aguardamento 1 154

1.

 

era para ser apenas mais um sábado, a princípio. de onde, então, vinha aquela sensação esquisita? a intuição de vida-por-um-fio a surpreendeu logo cedo, logo ao acordar, como um vazio que dá no peito, um desconforto, uma angústia intermitente. por via das dúvidas, conferiu o horóscopo de sagitário do dia e constatou que não havia nada de errado, a princípio. tanto melhor.

 

enquanto engolia sem vontade uma pizza de quinta-feira reaquecida na sanduicheira, repassava a programação do dia. nada de muito diferente, a princípio: a lista da manhã incluía o tradicional passeio com o cachorro da namorada, aliado a uma caminhada à banquinha de jornais para comprar cigarros. na volta, passaria no açougue, para depois começar a cozinhar: já tinha em casa molho de tomate, creme de leite, cebolas, mostarda, molho inglês, conhaque e batata palha, de forma que os ingredientes para o estrogonofe já estavam quase que totalmente resolvidos. a princípio, só faltava a carne. repassou a manhã, acentuou-se a angústia.

 

ao início da tarde, começaria a cozinhar. terminaria ali por uma e meia, bem a tempo de buscar a namorada no aeroporto, cansada de mais uma entediante viagem da firma. almoçariam o estrogonofe, tomariam um banho e provavelmente dariam uma transadinha. a princípio, a namorada gostaria de dar uma cochilada pós-foda, para se recuperar, então planejou uma passada no buffet infantil onde pretendia fazer a festa de aniversário do sobrinho preferido. até porque é melhor conhecer o lugar do que marcar assim, no escuro. programou a tarde e a angústia aumentava.

 

à noite, a princípio, filmes. na volta do buffet, passaria na panificadora e buscaria uns quatro pães franceses, queijo e presunto e alguns minissonhos, a princípio, todos de nata. lanchariam, deitariam no sofá, escrutinariam o catálogo da Netflix por uns 35 ou 40 minutos até decidirem por um filme ruim qualquer. depois do primeiro filme, abririam um vinho. a princípio, veriam mais um filme e, se possível, o segundo seria mais picante para instigar, quem sabe, mais uma transadinha depois. seguiriam-se carícias, conchinha, sono gostoso. a noite planejada, a angústia ainda lá.

 

 

 

2.

 

comeu a bordinha com ketchup extra. levantou, pegou a coleira, Vamo lá passear, Tobias?, e se pôs a caminhar com o cachorro do lado. andou uma, duas, três quadras, atravessou uma esquina complicada, Me dá três maços de Marlboro, por favor, Muito obrigada, e virou sentido açougue. Seiscentos gramas de contra-filé, por favor, Se der pra ser cortadinho para estrogonofe, agradeço, Obrigada. tomou o rumo de casa, largou o akita no quintal, lavou bem as mãos, preparou com cuidado a refeição, provou, Nossa, hoje eu acertei. entrou no carro, botou para tocar uma playlist de música brasileira, cantou junto, Se não tivesse o amor, Se não tivesse essa dor, E se não tivesse o sofrer, E se não tivesse o chorar. estacionou no aeroporto, encontrou sua namorada, que sorria um sorriso enorme, Oi, meu amor!, Que saudade, Deixa que eu levo essa pra você. voltou, sentaram, almoçaram, Gostou?, Hoje eu acertei, né?. deixaram as louças na pia, as roupas no chão do quarto, foram para o banho, se banharam, se beijaram, se apertaram, se esfregaram, Nossa, eu tava com muitas saudades de você, mulher. foram para cama e continuaram o que estavam fazendo, transaram, gozaram, terminaram, Jesus, que delícia. Agora dá uma descansada, que vou passar lá no buffet onde tô querendo fazer o aniversário do Lucas, tá? pegou o carro novamente, botou uma playlist de porcarias variadas, cantou, Never made it as a wise man, I couldn’t cut it as a poor man stealing, Tired of living like a blind man, I’m sick of sight without a sense of feeling. o buffet era bem bonitinho, gostou, o Lucas iria adorar, Posso te ligar na segunda pra confirmar?, Beleza, obrigada, Até segunda, Sandra, voltou pro carro e parou na padaria. Quatro pães franceses, por favor, Ah!, Queria cento-e-cinquenta gramas de queijo e de presunto, Isso, cento-e-cinquenta de cada, E me veja também seis minissonhos, três de nata e três de goiaba. chegou, a namorada já acordada, Oi, linda!, lancharam, puxaram o assento do sofá para ficarem bem esticadinhas. olharam toda e qualquer cateoria possível de filmes do Netflix, Vamos ver esse aqui do Nicolas Cage, haha, Dizem que é o pior dele, Pelo menos deve ser engraçado. assistiram, riram bem menos do que o esperado, abriram o vinho e começaram a assistir Azul é a Cor Mais Quente, deram mais umas bitocas mas o sono começou a bater e nem transaram pela segunda vez. Vamo dormir, né?, Eu tô morta e cê ainda deve tar cansada da viagem, né?, deitaram, trocaram carícias, beijinhos, abracinhos, montaram a conchinha.

