíadas, filosofia, democracia, churrasquinho e até aquele arroz com uva passa. De uma hora pra outra tudo virou o não-sei-o-que da Grécia.

 

– Isso não pode ficar assim. Precisamos exaltar nossa cultura e tomar o que nos pertence.

– Acho que só reclamar os nossos direitos não é o suficiente.

 

– Qual a sugestão? Voltaremos a pegar em armas?

– Ainda não, calma, podemos enfraquecê-los de outras formas. A gente tem que desmoralizar esses caras, pra não ter risco de ter europeu metendo o nariz onde não é chamado. Eles ficam nessa frescura de gostar dos gregos porque eles parecem ser educados, sofisticados, limpinhos. Precisamos provar que não é bem assim.

 

– Mas como acabar com essa fama? Os caras são bons em se vender desse jeitinho aí.

 

– Nem que seja espalhando algo que não necessariamente é verdade.

 

– A gente pode falar que eles comem criancinhas?

 

– Pode! Mas eu tava pensando em algo com mais embasamento. Tipo da vez em que eles mandaram aquele ataque surpresa contra os troianos, aquela vez do cavalo. Sabe? Dava pra gente chamar isso de algo como, não sei, presente de grego?

 

– Olha, eu gostei!

– Mas será que não pega mal pra gente? Tipo, Troia é aqui né? Vai parecer que eles fizeram a gente de trouxa.

– É, tem essa.

– A gente precisava de algo mais incisivo.

 

– Alguma coisa marcante, desmoralizadora…

– Tive uma ideia! E se a gente falar que eles gostam de beijar cus?

 

– …

– Ousado! Mas eu gostei, é tão esquisito que soa como verdade.

 

– Fato! Acho que temos.

 

– Aham! É esse tipo de coisa que vende, é isso que as pessoas querem ouvir.

 

– Malditos gregos nojentos!

 

 

Gabriel Protski

Previous ArticleNext Article

1 Comment

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

maculada 0 200

Tenho cá pra mim que deveria ser obrigatório parar pra saborear a lua por uns minutos quando ela está imensa lá no céu. Deveria ser mesmo uma lei: não admirou a lua cheia nesta quinta-feira? Vem a multa pelo correio. Não deu uma mordidinha sequer durante toda a semana? Vem a polícia da lua até a sua casa para ver o que se passa. Algo não está a correr bem.

Naquela época, as coisas não estavam mesmo bem. Quando as manchas começaram a aparecer , foi um desespero. Google, médicos, Google, exames, Google, dermatologistas, diagnósticos, tratamentos. Céus! Não era coisa que se pudesse esconder, aí é que estava o medo. Na pele. O medo era feito de manchas e as manchas eram feitas de medo. Céus! Foi minha família que me segurou, se não eu não aguentava. Juro que não aguentava. Eu queria quebrar os espelhos, queria que as selfies não estivessem mais na moda. Que as pessoas fossem um pouco mais cegas dos olhos e menos do coração.

Então uma vez estávamos eu e a minha filha sentados na varanda da casa de veraneio. Começava a anoitecer. Ela tinha nessa época uns sete anos de idade e um mundo inteiro por descobrir.  Admirávamos o céu, como há muito tempo eu não fazia.

Ela disse: “Olha, mãe, a lua tem manchas igual você”.

E depois: “Ela é linda, não é?”

E então a lua que move marés formou um oceano inteiro dentro dos meus olhos.

Nunca estivera tão feliz. Abracei a pequena; clarear a noite dela me bastava. Porque eu era também o reflexo do reflexo. Destas luas que não ficam bem em qualquer foto. Destas que têm manchas e crateras, sim, mas que balançam os mares e iluminam toda uma vida. E que giram e giram e giram e às vezes cometem suspiros dentro do peito dos poetas.

 

Murilo.

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”