Bairro Alto 1 374

Carla olha pela janela do ônibus e pensa que odeia o inverno. Ela odeia o inverno não pelos seus efeitos, mas pela sua essência. Na verdade, ela adora dormir envolta em incontáveis cobertores, vestir pesados casacos, comer pinhão, principalmente daqueles que ela e os pais recolhem quando as pinhas despencam da araucária no terreno baldio da rua, tomar sopa, chocolate quente, chimarrão. Basicamente, tudo lhe parece mais gostoso no inverno. Ainda assim, ela o odeia.

“Paaai! Eu tive um sonho ruim.”

Quando pequena, era comum que despertasse durante a noite, perturbada pela solidão, pelo escuro e por criaturas que poderiam ou não existir. Carla jamais dizia “pesadelo”. Pensava que se o fizesse, seu “sonho ruim” se tornaria de alguma forma mais real, ou mais perene. Seu pai ou sua mãe se deitavam a seu lado até que ela dormisse, e os fantasmas que habitam os sonhos ruins partiam. Crianças têm medo de fantasmas, fantasmas têm medo de adultos, era o pensamento que a tranquilizava.

Para Carla, o inverno tem muito pouco a ver com as baixas temperaturas. As estações têm relação apenas com o ângulo de incidência do sol na terra. Ela odeia que a luz chegue obliquamente, porque anoitece mais cedo e, mesmo quando lhe toca o turno da tarde no trabalho, ela precisa caminhar no escuro as duas quadras que separam a parada de ônibus de sua casa, a mesma em que vive desde a infância.

O ônibus avança e Carla repara nas sombras e como elas mudam de forma e tamanho. As mesmas sombras que irão persegui-la naqueles 300 metros até o portão de casa. Ela tem vontade de encarar o medo bem nos olhos e dizer que dessa vez não, que ela o viu chegar primeiro e hoje não se assustará. Mas não consegue, prefere fingir que o medo não existe. Quem sabe assim ele deixa mesmo de existir.

“Mãnhê, eu descobri um jeito de não ter medo de noite!”

Aos cinco anos, Carla já se considerava grande demais para dormir com seus pais, até se perguntava o que seus colegas pensariam se soubessem que, à noite, ela os chamava e que eles se deitavam consigo até que ela pegasse no sono. Por isso, na manhã do dia em que desenvolveu o método para se proteger das garras sombrias que estavam sempre à espreita, a menina estava mais falante do que nunca. Queria explicar ponto a ponto que quando ela se cobria a cabeça, os monstros não podiam tocá-la, como se assim ela mergulhasse tão profundamente no escuro, que ficava longe de qualquer ameaça.

Ela olha ao redor do ônibus, procurando a garota que trabalha na loja de roupas do shopping e que vive algumas casas à frente. Curitibanos não sabem o nome de seus vizinhos, é verdade, mas entre as duas há aquela cumplicidade que só se desenvolve entre duas pessoas que enfrentam e vencem batalhas juntas. Quando a menina está no ônibus, Carla para diante de sua casa e se demora, faz de conta que procura na bolsa a chave do cadeado (o portão está sempre aberto, para que ela não precise se preocupar com isso), até que a companheira esteja segura. De qualquer forma, hoje Carla terá de fazer o trajeto sozinha.

Aos 30 anos já não pode se dar o luxo de inventar um método mirabolante que magicamente a proteja. Só pode contar com suas pernas para correr se percebe a presença de um homem desconhecido naquelas duas quadras que o inverno transformou em penumbra antes mesmo das 7 da tarde. O ônibus faz a conversão à esquerda para entrar no bairro, enquanto ela se levanta para solicitar a parada no próximo ponto.

Ela desce os degraus e tenta se convencer de que não há risco algum. Carla se lembra das inúmeras reuniões do grupo de discussão de gênero. Ela sabe que a maior parte das violações sexuais são cometidas por conhecidos, normalmente algum parente próximo, e não por estranhos em becos escuros. É inútil, as pernas tremem a cada passo.

São apenas duas quadras. A teoria da relatividade diz que tempo e espaço são relativos, e podem se contrair ou se expandir. Ela quase ri ao pensar que os homens mais ilustrados da história levaram séculos de observação para perceber um fenômeno que qualquer mulher vive diariamente.

“Boa noite. Durma bem. Te amo. Até logo.”

Era assim que a pequena Carla se despedia dos pais quando eles iam a sua cama desejar-lhe boa noite. Ela não queria que eles fossem embora, e “tchau” parecia uma expressão muito definitiva. Às sete horas e cinquenta e nove minutos da manhã ela se levantava e descia as escadas para encontrar os pais tomando café. Tomava o seu com leite e açúcar, convencida de que essa cena se repetia graças à força daquela profecia: “Até logo.”

