AQUARIANA 0 1101

Maria Vitória não quis. Depois que terminou o ensino médio, achou a proposta de Fabrício, seu melhor amigo, o oposto do que planejou. O problema não era Fabrício, ele era bonito, beijava bem. Também não era a conjuntura de ter um namorado. O problema real Mavi desconhecia. Durante a sexta-série percebeu que Fabrício arrumava sempre um motivo pra sentar a seu lado, fosse a aula em dupla ou não, não só ela percebeu como a turma toda. Passou alguns recreios chorando por não saber o que fazer. Foi apenas seguindo seus instintos e pelo pouco que conhecia de si mesma, preferia entrar na faculdade sem estar namorando. No fundo sabia, que de todos aqueles anos obscuros no colégio, pouco se lembraria. As poucas lembranças, devia a Fabrício. Terminar o colégio na perspectiva de encerrar uma fase de sua vida seria uma sequência de ações bem executadas. Ao fim da formatura, Mavi recusou a carona de Fabrício e tudo o que ela significava.

 

Planejou terminar as aulas e viajar, mas, em vez de ir pra rodoviária, pegou um táxi e passou as férias no apartamento de Gabriel. Ele era fotógrafo e estudava jornalismo. Gabriel era chegado em novinhas, ela querendo conhecer caras mais velhos, não poderiam ter formado casal melhor, e foi assim que se sentiram aquele mês. Eram amigos de internet e tinham muitos interesses em comum. Foi no final de semana antes das aulas começarem. Era por volta das cinco da manhã. Mavi abriu os olhos e fitando por algum tempo o teto e a silhueta da mobília que já lhe pareciam familiar, decidiu que era hora de ir embora. Levantou-se sem acordar Gabriel, pegou suas coisas e saiu.

 

Quando as aulas começaram sentiu falta de Fabrício e de como ele tornava todas as situações mais fáceis. A solidão em que se viu foi tão grande que sentiu-se a ponto de cair. Na primeira semana estava concentrada, quando Matheus que naquele dia decidiu sentar a seu lado, aproveitou a oportunidade e perguntou o nome do perfume que ela usava. Mavi a princípio não deu bola, falou logo o nome do perfume e continuou a prestar atenção na fala do palestrante. Depois percebeu na atitude do garoto milhares de possibilidades e intenções. Na aula de fotografia quando descobriram o espaço escuro entre uma porta e outra do laboratório esperaram a aula acabar e se pegaram ali. Aconteceu que Matheus se apaixonou por Bianca nas férias de julho e da relação surgiu uma criança, o que deixou Matheus em uma situação complicada e fora do jogo.

 

Preferiu mudar de turno por Matheus e outros motivos. Na turma da noite não conhecia ninguém. Foi então que começou a reparar em Kauê, o rapaz que trabalhava na reprografia do campus. Já havia reparado nas costas e braços do garoto. Reparou também nas olhadas, piscadas e diretas. Carente e depois de beber muito, decidiu saber como era dar pra alguém com músculos. Percebeu que já havia dado por dó, por vontade, necessidade, educação, por obrigação e que por curiosidade nunca. Imaginava ela, que Kauê era o tipo de cara que recebia infinitas propostas e resolveu ser direta desde o começo. Não saiu perguntando que tipo de música ele gostava, nem o que fazia nas horas vagas. Foi logo deixando claro que queria sexo. Trocaram mensagens por dois dias até combinarem tudo. Na quarta-feira foi se encontrar com o garoto. Maria Vitória tremia. Sentiu um tesão fora do normal, o corpo do cara era realmente lindo, firme, magro, definido, duro. Pena o pau ser mole. Agradeceu ao cosmos por pelo menos não ser pequeno. Tentou não demonstrar que detestou. Aproveitou a hora que o despertador tocou lembrando de tomar o anticoncepcional, fingiu que era uma emergência e foi embora.

 

Começou a achar péssimo ter que conviver com essas situações que seus “casinhos” criavam. Baixou tinder e decidiu que não transaria mais com conhecidos, ou com pessoas que tivesse certo laço social. Essas pessoas em algum momento da relação pediam ou ofereciam romance, Mavi não queria romance, queria foder. E fodeu muito. Até que conheceu Carlos, o cara era casado. Aprendeu o que eram gozos múltiplos com Carlos. Carlos sabia fazer gostoso. Não gostava de repetir as transas porque isso implicava em se relacionar, mas com Carlos não conseguiu fazer diferente, mantinha contato e vez ou outra se encontravam. Até que Carlos ofereceu apartamento, mercado, água, luz e internet, Mavi saiu do carro e nunca mais viu Carlos na vida. Lamentou, pois no fundo, sentia amizade por ele. Na noite da proposta, saiu do carro de Carlos e foi pro apartamento de Gabriel. Lá beberam e depois que fumaram um baseado, Mavi que não era de ficar falando muito, desabafou sobre suas experiências. Gabriel usou com Mavi a palavra ninfomaníaca, o que levou os dois aos risos no chão do apartamento. Transaram e dormiram no tapete da sala. De madrugada acordou as três da manhã, ficou ali encarando a escuridão e decidiu que era hora de falar com Fabrício.

 

Mandou uma mensagem perguntando se poderiam se encontrar naquela tarde, ele respondeu sugerindo de irem ao cinema. Maria foi movida pela vertigem de reencontrar seu velho amigo. Não tinha amigas desde a época da escola, porque não suportava o convívio feminino. Aprendeu na infância que ser amiga significava apoiar ou usar como apoio as outras pessoas. Não teve boas experiências, foi excluída, excluiu e resolveu que não precisava daquilo. Depois do filme foram beber uma bera. Isso era muita novidade, costumavam dividir coca-cola e pipoteca. Não assistiram uma cena do filme, foi a luz apagar pra eles reviverem os velhos tempos. No bar, depois de se fitarem por horas, Fabrício disse: – Saudades de fazer silêncio com você. Maria sorriu. Percebeu ali que todas as lembranças que tinha com Fabrício eram momentos de silêncio. Percebeu que podia passar o resto da vida em silêncio com ele, estremeceu. O sentimento de vertigem transformou-se em refluxo. Mavi engoliu rebatendo. Era o mais perto que chegava de amar qualquer pessoa. Fabrício estudava Arte. Mavi não sabia se amava todo mundo ou não amava ninguém. Era aquariana, como o ar, não aprisionável. Em seu mapa astral, no exato momento em que nasceu, aries estava alinhado em Vênus. Ascendente capricórnio, lua escorpião. E é claro! Ela não acreditava nessas coisas.

 

Texto e ilustração: Carol Rehbein

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Escala de Baumé 0 2066

Já não se criam mais homens de barro, apesar de continuarmos nos esfarelando. É aceito que hoje somos compostos por água e ansiedade. De barro só os tijolos, com que se ergueram os muros de nossas casas e prisões. A ansiedade só cresce.

Na primeira vez em que fui visitar o Jaime na clínica ficamos em silêncio por quase uma hora, quinze anos de amizade nos poupam de certos diálogos dispendiosos. No momento de ir embora ouvi com clareza o que seus olhos me diziam, não podia abandoná-lo, e não o fiz. Na semana seguinte houve a necessidade de falar, de abraçar, de chorar; é difícil permanecer impassível quando seu colega de quarto é internado após tentar serrar os pulsos com um serrote, dessa vez era isso que seus olhos e braços me diziam. Os suicidas estão à procura de sua própria justiça, na qual a morte é a sentença final. O Jaime não era um suicida, ao menos não nos moldes convencionais, já que tomar uma garrafa de destilado por dia vinha se mostrando uma técnica efetiva para findar com sua vida. Seus sorrisos tornaram-se raros, pequenas ilhas de alívio no caos murado da instituição; os espaços cada vez menores, a alma tumultuada, a mente entulhada. Não sei o que tive mais medo de ver, se um surto ou a depressão profunda, um conforto mórbido me tomava ao vê-lo flutuar entre ambas hipóteses. Foi na décima terceira semana que decidimos que algo precisava ser feito.

Nunca concordei com essa internação, entendo-a, não é fácil para família alguma ter alguém fora de controle, mas não posso compactuar com isso. Lá fora o Jaime era a materialização da beleza na desordem, um furacão que arrasa um campo de rosas para se encher de cor, aqui ele não passa de um sopro, incapaz de espalhar as pétalas de um dente de leão. Onde esse ímpeto se perdeu? Na abstenção do álcool ou da vontade própria? Troquei minhas mágoas pela vergonha depois de descobrir o motivo de não ter sido ouvido em algumas visitas; certo dia trocaram o Jaime de quarto, sem consentimento algum ele foi amarrado em sua cama e transferido para outro cômodo, frio e com janelas menores. A crise de identidade se apossou dele, não se sentia mais um homem, era agora objeto. Não tinha mais nome, por isso não atendia quando o chamavam, tornou-se coisa, dessas que trocamos de lugar por mero paisagismo e descartamos quando causam problemas. Definitivamente, não existe amor sem empatia.

Uma hóstia podre e carcomida pelos vermes ainda é o corpo de cristo? Era a pergunta que me fazia todos os dias em que tinha que encarar um Jesus deteriorado na sala de espera da clínica. Dois mil anos com os pulsos pregados, quanto tempo mais era possível aguentar esse tipo de tortura? Na décima quarta semana cumpri com o combinado, depois que o Jaime voltou a ser alguém, a gente mergulhou num saudosismo afável, de quando éramos quem queríamos ser: bêbados que culpavam o álcool pelas próprias frustrações artísticas.

Pouco dormi na semana que antecedeu esse dia, nos momentos em que o cansaço venceu a angústia sonhei com prédios ruindo, maldito sonho que não me abandona. Deixei o carro embaixo da figueira de sempre, há quem diga que ela é a árvore da vida, também dizem que foi onde se deu o enforcamento de Judas Iscariotes. Minhas mãos suam, agora seria incapaz de dar um nó em qualquer corda. Como já me é habitual, encaro Jesus, com todas as minhas dúvidas.

Enfim chamam pelo meu nome. No caminho até o quarto o enfermeiro elogia minha decisão de trazer toddynho e trakinas para meu amigo, diz que nos últimos dias os internos passaram à pão e água, só meneio com a cabeça. É minha vez de engolir as palavras, sento em frente a ele e respondo com os olhos o seu questionamento. Trouxe? Estico a mão e lhe entrego, sinto medo, receio, vontade de me livrar logo disso e seguir em frente. Ele sorri nervosamente, a ansiedade lhe obriga a contrair seu maxilar, tomado pela dúvida, se espera o momento certo ou se entrega agora. Suo frio, quero ir embora, mas não consigo nem me levantar, nem virar o rosto, ele fura a superfície de alumínio com o canudinho e bebe tudo num gole só. Sorri com leveza, me abraça com calor, me pede pra voltar na semana seguinte. Vou embora me arrastando, as costas arqueadas carregam o peso de uma cruz, quantas mentiras conseguimos contar durante a vida?

Procuro no calendário onde foram parar os dias da semana que se foi, não há negociação, já é véspera de visita novamente. Encaro a prateleira do supermercado, água de coco ou suco de laranja? Nunca fui um bom alquimista, li dia desses que vão menos conservantes na água de coco, sei lá que diferença isso faz. A cena é cinematográfica, chego em casa e busco a sacola com meu kit, me sinto um coadjuvante de Trainspotting com uma seringa pontuda em mãos. Furo o fundo da caixinha de água de coco e retiro metade do líquido, a mão que segura a garrafa de vodka treme, encho novamente a seringa e preencho a embalagem usando o mesmo furo de antes, tapo a abertura com um pedaço milimétrico de durex. Torno a pegar a garrafa de vodka, a mão ainda tremendo, sirvo uma dose e bebo num gole só. Choro, por mim e por todos os bêbados que insistiram em criar descrença em seus queridos. Sóbrios ou não, permanecemos assistindo a ansiedade tomar conta.

Crédito da Imagem: Robert Mapplethorpe

Vida comum parte 1 0 2714

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.