A maldição de Marigol 0 103

Não demorou para que Mariel virasse Marigol entre os torcedores do Tricolor da capital. Quando ele apareceu, contratado como destaque em algum clube pequeno do campeonato estadual gaúcho, o time vinha jogando bem e criava muitas oportunidades no Brasileirão, mas a bola não entrava de jeito nenhum. Marigol tratou de suprir a necessidade: fez logo três gols nos dois jogos em que entrou no segundo tempo, dando a entender que a sina acabara e que o torcedor tinha um novo artilheiro para chamar de seu.

Nunca foi craque – na verdade, tinha até alguma dificuldade nos fundamentos mais básicos do futebol, como domínio de bolas e passes curtos – mas conquistou a Demônios das Três Cores, torcida organizada da agremiação, dando tudo de si em todas as partidas e estando sempre no lugar certo, como se Deus sussurrasse em seu ouvido aonde deveria ficar para empurrar a bola pra dentro das traves, com a parte do corpo que fosse.

Logo ganhou a camisa 9 e a boa fase se consolidou. O time voava e mais três gols decisivos de Marigol em quatro partidas transformaram o Tricolor, que havia recém subido à primeira divisão, em candidato cada vez mais forte a ganhar uma vaga para a Taça Libertadores do próximo ano. Cada partida era como uma nova página na bonita história de amor construída entre atleta e clube. Nos poucos combates em que a bola não entrava, disposição não faltava, e qualquer tentativa de salvar uma saída de bola pela linha lateral era comemorada pela galera.

Tudo vinha bem até o meio do ano. O campeonato nacional foi paralisado por um mês para a realização da Copa das Confederações, que trouxe, com ela, a abertura da janela de transferências e o inevitável desmanche do elenco. Marquinhos, o “Canhota de Ouro” dono da 10, foi negociado com o futebol chinês, e o lateral-direito Tiago Matos – “Diabo Matos”, para os adeptos – foi seduzido por um investidor e partiu para a série B da França.

Com o time desfigurado, a esperança da Demônios das Três Cores tinha nome e apelido: Mariel, o popular Marigol. Mas depois de três jogos após a pausa, as coisas já mudaram bastante de figura. O centroavante ainda metia seus golzinhos, mas recebia menos assistências e a regularidade foi diminuindo. Marcava um tento aqui e outro ali, mas a queda na confiança o levou a perder gols fáceis com uma frequência cada vez maior. O tricolor passou a cair vertiginosamente na tabela, e não tardou para que o sentimento da geral atravessasse a famigerada tênue linha e se transformasse em ódio – os mais maldosos passaram a chamá-lo de MariSemGol.

Numa jornada especialmente triste, na penúltima rodada do campeonato, Marigol conseguiu a façanha de arruinar três excelentes jogadas de ataque no mesmo domingo. A primeira foi um cruzamento açucarado: se ficasse parado, a bola bateria na testa e entraria, mas Marigol tentou um movimento ousado e foi como trocasse a cabeça por um travesseiro fofíssimo, que apenas amorteceu a bola para o goleiro. Na segunda, o 9 recebeu dentro da área, livre de marcação, mas apelou para a ignorância e isolou a bola no terceiro anel do estádio. Já a terceira e mais emblemática foi num contra-ataque em que Mariel ganhou do zagueiro adversário, em um misto de força e velocidade, e saiu cara-a-cara com o goleiro. Ao invés de finalizar fácil, rasteiro e na saída do atleta de luvas, porém, tentou calar os críticos e encobrir o arqueiro com uma cavadinha. Dada a falta do talento, porém, pegou de forma estranhíssima na pelota, que saiu mais fraca do que o planejado e completamente sem direção. A bola fez uma curva bizarra, triscou a trave direita e morreu ainda antes das placas de publicidade na linha de fundo.

O estádio veio abaixo. Nunca se ouviu, naquela região, uma vaia tão sonora – moradores de mais de um bairro de distância relataram uma vibração considerável no chão. No próximo lance, sob o burburinho pesado das arquibancadas, Mariel tropeçou com a bola dominada e ouviu gargalhadas intensas da própria torcida. Ainda no chão, tomado pela ira, desferiu uma bicuda no tornozelo do adversário que lhe tomou a redonda e foi punido com o cartão vermelho. A massa vociferava e Marigol perdeu a cabeça – se levantou do relvado, foi em direção ao setor onde ficava a torcida organizada e baixou o calção, mostrando a todos que infelizmente não utilizava cuecas durante a prática desportiva.

