Na rua 0 664

Ser morador de rua na época do Natal é um inferno. Eu lembro no meu primeiro ano na rua, sentado na calçada, no meio-fio, enquanto todo mundo andava com suas famílias gastando, comprando presentes, roupas, e isto e aquilo, sabendo que nenhum deles ia parar para me desejar um Feliz Natal, ou me comprar um presente.

Nessa época as pessoas ficam felizes em saber que você está só no fundo daquelas cenas bonitas cheias de luzes e vitrines brilhantes, sem fazer parte de verdade daquele cenário, mas vocês não têm ideia do quanto eu queria que minha família estivesse comigo, mesmo que sem nenhum embrulho da Renner cheio de laços vermelhos e sacolas com desenhos de festa. Eu só queria um abraço. Porra! Vocês não têm ideia do quanto essa coisa de viver na rua é difícil. Vocês não têm ideia…

Se você parar pra pensar, é engraçado porque quando eu fugi de casa, foi pra ficar livre da minha família. Eu era novo, um moleque ainda, e queria fazer as coisas do meu jeito. Saí sem olhar pra trás, e sem pensar na frente, pronto pra ser dono do meu nariz. No primeiro dia, dormi no banco da praça e acordei com a primeira luz do sol, brilhando como a minha liberdade. No segundo, deitei na frente de uma loja, mas no meio da noite os cana me acordaram e enxotaram com chute de botina. No terceiro eu senti saudade da minha cama e tentei voltar pra casa. Andei a noite inteira e, quando cheguei na porta, meu padrasto não me deixou entrar. Eu via minha mãe lá dentro chorando com a cabeça apoiada na mesa, sem fazer nada por mim enquanto aquele velho escroto gritava comigo. Entrou e bateu a porta. Da minha própria casa. Na minha cara. Vocês não sabem, mas foi difícil.

Se você me perguntar hoje onde é a minha casa, eu vou dizer que é em todo lugar. E em lugar nenhum. E onde eu quiser, ou onde vocês não quiserem mais. Igual a essas roupas que eu ganhei de alguém que não ia mais usar uma camiseta manchada. Pra mim, é melhor que morrer de frio, né? Porque à noite a rua é fria mesmo nessa época. Mas aposto que se essa mesma pessoa estivesse aqui na minha frente, ela não ia nem me olhar na cara! Nem um Feliz Natal. Vocês não têm ideia do quanto é difícil. Mas hoje eu não tô aqui pra pedir dinheiro não. Quero mesmo é um presente. Um emprego, pra eu poder sair da rua, ter uma cama, tomar um banho e café da manhã. É tudo que eu quero. Se alguém puder ajudar, eu to sempre aqui, tá? Desculpa atrapalhar a viagem de vocês, mas é que por enquanto esse trem também é minha casa hehe.

– Próxima estação: Luz. Desembarquem por ambas as portas.

Texto: André Petrini
Foto: Simon & His Camera

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Chegada 0 1375

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai

Vida comum parte 1 0 877

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.