aguardamento 1 220

1.

 

era para ser apenas mais um sábado, a princípio. de onde, então, vinha aquela sensação esquisita? a intuição de vida-por-um-fio a surpreendeu logo cedo, logo ao acordar, como um vazio que dá no peito, um desconforto, uma angústia intermitente. por via das dúvidas, conferiu o horóscopo de sagitário do dia e constatou que não havia nada de errado, a princípio. tanto melhor.

 

enquanto engolia sem vontade uma pizza de quinta-feira reaquecida na sanduicheira, repassava a programação do dia. nada de muito diferente, a princípio: a lista da manhã incluía o tradicional passeio com o cachorro da namorada, aliado a uma caminhada à banquinha de jornais para comprar cigarros. na volta, passaria no açougue, para depois começar a cozinhar: já tinha em casa molho de tomate, creme de leite, cebolas, mostarda, molho inglês, conhaque e batata palha, de forma que os ingredientes para o estrogonofe já estavam quase que totalmente resolvidos. a princípio, só faltava a carne. repassou a manhã, acentuou-se a angústia.

 

ao início da tarde, começaria a cozinhar. terminaria ali por uma e meia, bem a tempo de buscar a namorada no aeroporto, cansada de mais uma entediante viagem da firma. almoçariam o estrogonofe, tomariam um banho e provavelmente dariam uma transadinha. a princípio, a namorada gostaria de dar uma cochilada pós-foda, para se recuperar, então planejou uma passada no buffet infantil onde pretendia fazer a festa de aniversário do sobrinho preferido. até porque é melhor conhecer o lugar do que marcar assim, no escuro. programou a tarde e a angústia aumentava.

 

à noite, a princípio, filmes. na volta do buffet, passaria na panificadora e buscaria uns quatro pães franceses, queijo e presunto e alguns minissonhos, a princípio, todos de nata. lanchariam, deitariam no sofá, escrutinariam o catálogo da Netflix por uns 35 ou 40 minutos até decidirem por um filme ruim qualquer. depois do primeiro filme, abririam um vinho. a princípio, veriam mais um filme e, se possível, o segundo seria mais picante para instigar, quem sabe, mais uma transadinha depois. seguiriam-se carícias, conchinha, sono gostoso. a noite planejada, a angústia ainda lá.

 

 

 

2.

 

comeu a bordinha com ketchup extra. levantou, pegou a coleira, Vamo lá passear, Tobias?, e se pôs a caminhar com o cachorro do lado. andou uma, duas, três quadras, atravessou uma esquina complicada, Me dá três maços de Marlboro, por favor, Muito obrigada, e virou sentido açougue. Seiscentos gramas de contra-filé, por favor, Se der pra ser cortadinho para estrogonofe, agradeço, Obrigada. tomou o rumo de casa, largou o akita no quintal, lavou bem as mãos, preparou com cuidado a refeição, provou, Nossa, hoje eu acertei. entrou no carro, botou para tocar uma playlist de música brasileira, cantou junto, Se não tivesse o amor, Se não tivesse essa dor, E se não tivesse o sofrer, E se não tivesse o chorar. estacionou no aeroporto, encontrou sua namorada, que sorria um sorriso enorme, Oi, meu amor!, Que saudade, Deixa que eu levo essa pra você. voltou, sentaram, almoçaram, Gostou?, Hoje eu acertei, né?. deixaram as louças na pia, as roupas no chão do quarto, foram para o banho, se banharam, se beijaram, se apertaram, se esfregaram, Nossa, eu tava com muitas saudades de você, mulher. foram para cama e continuaram o que estavam fazendo, transaram, gozaram, terminaram, Jesus, que delícia. Agora dá uma descansada, que vou passar lá no buffet onde tô querendo fazer o aniversário do Lucas, tá? pegou o carro novamente, botou uma playlist de porcarias variadas, cantou, Never made it as a wise man, I couldn’t cut it as a poor man stealing, Tired of living like a blind man, I’m sick of sight without a sense of feeling. o buffet era bem bonitinho, gostou, o Lucas iria adorar, Posso te ligar na segunda pra confirmar?, Beleza, obrigada, Até segunda, Sandra, voltou pro carro e parou na padaria. Quatro pães franceses, por favor, Ah!, Queria cento-e-cinquenta gramas de queijo e de presunto, Isso, cento-e-cinquenta de cada, E me veja também seis minissonhos, três de nata e três de goiaba. chegou, a namorada já acordada, Oi, linda!, lancharam, puxaram o assento do sofá para ficarem bem esticadinhas. olharam toda e qualquer cateoria possível de filmes do Netflix, Vamos ver esse aqui do Nicolas Cage, haha, Dizem que é o pior dele, Pelo menos deve ser engraçado. assistiram, riram bem menos do que o esperado, abriram o vinho e começaram a assistir Azul é a Cor Mais Quente, deram mais umas bitocas mas o sono começou a bater e nem transaram pela segunda vez. Vamo dormir, né?, Eu tô morta e cê ainda deve tar cansada da viagem, né?, deitaram, trocaram carícias, beijinhos, abracinhos, montaram a conchinha.

