Sentido: Conceito Abstrato 1 3

Redimunho? Uuhuulll!

A confusão – que costuma presenciar momentos singulares – toma conta da linha de raciocínio. Os olhos buscam enquadrar, a já inexistente materialização visual cristã do espírito santo: o vento. Girando a cabeça inquietamente, a adrenalina nubla o discernimento e confunde a compreensão fina do que é real e inventado. Um redemoinho passou muito rápido; as lentes da câmera não registraram o que os olhos captaram para sempre.

Seguinte, acabou de passar um tornadinho aqui.

Enfim as mãos oscilam um pouco menos, o foco volta a auxiliar o mecanismo ocular, é hora de assimilar o contato obtido – pouco frequente para habitantes de grandes centros – com as forças particulares da natureza. Todo mundo já viu um furacão na televisão e já sentiu o toque grosso do vento num dia de transtorno, guardadas dimensões, o redemoinho tropical é um fenômeno que mimetiza visualmente o furacão ao passo que tem força similar à da ventania. Numa já estabelecida era, em que boa parte do tempo é vivida através de telas, não ter filmado um evento raro, é algo, já naturalmente, passível de lamento.

Alá outro ali, olha lá. Tá formando outro, cara. E ele tá passando aqui na beirada, mãe!

Uma lufada de esperança traz a sensação de verdade e justiça. Enfim as lamúrias foram atendidas, as reclamações lançadas ao mundo surtiram efeito. A terra levanta timidamente do chão e já é possível delimitar o espaço visual do ar, agora é a hora da verdade, de sentir a benção ou as agruras do tal redemoinho. A câmera capta imagens corajosamente, como quem aperta a mão de alguém olhando nos olhos.

Olha lá, formou. E tá dando um arco-íris aqui agora! Olha a água! Olha alí! Mamãe! É Deus, Mamãe!

O redemoinho, que remexe o chão à margem do rio, parece nutrir-se da energia e empolgação humana ao seu redor, gira com maior intensidade e transfere seu espetáculo para o centro do córrego. O fenômeno, que já impressionava, torna-se épico: um magistral arco-íris se forma repentinamente na água. O entusiasmo é tão intenso quanto a paleta de cores que desponta a poucos metros das lentes. E quem mais especial para compartilhar esse instante que sua própria mãe? Mais que isso, sempre é possível duvidar de fenômenos óticos de terceiros, mesmo os registrados em vídeo podem sofrer acusações de edição tendenciosa; ninguém, no entanto, duvida da palavra de uma mamãe. Os gritos mesclam desespero e comoção, o que vem a seguir? Vozes celestiais, corpos com chagas, Deus veio nos salvar ou nos arrebatar?

Deu uma onda, cadê nossa prancha? Olha um cavalo branco ali! Olha um cavalo branco aparecendo ali do lado, olha lá!

Uma onda levanta-se sutilmente na superfície, com força suficiente para levar um barquinho de papel. O sistema todo foi afetado, tudo parece ser motivo para gritar, o exagero também insiste em ter seu nome registrado nessa história. Enquanto a câmera ainda foca na modesta onda, a locução já anuncia: um cavalo branco vai entrar em cena. Sim, aparentemente o equino simplesmente surgiu nessa já povoada trama, mas como? Quem trouxe esse animal para cá? Meu Deus, e como ele é branco e sereno, parece recém tirado de um panfleto feito por Testemunhas de Jeová. Se Drürer tivesse visitado esta cena, quinhentos anos antes, certamente teríamos uma bela gravura exposta no Louvre, ao lado da Mona Lisa.

Eu filmei tudo, mamãe! Eu filmei tudo, é Deus! Olha lá o cavalinho branco!

O enquadramento volta a ser objeto da confusão, vai de um lado a outro até se decidir pelo cavalo, que bebe água tranquilamente à margem do córrego. A mãe enfim chega na cena, discreta, emanando suavidade e plenitude; e como não poderia deixar de ser, tenta ensinar algo para o filho, enquanto também faz esforço para absorver toda a cadeia de eventos recém demonstrados.

Isso é Deus mostrando o poder dele, que ele existe. Ó Pai, eu entendo Senhor, eu entendo. O teu poder, Senhor. É o teu poder Senhor, tem misericórdia de nós, ó Pai! Somos pecadores, não merecemos o teu amor mas tu és poderoso!

A mãe começa seu discurso num tom acanhado, ainda ligando os pontos de toda essa materialização divina. Conforme as conexões vão sendo feitas a voz vai subindo e embargando. Ela luta para assumir o protagonismo da cena, é o seu ato, seu momento na peça. E o figurino não poderia ser mais adequado, despida de pudor e coberta de inocência, traja apenas um sutiã branco, imaculado.

