Texto de em 04 de setembro de 2017 . Nenhum comentário.

As prateleiras cheias formavam um catálogo de sonhos para Adriana, que olhava através do vidro como um neném assiste o mundo se revelar do alto do colo da mãe, de boca entreaberta em um sorriso fácil, cara de surpresa, a cabeça balançando para lá e para cá. Antes de escolher uma botinha sem salto que a deixasse diva, corria a vista por tudo que ainda não queria mas poderia querer dali um mês, quando os carnês estivessem em ordem e a conta bancária azulasse, em reconciliação entre ganhos e gastos. Do lado de dentro, Leila se destacou das colegas e chegou mais perto da porta, atenta à possível cliente, a menos de duzentão de bater a meta trimestral, em preparação serena do movimento que poderia saciar sua fome de comissão, contente porque a mulher se dedicava com mais carinho aos pares mais caros.

A luz pálida escapava da loja para fundir-se a uma garoa molha-bobo na calçada. O pessoal da rua se acotovelava pela marquise, em batalhas concomitantes por proteção individual, som de carros, motos, ônibus, pingos nos guarda-chuvas e vozes: as jaulas todas abertas.

Um homem-sob-a-marquise viu Adriana de longe e preparou sua melhor carinha de quem gostou demais, com a cabeça cheia de maldade. Ajeitou as calças para cima, redobrou a gola e as mangas da camisa e chegou junto. Resmungou um oi que ela fez questão de procurar de onde vinha para ignorar e voltar ao que lhe interessava. Ele não se deixou derrotar, ainda tinha gás. Tentou uma nova abordagem mais íntima, quase no cangote da mulher mas, na segunda vez, ela sequer se deu o trabalho de virar para o lado – deu um passo para o lado oposto ao dele e inclinou-se para frente, ligada em uma sandalinha de tiras em uma prateleira baixa.

A vendedora não gostou do intruso e acionou o segurança, já com planos para cada centavo extra que conseguisse arrancar do mês: o megahair em salão bom se materializava aos poucos e a quitação da moto era cada vez mais palpável. O careca de uniforme preto chegou perto da porta com cara de nenhum amigo, cerrou os punhos e forçou o peitoral. O mala da marquise percebeu, fingiu embaraço, repensou a postura e largou mão de encher o saco da gatinha. O homem foi embora com saudade do que não viveu, apaixonado pela dona do perfume que invadiu seu pensamento, tentando guardar os quadris largos e as roupas justas na memória, voltando à invisibilidade por motivo de multidão, um casaco preto misturado a muitos outros casacos pretos, só mais uma partícula no coro da hora do rush.

Com o campo de batalha novamente limpo, Leila fez um gesto para o careca voltar. Agora era sua vez de chegar mais e mostrar as armas, brilhar, fazer o nome, dar show, mostrar para as colegas com quantas vendas se conquistava comissão graúda atrás de outra, com quantos paus se fazia uma canoa para remar até o espaço reservado aos monstros sagrados do comércio, quanta dedicação era necessária para alcançar o posto aberto de subgerente da loja.

A senhora quer entrar?, viu algum modelinho que gostou?

 


Ilustração: Caroline Rehbein

Texto: Marco Antonio Santos