Texto de em 29 de agosto de 2017 . Nenhum comentário.

Havia algo de tão distante entre nós, que poderíamos ocupar o mesmo cômodo em países distintos, cada qual entrincheirado em sua nação particular. A diplomacia falhou, não há convenção de Genebra nem de lugar algum para se respeitar, todos os pactos foram rompidos. A comunicação se dá por breves gestos, mas não consigo decifrar todos seus enigmas, não existe código Morse que me ajude. Estou cercado por todas minhas insatisfações, libertadas na ânsia de me municiar na batalha, seus efeitos explosivos agrediram ambos os lados; vejo seus ferimentos expostos, quero declarar uma trégua, preciso estancar o sangue que esvai-te. Preparo-me para cruzar a fronteira, falo mas não comunico nada além de grunhidos, esquecemos do idioma que havíamos criado para nós; as pernas travam na lembrança de quantas minas terrestres se interpõem até você, não sei o que estou disposto a perder, sei que agora tenho muito pouco. Tuas tropas mudam de posição quando percebem uma aproximação que julgam sorrateira, venho em paz, mas esqueci de hastear a bandeira branca; faço tocar teu telefone vermelho, que cora teu rosto num toque mudo. Tento falar sua língua, enquanto você recorre à minha, é estranho até mesmo se entender após tantas batalhas. A paz se faz necessária para ambos os lados, há uma guerra que ninguém pode vencer e que já não me disponho a lutar, cedo-te todo o território em nosso enclave, você vai além, propõe a exclusão de toda e qualquer fronteira. Cada um realiza surdamente o julgamento de seus próprios criminosos de guerra, expurgo todos os velhos hábitos que foram estopim e armamento no conflito.

 

Planto flores sobre o campo minado, esperançoso de que nossos pés jamais tornem a pisar a beleza que cultivamos ao nosso redor.

 

Escrito pelo Gabriel Protski

Colagem feita pelo Mister Blick