O estilo de vida dos ricos e famosos 0 6

Ganhar três edições consecutivas do prêmio “Grandes usuários da língua portuguesa” não era o bastante para Valdir Tomaszewski. Na verdade nada era, mas aquela falta de consideração que o mundo insistia em dispensar a ele estava passando de todos os limites aceitáveis, mesmo para um rapaz às vezes humilde e quase sempre paciente como era. Fim de festa, todos os colegas tinham ido embora. De barriga encostada em mais um balcão de bar da vida, ordenou um “traz outro” que o funcionário respondeu com um “tó, tamo fechando” de brinde, sem nem levantar os olhos. O campeão se viu bêbado como Quincas Berro D’Água, mas sem a parte dos amigos que achavam sua companhia indispensável mesmo depois de morto. A jukebox tocava uma versão acústica e apaulistada de “A lua que eu te dei” que deprimiu o literato. Reflexivo, arrotou a expressão “apropriação cultural” para sua gola rolê.

Olhou ao redor: só enxergou animais, um grande grupo de iletrados, de gente cega até para a própria condição de indigência intelectual. Fechou os olhos e escolheu sonhos, as ondas em que surfaria, a ladeira mental que desceria em seu longboard de esclarecimento: sentiu cheiro de povo, abraçou representantes da multidão que abriam corredor para ele. Na ilusão, aproveitou os aplausos empolgados, a agenda cheia de contatinhos, os almoços grátis, os tapinhas nas costas, os sorrisos nervosos de quem não sabia como lidar com o monstro sagrado – o grande explorador do idioma, o entendedor das nuances da comunicação, o dono de uma alma maior. Como deflagraria sua campanha para uma cadeira da ABL daquele jeito? O lobby andava bem, sempre fortalecido em congressos, simpósios, palestras e bate-papos por todo o país, mas ainda lhe faltava certa legitimação popular. Antes de aproveitar toda honra e glória que merecia, fez o que a solidão do balcão tinha lhe reservado: girou o gelo no copo para render a gin-tônica enquanto formulava uma interpretação inédita de um verso de Drummond.

Tirou a carteira do bolso e largou o que devia no balcão. Cansou daquele nada. Voltando ao hotel, até tomaria mais umas do frigobar, ou quantas garrafinhas daquelas fossem necessárias. O contrato com a organização do “Grandes Usuários” incluía hospedagem e permitia que ele pegasse o que quisesse  no quarto e, com tudo aquilo já pago, erro seria não aproveitar. Mas antes de cama e tevê a cabo, o caminho. Olhou para o relógio e a meia noite arrepiou sua nuca. Quer dizer: era a meia noite ou outra coisa? Sentiu a presença do Coxo, o Austero, o Danador, o Dos-Fins, o Outro. Era isso. Todos os seus problemas poderiam ser resolvidos se fosse inteligente para desenrolar a noite. Uma encruzilhada o convidou a virar Tatarana. Que fosse. Enquanto o Brasil não se remendava para virar digno de figura de tamanha magnitude, Tomaszewski esperaria ali para encontrar com o diabo na rua, num redemoinho ou em quaisquer outras condições.

 

Marco Antonio Santos

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a mente enquanto objeto quebradiço 0 14

I

 

a noite aqui fora tá um pouco opressiva, graças ao bafo úmido que levanta do asfalto depois dessas chuvas de verão. passa pouco das oito da noite e eu mando um zap pra Cíntia, ver se ela precisa de algo em casa. “Traz um pão de azeite de oliva pra mim”, ela pede num áudio. quase envio uma mensagem perguntando onde encontrar um negócio tão específico, mas assim que olho pra frente me deparo com um local metido a besta, o típico estabelecimento que venderia pão de azeite de oliva. nunca vi esse prédio. entro, o lugar é descolado, projetado pra ricos moderninhos. uma espécie de galpão abandonado, de pé direito alto e arquitetura estranha, com várias lojas e restaurantes que ficam nas paredes, pelas quais o cliente passeia usando rampas. roupas, massas, eletrônicos, brinquedos artesanais. tipo um shopping pra quem quer se sentir integrado à região mas sem correr riscos.

um conjunto formado por vozes masculinas e femininas, flautas e percussões está distribuida ao longo do térreo e toca uma música em tom menor, bem bonita, lindíssima. é emocionante. choro um pouquinho e sinto uma vontade inexplicável de comprar romãs. peço por romãs, não as encontro, mas de rolê pelo galpão sou abordado por uma senhora, sentada num café afetado. “Psiu. Você quer romãs? Eu sei onde tem”, ela fala, feito gato, e me estica um cartão pessoal com nome que nem leio. “Lá perto de casa as romãzeiras estão carregadíssimas”, mia. sorri.

