Não bastassem os boletos 0 459

 

Nesse domingo eu cozinhei feijão. Para o mês todo. E sabe o que eu fiz depois? Coloquei em um pote de sorvete. Acredita? É esse tipo de adulto que nos tornamos, Julie.

Eu poderia colar uma etiqueta escrita “feijão” no pote, pra nunca me confundir, mas não. A gente quer se iludir, sabe. Quer conhecer alguém e achar que será o amor da nossa vida. Quer entrar num novo emprego e achar que é o trabalho dos sonhos. A gente quer parecer que sabe o que quer.

Sabe, Ju, às vezes eu sinto que preciso trabalhar pra relaxar. Como se tivesse que resolver os pepinos dos outros pra não pensar sobre os meus. Essa foi uma semana daquelas! Como foi a sua? Não que eu queira realmente saber, pergunto mais por educação mesmo… Tô brincando, sua tonta, quero saber sim.

Se tá tudo bem comigo? De acordo com meu psicólogo ou com meu Instagram? No Insta, eu tô ótimo. Deve ser por isso que eu fico revendo minhas próprias Stories, pra acreditar que a vida é aquilo ali. Confesso que estou um pouco viciado. O Insta, o Whats, o Face, até o Tinder. Quanto o celular vibra é tipo um mini orgasminho. Eu abro a pré-visualização, vejo que é o crush e só vou olhar a mensagem um pouco depois. Não é pra ficar me fazendo, não, que não sou desses. Acho que é mais pra ficar curtindo aquela sensação, sabe, de ter alguém te dando bola.

Você já parou pra pensar como nomes com a letra J funcionam tão bem como interlocutores? Talvez seja uma coisa importada das músicas…  “Do you, Mr. Jones?”, “Jolene, Jolene, Jolene”, “Hey, Juude”, “João, o teeempo está mexendo com a gente, sim”. Não sei, mas que soa bem, soa. Todo mundo deveria ter um amigo com J pra conversar. Nem que fosse imaginário. Ainda bem que eu tenho você.

Dia desses eu cometi aquela cagada clássica, sabe? E passei as semanas seguintes achando que teria um filho não planejado. É curioso como o maior medo de muitas pessoas da nossa idade não seja morrer, e sim gerar uma vida; e ser responsável por ela. No entanto, mesmo assim a gente se arrisca. É como chegar na beira de um precipício e querer olhar pra baixo, chegar bem na pontinha pra contemplar o buraco, sabe? É que o buraco é mesmo irresistível. Risos.

Enfim, agora pode até parecer engraçado, e caso acontecesse provavelmente seria maravilhoso. Mas eu estava realmente paranoico, sabe, como se inebriado por uma dose de vida adulta. Roupinhas e comidinhas e fraldinhas e fofurinhas e tudo no diminutivo, mas adeus às transadinhas casuais e as cervejinhas. Que horror… zinho.

Sei lá, eu sempre tive a impressão de que ter um filho é o que pode fazer a sua vida ter algum sentido. Mas então será mais um ser no mundo que irá perceber que a vida não tem sentido, e então ele terá um outro filho para aliviar o problema, e assim caminha a humanidade.

Enfim, aí quando eu tive a certeza que não tinha bebê nenhum a caminho, sabe o que eu comecei a fazer? Você vai me achar louco, Julie, mas é pra isso que os interlocutores com J servem. No dia seguinte, eu sempre pego a camisinha amarrada e a suspendo na altura dos olhos. Digo para o líquido enclausurado: not today, motherfuckers! Às vezes tal qual Cléber Machado: hoje não, hoje não! Tornou-se um ritual. Coisa besta, né? Anyway, agora minha maior preocupação voltou a ser o aluguel.

Vamos pedir mais uma saideira, Ju? As últimas três passaram tão rápido. Não, não venha me falar sobre o amanhã. Vamos fazer uma Story no Insta?

Pra mostrar que a gente é jovem, ué. Que a nossa vida é de sorvete, e não de feijão.

 

Murilo.

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Vida comum parte 1 0 129

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.

Uma tentativa de eternidade 0 670

Estas linhas são sobre o momento em que o sol se lançou corajoso no abismo do horizonte de ontem. Carregava consigo a invejável certeza de que teria forças para regressar pelo lado de lá. É sobretudo uma daquelas tentativas de promover o efêmero à eternidade –  com algo de poesia.

Um olhar descolorido poderia até dizer que o sol sequer saiu do lugar, que nós é que feito mariposas ofuscadas giramos em torno da lâmpada, sem nos importarmos com um pra-onde-ir.

Verdade é que nunca nos preocupamos com as coisas como de fato são. Queremos apenas classificá-las de acordo com nossas percepções. Se sentei aqui, foi para escrever sobre o que senti ao ser tragado pelo vazio da noite de ontem, que sequer-um-abraço.

Em momento algum nos deixamos avisar pela vida sobre o que ela pretende de nós. Se nos detemos diante do orvalho na flor, é pela nossa necessidade de um suspiro n’alma. Queremos o sorriso da criança para o nosso deleite. Não nos importamos com a felicidade que ali brotou.

Sentimos o mundo à nossa disposição, sem nos darmos conta de que somos apenas mais uma alegoria na beleza de uma grandiosidade que nos foge à compreensão. Algo que já foi Deus. Que hoje é mistério. E que amanhã estará passível de uma nova interpretação.

Algo que tentaremos eternizar, com a mesma eficácia com que buscamos absorver a vida que nos envolve por esses dias em que a noite absorve o sol. E que passam. Um a um.

texto: Rafael Antunes
colagem: Katia Villagra