Voz 0 135

Hoje, cheguei em casa e tive que permanecer no escuro por uma hora ouvindo música alta, na intenção de fazer minha mente mudar de velocidade, de assunto e de fugir dos pensamentos rotineiros. Foram dez aulas, volto pra casa e continuo ouvindo as vozes… ”Professora isso… Professora aquilo”. É um ritmo frenético, vivo. Participar da rotina de tantos alunos com faixas etárias tão diferentes anda me consumindo.

No começo foi legal, a curiosidade é combustível pra minha mente. Eu já sabia que escolher seguir o caminho da licenciatura me obrigaria a driblar o salário ruim, a falta de amparo do estado, as salas lotadas de alunos que precisam de um tratamento diferenciado e inclusivo, pais que dão mais trabalho que os filhos, a ignorância massificada, os celulares fora de hora e, é claro: a constante falta de interesse e de vontade em obter conhecimento por parte dos alunos. Em 50 minutos você precisa dar conta da burocracia escolar, do conteúdo acadêmico, inspirando, mediando essas informações de maneira que a aprendizagem aconteça em uma sala de 30 ou 50 alunos, que não prestam atenção ao mesmo tempo. O que se ganha em troca? Uma cirurgia nas cordas vocais para ser marcada em um sábado de manhã. Minha voz está desaparecendo. Parece assustador e realmente é. Pra que sofrer tanto nesse teatro educativo do sistema? O trabalho levado com seriedade desaparece, já não o vejo mais.

 

Hoje, limpando as mesas da sala de Artes, me vi como uma garçonete. A cada toque do sinal, trocam as turmas, os alunos se acomodam nas mesas para oito pessoas e ali ficam levantando a mão e fazendo pedidos, sejam explicações ou materiais para a realização das atividades. O sinal bate novamente, antes de a outra turma chegar, já limpei todas as mesas. Pela primeira vez nesses três anos, me perguntei, “o que estou fazendo aqui?”

 

E as vozes não param e já não penso mais com a minha voz, penso com a voz dos alunos que ficam me chamando e, às vezes, escuto tão alto na mente que acho que estou ficando louca e, quem sabe, esse seja um pré-requisito pra se aventurar pelos caminhos da realidade da educação brasileira.

 

Ali no escuro, quando cheguei em casa, esses pensamentos foram se dissipando e cada vez mais minha mente era preenchida pela música. Precisei respirar fundo incontáveis vezes, mas sem sucesso, não me senti viva. Permaneci ali e perdi a noção de tempo e espaço. De repente me percebi dançando no escuro, imaginava aquele menino barbudo, aquele que sempre toma muito cuidado com as palavras, meu tipo preferido de gente, sempre invejei quem sabe o que fala. Barbinha bonita, quis sentir mais de perto. De olhos fechados visualizo tudo. Percebo-me ali, egoísta de novo. Envergonho-me. Fervo. Continuo respirando. Eu tento não ouvir as vozes, eu quero silêncio, as vozes estão cada vez mais fracas, ainda não consigo ouvir minha voz, penso na cirurgia. Se os três primeiros anos foram assim, imaginem os próximos 22! Não. Volta a imagem do menino barbudo, me olhando aquela vez no elevador. Na liberdade da minha imaginação, dessa vez, ele usa gravata-borboleta e, quando nos despedimos, no abraço… isso! Congelei ali.


Às vezes acontece assim, os ícones de liberdade que criamos com toda essa massa disforme que chamamos de novela humana. Em 1830, a liberdade é ilustrada pela mulher despida guiando o povo. Em outras épocas é o menino de barba no elevador. Maldito escapismo de merda, malditas crises, viva a revolução. Viva o silêncio, as vozes quase nem ouço, hora de planejar as aulas de amanhã. Ascendo luz e penso nas férias. Não, ainda falta tempo, esses duzentos dias letivos são intermináveis, lá pelo dia cem, você já não suporta ouvir as mesmas vozes falando cada vez mais alto, enquanto sua própria voz já se foi, já nem é mais ouvida. Se eu mesma não consigo ouvir, imagine os outros? Me imagino como um palhaço em frente à classe. Não estou sentindo vocação para esse teatro ridículo. No começo achava que era mais. Anoto na agenda a rotina de amanhã, o pensamento que me conforta é que vai acabar rápido. Ultimamente esse pensamento tem se mostrado cada vez mais fraco. Meu corpo e minha mente querem silêncio.

 

Texto: Livro dos Novos III, 2016. Ilustração: Nó nas cordas vocais, 2017. Caroline Rehbein

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maculada 0 203

Tenho cá pra mim que deveria ser obrigatório parar pra saborear a lua por uns minutos quando ela está imensa lá no céu. Deveria ser mesmo uma lei: não admirou a lua cheia nesta quinta-feira? Vem a multa pelo correio. Não deu uma mordidinha sequer durante toda a semana? Vem a polícia da lua até a sua casa para ver o que se passa. Algo não está a correr bem.

Naquela época, as coisas não estavam mesmo bem. Quando as manchas começaram a aparecer , foi um desespero. Google, médicos, Google, exames, Google, dermatologistas, diagnósticos, tratamentos. Céus! Não era coisa que se pudesse esconder, aí é que estava o medo. Na pele. O medo era feito de manchas e as manchas eram feitas de medo. Céus! Foi minha família que me segurou, se não eu não aguentava. Juro que não aguentava. Eu queria quebrar os espelhos, queria que as selfies não estivessem mais na moda. Que as pessoas fossem um pouco mais cegas dos olhos e menos do coração.

Então uma vez estávamos eu e a minha filha sentados na varanda da casa de veraneio. Começava a anoitecer. Ela tinha nessa época uns sete anos de idade e um mundo inteiro por descobrir.  Admirávamos o céu, como há muito tempo eu não fazia.

Ela disse: “Olha, mãe, a lua tem manchas igual você”.

E depois: “Ela é linda, não é?”

E então a lua que move marés formou um oceano inteiro dentro dos meus olhos.

Nunca estivera tão feliz. Abracei a pequena; clarear a noite dela me bastava. Porque eu era também o reflexo do reflexo. Destas luas que não ficam bem em qualquer foto. Destas que têm manchas e crateras, sim, mas que balançam os mares e iluminam toda uma vida. E que giram e giram e giram e às vezes cometem suspiros dentro do peito dos poetas.

 

Murilo.

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”