Desfile 0 589

Não há ninguém perto de você.

 

Vanessa pousa o celular sobre a bancada, desce as calças até a altura dos joelhos, senta-se na privada, sem poder esconder o incômodo com o frio, e pensa um pouco no absurdo daquela frase. Antes de começar a fazer força, ela volta a manusear o aparelho, alterando suas preferências de idade.

O festival de homens medíocres recomeça. São muito gordos, muito magros, muito feios ou ainda uma bizarra combinação destas três características (muito gordo E muito magro ao mesmo tempo, a diversidade humana não conhece limites, pensa Vanessa). A foto sem camisa, para mostrar o diâmetro dos braços, é a única constante. Vanessa pensa nessa ironia. Com seus 55 quilos e do alto de seus 1,65 metros de altura, ela não teria coragem de publicar uma foto de biquíni nesse tipo de aplicativos.

 

*splash

It´s a match!

 

A tela diz que ele se chama Marcos e em uma das fotos aparece segurando um cartaz escrito Fora Temer, ela pensa que isso é o suficiente para elevá-lo acima dos descamisados de sempre.

Marcos diz oi, quer tc? só o que eu sei sobre você é que você gosta dos pores do sol. Ela gosta do que lê. Ele parece um homem sincero. Talvez até demais. Quase chega a ser cara de pau, e ainda parece ter algum senso de humor e autoironia.

Vanessa tem vontade de responder que até que ele já sabe o bastante. De qualquer forma, sabe mais do que alguns de meus ex-namorados. Mas, justo neste instante, a água do vaso respinga com mais força, molhando suas nádegas. Na verdade não me sinto atraente o suficiente para retribuir o flerte, ela pensa, depois eu te respondo, ela diz à tela.

Quando Vanessa termina, o assento já está quentinho e confortável, e ela decide passar mais umas fotos antes de se levantar. De repente.

 

Não há ninguém perto de você.

 

O ponto final da frase lhe confere um incômodo ar definitivo. Ela se sente tomada por uma mistura de solidão e indignação. Resolve o problema da solidão com um raciocínio bastante simples. Estou no banheiro de casa, se não tem ninguém aqui perto, tanto melhor para todos os envolvidos.

O mal estar pela indignação é bastante mais indigesto. Em um ato de extrema revolta, ela diz que vive em uma das maiores cidades de um mundo com sete bilhões de habitantes, não faz sentido algum aquela afirmação.

O celular permanece impassível. Da foto de perfil de Vanessa partem círculos concêntricos, como as ondas de um radar, em busca de pessoas que atendam as configurações de Vanessa. E como quem está apenas fazendo seu trabalho, ele repete.

 

Não há ninguém perto de você.

 

Os enunciados performativos desempenham uma das funções mais complexas da linguagem. Com eles é possível criar ou alterar realidades. É por meio da função performativa que a sentença judicial declarando a culpa do réu converte, num passe de mágica, um cidadão respeitável em um criminoso.

Com a gravidade de um magistrado que bate o martelo, o celular-juiz repete que não há ninguém perto de Vanessa. Aquele verbo haver incomoda tanto. Tudo é terminativo e definitivo demais. Não há apelação possível contra um verbo que ninguém sabe conjugar.

Percebe, por fim, que está teorizando demais para não lidar com suas responsabilidades. É que a força dos enunciados performativos se concentra nas qualidades que se atribui ao emissor. Sou eu quem se importa com o que diz o aplicativo. Sou eu que me sinto só quando ele diz que estou só. Eu desejo desinstalar o app, ela diz ao celular, você tem certeza disso, o dispositivo pergunta, eu estou certa disso. Seu desejo é uma ordem, o celular ouve e obedece.

 

*ussshhuóóórlll

 

Ela observa enquanto a água trabalha para levar o passado embora. Lá se vão Caio, o mochileiro que só falava de si, Geraldo, o advogado que reclamou de mulheres que usam maquiagem, Miguel, que buscava uma companheira para um trio com a namorada, e Marcos, o manifestante de 32 anos.

Por um instante, Vanessa se lamenta. Marcos parecia um encontro interessante. Mas sem arrependimentos, ela pensa hoje quero estar sozinha, tanto melhor que não haja ninguém perto de mim.

 

 

texto: Marcelo Silveira
ilustração: Nina Zambiassi

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Escala de Baumé 0 569

Já não se criam mais homens de barro, apesar de continuarmos nos esfarelando. É aceito que hoje somos compostos por água e ansiedade. De barro só os tijolos, com que se ergueram os muros de nossas casas e prisões. A ansiedade só cresce.

