Trauma 0 979

Quando chega em casa, já de madrugada, Ícaro descobre que perdeu as chaves. O motorista que o trouxe desaparece repentinamente. No escuro do inverno, sozinho e sem saber o que fazer, ainda um pouco afetado pelos efeitos da festa com amigos, Ícaro olha para os dois lados da rua e percebe que a uma quadra e meia de distância, uma pessoa estranha, de capuz, caminha em sua direção. Ícaro treme, a respiração muda de frequência. Maldita hora para perder as chaves. Maldito motorista três estrelas dos infernos. Impulsivamente pula, se agarra na grade e começa escalar para alcançar o outro lado. Mas na passagem, sem que perceba, a jaqueta fica enroscada nas lanças do portão. Ao jogar o corpo para enfim acessar o jardim da casa, Ícaro sente um puxão muito forte e leva meio segundo para entender que está pendurado na grade. Com o corpo pendendo na horizontal, sem conseguir encostar as pernas no chão, vê celular e carteira deslizando dos bolsos e causando grande impacto contra a calçadinha alongada que delimita o canteiro de flores. De longe, percebe que a tela do aparelho já era. Parece uma teia de aranha escura sobre um painel de luz inferior exibindo fragmentos indecifráveis do que, há poucos instantes, era uma conversa via mensagem de texto. Ícaro ouve o tecido das roupas estralando e abruptamente bate com a cabeça no piso esguio.

 

Abre os olhos e vê apenas vultos. Ao contrário da visão insegura, seus ouvidos parecem tatear cada pedaço de matéria ao redor. Sabe exatamente a velocidade e a distância da pessoa que se aproxima apenas prestando atenção na cadência dos passos. Por alguns segundos, muito mais longos que o relógio poderia assegurar, Ícaro sente aquele gosto acre da ansiedade que sobe das entranhas pelo conduto musculoso e atinge o fundo da boca, deixando tonto e nauseabundo a ponto de quase desmaiar. Mas é apenas um transeunte noturno. Ainda sem poder enxergar direito, Ícaro percebe que o caminhante se aproxima para em seguida se distanciar sem perder o ritmo. Um viajante determinado em chegar ao seu destino. Pisaduras rígidas e ágeis, sem nunca desconsiderar as condições da superfície do terreno e mantém os passos menos ruidosos. Depois que o viandante desaparece, Ícaro percebe o quanto se deixou levar por um medo que aparentemente não lhe pertencia. Era um problema se transformado em hábito.

 

Caminha por um longo corredor, passa pelos carros no estacionamento e entra no prédio pela porta dos fundos, que só fica encostada. Tudo escuro. Os sensores de presença que acionam as lâmpadas não funcionam. Ícaro olha para o alto e vê as escadas em espiral. Sem qualquer luz acesa, o conjunto de degraus se transforma uma serpente gigantesca, congelada pela Era glacial. Um monstro abissal e sua visão noturna que deixa Ícaro em clara desvantagem. Retorna à realidade e dá mais uns passos até o início da escada. O ambiente permanece surdo. Apenas o barulho dos radiadores a vapor do sistema de aquecimento produzem ruído no subsolo. Ícaro desce até lá e, em um dos armários do almoxarifado, apanha uma chave de fenda.

 

Armado com a pequena haste de metal, se sente mais seguro e sobe até o terceiro andar. Nenhum dos vizinhos parece estar acordado. Com auxílio da lanterna do celular, que ainda funciona, Ícaro desparafusa o espelho da fechadura e consegue observar a engrenagem lá dentro. Mete a chave de fenda em uma das aberturas e após um pouco de esforço, consegue mover a lingueta para trás. Com facilidade, gira a maçaneta e o trinco é liberado. Dentro do apartamento, acende a luz e Cassandra, sua gata persa casco de tartaruga, se espreguiça em cima de uma almofada sobre a escrivaninha e pisca os olhos lentamente. “A noite parece ter sido boa, hein”, diz ela com uma voz afetuosa, mas sem perder a ironia. “Foi demais até”, responde Ícaro tirando as roupas rasgadas, para em seguida jogá-las no corredor que dá acesso ao quarto e ao banheiro. Caminha até a cozinha e pega uma garrafinha de chá gelado na geladeira. Volta e senta no sofá vestindo apenas camiseta, cuecas e as meias. Cassandra sobe em seu colo e diz, “já passa da hora de dormir, nada de assistir essa tela ai”. Ícaro não diz nada, apenas acena com a cabeça.

 

Antes de tomar o chá em três goles rápidos, ele coloca a garrafa gelada contra a lateral direita da cabeça e sente certo alívio no calombo que se formou após a queda. Uma mariposa passa voando na sala. Ícaro observa as asas e aquele voo gracioso. Cassandra dá uns pulinhos tentando em vão alcançá-la. Ícaro se levanta e vai abrir a janela para libertar o inseto. Retorna ao sofá, puxa uma manta dobrada, se cobre e dorme subitamente, ali mesmo. É atacado pelo mesmo sonho que vem tendo há dias. Lembrança confusa de uma vez em que foi assaltado. As cenas e boa parte do enredo se alteram noite após noite, apenas o temor angustiante e a imagem da arma encostada entre os olhos, seguida do estrondo seco de um disparo que nunca aconteceu, sempre são os mesmos. Uma dissociação da psiquê longe de ser sanada. Dessa vez, porém, a mariposa estava lá, batendo as asas na substância fantasiosa do sonho, segundos antes de Ícaro ser acordado pelos raios do Sol.

escrito por Jadson André

imagem de Carol Rehbein

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Escala de Baumé 0 2066

Já não se criam mais homens de barro, apesar de continuarmos nos esfarelando. É aceito que hoje somos compostos por água e ansiedade. De barro só os tijolos, com que se ergueram os muros de nossas casas e prisões. A ansiedade só cresce.

Na primeira vez em que fui visitar o Jaime na clínica ficamos em silêncio por quase uma hora, quinze anos de amizade nos poupam de certos diálogos dispendiosos. No momento de ir embora ouvi com clareza o que seus olhos me diziam, não podia abandoná-lo, e não o fiz. Na semana seguinte houve a necessidade de falar, de abraçar, de chorar; é difícil permanecer impassível quando seu colega de quarto é internado após tentar serrar os pulsos com um serrote, dessa vez era isso que seus olhos e braços me diziam. Os suicidas estão à procura de sua própria justiça, na qual a morte é a sentença final. O Jaime não era um suicida, ao menos não nos moldes convencionais, já que tomar uma garrafa de destilado por dia vinha se mostrando uma técnica efetiva para findar com sua vida. Seus sorrisos tornaram-se raros, pequenas ilhas de alívio no caos murado da instituição; os espaços cada vez menores, a alma tumultuada, a mente entulhada. Não sei o que tive mais medo de ver, se um surto ou a depressão profunda, um conforto mórbido me tomava ao vê-lo flutuar entre ambas hipóteses. Foi na décima terceira semana que decidimos que algo precisava ser feito.

Nunca concordei com essa internação, entendo-a, não é fácil para família alguma ter alguém fora de controle, mas não posso compactuar com isso. Lá fora o Jaime era a materialização da beleza na desordem, um furacão que arrasa um campo de rosas para se encher de cor, aqui ele não passa de um sopro, incapaz de espalhar as pétalas de um dente de leão. Onde esse ímpeto se perdeu? Na abstenção do álcool ou da vontade própria? Troquei minhas mágoas pela vergonha depois de descobrir o motivo de não ter sido ouvido em algumas visitas; certo dia trocaram o Jaime de quarto, sem consentimento algum ele foi amarrado em sua cama e transferido para outro cômodo, frio e com janelas menores. A crise de identidade se apossou dele, não se sentia mais um homem, era agora objeto. Não tinha mais nome, por isso não atendia quando o chamavam, tornou-se coisa, dessas que trocamos de lugar por mero paisagismo e descartamos quando causam problemas. Definitivamente, não existe amor sem empatia.

Uma hóstia podre e carcomida pelos vermes ainda é o corpo de cristo? Era a pergunta que me fazia todos os dias em que tinha que encarar um Jesus deteriorado na sala de espera da clínica. Dois mil anos com os pulsos pregados, quanto tempo mais era possível aguentar esse tipo de tortura? Na décima quarta semana cumpri com o combinado, depois que o Jaime voltou a ser alguém, a gente mergulhou num saudosismo afável, de quando éramos quem queríamos ser: bêbados que culpavam o álcool pelas próprias frustrações artísticas.

Pouco dormi na semana que antecedeu esse dia, nos momentos em que o cansaço venceu a angústia sonhei com prédios ruindo, maldito sonho que não me abandona. Deixei o carro embaixo da figueira de sempre, há quem diga que ela é a árvore da vida, também dizem que foi onde se deu o enforcamento de Judas Iscariotes. Minhas mãos suam, agora seria incapaz de dar um nó em qualquer corda. Como já me é habitual, encaro Jesus, com todas as minhas dúvidas.

Enfim chamam pelo meu nome. No caminho até o quarto o enfermeiro elogia minha decisão de trazer toddynho e trakinas para meu amigo, diz que nos últimos dias os internos passaram à pão e água, só meneio com a cabeça. É minha vez de engolir as palavras, sento em frente a ele e respondo com os olhos o seu questionamento. Trouxe? Estico a mão e lhe entrego, sinto medo, receio, vontade de me livrar logo disso e seguir em frente. Ele sorri nervosamente, a ansiedade lhe obriga a contrair seu maxilar, tomado pela dúvida, se espera o momento certo ou se entrega agora. Suo frio, quero ir embora, mas não consigo nem me levantar, nem virar o rosto, ele fura a superfície de alumínio com o canudinho e bebe tudo num gole só. Sorri com leveza, me abraça com calor, me pede pra voltar na semana seguinte. Vou embora me arrastando, as costas arqueadas carregam o peso de uma cruz, quantas mentiras conseguimos contar durante a vida?

Procuro no calendário onde foram parar os dias da semana que se foi, não há negociação, já é véspera de visita novamente. Encaro a prateleira do supermercado, água de coco ou suco de laranja? Nunca fui um bom alquimista, li dia desses que vão menos conservantes na água de coco, sei lá que diferença isso faz. A cena é cinematográfica, chego em casa e busco a sacola com meu kit, me sinto um coadjuvante de Trainspotting com uma seringa pontuda em mãos. Furo o fundo da caixinha de água de coco e retiro metade do líquido, a mão que segura a garrafa de vodka treme, encho novamente a seringa e preencho a embalagem usando o mesmo furo de antes, tapo a abertura com um pedaço milimétrico de durex. Torno a pegar a garrafa de vodka, a mão ainda tremendo, sirvo uma dose e bebo num gole só. Choro, por mim e por todos os bêbados que insistiram em criar descrença em seus queridos. Sóbrios ou não, permanecemos assistindo a ansiedade tomar conta.

Crédito da Imagem: Robert Mapplethorpe

Chegada 0 3334

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai