Maria droguinha 0 445

A cada gole Maria queria afogar a si mesma. De todos os relacionamentos que conheceu, aquele com Augusto fugia ao padrão. Era para ser casual, essa é a regra. Quando se deu conta, Maria viu que mantinham conversas há três meses. Precisava acabar com aquilo, antes que um ou ambos saíssem magoados da relação. Maria não acreditava em relacionamentos, nem em mudança e não acreditava em si mesma. Vida vazia. Achava que era igual para todo mundo. Sabia que para manter uma vida de relacionamentos casuais, a segunda regra é não se abrir. Desabafos estavam fora do jogo. Pensou que Augusto se afastaria quando ela contasse o caos em que vivia. Ao contrário, ele a abraçou bem forte e falou que não precisava ser daquele jeito. Maria sentiu uma sensação muito estranha, percebeu que alguém a ouviu. Era estranho ser ouvida, levada a sério. Normalmente Maria mantinha a boca fechada, sorria dependendo do teor das conversas e participava com expressões faciais e bocejos hora ou outra. Normalmente todos os assuntos a entediavam, as vezes esses assuntos estavam tão distantes, que se distraía com o desenho molhado que o fundo dos copos fazia na mesa. Quando não formavam imagem alguma, discretamente, fazia uma mandala com os círculos do copo. Com o passar do tempo, ia aos eventos pela bebida, as conversas eram sempre as mesmas.

Fazia muito tempo que estava bebendo pelas mesmas ruas e vendo as mesmas pessoas. Maria queria outro tipo de vida, mas não conhecia outra vida além daquela. Todo mundo tem seus vícios, pensava ela. Já havia aceitado namorar um pior que o outro. Acreditava que tinha dedo podre pra homem, sofreu demais por codepender. Ria de si mesma ao pensar em reabilitação. Mas dizer não, também era algo impossível. Esperança já era algo do passado. Queria prazer, já que amor era assustador demais. Começou a beber com Josué. A cocaína com Aluísio. O LSD com o Luís. Bala com Jorel. E se dizer viciada era exagero. Mas o uso dessas substâncias obedecia a ciclos. Comparar-se com os outros a fazia se sentir menos mal, não usava tanto quanto eles. Se eles não eram viciados, muito menos ela que nem usava tanto. A bem da verdade é que achava que tinha entrado nessa por amor. E que droga de amores foram esses.

 Sentia-se carente, mas a terapia que havia feito, a fez se livrar dos caras, pena que não dos vícios. Sentir-se ouvida e levada a sério por alguém que não era uma amiga com conselhos não profissionais, ou além disso, ser ouvida e não precisar pagar alguém para isso! Só podia ser mentira. Achou que Augusto estava fingindo e não acreditou que pudesse existir alguém interessado em seus problemas e em sua vida. Maria queria construir uma família. Soava ultrapassado, mas era isso. Todo aquele ciclo de drogas era creditado a cólica mensal e ao medo inconsciente de não poder ter filhos nem a tal família. Já estava com 27 e desde os 24, vez após vez, não conseguia parar. Augusto acreditava em fidelidade, em mudança e em amor. Acreditava que ela conseguia mudar se quisesse. Maria já havia perdido as esperanças que pudesse existir alguém assim. Augusto a amou tanto e tão intensamente que, fez Maria se afastar. Ela não estava preparada para a atenção que ele queria dar nem pro amor que ele tinha. Demorou dois anos e meio até ela perceber que conseguia acreditar nas mesmas coisas que Augusto. Demorou aquele tempo para ela se livrar das “vacas sagradas” que herdara de seus ex amores adictos. Demorou para ela conseguir se amar.

Texto e releitura Carol Rehbein

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Vida comum parte 1 0 129

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.

Uma tentativa de eternidade 0 670

Estas linhas são sobre o momento em que o sol se lançou corajoso no abismo do horizonte de ontem. Carregava consigo a invejável certeza de que teria forças para regressar pelo lado de lá. É sobretudo uma daquelas tentativas de promover o efêmero à eternidade –  com algo de poesia.

Um olhar descolorido poderia até dizer que o sol sequer saiu do lugar, que nós é que feito mariposas ofuscadas giramos em torno da lâmpada, sem nos importarmos com um pra-onde-ir.

Verdade é que nunca nos preocupamos com as coisas como de fato são. Queremos apenas classificá-las de acordo com nossas percepções. Se sentei aqui, foi para escrever sobre o que senti ao ser tragado pelo vazio da noite de ontem, que sequer-um-abraço.

Em momento algum nos deixamos avisar pela vida sobre o que ela pretende de nós. Se nos detemos diante do orvalho na flor, é pela nossa necessidade de um suspiro n’alma. Queremos o sorriso da criança para o nosso deleite. Não nos importamos com a felicidade que ali brotou.

Sentimos o mundo à nossa disposição, sem nos darmos conta de que somos apenas mais uma alegoria na beleza de uma grandiosidade que nos foge à compreensão. Algo que já foi Deus. Que hoje é mistério. E que amanhã estará passível de uma nova interpretação.

Algo que tentaremos eternizar, com a mesma eficácia com que buscamos absorver a vida que nos envolve por esses dias em que a noite absorve o sol. E que passam. Um a um.

texto: Rafael Antunes
colagem: Katia Villagra