Mãe 0 366

Às vezes eu imaginava ser o homem que mais suava no mundo. Com pouco esforço, vertia-me em mim mesmo, e por muitas vezes suei enquanto almoçava, aquecido pelos temperos de minha mãe que confortavam meu coração. Na minha juventude, a solução foi entrar para o time de natação, onde era possível tomar banho ao mesmo tempo em que se suava. Não há constrangimento em estar suado dentro d’agua.

Eu descobri muito cedo, o suor faria parte da minha vida, tal qual fez do meu pai. Era como se, depois de sua partida, eu suasse por nós dois. Suava para subir as escadas, comer o molho apimentado, fazer a contabilidade do mês, trocar as lâmpadas, falar em público, e para levar minha mãe até a estação de metrô.

Naquele dia não havia sol, e os vendedores de rua corriam na indecisão entre oferecer guarda-chuvas e hand spinners. Pareciam apostar entre si qual teria feito a melhor escolha à espera do inevitável. Eu votaria nos spinners e sua preferência desastrosa, levantando as mãos para fazer com que os brinquedos se agitassem ao vento que bagunçava os cabelos e levantava a sujeira da rua. É como ver alguém apostar todas as fichas no zero verde da roleta: está claro que não vai funcionar, mas não se pode negar a beleza do brilho nos olhos de um otimista.

Como em todas as vezes em que caminhei aquelas três quadras, cheguei suado e atrasado, com o único pensamento possível ao momento. Qual é a dificuldade em calcular o tempo para algo que se faz diariamente? Talvez eu, ao meu próprio jeito, também estivesse escolhendo um spinner em meio à tempestade.

Levava em um braço a mala com poucas roupas, e no outro minha mãe e a constatação cada vez mais óbvia de nosso envelhecimento e inversão de papéis. Via-me andando à frente em passos rápidos, apurado com os mesmos horários e obrigações que ela tinha quando me puxava ainda criança pela rua. Estava virando minha mãe para minha mãe.

Na estação, passei-lhe todas as instruções agoniado ao ver seu olhar disperso, e repeti tudo mais duas vezes com um esforço vigoroso em não aparentar o nervosismo em deixá-la andar de metrô sozinha. Entramos no trem e me dirigi imediatamente ao banco preferencial que lhe é de direito, ajudei a minha cada-vez-mais anciã a se acomodar e arrumei a malinha de roupas entre seus pés, já preocupado em como aquilo poderia ser pesado para ela carregar sozinha depois. Em pé à sua frente, olho com tanta ternura que o trem parece diminuir a velocidade para que aquelas duas estações possam ser o suficiente para reduzir a saudade das semanas que virão. Enquanto miro sua fragilidade, sou transportado não para o meu destino, mas para um passado até então esquecido em minha memória. É minha mãe me ensinado a ir para a escola sozinho pela primeira vez. Via-me ao seu lado em cima do morro, olhando para o meu eu-criança ao longe aguardando o ônibus em uma parada tão próxima da favela, que a faz repensar tantas vezes quanto possível sobre aquela escolha necessária. Braços cruzados, uma das mãos à frente da boca disfarçando o choro para não assustar a cria que vai desbravar o mundo onde tudo pode dar errado, em uma época em que o celular era um luxo de gente que não precisava de transporte público. O ônibus chega e ela acena um tchau que há de não ser um adeus, pelo amor de tudo que for sagrado. As mães são como os anjos, que não têm tempo para ficar tranquilas. Ela continua olhando pelas janelas do coletivo, agarrando a si mesma em uma tentativa de segurar o pranto. Ao seu lado, minha memória a abraça como se confortasse a nós dois em um momento em que entendemos que criamos um ao outro sem nos ensinarmos a sobreviver no transporte público da saudade. No trem, desço na minha estação e continuo olhando para ela, sentadinha ao lado da janela. Aceno um tchau apreensivo e percebo que, além de seus cuidados, tenho também os seus olhos. Os olhos que mais suavam no mundo.

 

Texto: André Petrini
Foto: Konstantin Filatov

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Chegada 0 1275

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai

Vida comum parte 1 0 796

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.