Trauma 0 176

Quando chega em casa, já de madrugada, Ícaro descobre que perdeu as chaves. O motorista que o trouxe desaparece repentinamente. No escuro do inverno, sozinho e sem saber o que fazer, ainda um pouco afetado pelos efeitos da festa com amigos, Ícaro olha para os dois lados da rua e percebe que a uma quadra e meia de distância, uma pessoa estranha, de capuz, caminha em sua direção. Ícaro treme, a respiração muda de frequência. Maldita hora para perder as chaves. Maldito motorista três estrelas dos infernos. Impulsivamente pula, se agarra na grade e começa escalar para alcançar o outro lado. Mas na passagem, sem que perceba, a jaqueta fica enroscada nas lanças do portão. Ao jogar o corpo para enfim acessar o jardim da casa, Ícaro sente um puxão muito forte e leva meio segundo para entender que está pendurado na grade. Com o corpo pendendo na horizontal, sem conseguir encostar as pernas no chão, vê celular e carteira deslizando dos bolsos e causando grande impacto contra a calçadinha alongada que delimita o canteiro de flores. De longe, percebe que a tela do aparelho já era. Parece uma teia de aranha escura sobre um painel de luz inferior exibindo fragmentos indecifráveis do que, há poucos instantes, era uma conversa via mensagem de texto. Ícaro ouve o tecido das roupas estralando e abruptamente bate com a cabeça no piso esguio.

 

Abre os olhos e vê apenas vultos. Ao contrário da visão insegura, seus ouvidos parecem tatear cada pedaço de matéria ao redor. Sabe exatamente a velocidade e a distância da pessoa que se aproxima apenas prestando atenção na cadência dos passos. Por alguns segundos, muito mais longos que o relógio poderia assegurar, Ícaro sente aquele gosto acre da ansiedade que sobe das entranhas pelo conduto musculoso e atinge o fundo da boca, deixando tonto e nauseabundo a ponto de quase desmaiar. Mas é apenas um transeunte noturno. Ainda sem poder enxergar direito, Ícaro percebe que o caminhante se aproxima para em seguida se distanciar sem perder o ritmo. Um viajante determinado em chegar ao seu destino. Pisaduras rígidas e ágeis, sem nunca desconsiderar as condições da superfície do terreno e mantém os passos menos ruidosos. Depois que o viandante desaparece, Ícaro percebe o quanto se deixou levar por um medo que aparentemente não lhe pertencia. Era um problema se transformado em hábito.

 

Caminha por um longo corredor, passa pelos carros no estacionamento e entra no prédio pela porta dos fundos, que só fica encostada. Tudo escuro. Os sensores de presença que acionam as lâmpadas não funcionam. Ícaro olha para o alto e vê as escadas em espiral. Sem qualquer luz acesa, o conjunto de degraus se transforma uma serpente gigantesca, congelada pela Era glacial. Um monstro abissal e sua visão noturna que deixa Ícaro em clara desvantagem. Retorna à realidade e dá mais uns passos até o início da escada. O ambiente permanece surdo. Apenas o barulho dos radiadores a vapor do sistema de aquecimento produzem ruído no subsolo. Ícaro desce até lá e, em um dos armários do almoxarifado, apanha uma chave de fenda.

 

Armado com a pequena haste de metal, se sente mais seguro e sobe até o terceiro andar. Nenhum dos vizinhos parece estar acordado. Com auxílio da lanterna do celular, que ainda funciona, Ícaro desparafusa o espelho da fechadura e consegue observar a engrenagem lá dentro. Mete a chave de fenda em uma das aberturas e após um pouco de esforço, consegue mover a lingueta para trás. Com facilidade, gira a maçaneta e o trinco é liberado. Dentro do apartamento, acende a luz e Cassandra, sua gata persa casco de tartaruga, se espreguiça em cima de uma almofada sobre a escrivaninha e pisca os olhos lentamente. “A noite parece ter sido boa, hein”, diz ela com uma voz afetuosa, mas sem perder a ironia. “Foi demais até”, responde Ícaro tirando as roupas rasgadas, para em seguida jogá-las no corredor que dá acesso ao quarto e ao banheiro. Caminha até a cozinha e pega uma garrafinha de chá gelado na geladeira. Volta e senta no sofá vestindo apenas camiseta, cuecas e as meias. Cassandra sobe em seu colo e diz, “já passa da hora de dormir, nada de assistir essa tela ai”. Ícaro não diz nada, apenas acena com a cabeça.

