Serviço Nacional de Contrainformação Otomano

Texto de em 04 de Maio de 2017 . 1 comentário.

Constantinopla, 25 de março de 1830.

 

– As coisas não andam nada bem. Por que diabos fomos matar aquele inglês intrometido? Se o tivéssemos capturado e dado um título no nosso império, é bem capaz que até escreveria alguns poemas a nosso favor.

 

– Sei lá, filelenos, vai entender…

 

– É, vai saber o que esses aí têm na cabeça. Ficar cultuando um troço que teve seu auge já faz dois mil anos. É muita falta do que fazer.

 

– Pior nem é isso. O que mais irrita é essa coisa de ficar enchendo a bola dos gregos, como se eles tivessem inventado tudo.

 

– Outra guerra que estamos perdendo. Já é chato vê-los se vangloriando pela independência, vê-los tomando o crédito até pelas colunas jônicas, aí já é demais.

 

– Eles têm tomado o crédito por isso também?

 

– Aham!

– Cretinos! Perderam os limites mesmo.

 

– Olimpíadas, filosofia, democracia, churrasquinho e até aquele arroz com uva passa. De uma hora pra outra tudo virou o não-sei-o-que da Grécia.

 

– Isso não pode ficar assim. Precisamos exaltar nossa cultura e tomar o que nos pertence.

– Acho que só reclamar os nossos direitos não é o suficiente.

 

– Qual a sugestão? Voltaremos a pegar em armas?

– Ainda não, calma, podemos enfraquecê-los de outras formas. A gente tem que desmoralizar esses caras, pra não ter risco de ter europeu metendo o nariz onde não é chamado. Eles ficam nessa frescura de gostar dos gregos porque eles parecem ser educados, sofisticados, limpinhos. Precisamos provar que não é bem assim.

 

– Mas como acabar com essa fama? Os caras são bons em se vender desse jeitinho aí.

 

– Nem que seja espalhando algo que não necessariamente é verdade.

 

– A gente pode falar que eles comem criancinhas?

 

– Pode! Mas eu tava pensando em algo com mais embasamento. Tipo da vez em que eles mandaram aquele ataque surpresa contra os troianos, aquela vez do cavalo. Sabe? Dava pra gente chamar isso de algo como, não sei, presente de grego?

 

– Olha, eu gostei!

– Mas será que não pega mal pra gente? Tipo, Troia é aqui né? Vai parecer que eles fizeram a gente de trouxa.

– É, tem essa.

– A gente precisava de algo mais incisivo.

 

– Alguma coisa marcante, desmoralizadora…

– Tive uma ideia! E se a gente falar que eles gostam de beijar cus?

 

– …

– Ousado! Mas eu gostei, é tão esquisito que soa como verdade.

 

– Fato! Acho que temos.

 

– Aham! É esse tipo de coisa que vende, é isso que as pessoas querem ouvir.

 

– Malditos gregos nojentos!

 

 

Gabriel Protski

  • Cainã Tûk

    Que noite <3