um vício 0 175

 

Estou vendendo a TV, ele disse. A vida adulta tem dessas, a gente precisa fazer alguns sacrifícios. Nem assisto muito, ele dizia, mas eu assisto, ela respondia. Discutiram, mas a TV era dele, precisava de grana e ela nem mesmo morava no apartamento, apesar de deitar várias horas da semana por ali. Quando a gente morar junto você pode decidir, ele dizia, até lá eu decido. O climão ficou por umas semanas, mas se acertaram, menos Netflix mais sexo. Daí um dia ele disse vou vender o sofá. O que?, ela não acreditava. Pois é, tô precisando de uma grana, tá foda, nem tem mais televisão, pra que ter sofá? Ela não quis nem discutir, a casa era dele, ele fazia o que quisesse. Mas tá precisando de grana pra quê? Ah pra pagar o cartão de crédito. Entendi. Noutro dia ele aparecia com umas sacolas de compras e ela já sabia: discos. Olha que massa amor, achei esses aqui na feirinha, barateza. Ela gostava, os discos eram uma das partes dele pela qual ela havia se apaixonado. Quanto foi? Ah, alguns noventa outros cento e vinte, mas olha, coisa linda. Que massa. Dali umas semanas ela chega no apê e não vê mesa nem cadeiras. O que aconteceu? Ah, vendi, amor. A gente se apega às coisas sabe, não tem porquê. Mas vai comprar outra? Vou assim que eu tiver grana. Ela quieta, após a notícia fumavam um e ficava tudo bem. Dias depois o rapaz chega com um Who´s Next, bem cuidadinho, uma relíquia. Que massa, amor, pra ir aquecendo pro show que a gente vai né. É… mas sabe, amor, na verdade eu vendi o ingresso. O quê? Como assim? Ah, tava precisando de grana, sabe, e o show tava meio caro. Mas pera aí, você tá me dizendo que vendeu o ingresso do show do Who e usou o dinheiro pra comprar um vinil do Who? Ai, cala a boca, meu, não tem nada a ver, não é a mesma grana, uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.

Ela compreendia que se tratava de uma séria adicção, mas não podia falar isso para ele, conhecia o rapaz e já previa sua reação. Não abre a boca pra falar dos meus discos, ele diria, você gasta com um monte de bosta, sapato, almoço gourmet, vinho gringo toda semana e os caralho, deixa meus discos em paz. Ele provavelmente tinha essa resposta na ponta da língua, ela pensava, pra quando precisasse usar. Mas nunca precisou, não com ela porque ela não era boba. Noutro dia o rapaz anuncia: babe, não fique brava comigo, vou ter que vender a geladeira. O que? Como você vai viver sem geladeira? Ah, sei lá, eu me viro, antigamente as pessoas viviam sem geladeira, sabe. Ela indignada, mas podia ser pior, né, quanta gente aí vendendo os móveis pra comprar pó, pedra. A casa estava vazia mas ainda tinha amor, tinha música. Quando ele voltava dos longos garimpos nos sebos, os dois compartilhavam o ritual de tirar o vinil da capa e colocá-lo na vitrola. O chiado preliminar a sussurrar-lhes sacanagens no ouvido antes que todo o  som tomasse conta do ambiente. Depois, uma pausa para trocar a posição, pousando a agulha no lado B como se entrasse direto na veia.  Assim como os boletos atrasados, a coleção aumentava a cada mês: já eram mais de cem LP´s em caixotes espalhados pelos cantos agora vazios. Quando o rapaz tentou vender a cama, no entanto, ela teve que tomar uma atitude: comprou ela mesma. Pronto, agora a cama é minha, pra você não vender, vai ficar aqui. Quem ama entende, quem entende cuida. Podiam viver de luz, amor e discos. Aí, um dia, o rapaz chega de mansinho e diz: amor, a gente precisa conversar. Ela já esperando pelo pior, pensando no álbum da fossa, se ia de Adele 21 ou Otto Certa Manhã. Acomodam-se os dois nas almofadas do chão da sala. O sol da tarde entrando pela janela, já sem cortinas. Ele diz: amor, não teve jeito, tive que vender mais um móvel. Qual? O toca-discos. Isso é sério? Uhum, aluguel tá foda né, mas olha, achei um LP ali naquele sebo do centro que você não vai acreditar.

 

Murilo.

