O estilo de vida dos ricos e famosos 0 241

Ganhar três edições consecutivas do prêmio “Grandes usuários da língua portuguesa” não era o bastante para Valdir Tomaszewski. Na verdade nada era, mas aquela falta de consideração que o mundo insistia em dispensar a ele estava passando de todos os limites aceitáveis, mesmo para um rapaz às vezes humilde e quase sempre paciente como era. Fim de festa, todos os colegas tinham ido embora. De barriga encostada em mais um balcão de bar da vida, ordenou um “traz outro” que o funcionário respondeu com um “tó, tamo fechando” de brinde, sem nem levantar os olhos. O campeão se viu bêbado como Quincas Berro D’Água, mas sem a parte dos amigos que achavam sua companhia indispensável mesmo depois de morto. A jukebox tocava uma versão acústica e apaulistada de “A lua que eu te dei” que deprimiu o literato. Reflexivo, arrotou a expressão “apropriação cultural” para sua gola rolê.

Olhou ao redor: só enxergou animais, um grande grupo de iletrados, de gente cega até para a própria condição de indigência intelectual. Fechou os olhos e escolheu sonhos, as ondas em que surfaria, a ladeira mental que desceria em seu longboard de esclarecimento: sentiu cheiro de povo, abraçou representantes da multidão que abriam corredor para ele. Na ilusão, aproveitou os aplausos empolgados, a agenda cheia de contatinhos, os almoços grátis, os tapinhas nas costas, os sorrisos nervosos de quem não sabia como lidar com o monstro sagrado – o grande explorador do idioma, o entendedor das nuances da comunicação, o dono de uma alma maior. Como deflagraria sua campanha para uma cadeira da ABL daquele jeito? O lobby andava bem, sempre fortalecido em congressos, simpósios, palestras e bate-papos por todo o país, mas ainda lhe faltava certa legitimação popular. Antes de aproveitar toda honra e glória que merecia, fez o que a solidão do balcão tinha lhe reservado: girou o gelo no copo para render a gin-tônica enquanto formulava uma interpretação inédita de um verso de Drummond.

Tirou a carteira do bolso e largou o que devia no balcão. Cansou daquele nada. Voltando ao hotel, até tomaria mais umas do frigobar, ou quantas garrafinhas daquelas fossem necessárias. O contrato com a organização do “Grandes Usuários” incluía hospedagem e permitia que ele pegasse o que quisesse  no quarto e, com tudo aquilo já pago, erro seria não aproveitar. Mas antes de cama e tevê a cabo, o caminho. Olhou para o relógio e a meia noite arrepiou sua nuca. Quer dizer: era a meia noite ou outra coisa? Sentiu a presença do Coxo, o Austero, o Danador, o Dos-Fins, o Outro. Era isso. Todos os seus problemas poderiam ser resolvidos se fosse inteligente para desenrolar a noite. Uma encruzilhada o convidou a virar Tatarana. Que fosse. Enquanto o Brasil não se remendava para virar digno de figura de tamanha magnitude, Tomaszewski esperaria ali para encontrar com o diabo na rua, num redemoinho ou em quaisquer outras condições.

 

Marco Antonio Santos

Previous ArticleNext Article

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

maculada 0 199

Tenho cá pra mim que deveria ser obrigatório parar pra saborear a lua por uns minutos quando ela está imensa lá no céu. Deveria ser mesmo uma lei: não admirou a lua cheia nesta quinta-feira? Vem a multa pelo correio. Não deu uma mordidinha sequer durante toda a semana? Vem a polícia da lua até a sua casa para ver o que se passa. Algo não está a correr bem.

Naquela época, as coisas não estavam mesmo bem. Quando as manchas começaram a aparecer , foi um desespero. Google, médicos, Google, exames, Google, dermatologistas, diagnósticos, tratamentos. Céus! Não era coisa que se pudesse esconder, aí é que estava o medo. Na pele. O medo era feito de manchas e as manchas eram feitas de medo. Céus! Foi minha família que me segurou, se não eu não aguentava. Juro que não aguentava. Eu queria quebrar os espelhos, queria que as selfies não estivessem mais na moda. Que as pessoas fossem um pouco mais cegas dos olhos e menos do coração.

Então uma vez estávamos eu e a minha filha sentados na varanda da casa de veraneio. Começava a anoitecer. Ela tinha nessa época uns sete anos de idade e um mundo inteiro por descobrir.  Admirávamos o céu, como há muito tempo eu não fazia.

Ela disse: “Olha, mãe, a lua tem manchas igual você”.

E depois: “Ela é linda, não é?”

E então a lua que move marés formou um oceano inteiro dentro dos meus olhos.

Nunca estivera tão feliz. Abracei a pequena; clarear a noite dela me bastava. Porque eu era também o reflexo do reflexo. Destas luas que não ficam bem em qualquer foto. Destas que têm manchas e crateras, sim, mas que balançam os mares e iluminam toda uma vida. E que giram e giram e giram e às vezes cometem suspiros dentro do peito dos poetas.

 

Murilo.

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”