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O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”

Matemática básica 0 244

Me beije agora antes de ir embora. Aqui nessa terra, onde as mulheres brilham e os homens roubam, vai ser difícil ficar longe de você. Mas eu aguento. Tenho um cabelo da hora e sou cheio de boas intenções. Não tenho medo. Posso dirigir minha Kombi vermelha e branca e também viajar por muitos quilômetros se quiser.

O início do inverno é sempre meio dolorido. Mas eu paro e lembro das tardes tristes de verão. Um sentimento negativo anula outro positivo e vice-versa. Matemática básica. Por isso, quando você fizer suas malas e pegar aquele avião pra bem longe, vou refazer os cálculos, não será fácil, trabalho duro, mas no fim a fórmula é simples: um sentimento anula o outro.

Não sou eu quem está dizendo. Antes que você venha com aquele papo de: dá onde tu tirou essa ideia de merda?! Quem desenvolveu essa fórmula foi o próprio Einstein quando desvendou o movimento Browniano. Parece mirabolante, mas a força do princípio reside na simplicidade.

Agora, esquece essa conversa mole. Antes de você ir embora, eu merecia aquele beijo.

Jadson André