 

Crédito Foto:paul_appleyard Flickr via Compfight cc

Previous ArticleNext Article

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Dai-me Amor 0 377

Deus foi a primeira palavra que eu aprendi. Antes mesmo de aprender meu nome. Quando se é criança, os adultos tentam nos ensinar as coisas dos jeitos mais variados. Criança só aprende brincando. Minha mãe mandava eu pintar todos os “Deus” que eu achasse na Bíblia. Ela me disse que Deus sempre existiu e nunca nasceu. Perguntei como Ele se parecia. Ela disse que não sabia, pois a glória dEle é tão grande que era como olhar pro Sol. Tentei olhar pro Sol, ardeu.

Depois de pintar tudo, eu aprendi a palavra Jesus. Ela me disse que Jesus é a encarnação do amor, é quem criou todas as coisas. É filho de Deus com uma humana, Maria. Me disse que tem barba e cabelo grande. E que seu olhar muda e transforma escuridão em luz.

Mais tarde ela me falou pra pintar o “Espírito Santo” e disse que Ele não tem forma, corpo ou manifestação material. Já foi pomba no batismo de Jesus, mas também é descrito como o brilho da Glória de Deus. Ela me explicou que Deus se manifesta na trindade. E que eu podia falar com Ele(s) quando eu quisesse. Bastava orar e, é claro, com todo o respeito. E que quando eu orasse deveria confessar meus erros e pedir perdão. Deveria agradecer pelas dádivas e pela bênção da vida. Que deveria contar sobre meu dia, sobre meus medos, descobertas e felicidades. Foi assim que Jesus se tornou meu melhor amigo. Meu amigo imaginário. Meu Deus. Minha mãe me ensinou um bocado de coisas sobre a Bíblia, o céu e sobre como a vida nessa terra é passageira, é escola, é aprendizado, nada é por acaso, nada é destino. Tudo é providencial. Providência divina. Tudo de bom e tudo de ruim tem como propósito nos ensinar sobre Deus, e como Ele age em nossas vidas. Ela me contou que se eu deixasse, Ele poderia morar dentro do meu coração, e assim, o divino habitaria em mim. Disse também, que Jesus vai voltar pra levar os justos pro céu. Perguntei como eu fazia pra ir pro céu, ela me disse que imitando a Jesus, O aceitando como meu Deus e salvador, sua Graça me salvaria independente das obras. Me ensinou que só a religião dela era a correta e junto com essa religião muitas regrinhas, que eu nunca consegui seguir. Por muito tempo achei que por causa da parte que eu não cumpria, Deus não habitava em mim. Me senti perdida, vazia. Comecei a me odiar. Acelerar minha morte. A vida muitas vezes deixa de fazer sentido. Acontece que eu sou muito como Tomé, só acredito vendo. E como acreditar em alguém que eu só ouvi falar e que ninguém nunca viu? Com nove anos veio a primeira dúvida sobre a volta de Jesus. Junto com a dúvida veio a primeira vez que senti Deus falando comigo. Foi diferente de pensar. Foi quase como ouvir palavras que não foram pensadas. Eu ouvi: “Não desista, porque Eu não desisti de você”. Depois desse episódio nunca mais ouvi ele nos meus pensamentos, achei que era coisa de criança ter amigos imaginários, mas vira e mexe alguém usado por Ele me lembrava sobre não desistir de conhecê-Lo e procurá-Lo. E nessa eu vi que Ele não estava na religião. Não estava em uma igreja específica, não era o “não pode” tão popular. Compreendi o que significava Graça e aceitei a minha salvação. Aceitei a trindade e aceitei a minha mãe. Compreendi que amar nada tem haver com sexo ou paixão. Amor transcende toda essa metáfora feita de carbono que chamamos de realidade. Aceitei meu corpo, que foi presente de Deus pro meu espírito habitar. Espírito esse que saiu dEle.

A segunda vez que Deus falou comigo eu já não era mais criança, foi quando percebi que Deus não é religião e um bocado de regrinhas. Ele está onde há luz. E Ele deixou luz em tudo. Tomei um chá com Ele. Meu espírito saiu do corpo e subiu. Contemplei a Glória divina e senti meu espírito ir alto e mais alto. Eu vi a Deus e diferente do que minha mãe dizia, é como olhar pro Sol, mas os olhos não ardem. E Ele me disse: você é um anjo. Você é luz! Você está pronta!

Mateus 5:8 “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.”

 

 

Vida comum parte 1 0 491

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.