Na rua 0 1037

Ser morador de rua na época do Natal é um inferno. Eu lembro no meu primeiro ano na rua, sentado na calçada, no meio-fio, enquanto todo mundo andava com suas famílias gastando, comprando presentes, roupas, e isto e aquilo, sabendo que nenhum deles ia parar para me desejar um Feliz Natal, ou me comprar um presente.

Nessa época as pessoas ficam felizes em saber que você está só no fundo daquelas cenas bonitas cheias de luzes e vitrines brilhantes, sem fazer parte de verdade daquele cenário, mas vocês não têm ideia do quanto eu queria que minha família estivesse comigo, mesmo que sem nenhum embrulho da Renner cheio de laços vermelhos e sacolas com desenhos de festa. Eu só queria um abraço. Porra! Vocês não têm ideia do quanto essa coisa de viver na rua é difícil. Vocês não têm ideia…

Se você parar pra pensar, é engraçado porque quando eu fugi de casa, foi pra ficar livre da minha família. Eu era novo, um moleque ainda, e queria fazer as coisas do meu jeito. Saí sem olhar pra trás, e sem pensar na frente, pronto pra ser dono do meu nariz. No primeiro dia, dormi no banco da praça e acordei com a primeira luz do sol, brilhando como a minha liberdade. No segundo, deitei na frente de uma loja, mas no meio da noite os cana me acordaram e enxotaram com chute de botina. No terceiro eu senti saudade da minha cama e tentei voltar pra casa. Andei a noite inteira e, quando cheguei na porta, meu padrasto não me deixou entrar. Eu via minha mãe lá dentro chorando com a cabeça apoiada na mesa, sem fazer nada por mim enquanto aquele velho escroto gritava comigo. Entrou e bateu a porta. Da minha própria casa. Na minha cara. Vocês não sabem, mas foi difícil.

Se você me perguntar hoje onde é a minha casa, eu vou dizer que é em todo lugar. E em lugar nenhum. E onde eu quiser, ou onde vocês não quiserem mais. Igual a essas roupas que eu ganhei de alguém que não ia mais usar uma camiseta manchada. Pra mim, é melhor que morrer de frio, né? Porque à noite a rua é fria mesmo nessa época. Mas aposto que se essa mesma pessoa estivesse aqui na minha frente, ela não ia nem me olhar na cara! Nem um Feliz Natal. Vocês não têm ideia do quanto é difícil. Mas hoje eu não tô aqui pra pedir dinheiro não. Quero mesmo é um presente. Um emprego, pra eu poder sair da rua, ter uma cama, tomar um banho e café da manhã. É tudo que eu quero. Se alguém puder ajudar, eu to sempre aqui, tá? Desculpa atrapalhar a viagem de vocês, mas é que por enquanto esse trem também é minha casa hehe.

– Próxima estação: Luz. Desembarquem por ambas as portas.

Texto: André Petrini
Foto: Simon & His Camera

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Escala de Baumé 0 759

Já não se criam mais homens de barro, apesar de continuarmos nos esfarelando. É aceito que hoje somos compostos por água e ansiedade. De barro só os tijolos, com que se ergueram os muros de nossas casas e prisões. A ansiedade só cresce.

Na primeira vez em que fui visitar o Jaime na clínica ficamos em silêncio por quase uma hora, quinze anos de amizade nos poupam de certos diálogos dispendiosos. No momento de ir embora ouvi com clareza o que seus olhos me diziam, não podia abandoná-lo, e não o fiz. Na semana seguinte houve a necessidade de falar, de abraçar, de chorar; é difícil permanecer impassível quando seu colega de quarto é internado após tentar serrar os pulsos com um serrote, dessa vez era isso que seus olhos e braços me diziam. Os suicidas estão à procura de sua própria justiça, na qual a morte é a sentença final. O Jaime não era um suicida, ao menos não nos moldes convencionais, já que tomar uma garrafa de destilado por dia vinha se mostrando uma técnica efetiva para findar com sua vida. Seus sorrisos tornaram-se raros, pequenas ilhas de alívio no caos murado da instituição; os espaços cada vez menores, a alma tumultuada, a mente entulhada. Não sei o que tive mais medo de ver, se um surto ou a depressão profunda, um conforto mórbido me tomava ao vê-lo flutuar entre ambas hipóteses. Foi na décima terceira semana que decidimos que algo precisava ser feito.