 

II

 

quando noto, estou descendo de um carro. percurso curto, que rua é essa? a velha me convence a entrar na casa porque precisa avisar qualquer coisa pra filha antes de me mostrar onde acho romãs. ela tem um desenho excêntrico, me deixa confuso, como se um sorrisinho malicioso estivesse grudado pra sempre em um rosto antigo e marcado por muitas mudanças. o cabelo platinado, quase branco. ela começa a falar estranho comigo, “Nossa, você é muito lindinho”, pergunta meu nome, respondo “Paulo. Paulo Braga”. meu nome não é Paulo e meu sobrenome não é Braga e eu não entendo mais o que estou fazendo. a senhora me pede licença e sai do cômodo e nisso a filha entra. igual, mas o cabelo é preto e o rosto é jovem. começa a fazer perguntas inúteis, ela também fala miando. “De onde você é?”, questiona, respondo “Minas”, mas eu não sou de Minas. “Ai, que fofo! Que bom que você vai vir pra cá, passar sotaque pra minha mãe”.

vir pra cá? passar sotaque? do que essa moça tá falando? explico que na verdade sou gaúcho, de Pelotas, e nada muda na dinâmica da conversa. tento me distrair pensando em quando vou finalmente comer as romãs, mas o cômodo tem um ar estranho, um perfume me sufoca e confunde. enquanto a jovem mia bobagens e amenidades, tiro o celular do bolso e jogo no Google o nome da coroa, que copiei do cartão. nome diferente, nunca li nada assim. “Que línguas você fala?”, ela, “Inglês e espanhol”, eu, “Ótimo, mamãe fala muitas outras, já podem viajar bastante”. o clima não tá legal, eu não quero viajar com ninguém, eu fico tenso, o 4G não funciona direito. “Mamãe teve vários homens mas nenhum nunca deu certo. Acho que nenhum estava realmente pronto, sabe? E sempre acabam sumindo, hehe”.

 

III

 

fito a tela. a busca está completa. leio os resultados.

 

travo.

congelo.

 

IV

 

reúno forças e levanto e percebo a velha de volta ao quarto. sorrisinho, vestido e véu vermelho-sangue, quase flutua. penso em correr, mas um miado calmo soa como se viesse por toda parte, formando palavras que mais soam como portas que se fecham.

 

“Aonde é que você pensa que vai? Você fica. Você não vai a lugar nenhum”.

 

 

 

 

 

texto do Rômulo Candal

visual do Marco Antonio

Alvoradas 0 13

desentristecer
é iluminar a alma
como renascer

algo que insiste
que conduz
do triste
ao tecer

é persistir
na felici

No instante em que o sol se depositava feito moeda no dourado do mar, Pérsio estancou seus versos. Sabia que letras teriam força alguma para lhe conduzir para além do esquecimento.

Talhara em si um emaranhado de signos para forjar a própria memória. Diluiu-se em palavras-dispersas e estava só. Era agora um infinito de páginas inacabadas, abrigadas num todo que era nada. Uma luz vista por ninguém.

Mergulhado na escuridão, baixou o olhar até doer. Via ausência em si. Mesmo diante do mais límpido espelho encontraria cumplicidade alguma. Tudo era noite.

Sem seus versos, Pérsio era lágrima que escorre só, que seca com vestígio algum. Feito nunca existido.

Feito esperança, buscou lembranças de luz. Como as registradas por relógios de sol, que ignoram momentos menores. Tinha para si que, para a felicidade, palavra alguma seria necessária. Que é na plenitude do silêncio que as verdades se eternizam em nossas almas e nos conduzem às alvoradas de si.

 

texto: Rafael Antunes
ilustração: Nina Zambiassi