A maioria dos colegas estava ao lado de Marigol, mas o consenso era de que não havia mais clima para o atleta no clube. Logo após o apito final, ainda no vestiário, Dr. Reginaldo, presidente do tricolor à época, foi ter com Mariel. Era aquilo: não tinha mais jeito, rapaz. Aquela fora a gota d’água, e ele precisaria vir rapidamente a público avisar que o jogador não fazia mais parte dos planos da diretoria, ou passaria por frouxo perante a opinião pública. O ex-artilheiro já imaginava e, no fim das contas, sentia mais raiva dos torcedores e injustiça do que arrependimento pelas atitudes. Tinha apenas um último pedido: fazer apenas mais um último treino no gramado daquele palco de algumas glórias e tantas tristezas.

Dr. Reginaldo acatou sem pestanejar, pois guardava ainda bastante simpatia pelo garoto. Na terça-feira seguinte, portanto, Marigol se apresentou como de costume, vestiu o fardamento de treino e foi em direção ao campo. O clima era péssimo e os companheiros o receberam com um silêncio tão desconfortável quanto honesto. Ele quebrou o gelo com alguma piada sobre o fato de que agora estariam livres do futebol dele, todos riram tristemente e se puseram a trabalhar. Errou passes, errou finalizações mas contagiou a todos os colegas com uma alegria que já denotava nostalgia.

Após o treinamento, Mariel se despediu do pessoal e pediu alguns momentos sozinho ao lado das traves onde perdera seus três últimos e fatídicos gols com a camisa tricolor. Passou meia hora – cravada – falando sozinho, sentando, levantando, apontando para os quatro cantos da meta e para o local da arquibancada reservado à Demônios. Conta a lenda que, no momento da despedida derradeira, agradeceu Dr. Reginaldo pela oportunidade e sugeriu, em tom entre piada e profecia, que o clube deveria aposentar para sempre a camisa 9 que vestira naquele campeonato inesquecível.

*

Fala-se muito sobre objetos enterrados e más energias. Os mais céticos atribuem o azar à pressão que a posição carrega nas costas após essa passagem meteórica. Ninguém sabe ao certo que tipo de artimanha Marigol fez por lá, mas já são três anos e uns poucos meses que nenhum atleta trajado com a 9 tricolor consegue converter um mísero golzinho naquele lado do campo. Nem de pênalti.

 

 

texto de Rômulo Candal

ilustração de Nina Zambiassi

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Tenho cá pra mim que deveria ser obrigatório parar pra saborear a lua por uns minutos quando ela está imensa lá no céu. Deveria ser mesmo uma lei: não admirou a lua cheia nesta quinta-feira? Vem a multa pelo correio. Não deu uma mordidinha sequer durante toda a semana? Vem a polícia da lua até a sua casa para ver o que se passa. Algo não está a correr bem.

Naquela época, as coisas não estavam mesmo bem. Quando as manchas começaram a aparecer , foi um desespero. Google, médicos, Google, exames, Google, dermatologistas, diagnósticos, tratamentos. Céus! Não era coisa que se pudesse esconder, aí é que estava o medo. Na pele. O medo era feito de manchas e as manchas eram feitas de medo. Céus! Foi minha família que me segurou, se não eu não aguentava. Juro que não aguentava. Eu queria quebrar os espelhos, queria que as selfies não estivessem mais na moda. Que as pessoas fossem um pouco mais cegas dos olhos e menos do coração.

Então uma vez estávamos eu e a minha filha sentados na varanda da casa de veraneio. Começava a anoitecer. Ela tinha nessa época uns sete anos de idade e um mundo inteiro por descobrir.  Admirávamos o céu, como há muito tempo eu não fazia.

Ela disse: “Olha, mãe, a lua tem manchas igual você”.

E depois: “Ela é linda, não é?”

E então a lua que move marés formou um oceano inteiro dentro dos meus olhos.

Nunca estivera tão feliz. Abracei a pequena; clarear a noite dela me bastava. Porque eu era também o reflexo do reflexo. Destas luas que não ficam bem em qualquer foto. Destas que têm manchas e crateras, sim, mas que balançam os mares e iluminam toda uma vida. E que giram e giram e giram e às vezes cometem suspiros dentro do peito dos poetas.

 

Murilo.

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”