Texto de em 11 de setembro de 2017 . Nenhum comentário.

 

Nesse domingo eu cozinhei feijão. Para o mês todo. E sabe o que eu fiz depois? Coloquei em um pote de sorvete. Acredita? É esse tipo de adulto que nos tornamos, Julie.

Eu poderia colar uma etiqueta escrita “feijão” no pote, pra nunca me confundir, mas não. A gente quer se iludir, sabe. Quer conhecer alguém e achar que será o amor da nossa vida. Quer entrar num novo emprego e achar que é o trabalho dos sonhos. A gente quer parecer que sabe o que quer.

Sabe, Ju, às vezes eu sinto que preciso trabalhar pra relaxar. Como se tivesse que resolver os pepinos dos outros pra não pensar sobre os meus. Essa foi uma semana daquelas! Como foi a sua? Não que eu queira realmente saber, pergunto mais por educação mesmo… Tô brincando, sua tonta, quero saber sim.

Se tá tudo bem comigo? De acordo com meu psicólogo ou com meu Instagram? No Insta, eu tô ótimo. Deve ser por isso que eu fico revendo minhas próprias Stories, pra acreditar que a vida é aquilo ali. Confesso que estou um pouco viciado. O Insta, o Whats, o Face, até o Tinder. Quanto o celular vibra é tipo um mini orgasminho. Eu abro a pré-visualização, vejo que é o crush e só vou olhar a mensagem um pouco depois. Não é pra ficar me fazendo, não, que não sou desses. Acho que é mais pra ficar curtindo aquela sensação, sabe, de ter alguém te dando bola.

Você já parou pra pensar como nomes com a letra J funcionam tão bem como interlocutores? Talvez seja uma coisa importada das músicas…  “Do you, Mr. Jones?”, “Jolene, Jolene, Jolene”, “Hey, Juude”, “João, o teeempo está mexendo com a gente, sim”. Não sei, mas que soa bem, soa. Todo mundo deveria ter um amigo com J pra conversar. Nem que fosse imaginário. Ainda bem que eu tenho você.

Dia desses eu cometi aquela cagada clássica, sabe? E passei as semanas seguintes achando que teria um filho não planejado. É curioso como o maior medo de muitas pessoas da nossa idade não seja morrer, e sim gerar uma vida; e ser responsável por ela. No entanto, mesmo assim a gente se arrisca. É como chegar na beira de um precipício e querer olhar pra baixo, chegar bem na pontinha pra contemplar o buraco, sabe? É que o buraco é mesmo irresistível. Risos.

Enfim, agora pode até parecer engraçado, e caso acontecesse provavelmente seria maravilhoso. Mas eu estava realmente paranoico, sabe, como se inebriado por uma dose de vida adulta. Roupinhas e comidinhas e fraldinhas e fofurinhas e tudo no diminutivo, mas adeus às transadinhas casuais e as cervejinhas. Que horror… zinho.

Sei lá, eu sempre tive a impressão de que ter um filho é o que pode fazer a sua vida ter algum sentido. Mas então será mais um ser no mundo que irá perceber que a vida não tem sentido, e então ele terá um outro filho para aliviar o problema, e assim caminha a humanidade.

Enfim, aí quando eu tive a certeza que não tinha bebê nenhum a caminho, sabe o que eu comecei a fazer? Você vai me achar louco, Julie, mas é pra isso que os interlocutores com J servem. No dia seguinte, eu sempre pego a camisinha amarrada e a suspendo na altura dos olhos. Digo para o líquido enclausurado: not today, motherfuckers! Às vezes tal qual Cléber Machado: hoje não, hoje não! Tornou-se um ritual. Coisa besta, né? Anyway, agora minha maior preocupação voltou a ser o aluguel.

Vamos pedir mais uma saideira, Ju? As últimas três passaram tão rápido. Não, não venha me falar sobre o amanhã. Vamos fazer uma Story no Insta?

Pra mostrar que a gente é jovem, ué. Que a nossa vida é de sorvete, e não de feijão.

 

Murilo.