um vício 0 83

 

Estou vendendo a TV, ele disse. A vida adulta tem dessas, a gente precisa fazer alguns sacrifícios. Nem assisto muito, ele dizia, mas eu assisto, ela respondia. Discutiram, mas a TV era dele, precisava de grana e ela nem mesmo morava no apartamento, apesar de deitar várias horas da semana por ali. Quando a gente morar junto você pode decidir, ele dizia, até lá eu decido. O climão ficou por umas semanas, mas se acertaram, menos Netflix mais sexo. Daí um dia ele disse vou vender o sofá. O que?, ela não acreditava. Pois é, tô precisando de uma grana, tá foda, nem tem mais televisão, pra que ter sofá? Ela não quis nem discutir, a casa era dele, ele fazia o que quisesse. Mas tá precisando de grana pra quê? Ah pra pagar o cartão de crédito. Entendi. Noutro dia ele aparecia com umas sacolas de compras e ela já sabia: discos. Olha que massa amor, achei esses aqui na feirinha, barateza. Ela gostava, os discos eram uma das partes dele pela qual ela havia se apaixonado. Quanto foi? Ah, alguns noventa outros cento e vinte, mas olha, coisa linda. Que massa. Dali umas semanas ela chega no apê e não vê mesa nem cadeiras. O que aconteceu? Ah, vendi, amor. A gente se apega às coisas sabe, não tem porquê. Mas vai comprar outra? Vou assim que eu tiver grana. Ela quieta, após a notícia fumavam um e ficava tudo bem. Dias depois o rapaz chega com um Who´s Next, bem cuidadinho, uma relíquia. Que massa, amor, pra ir aquecendo pro show que a gente vai né. É… mas sabe, amor, na verdade eu vendi o ingresso. O quê? Como assim? Ah, tava precisando de grana, sabe, e o show tava meio caro. Mas pera aí, você tá me dizendo que vendeu o ingresso do show do Who e usou o dinheiro pra comprar um vinil do Who? Ai, cala a boca, meu, não tem nada a ver, não é a mesma grana, uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.

Ela compreendia que se tratava de uma séria adicção, mas não podia falar isso para ele, conhecia o rapaz e já previa sua reação. Não abre a boca pra falar dos meus discos, ele diria, você gasta com um monte de bosta, sapato, almoço gourmet, vinho gringo toda semana e os caralho, deixa meus discos em paz. Ele provavelmente tinha essa resposta na ponta da língua, ela pensava, pra quando precisasse usar. Mas nunca precisou, não com ela porque ela não era boba. Noutro dia o rapaz anuncia: babe, não fique brava comigo, vou ter que vender a geladeira. O que? Como você vai viver sem geladeira? Ah, sei lá, eu me viro, antigamente as pessoas viviam sem geladeira, sabe. Ela indignada, mas podia ser pior, né, quanta gente aí vendendo os móveis pra comprar pó, pedra. A casa estava vazia mas ainda tinha amor, tinha música. Quando ele voltava dos longos garimpos nos sebos, os dois compartilhavam o ritual de tirar o vinil da capa e colocá-lo na vitrola. O chiado preliminar a sussurrar-lhes sacanagens no ouvido antes que todo o  som tomasse conta do ambiente. Depois, uma pausa para trocar a posição, pousando a agulha no lado B como se entrasse direto na veia.  Assim como os boletos atrasados, a coleção aumentava a cada mês: já eram mais de cem LP´s em caixotes espalhados pelos cantos agora vazios. Quando o rapaz tentou vender a cama, no entanto, ela teve que tomar uma atitude: comprou ela mesma. Pronto, agora a cama é minha, pra você não vender, vai ficar aqui. Quem ama entende, quem entende cuida. Podiam viver de luz, amor e discos. Aí, um dia, o rapaz chega de mansinho e diz: amor, a gente precisa conversar. Ela já esperando pelo pior, pensando no álbum da fossa, se ia de Adele 21 ou Otto Certa Manhã. Acomodam-se os dois nas almofadas do chão da sala. O sol da tarde entrando pela janela, já sem cortinas. Ele diz: amor, não teve jeito, tive que vender mais um móvel. Qual? O toca-discos. Isso é sério? Uhum, aluguel tá foda né, mas olha, achei um LP ali naquele sebo do centro que você não vai acreditar.

 

Murilo.

 

Crédito Foto:paul_appleyard Flickr via Compfight cc

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maculada 0 203

Tenho cá pra mim que deveria ser obrigatório parar pra saborear a lua por uns minutos quando ela está imensa lá no céu. Deveria ser mesmo uma lei: não admirou a lua cheia nesta quinta-feira? Vem a multa pelo correio. Não deu uma mordidinha sequer durante toda a semana? Vem a polícia da lua até a sua casa para ver o que se passa. Algo não está a correr bem.

Naquela época, as coisas não estavam mesmo bem. Quando as manchas começaram a aparecer , foi um desespero. Google, médicos, Google, exames, Google, dermatologistas, diagnósticos, tratamentos. Céus! Não era coisa que se pudesse esconder, aí é que estava o medo. Na pele. O medo era feito de manchas e as manchas eram feitas de medo. Céus! Foi minha família que me segurou, se não eu não aguentava. Juro que não aguentava. Eu queria quebrar os espelhos, queria que as selfies não estivessem mais na moda. Que as pessoas fossem um pouco mais cegas dos olhos e menos do coração.

Então uma vez estávamos eu e a minha filha sentados na varanda da casa de veraneio. Começava a anoitecer. Ela tinha nessa época uns sete anos de idade e um mundo inteiro por descobrir.  Admirávamos o céu, como há muito tempo eu não fazia.

Ela disse: “Olha, mãe, a lua tem manchas igual você”.

E depois: “Ela é linda, não é?”

E então a lua que move marés formou um oceano inteiro dentro dos meus olhos.

Nunca estivera tão feliz. Abracei a pequena; clarear a noite dela me bastava. Porque eu era também o reflexo do reflexo. Destas luas que não ficam bem em qualquer foto. Destas que têm manchas e crateras, sim, mas que balançam os mares e iluminam toda uma vida. E que giram e giram e giram e às vezes cometem suspiros dentro do peito dos poetas.

 

Murilo.

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”