Texto de em 28 de novembro de 2017 . Nenhum comentário.

Ganhar três edições consecutivas do prêmio “Grandes usuários da língua portuguesa” não era o bastante para Valdir Tomaszewski. Na verdade nada era, mas aquela falta de consideração que o mundo insistia em dispensar a ele estava passando de todos os limites aceitáveis, mesmo para um rapaz às vezes humilde e quase sempre paciente como era. Fim de festa, todos os colegas tinham ido embora. De barriga encostada em mais um balcão de bar da vida, ordenou um “traz outro” que o funcionário respondeu com um “tó, tamo fechando” de brinde, sem nem levantar os olhos. O campeão se viu bêbado como Quincas Berro D’Água, mas sem a parte dos amigos que achavam sua companhia indispensável mesmo depois de morto. A jukebox tocava uma versão acústica e apaulistada de “A lua que eu te dei” que deprimiu o literato. Reflexivo, arrotou a expressão “apropriação cultural” para sua gola rolê.

Olhou ao redor: só enxergou animais, um grande grupo de iletrados, de gente cega até para a própria condição de indigência intelectual. Fechou os olhos e escolheu sonhos, as ondas em que surfaria, a ladeira mental que desceria em seu longboard de esclarecimento: sentiu cheiro de povo, abraçou representantes da multidão que abriam corredor para ele. Na ilusão, aproveitou os aplausos empolgados, a agenda cheia de contatinhos, os almoços grátis, os tapinhas nas costas, os sorrisos nervosos de quem não sabia como lidar com o monstro sagrado – o grande explorador do idioma, o entendedor das nuances da comunicação, o dono de uma alma maior. Como deflagraria sua campanha para uma cadeira da ABL daquele jeito? O lobby andava bem, sempre fortalecido em congressos, simpósios, palestras e bate-papos por todo o país, mas ainda lhe faltava certa legitimação popular. Antes de aproveitar toda honra e glória que merecia, fez o que a solidão do balcão tinha lhe reservado: girou o gelo no copo para render a gin-tônica enquanto formulava uma interpretação inédita de um verso de Drummond.

Tirou a carteira do bolso e largou o que devia no balcão. Cansou daquele nada. Voltando ao hotel, até tomaria mais umas do frigobar, ou quantas garrafinhas daquelas fossem necessárias. O contrato com a organização do “Grandes Usuários” incluía hospedagem e permitia que ele pegasse o que quisesse  no quarto e, com tudo aquilo já pago, erro seria não aproveitar. Mas antes de cama e tevê a cabo, o caminho. Olhou para o relógio e a meia noite arrepiou sua nuca. Quer dizer: era a meia noite ou outra coisa? Sentiu a presença do Coxo, o Austero, o Danador, o Dos-Fins, o Outro. Era isso. Todos os seus problemas poderiam ser resolvidos se fosse inteligente para desenrolar a noite. Uma encruzilhada o convidou a virar Tatarana. Que fosse. Enquanto o Brasil não se remendava para virar digno de figura de tamanha magnitude, Tomaszewski esperaria ali para encontrar com o diabo na rua, num redemoinho ou em quaisquer outras condições.

 

Marco Antonio Santos