 

 

3.

 

dormiu só a namorada, porque a angústia ainda estava lá.

passou mais duas ou três horas insone, remoendo a impressão de vida-por-um-triz.

 

ela se esforçaria para relaxar e descansar muito bem se soubesse o que viria pela frente no domingo, mas, infelizmente, não sabia.

 

aquele, no fim das contas, foi apenas mais um sábado.

texto por Rômulo Candal
ilustração por Marco Antonio

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Dai-me Amor 0 174

Deus foi a primeira palavra que eu aprendi. Antes mesmo de aprender meu nome. Quando se é criança, os adultos tentam nos ensinar as coisas dos jeitos mais variados. Criança só aprende brincando. Minha mãe mandava eu pintar todos os “Deus” que eu achasse na Bíblia. Ela me disse que Deus sempre existiu e nunca nasceu. Perguntei como Ele se parecia. Ela disse que não sabia, pois a glória dEle é tão grande que era como olhar pro Sol. Tentei olhar pro Sol, ardeu.

Depois de pintar tudo, eu aprendi a palavra Jesus. Ela me disse que Jesus é a encarnação do amor, é quem criou todas as coisas. É filho de Deus com uma humana, Maria. Me disse que tem barba e cabelo grande. E que seu olhar muda e transforma escuridão em luz.

Mais tarde ela me falou pra pintar o “Espírito Santo” e disse que Ele não tem forma, corpo ou manifestação material. Já foi pomba no batismo de Jesus, mas também é descrito como o brilho da Glória de Deus. Ela me explicou que Deus se manifesta na trindade. E que eu podia falar com Ele(s) quando eu quisesse. Bastava orar e, é claro, com todo o respeito. E que quando eu orasse deveria confessar meus erros e pedir perdão. Deveria agradecer pelas dádivas e pela bênção da vida. Que deveria contar sobre meu dia, sobre meus medos, descobertas e felicidades. Foi assim que Jesus se tornou meu melhor amigo. Meu amigo imaginário. Meu Deus. Minha mãe me ensinou um bocado de coisas sobre a Bíblia, o céu e sobre como a vida nessa terra é passageira, é escola, é aprendizado, nada é por acaso, nada é destino. Tudo é providencial. Providência divina. Tudo de bom e tudo de ruim tem como propósito nos ensinar sobre Deus, e como Ele age em nossas vidas. Ela me contou que se eu deixasse, Ele poderia morar dentro do meu coração, e assim, o divino habitaria em mim. Disse também, que Jesus vai voltar pra levar os justos pro céu. Perguntei como eu fazia pra ir pro céu, ela me disse que imitando a Jesus, O aceitando como meu Deus e salvador, sua Graça me salvaria independente das obras. Me ensinou que só a religião dela era a correta e junto com essa religião muitas regrinhas, que eu nunca consegui seguir. Por muito tempo achei que por causa da parte que eu não cumpria, Deus não habitava em mim. Me senti perdida, vazia. Comecei a me odiar. Acelerar minha morte. A vida muitas vezes deixa de fazer sentido. Acontece que eu sou muito como Tomé, só acredito vendo. E como acreditar em alguém que eu só ouvi falar e que ninguém nunca viu? Com nove anos veio a primeira dúvida sobre a volta de Jesus. Junto com a dúvida veio a primeira vez que senti Deus falando comigo. Foi diferente de pensar. Foi quase como ouvir palavras que não foram pensadas. Eu ouvi: “Não desista, porque Eu não desisti de você”. Depois desse episódio nunca mais ouvi ele nos meus pensamentos, achei que era coisa de criança ter amigos imaginários, mas vira e mexe alguém usado por Ele me lembrava sobre não desistir de conhecê-Lo e procurá-Lo. E nessa eu vi que Ele não estava na religião. Não estava em uma igreja específica, não era o “não pode” tão popular. Compreendi o que significava Graça e aceitei a minha salvação. Aceitei a trindade e aceitei a minha mãe. Compreendi que amar nada tem haver com sexo ou paixão. Amor transcende toda essa metáfora feita de carbono que chamamos de realidade. Aceitei meu corpo, que foi presente de Deus pro meu espírito habitar. Espírito esse que saiu dEle.

A segunda vez que Deus falou comigo eu já não era mais criança, foi quando percebi que Deus não é religião e um bocado de regrinhas. Ele está onde há luz. E Ele deixou luz em tudo. Tomei um chá com Ele. Meu espírito saiu do corpo e subiu. Contemplei a Glória divina e senti meu espírito ir alto e mais alto. Eu vi a Deus e diferente do que minha mãe dizia, é como olhar pro Sol, mas os olhos não ardem. E Ele me disse: você é um anjo. Você é luz! Você está pronta!

Mateus 5:8 “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.”

 

 

Vida comum parte 1 0 318

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.