Recortes Aleatórios de Outros Textos

Texto de em 06 de junho de 2017 . Nenhum comentário.

(…)Em raras oportunidades perambula pelo centro, invade cafés e pequenas livrarias na ânsia de reencontrar-se com quem já foi. Folheia livros que formaram quem o é, com a impressão de terem formado quem o era. Flutua entre o passado e o presente, indeciso sobre de que ponto deve continuar. Percorre ruas que são colagens de suas memórias e teme viver apenas do que se produziu até ali. É envolto em nostalgia, essa tristeza suave que se finge asséptica. Luta para conter o avanço da melancolia sem perceber que ela já solidificou bases fortes em sua estrutura. Torna-se tarde para pensar em novos rumos, a incapacidade de criar novas situações já rompe a noite, e, novamente é engolidos pelos bares.

O copo americano, como um microfone, amplifica sua voz: discursa sobre o nada com a convicção que só um bêbado pode ter. A platéia divide opiniões com o palestrante que faz do meio-fio seu palanque, para alguns o nada é menos, para outros, curiosamente o nada representa mais. Apenas para uma espectadora dessa conferência etílica o relatório é pleno. Ela aguarda com ansiedade, perceptível apenas pelo movimento de seus dedos que martelam suavemente o copo, a conclusão das opiniões alheias para manifestar a sua. Naturalmente, quando tem sucesso em sua missão o assunto já abre lugar para outra discussão, e apenas quem prossegue com o tema é o interlocutor original. Poucos passos os aproximam, à medida que os assuntos alheios aos do restante do grupo os distanciam das demais pessoas. Com frequência os copos esvaziam, mas pouco permanecem vazios, tornando frequente os risos e num primeiro momento aproximando as bocas das orelhas. Não tarda para a divagação dar lugar ao silêncio e enfim aproximar de vez uma boca da outra. As novas perspectivas tornam a rua desinteressante, surge um convite para outro lugar. Ela não sabe, mas em breve estará deitada sob um túmulo. (…)

Gabriel Protski