À medida em que se aproxima do destino, seus passos ganham segurança. Não quer que os pais saibam que ela ainda é a mesma garota assustada que fora quando criança. Quando chega, alcança flagrar o rosto da mãe na janela, escondendo-se atrás da cortina. Ato contínuo, seu pai abre a porta e acende as luzes exteriores. Esta noite, todos dormem bem.

Ilustração: Talitta Reitz

Previous ArticleNext Article

1 Comment

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Dai-me Amor 0 228

Deus foi a primeira palavra que eu aprendi. Antes mesmo de aprender meu nome. Quando se é criança, os adultos tentam nos ensinar as coisas dos jeitos mais variados. Criança só aprende brincando. Minha mãe mandava eu pintar todos os “Deus” que eu achasse na Bíblia. Ela me disse que Deus sempre existiu e nunca nasceu. Perguntei como Ele se parecia. Ela disse que não sabia, pois a glória dEle é tão grande que era como olhar pro Sol. Tentei olhar pro Sol, ardeu.

Depois de pintar tudo, eu aprendi a palavra Jesus. Ela me disse que Jesus é a encarnação do amor, é quem criou todas as coisas. É filho de Deus com uma humana, Maria. Me disse que tem barba e cabelo grande. E que seu olhar muda e transforma escuridão em luz.

Mais tarde ela me falou pra pintar o “Espírito Santo” e disse que Ele não tem forma, corpo ou manifestação material. Já foi pomba no batismo de Jesus, mas também é descrito como o brilho da Glória de Deus. Ela me explicou que Deus se manifesta na trindade. E que eu podia falar com Ele(s) quando eu quisesse. Bastava orar e, é claro, com todo o respeito. E que quando eu orasse deveria confessar meus erros e pedir perdão. Deveria agradecer pelas dádivas e pela bênção da vida. Que deveria contar sobre meu dia, sobre meus medos, descobertas e felicidades. Foi assim que Jesus se tornou meu melhor amigo. Meu amigo imaginário. Meu Deus. Minha mãe me ensinou um bocado de coisas sobre a Bíblia, o céu e sobre como a vida nessa terra é passageira, é escola, é aprendizado, nada é por acaso, nada é destino. Tudo é providencial. Providência divina. Tudo de bom e tudo de ruim tem como propósito nos ensinar sobre Deus, e como Ele age em nossas vidas. Ela me contou que se eu deixasse, Ele poderia morar dentro do meu coração, e assim, o divino habitaria em mim. Disse também, que Jesus vai voltar pra levar os justos pro céu. Perguntei como eu fazia pra ir pro céu, ela me disse que imitando a Jesus, O aceitando como meu Deus e salvador, sua Graça me salvaria independente das obras. Me ensinou que só a religião dela era a correta e junto com essa religião muitas regrinhas, que eu nunca consegui seguir. Por muito tempo achei que por causa da parte que eu não cumpria, Deus não habitava em mim. Me senti perdida, vazia. Comecei a me odiar. Acelerar minha morte. A vida muitas vezes deixa de fazer sentido. Acontece que eu sou muito como Tomé, só acredito vendo. E como acreditar em alguém que eu só ouvi falar e que ninguém nunca viu? Com nove anos veio a primeira dúvida sobre a volta de Jesus. Junto com a dúvida veio a primeira vez que senti Deus falando comigo. Foi diferente de pensar. Foi quase como ouvir palavras que não foram pensadas. Eu ouvi: “Não desista, porque Eu não desisti de você”. Depois desse episódio nunca mais ouvi ele nos meus pensamentos, achei que era coisa de criança ter amigos imaginários, mas vira e mexe alguém usado por Ele me lembrava sobre não desistir de conhecê-Lo e procurá-Lo. E nessa eu vi que Ele não estava na religião. Não estava em uma igreja específica, não era o “não pode” tão popular. Compreendi o que significava Graça e aceitei a minha salvação. Aceitei a trindade e aceitei a minha mãe. Compreendi que amar nada tem haver com sexo ou paixão. Amor transcende toda essa metáfora feita de carbono que chamamos de realidade. Aceitei meu corpo, que foi presente de Deus pro meu espírito habitar. Espírito esse que saiu dEle.

A segunda vez que Deus falou comigo eu já não era mais criança, foi quando percebi que Deus não é religião e um bocado de regrinhas. Ele está onde há luz. E Ele deixou luz em tudo. Tomei um chá com Ele. Meu espírito saiu do corpo e subiu. Contemplei a Glória divina e senti meu espírito ir alto e mais alto. Eu vi a Deus e diferente do que minha mãe dizia, é como olhar pro Sol, mas os olhos não ardem. E Ele me disse: você é um anjo. Você é luz! Você está pronta!

Mateus 5:8 “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.”

 

 

Vida comum parte 1 0 375

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.