AQUARIANA 0 106

Maria Vitória não quis. Depois que terminou o ensino médio, achou a proposta de Fabrício, seu melhor amigo, o oposto do que planejou. O problema não era Fabrício, ele era bonito, beijava bem. Também não era a conjuntura de ter um namorado. O problema real Mavi desconhecia. Durante a sexta-série percebeu que Fabrício arrumava sempre um motivo pra sentar a seu lado, fosse a aula em dupla ou não, não só ela percebeu como a turma toda. Passou alguns recreios chorando por não saber o que fazer. Foi apenas seguindo seus instintos e pelo pouco que conhecia de si mesma, preferia entrar na faculdade sem estar namorando. No fundo sabia, que de todos aqueles anos obscuros no colégio, pouco se lembraria. As poucas lembranças, devia a Fabrício. Terminar o colégio na perspectiva de encerrar uma fase de sua vida seria uma sequência de ações bem executadas. Ao fim da formatura, Mavi recusou a carona de Fabrício e tudo o que ela significava.

 

Planejou terminar as aulas e viajar, mas, em vez de ir pra rodoviária, pegou um táxi e passou as férias no apartamento de Gabriel. Ele era fotógrafo e estudava jornalismo. Gabriel era chegado em novinhas, ela querendo conhecer caras mais velhos, não poderiam ter formado casal melhor, e foi assim que se sentiram aquele mês. Eram amigos de internet e tinham muitos interesses em comum. Foi no final de semana antes das aulas começarem. Era por volta das cinco da manhã. Mavi abriu os olhos e fitando por algum tempo o teto e a silhueta da mobília que já lhe pareciam familiar, decidiu que era hora de ir embora. Levantou-se sem acordar Gabriel, pegou suas coisas e saiu.

 

Quando as aulas começaram sentiu falta de Fabrício e de como ele tornava todas as situações mais fáceis. A solidão em que se viu foi tão grande que sentiu-se a ponto de cair. Na primeira semana estava concentrada, quando Matheus que naquele dia decidiu sentar a seu lado, aproveitou a oportunidade e perguntou o nome do perfume que ela usava. Mavi a princípio não deu bola, falou logo o nome do perfume e continuou a prestar atenção na fala do palestrante. Depois percebeu na atitude do garoto milhares de possibilidades e intenções. Na aula de fotografia quando descobriram o espaço escuro entre uma porta e outra do laboratório esperaram a aula acabar e se pegaram ali. Aconteceu que Matheus se apaixonou por Bianca nas férias de julho e da relação surgiu uma criança, o que deixou Matheus em uma situação complicada e fora do jogo.

 

Preferiu mudar de turno por Matheus e outros motivos. Na turma da noite não conhecia ninguém. Foi então que começou a reparar em Kauê, o rapaz que trabalhava na reprografia do campus. Já havia reparado nas costas e braços do garoto. Reparou também nas olhadas, piscadas e diretas. Carente e depois de beber muito, decidiu saber como era dar pra alguém com músculos. Percebeu que já havia dado por dó, por vontade, necessidade, educação, por obrigação e que por curiosidade nunca. Imaginava ela, que Kauê era o tipo de cara que recebia infinitas propostas e resolveu ser direta desde o começo. Não saiu perguntando que tipo de música ele gostava, nem o que fazia nas horas vagas. Foi logo deixando claro que queria sexo. Trocaram mensagens por dois dias até combinarem tudo. Na quarta-feira foi se encontrar com o garoto. Maria Vitória tremia. Sentiu um tesão fora do normal, o corpo do cara era realmente lindo, firme, magro, definido, duro. Pena o pau ser mole. Agradeceu ao cosmos por pelo menos não ser pequeno. Tentou não demonstrar que detestou. Aproveitou a hora que o despertador tocou lembrando de tomar o anticoncepcional, fingiu que era uma emergência e foi embora.

 

Começou a achar péssimo ter que conviver com essas situações que seus “casinhos” criavam. Baixou tinder e decidiu que não transaria mais com conhecidos, ou com pessoas que tivesse certo laço social. Essas pessoas em algum momento da relação pediam ou ofereciam romance, Mavi não queria romance, queria foder. E fodeu muito. Até que conheceu Carlos, o cara era casado. Aprendeu o que eram gozos múltiplos com Carlos. Carlos sabia fazer gostoso. Não gostava de repetir as transas porque isso implicava em se relacionar, mas com Carlos não conseguiu fazer diferente, mantinha contato e vez ou outra se encontravam. Até que Carlos ofereceu apartamento, mercado, água, luz e internet, Mavi saiu do carro e nunca mais viu Carlos na vida. Lamentou, pois no fundo, sentia amizade por ele. Na noite da proposta, saiu do carro de Carlos e foi pro apartamento de Gabriel. Lá beberam e depois que fumaram um baseado, Mavi que não era de ficar falando muito, desabafou sobre suas experiências. Gabriel usou com Mavi a palavra ninfomaníaca, o que levou os dois aos risos no chão do apartamento. Transaram e dormiram no tapete da sala. De madrugada acordou as três da manhã, ficou ali encarando a escuridão e decidiu que era hora de falar com Fabrício.

 

Mandou uma mensagem perguntando se poderiam se encontrar naquela tarde, ele respondeu sugerindo de irem ao cinema. Maria foi movida pela vertigem de reencontrar seu velho amigo. Não tinha amigas desde a época da escola, porque não suportava o convívio feminino. Aprendeu na infância que ser amiga significava apoiar ou usar como apoio as outras pessoas. Não teve boas experiências, foi excluída, excluiu e resolveu que não precisava daquilo. Depois do filme foram beber uma bera. Isso era muita novidade, costumavam dividir coca-cola e pipoteca. Não assistiram uma cena do filme, foi a luz apagar pra eles reviverem os velhos tempos. No bar, depois de se fitarem por horas, Fabrício disse: – Saudades de fazer silêncio com você. Maria sorriu. Percebeu ali que todas as lembranças que tinha com Fabrício eram momentos de silêncio. Percebeu que podia passar o resto da vida em silêncio com ele, estremeceu. O sentimento de vertigem transformou-se em refluxo. Mavi engoliu rebatendo. Era o mais perto que chegava de amar qualquer pessoa. Fabrício estudava Arte. Mavi não sabia se amava todo mundo ou não amava ninguém. Era aquariana, como o ar, não aprisionável. Em seu mapa astral, no exato momento em que nasceu, aries estava alinhado em Vênus. Ascendente capricórnio, lua escorpião. E é claro! Ela não acreditava nessas coisas.

 

Texto e ilustração: Carol Rehbein

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Tenho cá pra mim que deveria ser obrigatório parar pra saborear a lua por uns minutos quando ela está imensa lá no céu. Deveria ser mesmo uma lei: não admirou a lua cheia nesta quinta-feira? Vem a multa pelo correio. Não deu uma mordidinha sequer durante toda a semana? Vem a polícia da lua até a sua casa para ver o que se passa. Algo não está a correr bem.

Naquela época, as coisas não estavam mesmo bem. Quando as manchas começaram a aparecer , foi um desespero. Google, médicos, Google, exames, Google, dermatologistas, diagnósticos, tratamentos. Céus! Não era coisa que se pudesse esconder, aí é que estava o medo. Na pele. O medo era feito de manchas e as manchas eram feitas de medo. Céus! Foi minha família que me segurou, se não eu não aguentava. Juro que não aguentava. Eu queria quebrar os espelhos, queria que as selfies não estivessem mais na moda. Que as pessoas fossem um pouco mais cegas dos olhos e menos do coração.

Então uma vez estávamos eu e a minha filha sentados na varanda da casa de veraneio. Começava a anoitecer. Ela tinha nessa época uns sete anos de idade e um mundo inteiro por descobrir.  Admirávamos o céu, como há muito tempo eu não fazia.

Ela disse: “Olha, mãe, a lua tem manchas igual você”.

E depois: “Ela é linda, não é?”

E então a lua que move marés formou um oceano inteiro dentro dos meus olhos.

Nunca estivera tão feliz. Abracei a pequena; clarear a noite dela me bastava. Porque eu era também o reflexo do reflexo. Destas luas que não ficam bem em qualquer foto. Destas que têm manchas e crateras, sim, mas que balançam os mares e iluminam toda uma vida. E que giram e giram e giram e às vezes cometem suspiros dentro do peito dos poetas.

 

Murilo.

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”