Nunca concordei com essa internação, entendo-a, não é fácil para família alguma ter alguém fora de controle, mas não posso compactuar com isso. Lá fora o Jaime era a materialização da beleza na desordem, um furacão que arrasa um campo de rosas para se encher de cor, aqui ele não passa de um sopro, incapaz de espalhar as pétalas de um dente de leão. Onde esse ímpeto se perdeu? Na abstenção do álcool ou da vontade própria? Troquei minhas mágoas pela vergonha depois de descobrir o motivo de não ter sido ouvido em algumas visitas; certo dia trocaram o Jaime de quarto, sem consentimento algum ele foi amarrado em sua cama e transferido para outro cômodo, frio e com janelas menores. A crise de identidade se apossou dele, não se sentia mais um homem, era agora objeto. Não tinha mais nome, por isso não atendia quando o chamavam, tornou-se coisa, dessas que trocamos de lugar por mero paisagismo e descartamos quando causam problemas. Definitivamente, não existe amor sem empatia.

Uma hóstia podre e carcomida pelos vermes ainda é o corpo de cristo? Era a pergunta que me fazia todos os dias em que tinha que encarar um Jesus deteriorado na sala de espera da clínica. Dois mil anos com os pulsos pregados, quanto tempo mais era possível aguentar esse tipo de tortura? Na décima quarta semana cumpri com o combinado, depois que o Jaime voltou a ser alguém, a gente mergulhou num saudosismo afável, de quando éramos quem queríamos ser: bêbados que culpavam o álcool pelas próprias frustrações artísticas.

Pouco dormi na semana que antecedeu esse dia, nos momentos em que o cansaço venceu a angústia sonhei com prédios ruindo, maldito sonho que não me abandona. Deixei o carro embaixo da figueira de sempre, há quem diga que ela é a árvore da vida, também dizem que foi onde se deu o enforcamento de Judas Iscariotes. Minhas mãos suam, agora seria incapaz de dar um nó em qualquer corda. Como já me é habitual, encaro Jesus, com todas as minhas dúvidas.

Enfim chamam pelo meu nome. No caminho até o quarto o enfermeiro elogia minha decisão de trazer toddynho e trakinas para meu amigo, diz que nos últimos dias os internos passaram à pão e água, só meneio com a cabeça. É minha vez de engolir as palavras, sento em frente a ele e respondo com os olhos o seu questionamento. Trouxe? Estico a mão e lhe entrego, sinto medo, receio, vontade de me livrar logo disso e seguir em frente. Ele sorri nervosamente, a ansiedade lhe obriga a contrair seu maxilar, tomado pela dúvida, se espera o momento certo ou se entrega agora. Suo frio, quero ir embora, mas não consigo nem me levantar, nem virar o rosto, ele fura a superfície de alumínio com o canudinho e bebe tudo num gole só. Sorri com leveza, me abraça com calor, me pede pra voltar na semana seguinte. Vou embora me arrastando, as costas arqueadas carregam o peso de uma cruz, quantas mentiras conseguimos contar durante a vida?

Procuro no calendário onde foram parar os dias da semana que se foi, não há negociação, já é véspera de visita novamente. Encaro a prateleira do supermercado, água de coco ou suco de laranja? Nunca fui um bom alquimista, li dia desses que vão menos conservantes na água de coco, sei lá que diferença isso faz. A cena é cinematográfica, chego em casa e busco a sacola com meu kit, me sinto um coadjuvante de Trainspotting com uma seringa pontuda em mãos. Furo o fundo da caixinha de água de coco e retiro metade do líquido, a mão que segura a garrafa de vodka treme, encho novamente a seringa e preencho a embalagem usando o mesmo furo de antes, tapo a abertura com um pedaço milimétrico de durex. Torno a pegar a garrafa de vodka, a mão ainda tremendo, sirvo uma dose e bebo num gole só. Choro, por mim e por todos os bêbados que insistiram em criar descrença em seus queridos. Sóbrios ou não, permanecemos assistindo a ansiedade tomar conta.

Crédito da Imagem: Robert Mapplethorpe

Chegada 0 2116

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai