AQUARIANA 0 164

Maria Vitória não quis. Depois que terminou o ensino médio, achou a proposta de Fabrício, seu melhor amigo, o oposto do que planejou. O problema não era Fabrício, ele era bonito, beijava bem. Também não era a conjuntura de ter um namorado. O problema real Mavi desconhecia. Durante a sexta-série percebeu que Fabrício arrumava sempre um motivo pra sentar a seu lado, fosse a aula em dupla ou não, não só ela percebeu como a turma toda. Passou alguns recreios chorando por não saber o que fazer. Foi apenas seguindo seus instintos e pelo pouco que conhecia de si mesma, preferia entrar na faculdade sem estar namorando. No fundo sabia, que de todos aqueles anos obscuros no colégio, pouco se lembraria. As poucas lembranças, devia a Fabrício. Terminar o colégio na perspectiva de encerrar uma fase de sua vida seria uma sequência de ações bem executadas. Ao fim da formatura, Mavi recusou a carona de Fabrício e tudo o que ela significava.

 

Planejou terminar as aulas e viajar, mas, em vez de ir pra rodoviária, pegou um táxi e passou as férias no apartamento de Gabriel. Ele era fotógrafo e estudava jornalismo. Gabriel era chegado em novinhas, ela querendo conhecer caras mais velhos, não poderiam ter formado casal melhor, e foi assim que se sentiram aquele mês. Eram amigos de internet e tinham muitos interesses em comum. Foi no final de semana antes das aulas começarem. Era por volta das cinco da manhã. Mavi abriu os olhos e fitando por algum tempo o teto e a silhueta da mobília que já lhe pareciam familiar, decidiu que era hora de ir embora. Levantou-se sem acordar Gabriel, pegou suas coisas e saiu.

 

Quando as aulas começaram sentiu falta de Fabrício e de como ele tornava todas as situações mais fáceis. A solidão em que se viu foi tão grande que sentiu-se a ponto de cair. Na primeira semana estava concentrada, quando Matheus que naquele dia decidiu sentar a seu lado, aproveitou a oportunidade e perguntou o nome do perfume que ela usava. Mavi a princípio não deu bola, falou logo o nome do perfume e continuou a prestar atenção na fala do palestrante. Depois percebeu na atitude do garoto milhares de possibilidades e intenções. Na aula de fotografia quando descobriram o espaço escuro entre uma porta e outra do laboratório esperaram a aula acabar e se pegaram ali. Aconteceu que Matheus se apaixonou por Bianca nas férias de julho e da relação surgiu uma criança, o que deixou Matheus em uma situação complicada e fora do jogo.

 

Preferiu mudar de turno por Matheus e outros motivos. Na turma da noite não conhecia ninguém. Foi então que começou a reparar em Kauê, o rapaz que trabalhava na reprografia do campus. Já havia reparado nas costas e braços do garoto. Reparou também nas olhadas, piscadas e diretas. Carente e depois de beber muito, decidiu saber como era dar pra alguém com músculos. Percebeu que já havia dado por dó, por vontade, necessidade, educação, por obrigação e que por curiosidade nunca. Imaginava ela, que Kauê era o tipo de cara que recebia infinitas propostas e resolveu ser direta desde o começo. Não saiu perguntando que tipo de música ele gostava, nem o que fazia nas horas vagas. Foi logo deixando claro que queria sexo. Trocaram mensagens por dois dias até combinarem tudo. Na quarta-feira foi se encontrar com o garoto. Maria Vitória tremia. Sentiu um tesão fora do normal, o corpo do cara era realmente lindo, firme, magro, definido, duro. Pena o pau ser mole. Agradeceu ao cosmos por pelo menos não ser pequeno. Tentou não demonstrar que detestou. Aproveitou a hora que o despertador tocou lembrando de tomar o anticoncepcional, fingiu que era uma emergência e foi embora.

 

Começou a achar péssimo ter que conviver com essas situações que seus “casinhos” criavam. Baixou tinder e decidiu que não transaria mais com conhecidos, ou com pessoas que tivesse certo laço social. Essas pessoas em algum momento da relação pediam ou ofereciam romance, Mavi não queria romance, queria foder. E fodeu muito. Até que conheceu Carlos, o cara era casado. Aprendeu o que eram gozos múltiplos com Carlos. Carlos sabia fazer gostoso. Não gostava de repetir as transas porque isso implicava em se relacionar, mas com Carlos não conseguiu fazer diferente, mantinha contato e vez ou outra se encontravam. Até que Carlos ofereceu apartamento, mercado, água, luz e internet, Mavi saiu do carro e nunca mais viu Carlos na vida. Lamentou, pois no fundo, sentia amizade por ele. Na noite da proposta, saiu do carro de Carlos e foi pro apartamento de Gabriel. Lá beberam e depois que fumaram um baseado, Mavi que não era de ficar falando muito, desabafou sobre suas experiências. Gabriel usou com Mavi a palavra ninfomaníaca, o que levou os dois aos risos no chão do apartamento. Transaram e dormiram no tapete da sala. De madrugada acordou as três da manhã, ficou ali encarando a escuridão e decidiu que era hora de falar com Fabrício.

 

Mandou uma mensagem perguntando se poderiam se encontrar naquela tarde, ele respondeu sugerindo de irem ao cinema. Maria foi movida pela vertigem de reencontrar seu velho amigo. Não tinha amigas desde a época da escola, porque não suportava o convívio feminino. Aprendeu na infância que ser amiga significava apoiar ou usar como apoio as outras pessoas. Não teve boas experiências, foi excluída, excluiu e resolveu que não precisava daquilo. Depois do filme foram beber uma bera. Isso era muita novidade, costumavam dividir coca-cola e pipoteca. Não assistiram uma cena do filme, foi a luz apagar pra eles reviverem os velhos tempos. No bar, depois de se fitarem por horas, Fabrício disse: – Saudades de fazer silêncio com você. Maria sorriu. Percebeu ali que todas as lembranças que tinha com Fabrício eram momentos de silêncio. Percebeu que podia passar o resto da vida em silêncio com ele, estremeceu. O sentimento de vertigem transformou-se em refluxo. Mavi engoliu rebatendo. Era o mais perto que chegava de amar qualquer pessoa. Fabrício estudava Arte. Mavi não sabia se amava todo mundo ou não amava ninguém. Era aquariana, como o ar, não aprisionável. Em seu mapa astral, no exato momento em que nasceu, aries estava alinhado em Vênus. Ascendente capricórnio, lua escorpião. E é claro! Ela não acreditava nessas coisas.

 

Texto e ilustração: Carol Rehbein

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Dai-me Amor 0 228

Deus foi a primeira palavra que eu aprendi. Antes mesmo de aprender meu nome. Quando se é criança, os adultos tentam nos ensinar as coisas dos jeitos mais variados. Criança só aprende brincando. Minha mãe mandava eu pintar todos os “Deus” que eu achasse na Bíblia. Ela me disse que Deus sempre existiu e nunca nasceu. Perguntei como Ele se parecia. Ela disse que não sabia, pois a glória dEle é tão grande que era como olhar pro Sol. Tentei olhar pro Sol, ardeu.

Depois de pintar tudo, eu aprendi a palavra Jesus. Ela me disse que Jesus é a encarnação do amor, é quem criou todas as coisas. É filho de Deus com uma humana, Maria. Me disse que tem barba e cabelo grande. E que seu olhar muda e transforma escuridão em luz.

Mais tarde ela me falou pra pintar o “Espírito Santo” e disse que Ele não tem forma, corpo ou manifestação material. Já foi pomba no batismo de Jesus, mas também é descrito como o brilho da Glória de Deus. Ela me explicou que Deus se manifesta na trindade. E que eu podia falar com Ele(s) quando eu quisesse. Bastava orar e, é claro, com todo o respeito. E que quando eu orasse deveria confessar meus erros e pedir perdão. Deveria agradecer pelas dádivas e pela bênção da vida. Que deveria contar sobre meu dia, sobre meus medos, descobertas e felicidades. Foi assim que Jesus se tornou meu melhor amigo. Meu amigo imaginário. Meu Deus. Minha mãe me ensinou um bocado de coisas sobre a Bíblia, o céu e sobre como a vida nessa terra é passageira, é escola, é aprendizado, nada é por acaso, nada é destino. Tudo é providencial. Providência divina. Tudo de bom e tudo de ruim tem como propósito nos ensinar sobre Deus, e como Ele age em nossas vidas. Ela me contou que se eu deixasse, Ele poderia morar dentro do meu coração, e assim, o divino habitaria em mim. Disse também, que Jesus vai voltar pra levar os justos pro céu. Perguntei como eu fazia pra ir pro céu, ela me disse que imitando a Jesus, O aceitando como meu Deus e salvador, sua Graça me salvaria independente das obras. Me ensinou que só a religião dela era a correta e junto com essa religião muitas regrinhas, que eu nunca consegui seguir. Por muito tempo achei que por causa da parte que eu não cumpria, Deus não habitava em mim. Me senti perdida, vazia. Comecei a me odiar. Acelerar minha morte. A vida muitas vezes deixa de fazer sentido. Acontece que eu sou muito como Tomé, só acredito vendo. E como acreditar em alguém que eu só ouvi falar e que ninguém nunca viu? Com nove anos veio a primeira dúvida sobre a volta de Jesus. Junto com a dúvida veio a primeira vez que senti Deus falando comigo. Foi diferente de pensar. Foi quase como ouvir palavras que não foram pensadas. Eu ouvi: “Não desista, porque Eu não desisti de você”. Depois desse episódio nunca mais ouvi ele nos meus pensamentos, achei que era coisa de criança ter amigos imaginários, mas vira e mexe alguém usado por Ele me lembrava sobre não desistir de conhecê-Lo e procurá-Lo. E nessa eu vi que Ele não estava na religião. Não estava em uma igreja específica, não era o “não pode” tão popular. Compreendi o que significava Graça e aceitei a minha salvação. Aceitei a trindade e aceitei a minha mãe. Compreendi que amar nada tem haver com sexo ou paixão. Amor transcende toda essa metáfora feita de carbono que chamamos de realidade. Aceitei meu corpo, que foi presente de Deus pro meu espírito habitar. Espírito esse que saiu dEle.

A segunda vez que Deus falou comigo eu já não era mais criança, foi quando percebi que Deus não é religião e um bocado de regrinhas. Ele está onde há luz. E Ele deixou luz em tudo. Tomei um chá com Ele. Meu espírito saiu do corpo e subiu. Contemplei a Glória divina e senti meu espírito ir alto e mais alto. Eu vi a Deus e diferente do que minha mãe dizia, é como olhar pro Sol, mas os olhos não ardem. E Ele me disse: você é um anjo. Você é luz! Você está pronta!

Mateus 5:8 “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.”

 

 

Vida comum parte 1 0 375

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.