Na primeira vez em que fui visitar o Jaime na clínica ficamos em silêncio por quase uma hora, quinze anos de amizade nos poupam de certos diálogos dispendiosos. No momento de ir embora ouvi com clareza o que seus olhos me diziam, não podia abandoná-lo, e não o fiz. Na semana seguinte houve a necessidade de falar, de abraçar, de chorar; é difícil permanecer impassível quando seu colega de quarto é internado após tentar serrar os pulsos com um serrote, dessa vez era isso que seus olhos e braços me diziam. Os suicidas estão à procura de sua própria justiça, na qual a morte é a sentença final. O Jaime não era um suicida, ao menos não nos moldes convencionais, já que tomar uma garrafa de destilado por dia vinha se mostrando uma técnica efetiva para findar com sua vida. Seus sorrisos tornaram-se raros, pequenas ilhas de alívio no caos murado da instituição; os espaços cada vez menores, a alma tumultuada, a mente entulhada. Não sei o que tive mais medo de ver, se um surto ou a depressão profunda, um conforto mórbido me tomava ao vê-lo flutuar entre ambas hipóteses. Foi na décima terceira semana que decidimos que algo precisava ser feito.

Nunca concordei com essa internação, entendo-a, não é fácil para família alguma ter alguém fora de controle, mas não posso compactuar com isso. Lá fora o Jaime era a materialização da beleza na desordem, um furacão que arrasa um campo de rosas para se encher de cor, aqui ele não passa de um sopro, incapaz de espalhar as pétalas de um dente de leão. Onde esse ímpeto se perdeu? Na abstenção do álcool ou da vontade própria? Troquei minhas mágoas pela vergonha depois de descobrir o motivo de não ter sido ouvido em algumas visitas; certo dia trocaram o Jaime de quarto, sem consentimento algum ele foi amarrado em sua cama e transferido para outro cômodo, frio e com janelas menores. A crise de identidade se apossou dele, não se sentia mais um homem, era agora objeto. Não tinha mais nome, por isso não atendia quando o chamavam, tornou-se coisa, dessas que trocamos de lugar por mero paisagismo e descartamos quando causam problemas. Definitivamente, não existe amor sem empatia.

Uma hóstia podre e carcomida pelos vermes ainda é o corpo de cristo? Era a pergunta que me fazia todos os dias em que tinha que encarar um Jesus deteriorado na sala de espera da clínica. Dois mil anos com os pulsos pregados, quanto tempo mais era possível aguentar esse tipo de tortura? Na décima quarta semana cumpri com o combinado, depois que o Jaime voltou a ser alguém, a gente mergulhou num saudosismo afável, de quando éramos quem queríamos ser: bêbados que culpavam o álcool pelas próprias frustrações artísticas.

Pouco dormi na semana que antecedeu esse dia, nos momentos em que o cansaço venceu a angústia sonhei com prédios ruindo, maldito sonho que não me abandona. Deixei o carro embaixo da figueira de sempre, há quem diga que ela é a árvore da vida, também dizem que foi onde se deu o enforcamento de Judas Iscariotes. Minhas mãos suam, agora seria incapaz de dar um nó em qualquer corda. Como já me é habitual, encaro Jesus, com todas as minhas dúvidas.

Enfim chamam pelo meu nome. No caminho até o quarto o enfermeiro elogia minha decisão de trazer toddynho e trakinas para meu amigo, diz que nos últimos dias os internos passaram à pão e água, só meneio com a cabeça. É minha vez de engolir as palavras, sento em frente a ele e respondo com os olhos o seu questionamento. Trouxe? Estico a mão e lhe entrego, sinto medo, receio, vontade de me livrar logo disso e seguir em frente. Ele sorri nervosamente, a ansiedade lhe obriga a contrair seu maxilar, tomado pela dúvida, se espera o momento certo ou se entrega agora. Suo frio, quero ir embora, mas não consigo nem me levantar, nem virar o rosto, ele fura a superfície de alumínio com o canudinho e bebe tudo num gole só. Sorri com leveza, me abraça com calor, me pede pra voltar na semana seguinte. Vou embora me arrastando, as costas arqueadas carregam o peso de uma cruz, quantas mentiras conseguimos contar durante a vida?

Procuro no calendário onde foram parar os dias da semana que se foi, não há negociação, já é véspera de visita novamente. Encaro a prateleira do supermercado, água de coco ou suco de laranja? Nunca fui um bom alquimista, li dia desses que vão menos conservantes na água de coco, sei lá que diferença isso faz. A cena é cinematográfica, chego em casa e busco a sacola com meu kit, me sinto um coadjuvante de Trainspotting com uma seringa pontuda em mãos. Furo o fundo da caixinha de água de coco e retiro metade do líquido, a mão que segura a garrafa de vodka treme, encho novamente a seringa e preencho a embalagem usando o mesmo furo de antes, tapo a abertura com um pedaço milimétrico de durex. Torno a pegar a garrafa de vodka, a mão ainda tremendo, sirvo uma dose e bebo num gole só. Choro, por mim e por todos os bêbados que insistiram em criar descrença em seus queridos. Sóbrios ou não, permanecemos assistindo a ansiedade tomar conta.

Crédito da Imagem: Robert Mapplethorpe

Chegada 0 1942

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai