Bairro Alto 1 203

Carla olha pela janela do ônibus e pensa que odeia o inverno. Ela odeia o inverno não pelos seus efeitos, mas pela sua essência. Na verdade, ela adora dormir envolta em incontáveis cobertores, vestir pesados casacos, comer pinhão, principalmente daqueles que ela e os pais recolhem quando as pinhas despencam da araucária no terreno baldio da rua, tomar sopa, chocolate quente, chimarrão. Basicamente, tudo lhe parece mais gostoso no inverno. Ainda assim, ela o odeia.

“Paaai! Eu tive um sonho ruim.”

Quando pequena, era comum que despertasse durante a noite, perturbada pela solidão, pelo escuro e por criaturas que poderiam ou não existir. Carla jamais dizia “pesadelo”. Pensava que se o fizesse, seu “sonho ruim” se tornaria de alguma forma mais real, ou mais perene. Seu pai ou sua mãe se deitavam a seu lado até que ela dormisse, e os fantasmas que habitam os sonhos ruins partiam. Crianças têm medo de fantasmas, fantasmas têm medo de adultos, era o pensamento que a tranquilizava.

Para Carla, o inverno tem muito pouco a ver com as baixas temperaturas. As estações têm relação apenas com o ângulo de incidência do sol na terra. Ela odeia que a luz chegue obliquamente, porque anoitece mais cedo e, mesmo quando lhe toca o turno da tarde no trabalho, ela precisa caminhar no escuro as duas quadras que separam a parada de ônibus de sua casa, a mesma em que vive desde a infância.

O ônibus avança e Carla repara nas sombras e como elas mudam de forma e tamanho. As mesmas sombras que irão persegui-la naqueles 300 metros até o portão de casa. Ela tem vontade de encarar o medo bem nos olhos e dizer que dessa vez não, que ela o viu chegar primeiro e hoje não se assustará. Mas não consegue, prefere fingir que o medo não existe. Quem sabe assim ele deixa mesmo de existir.

“Mãnhê, eu descobri um jeito de não ter medo de noite!”

Aos cinco anos, Carla já se considerava grande demais para dormir com seus pais, até se perguntava o que seus colegas pensariam se soubessem que, à noite, ela os chamava e que eles se deitavam consigo até que ela pegasse no sono. Por isso, na manhã do dia em que desenvolveu o método para se proteger das garras sombrias que estavam sempre à espreita, a menina estava mais falante do que nunca. Queria explicar ponto a ponto que quando ela se cobria a cabeça, os monstros não podiam tocá-la, como se assim ela mergulhasse tão profundamente no escuro, que ficava longe de qualquer ameaça.

Ela olha ao redor do ônibus, procurando a garota que trabalha na loja de roupas do shopping e que vive algumas casas à frente. Curitibanos não sabem o nome de seus vizinhos, é verdade, mas entre as duas há aquela cumplicidade que só se desenvolve entre duas pessoas que enfrentam e vencem batalhas juntas. Quando a menina está no ônibus, Carla para diante de sua casa e se demora, faz de conta que procura na bolsa a chave do cadeado (o portão está sempre aberto, para que ela não precise se preocupar com isso), até que a companheira esteja segura. De qualquer forma, hoje Carla terá de fazer o trajeto sozinha.

Aos 30 anos já não pode se dar o luxo de inventar um método mirabolante que magicamente a proteja. Só pode contar com suas pernas para correr se percebe a presença de um homem desconhecido naquelas duas quadras que o inverno transformou em penumbra antes mesmo das 7 da tarde. O ônibus faz a conversão à esquerda para entrar no bairro, enquanto ela se levanta para solicitar a parada no próximo ponto.

Ela desce os degraus e tenta se convencer de que não há risco algum. Carla se lembra das inúmeras reuniões do grupo de discussão de gênero. Ela sabe que a maior parte das violações sexuais são cometidas por conhecidos, normalmente algum parente próximo, e não por estranhos em becos escuros. É inútil, as pernas tremem a cada passo.

São apenas duas quadras. A teoria da relatividade diz que tempo e espaço são relativos, e podem se contrair ou se expandir. Ela quase ri ao pensar que os homens mais ilustrados da história levaram séculos de observação para perceber um fenômeno que qualquer mulher vive diariamente.

“Boa noite. Durma bem. Te amo. Até logo.”

Era assim que a pequena Carla se despedia dos pais quando eles iam a sua cama desejar-lhe boa noite. Ela não queria que eles fossem embora, e “tchau” parecia uma expressão muito definitiva. Às sete horas e cinquenta e nove minutos da manhã ela se levantava e descia as escadas para encontrar os pais tomando café. Tomava o seu com leite e açúcar, convencida de que essa cena se repetia graças à força daquela profecia: “Até logo.”

À medida em que se aproxima do destino, seus passos ganham segurança. Não quer que os pais saibam que ela ainda é a mesma garota assustada que fora quando criança. Quando chega, alcança flagrar o rosto da mãe na janela, escondendo-se atrás da cortina. Ato contínuo, seu pai abre a porta e acende as luzes exteriores. Esta noite, todos dormem bem.

Ilustração: Talitta Reitz

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Cruzeiro do Sul 0 106

Para Gal

 

Navegar pelo mar Mediterrâneo ou pelos outros mares interiores da pequena Europa era relativamente seguro. As distâncias sempre foram curtas e, mesmo durante as noites, Alfa de Ursa Menor oferecia aos marinheiros uma orientação segura. Todas as estrelas e constelações do hemisfério norte orbitam em torno da estrela polar e a partir dela se sabia para onde ir ou qual direção evitar.

– Você é o brasileiro mais calado que eu conheço, sabia?

– Isso não é muito, sou o único brasileiro que você conhece.

– Não é verdade. Não te contei que eu morei dois anos em Salvador?

– Ah, então é por isso. Eu sou de Curitiba, e os curitibanos não falam muito.

– Mas eu também vivi em Curitiba, por seis meses. Dava aulas de inglês em uma escola de línguas. Eles nunca me pagaram e depois disso passei uma temporada trabalhando na Ilha do Mel. E insisto que você fala muito pouco.

Os silêncios de Antonio a desesperaram desde o primeiro contato. É que apesar dele sempre ter demonstrado interesse, e de que ao longo de toda a convivência sempre tenha sido tão atencioso quanto um companheiro pode ser, ela sentia que as palavras eram a forma mais eficiente para se evitar qualquer mal entendido. Aprendeu cedo que suas atitudes eram condicionadas pelos seus discursos e, por isso, ao longo de seus relacionamentos descobriu o quanto os homens tentam por meio das palavras (ou da falta delas) manter sua liberdade de ação.

Por isso, cada demonstração de afeto desacompanhada da correspondente declaração lhe provocava calafrios. Ainda pior era ver que tinha se interessado, outra vez, por um desses homens que abraçam pouco e falam menos ainda.

– Me dá um beijo?

– Bobo, há coisas que não se pergunta.

– Mas como eu posso conseguir coisas quando elas dependem de outras pessoas?

– Aí você tem que ter a coragem de tomar uma atitude e esperar que seja correspondido.

Para ele, eram justamente as palavras que provocavam os males entendidos. Tinha muita dificuldade em traduzir ao português, e depois ao inglês, ao espanhol, ao francês, o alcance e a intensidade de seus desejos, medos e aspirações mais profundas. Acreditava sinceramente que o olhar, o sorriso e a expressão corporal eram representações muito mais inequívocas de todos os conflitos pelos quais passava.

– Me escreve uma carta?

– Esqueceu que há coisas que não se pergunta?

– Eu sei, mas eu quero uma carta. Além do mais, você é que tem que tomar a iniciativa.

– Mas eu tomei, até pedi um beijo.

Ao fim e ao cabo, ele conseguiu não só um, mas incontáveis beijos. Molhados de saliva, molhados de suor, molhados de lágrimas. Doces, salgados, amargos. Distantes, próximos, falados, abraçados. Bianca também conseguiu mais cartas do que qualquer pessoa que houvera conhecido. Cartas enviadas de outras cidades, outros países, outros continentes. Cartas pretéritas, presentes, futuras, perfeitas e mais-que-perfeitas. Algumas sequer lhe eram endereçadas, mas à mulher que um dia havia sido, ou à mulher que talvez viesse a ser.