Acabou de formar um tornado aqui, no meio da água.

O comentário do filho ignora toda a tentativa de pregação da mãe, é realmente difícil cativar a atenção dos jovens quando sugados pelos seus gadgets. Se bem que nesse caso, a distração é compreensível.

É o poder de Deus! É Deus mostrando o poder! É Deus falando: Eu estou aqui! Clamem! Me peçam e eu darei, eu tenho o poder, eu tenho o poder! Isso é ele falando eu tenho o poder, olha o que que eu faço!

Não me surpreenderia se uma bíblia surgisse nesse enredo, daquelas de bolso, tiradas de dentro do sutiã, seria a cena perfeita, mas Deus nem sempre faz as coisas do jeito que a gente deseja. Quase nunca.

E esse cavalo branco aparecendo?

O cavalo branco segue brilhantemente compondo o fundo da cena. Não existe apego ao foco, nunca vai existir. Mas e mães costumam desistir fácil? Também não podemos contar com isso.

E você viu o arco-íris? Ele mostrou o sinal da aliança! Você sabe o que é que é o arco-íris? – Deu uma onda! – Espera, presta atenção! Na bíblia tá escrito, toda vez que vocês virem um arco-íris essa é minha aliança com Noé! Nós somos a descendência de Noé! – E esse cavalo branco, ainda? – Essa é minha aliança com Noé! Olha aqui ó, aqui tá o símbolo da minha aliança! E olha aqui, cê filmou? – Filmei tudo! – Misericórdia, Senhor, eu te clamo em nome de Jesus! Eu creio no teu poder, eu creio na tua infinita bondade! Eu creio em ti Senhor, como Deus dos Deuses, como mestre dos mestres, como santo dos santos, como senhor dos exércitos celestiais; como senhor de Abraão, de Izak e de Jacó! Perdão Senhor, perdão! Perdão pela nossa desobediência, pela nossa ignorância! Perdão Senhor eu sei que nós somos imundice, trapos de imundice! Mas tu és bom! Tu manténs o Deus Poderoso! O capaz de transformar, o capaz de mudar, o capaz, Senhor, de operar nas nossas vidas! Tenha misericórdia, Senhor! Eu tô pelada, e você tá me filmando? Eu to queimando. Mas eu sou a favor, eu falei, Deus não fez o homem vestido não, Deus fez o homem foi nu!

A mãe enfim parece ter absorvido melhor as visões, começa a assimilar seu discurso com o fenômeno do arco-íris; ainda assim, sua voz apesar do tom de pregação, permanece um pouco carente. Ao que parece, a falta de atenção não denota desrespeito, é uma mistura de caos com DDA que controla voz por trás das lentes. A mãe insiste, protesta e pede atenção de forma mais incisiva; e é incrivelmente atendida, por cerca de quatro segundos. O enquadramento, que contemplava a mãe em primeiro plano – enquanto ela gesticulava de modo similar aos apresentadores de programas policiais –, muda para o cavalo. É aplicado um zoom capaz de auxiliar numa análise clínica da pelagem do animal, o bicho é realmente lindo, indubitavelmente nenhuma testemunha de Jeová seria capaz de pintar um cavalo tão perfeito. A mãe percebe o desvio, troca rapidamente o discurso por um breve diálogo e o enquadramento volta a contemplá-la. Chegou a hora de brilhar, a voz carregada de emoção começa a descrever sua paixão pelo divino. A oratória comove tanto, que o zoom chega até seus poros, mas logo vai embora (obrigado, Deus). O cavalo enfim deixa o quadro, o novo ângulo agora adiciona à cena algumas pessoas inquietas ao fundo em contraste com um carro estacionado. Mamãe sabe o peso de suas palavras, fala e já ensaia sua retirada, seu ato terá um desfecho em breve. O operador de imagem resolve nos mostrar de corpo todo o traje da interlocutora, felizmente um shortinho branco menos ousado faz par com o sutiã. Ela ensaia uma vergonha por sua falta de roupas, mas a gente sabe que tudo faz parte do roteiro, a voz vai se afastando conforme a câmera torna a focar o rio, o ato de mamãe então tem um fim.

O primeiro tornado eu perdi, mas o segundo tornadinho que passô…nós filmamos!

Não há mais discursos, redemoinho, ondas, arco-íris ou cavalo branco. Tudo foi, sobrou a insistência em permanecer filmando.

Dessa vez eu vou te falar, até eu arrepiei! – Deu pra filmar? – Eu arrepiei velho, arrepiei!

A câmera resolve se afastar da beira do riacho, vai de encontro com outro núcleo da trama, composto por espectadores menos emocionados com o acontecimento todo. Nada do que se passou foi o suficiente para tirá-los de seus afazeres: deitar na rede e beber cerveja. O nosso herói vira as lentes para si, os óculos escuros encobrem análises mais profundas, porém tais exames são dispensáveis, o próprio nos confidencia seus sentimentos.

Centraliza a Vanessa também, só virar o tripé um pouquinho. – Eu não sei pra que lado. – Pode virar, só virar. – Mais? – Tá bom. – Deus no redemoinho, Deus no redemoinho! – Cês tão vendo ocêis, né? – (Risos) – É bonito ver o povo bonito, não é? – Eu acho o maior barato. – (Voz inaudível) – Fala isso não, bate na boca. Todo mundo é bonito. – Todo mundo é bonito, só que tem uma beleza diferente. – Me desculpe as feias, mas beleza é fundamental. – Cê tá chato demais, deixa eu filmar esse meu primo aqui, gente, ele tá muito seletivo. Eu tô no politicamente correto. – Skol! Desce redondo.

A rede e a companhia de pessoas de sua idade parecem oferecer conforto, enquanto nosso provedor de imagens se acomoda é possível ver a silhueta de um cavalo no pingente em seu pescoço, é provável que ele use esse colar há anos, duvido que se lembre disso agora. Como todo bom diretor, ele preza por boas imagens, coordena o enquadramento do take que contempla sua companheira ao seu lado na rede. Ao fundo, em outra cena, ouve-se mamãe, mas logo sua voz some. Irradiam-se comentários sobre a beleza do casal, todos riem, todos dissertam sobre a beleza humana, ninguém parece se importar com o redemoinho, menos ainda com o cavalo branco. Um incômodo mal disfarçado toma conta, qualquer desculpa é válida para abandonar o posto e se reunir com quem também foi tocado pelo divino. No caminho ainda há tempo de promover mais uma interação tão bizarra quanto fugaz, com alguém que está muito contente em carregar uma cerveja cheia e que aparenta ter propensão a proferir slogans sem sentido. Fim do ato dos incrédulos.

Eu te peço ao senhor agora. – Tu és o Senhor. – Que porra é essa? Vai só o restinho. Tá fazendo gelo? Aí não tem jeito não. Vai, passa aí pra eu ver, melhorou bastante. – Cê filmou o negócio? – Filmei, tá tudo aqui.

O contraponto é parte essencial na obra: assim que o perímetro ocupado pelos descrentes é abandonado, hinos evangélicos celebrados aos berros tomam a narrativa de assalto. Duas pessoas ouvem música no banco da frente de um carro: mamãe (claro) e um menino bastante jovem, de olhos tristes. A câmera se desvia brevemente para a gênese de tudo, o rio; enquanto um diálogo, tão estranho quanto incompreensível, é abafado pela música. A criança aparentemente sofre por ter machucado o tornozelo, faz uma compressa modesta, com apenas uma pedra de gelo, no local magoado. A essa altura mamãe abandona o veículo, sem nem dizer para onde vai, provavelmente tem destino similar ao do cavalo branco. O menino não dá indícios de que gosta da cena; gelo, hino e machucado parecem só existir para punir. Preocupado em não ter presenciado os fenômenos de perto, ele quer saber se foi tudo filmado. Espero que ela não tenha visto o vídeo todo, apesar de duvidar disso. O gelo volta a queimar a pele, o registro final é de uma cara sofrida, de dor, mágoa e desgosto, como de quem acusa o golpe e está prestes a perder a luta. No entanto, fico tranquilo, refaço mentalmente os segundos seguintes que o filme não mostra, com a certeza de que nesse dia o único derrotado foi o bom senso do universo.

Escrito pelo Gabriel Protski

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a mente enquanto objeto quebradiço 0 14

I

 

a noite aqui fora tá um pouco opressiva, graças ao bafo úmido que levanta do asfalto depois dessas chuvas de verão. passa pouco das oito da noite e eu mando um zap pra Cíntia, ver se ela precisa de algo em casa. “Traz um pão de azeite de oliva pra mim”, ela pede num áudio. quase envio uma mensagem perguntando onde encontrar um negócio tão específico, mas assim que olho pra frente me deparo com um local metido a besta, o típico estabelecimento que venderia pão de azeite de oliva. nunca vi esse prédio. entro, o lugar é descolado, projetado pra ricos moderninhos. uma espécie de galpão abandonado, de pé direito alto e arquitetura estranha, com várias lojas e restaurantes que ficam nas paredes, pelas quais o cliente passeia usando rampas. roupas, massas, eletrônicos, brinquedos artesanais. tipo um shopping pra quem quer se sentir integrado à região mas sem correr riscos.

um conjunto formado por vozes masculinas e femininas, flautas e percussões está distribuida ao longo do térreo e toca uma música em tom menor, bem bonita, lindíssima. é emocionante. choro um pouquinho e sinto uma vontade inexplicável de comprar romãs. peço por romãs, não as encontro, mas de rolê pelo galpão sou abordado por uma senhora, sentada num café afetado. “Psiu. Você quer romãs? Eu sei onde tem”, ela fala, feito gato, e me estica um cartão pessoal com nome que nem leio. “Lá perto de casa as romãzeiras estão carregadíssimas”, mia. sorri.

 

II

 

quando noto, estou descendo de um carro. percurso curto, que rua é essa? a velha me convence a entrar na casa porque precisa avisar qualquer coisa pra filha antes de me mostrar onde acho romãs. ela tem um desenho excêntrico, me deixa confuso, como se um sorrisinho malicioso estivesse grudado pra sempre em um rosto antigo e marcado por muitas mudanças. o cabelo platinado, quase branco. ela começa a falar estranho comigo, “Nossa, você é muito lindinho”, pergunta meu nome, respondo “Paulo. Paulo Braga”. meu nome não é Paulo e meu sobrenome não é Braga e eu não entendo mais o que estou fazendo. a senhora me pede licença e sai do cômodo e nisso a filha entra. igual, mas o cabelo é preto e o rosto é jovem. começa a fazer perguntas inúteis, ela também fala miando. “De onde você é?”, questiona, respondo “Minas”, mas eu não sou de Minas. “Ai, que fofo! Que bom que você vai vir pra cá, passar sotaque pra minha mãe”.

vir pra cá? passar sotaque? do que essa moça tá falando? explico que na verdade sou gaúcho, de Pelotas, e nada muda na dinâmica da conversa. tento me distrair pensando em quando vou finalmente comer as romãs, mas o cômodo tem um ar estranho, um perfume me sufoca e confunde. enquanto a jovem mia bobagens e amenidades, tiro o celular do bolso e jogo no Google o nome da coroa, que copiei do cartão. nome diferente, nunca li nada assim. “Que línguas você fala?”, ela, “Inglês e espanhol”, eu, “Ótimo, mamãe fala muitas outras, já podem viajar bastante”. o clima não tá legal, eu não quero viajar com ninguém, eu fico tenso, o 4G não funciona direito. “Mamãe teve vários homens mas nenhum nunca deu certo. Acho que nenhum estava realmente pronto, sabe? E sempre acabam sumindo, hehe”.

 

III

 

fito a tela. a busca está completa. leio os resultados.

 

travo.

congelo.

 

IV

 

reúno forças e levanto e percebo a velha de volta ao quarto. sorrisinho, vestido e véu vermelho-sangue, quase flutua. penso em correr, mas um miado calmo soa como se viesse por toda parte, formando palavras que mais soam como portas que se fecham.

 

“Aonde é que você pensa que vai? Você fica. Você não vai a lugar nenhum”.

 

 

 

 

 

texto do Rômulo Candal

visual do Marco Antonio

Alvoradas 0 14

desentristecer
é iluminar a alma
como renascer

algo que insiste
que conduz
do triste
ao tecer

é persistir
na felici

No instante em que o sol se depositava feito moeda no dourado do mar, Pérsio estancou seus versos. Sabia que letras teriam força alguma para lhe conduzir para além do esquecimento.

Talhara em si um emaranhado de signos para forjar a própria memória. Diluiu-se em palavras-dispersas e estava só. Era agora um infinito de páginas inacabadas, abrigadas num todo que era nada. Uma luz vista por ninguém.

Mergulhado na escuridão, baixou o olhar até doer. Via ausência em si. Mesmo diante do mais límpido espelho encontraria cumplicidade alguma. Tudo era noite.

Sem seus versos, Pérsio era lágrima que escorre só, que seca com vestígio algum. Feito nunca existido.

Feito esperança, buscou lembranças de luz. Como as registradas por relógios de sol, que ignoram momentos menores. Tinha para si que, para a felicidade, palavra alguma seria necessária. Que é na plenitude do silêncio que as verdades se eternizam em nossas almas e nos conduzem às alvoradas de si.

 

texto: Rafael Antunes
ilustração: Nina Zambiassi