 

Antes de tomar o chá em três goles rápidos, ele coloca a garrafa gelada contra a lateral direita da cabeça e sente certo alívio no calombo que se formou após a queda. Uma mariposa passa voando na sala. Ícaro observa as asas e aquele voo gracioso. Cassandra dá uns pulinhos tentando em vão alcançá-la. Ícaro se levanta e vai abrir a janela para libertar o inseto. Retorna ao sofá, puxa uma manta dobrada, se cobre e dorme subitamente, ali mesmo. É atacado pelo mesmo sonho que vem tendo há dias. Lembrança confusa de uma vez em que foi assaltado. As cenas e boa parte do enredo se alteram noite após noite, apenas o temor angustiante e a imagem da arma encostada entre os olhos, seguida do estrondo seco de um disparo que nunca aconteceu, sempre são os mesmos. Uma dissociação da psiquê longe de ser sanada. Dessa vez, porém, a mariposa estava lá, batendo as asas na substância fantasiosa do sonho, segundos antes de Ícaro ser acordado pelos raios do Sol.

escrito por Jadson André

imagem de Carol Rehbein

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Dai-me Amor 0 173

Deus foi a primeira palavra que eu aprendi. Antes mesmo de aprender meu nome. Quando se é criança, os adultos tentam nos ensinar as coisas dos jeitos mais variados. Criança só aprende brincando. Minha mãe mandava eu pintar todos os “Deus” que eu achasse na Bíblia. Ela me disse que Deus sempre existiu e nunca nasceu. Perguntei como Ele se parecia. Ela disse que não sabia, pois a glória dEle é tão grande que era como olhar pro Sol. Tentei olhar pro Sol, ardeu.

Depois de pintar tudo, eu aprendi a palavra Jesus. Ela me disse que Jesus é a encarnação do amor, é quem criou todas as coisas. É filho de Deus com uma humana, Maria. Me disse que tem barba e cabelo grande. E que seu olhar muda e transforma escuridão em luz.

Mais tarde ela me falou pra pintar o “Espírito Santo” e disse que Ele não tem forma, corpo ou manifestação material. Já foi pomba no batismo de Jesus, mas também é descrito como o brilho da Glória de Deus. Ela me explicou que Deus se manifesta na trindade. E que eu podia falar com Ele(s) quando eu quisesse. Bastava orar e, é claro, com todo o respeito. E que quando eu orasse deveria confessar meus erros e pedir perdão. Deveria agradecer pelas dádivas e pela bênção da vida. Que deveria contar sobre meu dia, sobre meus medos, descobertas e felicidades. Foi assim que Jesus se tornou meu melhor amigo. Meu amigo imaginário. Meu Deus. Minha mãe me ensinou um bocado de coisas sobre a Bíblia, o céu e sobre como a vida nessa terra é passageira, é escola, é aprendizado, nada é por acaso, nada é destino. Tudo é providencial. Providência divina. Tudo de bom e tudo de ruim tem como propósito nos ensinar sobre Deus, e como Ele age em nossas vidas. Ela me contou que se eu deixasse, Ele poderia morar dentro do meu coração, e assim, o divino habitaria em mim. Disse também, que Jesus vai voltar pra levar os justos pro céu. Perguntei como eu fazia pra ir pro céu, ela me disse que imitando a Jesus, O aceitando como meu Deus e salvador, sua Graça me salvaria independente das obras. Me ensinou que só a religião dela era a correta e junto com essa religião muitas regrinhas, que eu nunca consegui seguir. Por muito tempo achei que por causa da parte que eu não cumpria, Deus não habitava em mim. Me senti perdida, vazia. Comecei a me odiar. Acelerar minha morte. A vida muitas vezes deixa de fazer sentido. Acontece que eu sou muito como Tomé, só acredito vendo. E como acreditar em alguém que eu só ouvi falar e que ninguém nunca viu? Com nove anos veio a primeira dúvida sobre a volta de Jesus. Junto com a dúvida veio a primeira vez que senti Deus falando comigo. Foi diferente de pensar. Foi quase como ouvir palavras que não foram pensadas. Eu ouvi: “Não desista, porque Eu não desisti de você”. Depois desse episódio nunca mais ouvi ele nos meus pensamentos, achei que era coisa de criança ter amigos imaginários, mas vira e mexe alguém usado por Ele me lembrava sobre não desistir de conhecê-Lo e procurá-Lo. E nessa eu vi que Ele não estava na religião. Não estava em uma igreja específica, não era o “não pode” tão popular. Compreendi o que significava Graça e aceitei a minha salvação. Aceitei a trindade e aceitei a minha mãe. Compreendi que amar nada tem haver com sexo ou paixão. Amor transcende toda essa metáfora feita de carbono que chamamos de realidade. Aceitei meu corpo, que foi presente de Deus pro meu espírito habitar. Espírito esse que saiu dEle.

A segunda vez que Deus falou comigo eu já não era mais criança, foi quando percebi que Deus não é religião e um bocado de regrinhas. Ele está onde há luz. E Ele deixou luz em tudo. Tomei um chá com Ele. Meu espírito saiu do corpo e subiu. Contemplei a Glória divina e senti meu espírito ir alto e mais alto. Eu vi a Deus e diferente do que minha mãe dizia, é como olhar pro Sol, mas os olhos não ardem. E Ele me disse: você é um anjo. Você é luz! Você está pronta!

Mateus 5:8 “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.”

 

 

Vida comum parte 1 0 318

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.