Texto de em 22 de junho de 2017 . Nenhum comentário.

Para Mariana.

Dia desses peguei a caneta para poemar você num papel colorido. Seriam daquelas palavras que se lançam no desejo de sentir algo maior do que conseguimos compreender. Em vão.

Me faltaram substantivos para nominar as curvas dos seus cabelos a desenharem o vento. Desapareceram os adjetivos que ilustrariam o sorriso nos seus olhos, que piscam lentamente e desviam quando nossos amores se encontram.

Como a fotografasse, revisitei o seu corpo, palmo a palmo, como a acariciasse com a memória. E sua pele reage. Arrepia a cada toque. Na barriga, ao lado, a um beijo da costela, a sua respiração quase ofegante, como administrasse o descontrole iminente. E você dorme, logo ali, na penumbra do canto da cama, imersa em sonhos silenciosos.

Sou convencido de que palavras podem me levar para perto de você, mas que nossa totalidade só será compreendida com algum silêncio. Sei que a poesia escrita jamais chegará à de um beijo.

Sob a luminária pendente em nossa cabeceira, protagonizo o silêncio repleto das palavras que me somem quando diante do que somos. Sou agora uma amnésia léxica no centro do palco sob olhares de uma plateia inexistente.

Os aplausos foram emudecidos quando cortina alguma se fechou. Agora era eu, você e a escuridão da cama que se preenche de luz a cada vez que puxamos nossos corpos, um ao encontro do outro, e adormecemos no calor que ilumina uma eternidade.

Escrevi palavra alguma. Larguei a caneta e o papel colorido-em-branco sob a luz apagada e mergulhei no mar em mim que existe quando em você.

 

texto: Rafael Antunes
ilustração: Marco Antonio dos Santos