 

 

3.

 

dormiu só a namorada, porque a angústia ainda estava lá.

passou mais duas ou três horas insone, remoendo a impressão de vida-por-um-triz.

 

ela se esforçaria para relaxar e descansar muito bem se soubesse o que viria pela frente no domingo, mas, infelizmente, não sabia.

 

aquele, no fim das contas, foi apenas mais um sábado.

texto por Rômulo Candal
ilustração por Marco Antonio

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Impressões Sinestésicas de Um Entusiasta 0 51

This Will Destroy You

Another Language | Cinderella 99

Há um sussurro quase inaudível, penetrando por debaixo da porta e passando pelas pequenas frestas na janela, carrega uma mensagem codificada de algum lugar distante, em um tom suavemente sedutor; estimula os olhos a enxergarem longe, principalmente se fechados. A esperança, natural aos novos fenômenos, abre um pequeno portal em minha frente: não enxergo nada além de sua profundidade, e, já é tarde demais para escolher não progredir através desse vórtice. A renúncia à paz, que se faz presente em toda nova empreitada ao desconhecido, sequestra-me e me lança em direção ao que nem sabia que procurava; decodifico o início da mensagem e a revelação é clara: estou prestes a descobrir um novo idioma.

 

Sou devolvido ao lugar onde comecei e não sou mais o mesmo, uma força que transmite uma paz inquieta mudou tudo de lugar, e, tanto os móveis quanto as sensações agora ocupam posições mais confortáveis. Tento me familiarizar com o novo momento, me aproximo de sentimentos que sempre me foram íntimos e os descubro restaurados, há uma nova vibração emanando em torno de mim, cada vez mais tátil; já não sei se a levo comigo ou se sou carregado por ela.

 

Viajo num mundo confortavelmente desabitado, me sinto pleno em minha solidão, contemplo o deserto em quase todo o horizonte; vejo apenas uma montanha, distante, que calmamente vem em minha direção. O chão vibra com ternura conforme o espaço entre nós diminui. Cordial, ela se abaixa para eu enxergar o que carrega em seu topo; atinjo seu ápice, e uma pequena interferência me leva para onde as nuvens nublam suavemente a visão. Viro para o outro lado, observo um abismo, que me contempla de volta. Desço como quem flutua, mas sei que o caminho reserva novas surpresas; sinto a pulsação do vento mudar, enchendo as nuvens de eletricidade enquanto algumas delas se acendem, gerando pequenas explosões que iluminam o caminho.

 

A luz que dá impressão de rarear muda de cor, assume uma dramaticidade rubra, com sombras demarcadas. Sou envolto em uma tensão que não transmite temor, necessária para a dissolução de antigos reinos. É parte da história que nos contam desde que nascemos, é objeto, mas nem por isso é obstáculo. Quando a tensão se dissolve, o chão volta a ser plano, a energia que passa a me envolver parece ter surgido de dentro para fora. Uma paz, que por mais curta que seja, traz a ideia do eterno. Para chegar mais longe, alguns passos tentam nos guiar até nossos ancestrais; somam-se a mim forças reunidas de outros tempos, calor de partículas que o cotidiano insiste em esfriar. A percepção de sua existência me convida para lugares onde se desmaterializa tudo que criei, me conforto em esquecer o que não preciso carregar.

