Vocês vendem Jesus 1 187

“Todos os dias na escola são como fotos velhas. Amareladas e escurecidas pelo tempo, como são as paredes dos corredores. Todas as minhas expectativas e esperanças a essa altura do ano já foram postas em terra. Eu vou reprovar… de novo! Nas férias eu me iludi achando que dessa vez seria diferente. Eu não sei, sinceramente, o que torna as coisas diferentes. Pai me disse que ia parar de beber, lá no fundo eu sempre acho  que ele está prometendo mais do que deveria, mas o otimismo vence no final. É, eu fui educado a acreditar no “final feliz”. Quando descobri o mal que isso tinha. Achei maldade no começo depois achei perspicácia. Tanta ilusão nesse mundo não é mesmo, por que não ficar com a crença de que tudo dará certo no final?

 

Enfim, no fundo eu sei que eu sou trouxa, me iludo com tudo. Esse ano eu prometi pra mim que iria estudar. Já de começo deu tudo errado, eu fui pra turma E, e lá tem um povo gente boa mas com a vida pior que a minha e ter que ir todo dia e de alguma forma dividir a vida com eles, se torna algo insuportável em duzentos dias letivos. Não sei o que aquelas pessoas estavam fazendo lá. Eu não sabia o que eu estava fazendo lá… eu só queria estudar. Uns otários já vieram me provocar, briguei com três, a rotina era de provocações e perda de paciência, em um ritual de brigas, sala do diretor de disciplina, suspensões e as aulas continuavam a não ter sequência e a não fazer sentido.

 

E eu to chorando porque eles falam que eu tenho que ficar aqui conversando com a senhora… porque minhas notas dizem que eu não sou bom o suficiente. Porque eu vivo me iludindo e tendo que conviver e sobreviver com essas paradas. E sabe o que eu mais detesto? É que vir aqui, no fundo eu sei que falar tudo pra você não ajuda a resolver nada! Só ajuda na ilusão de que no final as coisas vão melhorar, mas eu não chego no final nunca! O final é um futuro inalcançável, e olhe que perspicácia, só temos o instante e o presente. Então Doutora, a senhora é psicóloga não é? Dá conselhos? Eu to precisando de milagres. Vocês vendem Jesus, mas nunca entregam!”


Carol Rehbein

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maculada 0 203

Tenho cá pra mim que deveria ser obrigatório parar pra saborear a lua por uns minutos quando ela está imensa lá no céu. Deveria ser mesmo uma lei: não admirou a lua cheia nesta quinta-feira? Vem a multa pelo correio. Não deu uma mordidinha sequer durante toda a semana? Vem a polícia da lua até a sua casa para ver o que se passa. Algo não está a correr bem.

Naquela época, as coisas não estavam mesmo bem. Quando as manchas começaram a aparecer , foi um desespero. Google, médicos, Google, exames, Google, dermatologistas, diagnósticos, tratamentos. Céus! Não era coisa que se pudesse esconder, aí é que estava o medo. Na pele. O medo era feito de manchas e as manchas eram feitas de medo. Céus! Foi minha família que me segurou, se não eu não aguentava. Juro que não aguentava. Eu queria quebrar os espelhos, queria que as selfies não estivessem mais na moda. Que as pessoas fossem um pouco mais cegas dos olhos e menos do coração.

Então uma vez estávamos eu e a minha filha sentados na varanda da casa de veraneio. Começava a anoitecer. Ela tinha nessa época uns sete anos de idade e um mundo inteiro por descobrir.  Admirávamos o céu, como há muito tempo eu não fazia.

Ela disse: “Olha, mãe, a lua tem manchas igual você”.

E depois: “Ela é linda, não é?”

E então a lua que move marés formou um oceano inteiro dentro dos meus olhos.

Nunca estivera tão feliz. Abracei a pequena; clarear a noite dela me bastava. Porque eu era também o reflexo do reflexo. Destas luas que não ficam bem em qualquer foto. Destas que têm manchas e crateras, sim, mas que balançam os mares e iluminam toda uma vida. E que giram e giram e giram e às vezes cometem suspiros dentro do peito dos poetas.

 

Murilo.

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”