Abaixo da linha do equador existe outro mundo. A estrela polar desaparece no horizonte e mesmo as constelações conhecidas abandonam seu comportamento habitual. Nas noites de outono o imponente caçador Órion descansa deitado, acompanhado das Três Marias que compõem seu cinturão.

Do lado de cá nada é seguro como do lado de lá. Mesmo o Cruzeiro do Sul, que serve de bússola com seu ponteiro indicando o meridiano, nasce no leste e se põe no oeste como todos os corpos celestes. Há pouco espaço para certezas quando se navega por águas desconhecidas.

Daqui é curioso olhar que Antonio e Bianca inverteram as posições. Não porque seja um fenômeno particularmente comum em relacionamentos tão duradouros, mas porque a intromissão de um terceiro elemento sempre provoca transformações profundas.

Agora é Antonio quem busca estar sempre por perto e, ao sentir que a pouca distância ainda é muito longe, se agarra desesperadamente às palavras. Fala sobre as estrelas e as constelações, e como elas não são as mesmas nos dois hemisférios. Fala sobre o regime das marés, e como eles são influenciados pelos movimentos lunares. Fala tão corretamente quanto possível, cuidando da colocação pronominal, muito mais complicada no português do que em qualquer outro idioma que conhece.

E diante da impotência em estabelecer o contato que tanto busca, se vê refletido nos olhos dela. Tenta entrar, e fala que vai cuidar de tudo. Não como quem sabe que pode cuidar de tudo. Nem como quem acha que pode cuidar de tudo. Sequer como quem acredita que pode cuidar de tudo. Fala que vai cuidar de tudo como quem implora permissão para cuidar de pelo menos uma parte de tudo o que pode acontecer dali em diante.

Para ela, as palavras já perderam muito do seu sentido. Não é insensível à cena. Tampouco é demasiado tarde para ele. Mas ela sentiu no próprio corpo o amor que ali cresceu nos últimos meses, e percebe que ele não precisa de linguagem para se expressar.

Como um marinheiro perdido, Antonio assiste cada nova estria com o mesmo estupor com que os antigos navegantes miravam o céu sem a estrela polar. Compara aquela esfera crescente com o universo em expansão e busca, nas novas formas e desenhos, algum sentido de orientação. É inútil, os dias passam e ele não sabe o que esperar.

Ela o surpreende com um olhar grato e condescendente. A gratidão por saber que tem ao seu lado a melhor pessoa possível, e a condescendência de quem sabe que pode caminhar sozinha, mas prefere ter alguém com quem compartilhar a experiência.

Esse olhar o deixa mais tranquilo. Entende que talvez não possa cuidar de tudo, mas terá o seu espaço. Afinal, lá fora estão o céu, as estrelas, as luas e as marés, tudo por ser explicado e entendido. E tudo recomeça.

Demônio de Fausto 0 91

De todas as histórias que me propus  a contar, nenhuma terá tanto a dizer quanto aquele relato trapaceiro embaixo da ponte do Canal. Foi a história mais absurda que poderia ter descrito. Quando olhei pela janela hoje cedo e vi o céu, tive ainda mais certeza: era tudo verdade.

Meu interlocutor? Pergunta fácil. Audiente muito ilustre, vindo de um canto escondido do cosmos somente para aquela sessão rápida e informal. Talvez, por esse motivo, estava alvoroçado e um tanto irritado. Podia ser só arrelia da viagem também. Minha assimilação foi afetada primeiro pela surpresa da visita (eu estava caminhando perto da ponte do Canal sem a intenção de encontrar quem quer que fosse e por vezes tinha fugido da vista de um ou outro conhecido); depois, pela soberba daqueles olhos lancinantes, cravados em um rosto comprido, bochechas vincadas e testa escondida pela franja. Cabelo oleoso, sufocado por um pork pie hat preto. Ao contrário do que fez em sua última visita, desta vez não veio acompanhado da gangue de pequenos demônios orientados tão somente pelo espetáculo e pela inveja. O coro era solo.

“Alguma coisa precisa mudar meu jovem. Alguma coisa nessa sua vida de merda precisa ser movimentada com urgência!”

“Você deveria me dar conselhos ruins, via de regra, não?!”

“Cala a boca pirralho. Você acha que brilha!”

“Desculpa.”

“Escute aqui, prepara essa cabeça. Nessa sua próxima história pode até ter um amorzinho, mas no fim, a única justificativa para tudo precisa ser a aniquilação. Nada desse papo otimista, dessa merdarada futurista. Você tá me entendendo? O barulho tem que ser tão forte que os cérebros derretam instantâneamente e escorram através dos olhos, ouvidos, nariz e até pela boca. Quero cenas de terror. Violência gratuita. Tá me entendendo, pirralho?!”

“Tá bom cara, porra, não precisa insistir tanto desse jeito. Já saquei qual vai ser dessa vez: vou pintar um quadrão vermelho, cheio de tripas. Se é o que você quer, vamo ai.”

“Isso, isso mesmo. Nada de suspense psicológico, nada de aventura com desfecho ‘mais ou menos’. E chega de misticismo. Nada de enigmas, signos justapostos, pistas para o tesouro, nada de referência sem vergonha, muito menos esse negócio de diarinho lírico do cotidiano. Vai pro pau! EU QUERO PORRADA! Tá entendendo?!”

“Mas na última história já deixamos ouvidos sangrando e cérebros quase explodindo. Essa parada de tripas tá ficando manjada também. Livro sobre jantar canibal, sobre suicídio, tudo isso tá muito modinha, saca? Até aquele plot de personagens abandonados à própria sorte em um vilarejo macabro tá virando filme de Hollywood classificação doze anos. Ainda bem que o politicamente correto começou a morrer depois do mandato do Obama, ninguém aguenta mais essa onda de bom-mocismo. Além de ser hipócrita, pasteuriza TUDO.”

“Beleza cara. Ok, ok e ok! Não precisa ser tão de graça então. Pode ser algo mais sutil, mas mesmo assim, tem que ser algo de virar o estômago.”

“Faz tempo que tô pensando em fazer uma história sobre guerra química. Tá meio oportuno, eu diria. E se a gente fizesse algo com cianeto no meio?”

“Cianeto cara, sério?! Você é muito previsível mesmo. Cianeto é para suicídio gourmet. Coisa pra gente famosa, do calibre de Horácio Quiroga, do Hitler e da horda dele. Cianeto é veneno pra historinha de anarquista sérvio, eu quero mesmo é mostarda nitrogenada, aí sim a coisa fica interessante.”

“Meu caralho! Tu quer bagunçar as personagens nesse nível? Corre o risco de virar um show de bizarrice sem fim.”

“Sim cara, eu falei para você abrir essa sua cabecinha de merda. Falei que a porrada tinha que ser intensa. A primeira cena que me vêm à cabeça é uma imagem com as personagens ardendo após uma explosão daquela gosma amarronzada com cheiro de peixe. Imagina a galera sufocando, com os olhos fumegantes e a pele cheia de bolhas. Quero todo mundo com feições cancerígenas, como se tivessem saído de um filme do Cronenberg. O resto do enredo você constrói aí. Já te dei quase tudo de graça.”

“Certo, entendi.”

“E quero que seja em um lugar menos estigmatizado também, para causar impacto. Pode ser em um contexto abastado e pacífico, foda-se que vai perder um pouco da verossimilhança. Caso você não se esqueça daquela astúcia essencial, tudo vai terminar bem mal, com direito a aplausos. E não se esqueça eim, sem entregar muito a história até que tudo esteja se aniquilando em bolhas de linfa. Destrua uma coisa bonita que eu quero ver.”

Mefistófeles de Fausto e seu chapéu preto desapareceram antes mesmo da minha resposta. Não sei se terei os vinte e quatro anos sem envelhecer concedidos ao mago alemão ou se meus manuscritos nunca irão arder nas chamas, como os do dramaturgo russo. O fato é que coordenei as pontas de meus dedos sobre o teclado e não sei quando irei parar. Certamente será a história mais absurda que já contei. E, no final, vou dizer com insolência atrevida: era tudo verdade.

Texto de Jadson André