 

Docemente, os sons começam a se esvair pelo quarto, e já não me preocupo mais em impedir que se escapem pelas frestas, volto para um lugar análogo de onde eu era, repleto de novas perspectivas. Me conforta a comprovação de que ainda vou me interessar por tanta coisa que desconheço. Trago a paz que as boas viagens nos reservam ao voltar para casa, com a convicção de que tudo é linguagem e nada é apenas ruído.

thiswilldestroyyou.bandcamp.com/album/another-language

Lembranças Azuis 0 974

Esta é a segunda vez que escrevo sobre mim, a primeira foi uma carta. Decidi começar hoje, depois de tanto papai insistir para que eu escrevesse. Ele sempre disse que é assim que os escritores descobrem o que sentem, transformando sentimentos em palavras que dão sentidos ao que sentimos. Por isso eu deveria fazer o mesmo quando estivesse triste, para transformar o que sentia em algo melhor.

Tive um dia ruim, por isso escrevo.

Primeiro vou me apresentar: meu nome é Pérsio, tenho 14 anos, gosto de jogar futebol, não gosto de azeitonas porque elas têm os caroços mais difíceis de serem arrancados, e minha cor favorita é o azul porque descobri há dois anos que sou daltônico e tudo o que é verde para os outros, é azul pra mim. Então quando vejo algo azul, fico imaginando se é mesmo azul ou é verde. O azul é uma cor desafiadora para mim, e eu gosto muito de desafios e aventuras, igual ao Dom Quixote.

No ano passado fiz uns exames e o médico falou que tenho uma síndrome.

Síndrome de Asperger é o nome. Na época eu não sabia o que significava e papai disse que era uma síndrome de pessoas que tinham a perna direita mais forte que a esquerda. Por isso deveriam se esforçar para não andarem sempre para a esquerda e cuidarem no futebol, pra não machucar o goleiro na hora de chutar para o gol.

Hoje já sei que Asperger não tem nada a ver com a força das pernas, ainda que eu tenha o chute mais forte da 5ª D. Quem tem Asperger, entre outras, não sente as coisas como nos livros, nada é tão intenso. Papai falou que os sentimentos são tão fortes assim porque aprendemos com os livros, que de tanto ler, o homem começou a viver as metáforas que só existiam nas histórias, igual ao Dom Quixote.

Eu nunca senti falta de sentir as coisas, até descobrir que o Asperger não agia na minha perna direita. A partir daí, passei a viver nas páginas dos livros, porque sabia que lá moravam as sensações. Mas nada dizia nada, ou era tudo sem sentido.

Descobri que apenas a dor física era pra mim. Desde então se tornou uma espécie de masturbação. Trancado no banheiro eu enfiava a ponta do lápis embaixo das unhas dos pés, até ver o sangue. Não gostava, mas queria sentir alguma coisa.

Um dia papai me descobriu com os dedos sangrando. Achei que ia ficar de castigo, mas não. Ele pediu para que eu escrevesse uma carta para uma pessoa desconhecida, contando por que tinha feito aquilo.

Escrevi e contei tudo sobre minha vontade de sentir as coisas. Contei também que, se tivesse um cavalo, sairia pelas ruas até os campos e descobriria finalmente o que é viver de metáforas, igual ao Dom Quixote. Não exatamente como ele, porque não seria uma figura triste.

E já que a carta seria entregue a uma pessoa desconhecida, aproveitei e perguntei a ela o que era a felicidade.

Fechei a carta num envelope e entreguei a papai para que levasse à pessoa desconhecida. Como já era nove e quarenta e cinco da noite, fui dormir, porque acordaria às quinze para as sete do dia seguinte para ir pra escola.

Cinco minutos para me vestir, dez para tomar uma xícara de café com leite e meio pão com geleia de tamarindo, vinte minutos a pé até a escola e lá estava eu, com dez minutos para jogar um pouco de futebol até bater o sinal.

Quando a aula acabou, saí correndo para chegar em quinze minutos em casa, mas encontrei papai no portão, me esperando. Fui até ele e vi que segurava minha carta. Perguntei se ele ainda não tinha entregado.

Ele disse que não, que ele era a pessoa desconhecida e ia me ensinar as coisas que eu não conhecia.

