Tudo estava virado 0 213

– Alô, por favor a Ana Paula.

– Oi, ela mesma, quem fala?

– Aqui é da imobiliária do Teodoro. Fomos informados que você está deixando o imóvel e gostaríamos de repassar a lista de reparos constatados na última vistoria.

– Oi? Acho que foi engano, eu não estou deixando imóvel nenhum.

– Você não é a Ana Paula Guimarães?

– Sim, mas que imóvel é esse?

– A cabeça do Teodoro, onde você estava morando pelos últimos seis meses. O proprietário solicitou a rescisão do contrato.

– O que, cabeça do Teodoro? Eu tava morando lá?

– Sim, estava. Mais precisamente desde 20 de novembro de 2016, quando vocês tiveram relações íntimas, conforme consta aqui no relatório de entrada.

– Meu Deus, mas foi só uma noite. Nunca rolou mais nada entre a gente.

– Srta. Ana Paula, isso não quer dizer que você não estava morando lá. Pelo que consta aqui, ele bem que tentou continuar a relação. Você era o crush.

– Nossa, que coisa… seis meses?

– É, isso mesmo. Posso prosseguir com a lista de reparos?

– Po.. pode, mas como assim?

– Primeiramente será necessária a pintura padrão, tendo em vista que o imóvel está sem cor e bastante desgastado com a situação. Além disso, há alguns cômodos com rachaduras, como o coração, por exemplo, que deverá ser restaurado.

– Mas o coração nem na cabeça fica!

– É claro que fica, Ana. Tudo fica na cabeça, você não sabia? Ah, e há também algumas manchas, como a tatuagem no pulso esquerdo, que deverá ser removida.

– Tatuagem? Ele tatuou meu nome?

– Não, querida, não seu nome. É um pássaro negro. Quando ele olha, lembra da vez em que você tocou Blackbird no violão e isso machuca bastante.

– Mas como eu vou tirar essa tattoo?

– Aí é com você. Não nos responsabilizamos.

– Gente, que absurdo.  Vocês de imobiliária são bem safados, né?

– Que horror, Ana! Espero que compreenda que as coisas funcionam assim. Usou, tem que arcar com os custos. Nós só estamos prezando pela integridade do imóvel e do proprietário. E bem, não dá para dizer que você foi uma inquilina muito cuidadosa.

– Mas eu nunca tratei ele mal. Só não rolou, sei lá. Não deu mais liga.

– Não é bem isso que consta no relatório. Provocações, respostas secas, falsas esperanças, pity likes… uma bagunça.

– Mas isso é tudo coisa da cabeça dele!

– Justamente!

– Afff…

– Ah, e há também algumas taxas administrativas, como a das cervejas.

– Cervejas?

– As que ele bebeu para te esquecer.

– Ah, pode parar. Aliás, acabei de me lembrar que ele andou pegando umas e outras nesse tempo. Eu não fui a única moradora, não!

– Sinto muito, Ana Paula, mas eram todas visitas. A inquilina efetiva é você.

– Que diabos! E aquela guria que ele pegou na minha frente?

– Ah… aquilo… foi apenas uma estratégia fracassada para lhe causar ciúmes. Sabe como é, ameaçar vender o imóvel para agregar valor. Porém nada aconteceu, devido ao seu claro desinteresse.

– Que merda, hein…

– Ana Paula, estaremos enviando o orçamento completo para o seu e-mail. Gostaria de lembrar que após a entrega das chaves, será necessário solicitar o desligamento da luz.

– Luz?

– A luz dos olhos do Teodoro quando ele te vê. Ainda brilham.

– Entendi…

– Muito obrigada por sua atenção. Tenha um bom dia.

 

Murilo.

 

Crédito Foto:Alex E. Proimos Flickr via Compfight cc

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Dai-me Amor 0 228

Deus foi a primeira palavra que eu aprendi. Antes mesmo de aprender meu nome. Quando se é criança, os adultos tentam nos ensinar as coisas dos jeitos mais variados. Criança só aprende brincando. Minha mãe mandava eu pintar todos os “Deus” que eu achasse na Bíblia. Ela me disse que Deus sempre existiu e nunca nasceu. Perguntei como Ele se parecia. Ela disse que não sabia, pois a glória dEle é tão grande que era como olhar pro Sol. Tentei olhar pro Sol, ardeu.

Depois de pintar tudo, eu aprendi a palavra Jesus. Ela me disse que Jesus é a encarnação do amor, é quem criou todas as coisas. É filho de Deus com uma humana, Maria. Me disse que tem barba e cabelo grande. E que seu olhar muda e transforma escuridão em luz.

Mais tarde ela me falou pra pintar o “Espírito Santo” e disse que Ele não tem forma, corpo ou manifestação material. Já foi pomba no batismo de Jesus, mas também é descrito como o brilho da Glória de Deus. Ela me explicou que Deus se manifesta na trindade. E que eu podia falar com Ele(s) quando eu quisesse. Bastava orar e, é claro, com todo o respeito. E que quando eu orasse deveria confessar meus erros e pedir perdão. Deveria agradecer pelas dádivas e pela bênção da vida. Que deveria contar sobre meu dia, sobre meus medos, descobertas e felicidades. Foi assim que Jesus se tornou meu melhor amigo. Meu amigo imaginário. Meu Deus. Minha mãe me ensinou um bocado de coisas sobre a Bíblia, o céu e sobre como a vida nessa terra é passageira, é escola, é aprendizado, nada é por acaso, nada é destino. Tudo é providencial. Providência divina. Tudo de bom e tudo de ruim tem como propósito nos ensinar sobre Deus, e como Ele age em nossas vidas. Ela me contou que se eu deixasse, Ele poderia morar dentro do meu coração, e assim, o divino habitaria em mim. Disse também, que Jesus vai voltar pra levar os justos pro céu. Perguntei como eu fazia pra ir pro céu, ela me disse que imitando a Jesus, O aceitando como meu Deus e salvador, sua Graça me salvaria independente das obras. Me ensinou que só a religião dela era a correta e junto com essa religião muitas regrinhas, que eu nunca consegui seguir. Por muito tempo achei que por causa da parte que eu não cumpria, Deus não habitava em mim. Me senti perdida, vazia. Comecei a me odiar. Acelerar minha morte. A vida muitas vezes deixa de fazer sentido. Acontece que eu sou muito como Tomé, só acredito vendo. E como acreditar em alguém que eu só ouvi falar e que ninguém nunca viu? Com nove anos veio a primeira dúvida sobre a volta de Jesus. Junto com a dúvida veio a primeira vez que senti Deus falando comigo. Foi diferente de pensar. Foi quase como ouvir palavras que não foram pensadas. Eu ouvi: “Não desista, porque Eu não desisti de você”. Depois desse episódio nunca mais ouvi ele nos meus pensamentos, achei que era coisa de criança ter amigos imaginários, mas vira e mexe alguém usado por Ele me lembrava sobre não desistir de conhecê-Lo e procurá-Lo. E nessa eu vi que Ele não estava na religião. Não estava em uma igreja específica, não era o “não pode” tão popular. Compreendi o que significava Graça e aceitei a minha salvação. Aceitei a trindade e aceitei a minha mãe. Compreendi que amar nada tem haver com sexo ou paixão. Amor transcende toda essa metáfora feita de carbono que chamamos de realidade. Aceitei meu corpo, que foi presente de Deus pro meu espírito habitar. Espírito esse que saiu dEle.

A segunda vez que Deus falou comigo eu já não era mais criança, foi quando percebi que Deus não é religião e um bocado de regrinhas. Ele está onde há luz. E Ele deixou luz em tudo. Tomei um chá com Ele. Meu espírito saiu do corpo e subiu. Contemplei a Glória divina e senti meu espírito ir alto e mais alto. Eu vi a Deus e diferente do que minha mãe dizia, é como olhar pro Sol, mas os olhos não ardem. E Ele me disse: você é um anjo. Você é luz! Você está pronta!

Mateus 5:8 “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.”

 

 

Vida comum parte 1 0 375

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.