Na hora estranhei e disse que ele não era um desconhecido, mas sim o meu pai. Mas papai me explicou que as pessoas nunca são totalmente conhecidas pela gente. Sempre temos algo a aprender sobre elas, mesmo quando são nossos pais, e que isso torna as pessoas sempre um tanto desconhecidas.

Na hora eu senti uma coisa que agora sei que é o que todo mundo chama felicidade, porque sorri quando soube daquilo.

No caminho de casa passamos no bosque, onde papai falou sobre a felicidade, que a maioria das pessoas acha que felicidade é sinônimo de sorriso, e por isso riem para o vazio, para se sentirem menos sozinhas.

Naquele dia aprendi que sentimos felicidade quando o mundo parece agir de acordo com o nosso bem, e que isso se chama plenitude, que é outro sentimento. Então, a felicidade nada mais é do que uma plenitude muito intensa. É quando caminhamos sem notar que o tempo também está andando. Papai contou que em momentos de felicidade extrema esquecemos do resto do mundo e nada mais importa, só o que sentimos. Ele disse que ficou assim quando eu nasci.

Eu acho que sinto felicidade quando estou dormindo, porque não penso em mais nada. Será que plenitude é uma espécie de sono profundo? Será que a morte é uma espécie de sono profundo? Estar pleno é estar morto? Papai…

A partir deste dia papai me buscava sempre na saída da escola. Fazíamos caminhos diferentes para voltar pra casa, pois era assim que a vida deveria ser vivida: sem rumos pré-estabelecidos, e cada dia ele me ensinava um sentimento à minha escolha.

Um dia ele perguntou se eu sabia o que era o amor. Eu disse que o amor era o que fazia as pessoas casarem, e ele disse que essa é a ideia errada, que o amor era outra coisa. Uma coisa que completa a gente, mesmo que a gente tenha todos os membros, porque ele completa no sentido metafórico. É quando uma pessoa interage com você e desperta o seu melhor, mas não é como no futebol, que um zagueiro ruim faz um atacante parecer melhor, é no sentido metafórico, onde os dragões do Dom Quixote realmente batalham com ele.

Papai disse que entre eu, ele e mamãe existe amor, porque a gente sempre age querendo fazer o outro feliz, sempre queremos ser bons uns com os outros, e que isso se chama amor de família. Na hora senti que papai me amava, porque ele terminou de falar e olhou pra mim com um sorriso, e eu sorri pra ele.

Um dia perguntei a papai o que era tristeza e ele falou que eu era novo demais para essas coisas, que a vida iria me ensinar, porque é impossível viver uma vida inteira sem conhecer a tristeza. E que isso, por si só, já é algo triste.

Eu achei que ele não quisesse me ensinar porque era muito novo também. Tinha quarenta e dois anos e só descobriria o que é a tristeza quando estivesse com o cabelo cinza, e que mesmo assim não iria me ensinar porque só a vida deve ensinar a tristeza, não as pessoas que a gente ama. Mas me enganei.

Hoje, voltando do enterro de papai, chorei. Chorei porque nunca mais vou ver ele fora das lembranças, e que elas vão me causar uma dor mais forte que a ponta do lápis embaixo das unhas.

Soube que era tristeza quando mamãe me abraçou, me deu um beijo na testa, me apertou ainda mais e disse pra eu não ficar triste.

Quando olhei, ela estava sorrindo. Mas eu sabia que era um daqueles risos que as pessoas soltam para o vazio, para se sentirem menos sozinhas. As lágrimas diziam tudo, porque papai uma vez me disse que só os humanos choram lágrimas, que nos outros animais elas não passam de secreção, igual ao suor pra gente.

Não precisei ficar velho pra descobrir o que é tristeza, ou será que envelheci rápido demais?

Agora papai só existe nas minhas lembranças, e às lembranças não se pode ensinar. Papai jamais saberá o que é tristeza, e isso é bom, porque não queremos que as pessoas que amamos fiquem tristes.

Papai prometeu que quando voltasse do hospital iria me ensinar o que é saudade, mas isso vou ter que aprender sozinho.

texto: Rafael Antunes
ilustração: Rebeca Storrer