Literatura apesar de tudo.

Sua

Texto de em 26 de outubro de 2017. Nenhum comentário.

como fosse poema,
você me talha

me transforma
em versos
belos pra você

feito rima
sigo torta

nesse mundo
que tem tudo,
belez’alguma
é pra mim

ao redor,
só a dor
do que fui
até o fim.

 

texto: Rafael Antunes
ilustração: Nina Zambiassi

Ressaca

Texto de em 19 de outubro de 2017. Nenhum comentário.

Dilmara deu a última vassourada que cabia em suas forças e sentou numa cadeira de plástico, secou uma garrafinha de água em dois goles e já largou o lixo na pilha. Não era o caso de negar fogo no trabalho, só que precisava soltar as pernas antes de pegar a pá e seguir. O conflito com o chão foi longo, cheio de desentendimentos por coisas pequenas. Mas ela bem sabia que as costas não aguentavam mais algumas acrobacias do passado. Atleta, reclamava para si por amor ao esporte, sabendo que não adiantava, mas reclamava e reclamava e reclamava. Pegou um formulário de cima da mesa em frente e uma caneta promocional: “Danos às paredes: s”, “Resíduos f/ lixeiras: s”, “Chão riscado: s, “parte elétrica 100%: n (duas lâmp’s), “Louça na pia: s”, “Barulho depois das 22h: s (relato – Reginaldo/108)”. Sabia do tamanho da bomba que tinha em mãos, até soltou o papel e afastou o tronco de braços erguidos. Seria emissária de notícias desagradáveis contra sua vontade, depois quem pudesse que se salvasse. Mas alguém tinha que fazer o serviço.

O síndico, o Professor, professor de verdade (Educação Física), era um carequinha solitário, cheio de dedos com a manutenção dos espaços comuns – o que se devia a ser ao mesmo tempo um sujeito: decente; chato.

Uma ventania dominou o salão, as janelas tremeram e afinaram-se numa oitava muito alta. A zeladora pôs os pés no chão e sentou direito, sentindo coisa ruim. O Professor apareceu no rabo da lufada: “E aí? Te falei que a Administradora liberou uma comissão pra você se a gente multar esses porcos, né?”, “Não quero dinheiro sujo não, Professor, só tô na minha função de todo dia, com zona ou não. Mas que festa era essa? Trinta pessoas? Bagunça dessa não se faz”.

O homem vestiu sua satisfação como uma medalha, auto-condecorado pelo sucesso de uma missão que só ele entendia. Sentia-se um justiçador, o último dos cangaceiros, o cara que era o bichão, a própria Palas Atena renascida – o que nunca tinha conseguido por outros caminhos. Via-se disposto a fazer o máximo com o mínimo, a tirar limonada de qualquer limãozinho murcho que a vida despejasse na cestinha dele. Perdoar morador malandro de novo seria uma vergonha. Sacou o celular depois de um piiiiin que veio como flecha: “Sabia que a Claro eh a 1a a oferecer ligações ilimitadas p/ qq operadora e tem uma rede novinha c/ 4G mais rápido do Brasil? E ai ta dentro? Acesse …”. Não teve dúvida: fechou a cara, simulou falta e pediu pra sair, tratando a mensagem com uma importância que ela jamais teria. Acenou tchau de um jeitão muito estranho e deslizou para fora do salão com a mesma atitude súbita com que chegou. A mulher fechou as janelas e juntou com os pés umas latinhas que o vento desjuntou; pegou um sacolão azul e fez um sinal da cruz antes de continuar.

 

Marquinho

Desfile

Texto de em 16 de outubro de 2017. Nenhum comentário.

Não há ninguém perto de você.

 

Vanessa pousa o celular sobre a bancada, desce as calças até a altura dos joelhos, senta-se na privada, sem poder esconder o incômodo com o frio, e pensa um pouco no absurdo daquela frase. Antes de começar a fazer força, ela volta a manusear o aparelho, alterando suas preferências de idade.

O festival de homens medíocres recomeça. São muito gordos, muito magros, muito feios ou ainda uma bizarra combinação destas três características (muito gordo E muito magro ao mesmo tempo, a diversidade humana não conhece limites, pensa Vanessa). A foto sem camisa, para mostrar o diâmetro dos braços, é a única constante. Vanessa pensa nessa ironia. Com seus 55 quilos e do alto de seus 1,65 metros de altura, ela não teria coragem de publicar uma foto de biquíni nesse tipo de aplicativos.

 

*splash

It´s a match!

 

A tela diz que ele se chama Marcos e em uma das fotos aparece segurando um cartaz escrito Fora Temer, ela pensa que isso é o suficiente para elevá-lo acima dos descamisados de sempre.

Marcos diz oi, quer tc? só o que eu sei sobre você é que você gosta dos pores do sol. Ela gosta do que lê. Ele parece um homem sincero. Talvez até demais. Quase chega a ser cara de pau, e ainda parece ter algum senso de humor e autoironia.

Vanessa tem vontade de responder que até que ele já sabe o bastante. De qualquer forma, sabe mais do que alguns de meus ex-namorados. Mas, justo neste instante, a água do vaso respinga com mais força, molhando suas nádegas. Na verdade não me sinto atraente o suficiente para retribuir o flerte, ela pensa, depois eu te respondo, ela diz à tela.

Quando Vanessa termina, o assento já está quentinho e confortável, e ela decide passar mais umas fotos antes de se levantar. De repente.

 

Não há ninguém perto de você.

 

O ponto final da frase lhe confere um incômodo ar definitivo. Ela se sente tomada por uma mistura de solidão e indignação. Resolve o problema da solidão com um raciocínio bastante simples. Estou no banheiro de casa, se não tem ninguém aqui perto, tanto melhor para todos os envolvidos.

O mal estar pela indignação é bastante mais indigesto. Em um ato de extrema revolta, ela diz que vive em uma das maiores cidades de um mundo com sete bilhões de habitantes, não faz sentido algum aquela afirmação.

O celular permanece impassível. Da foto de perfil de Vanessa partem círculos concêntricos, como as ondas de um radar, em busca de pessoas que atendam as configurações de Vanessa. E como quem está apenas fazendo seu trabalho, ele repete.

 

Não há ninguém perto de você.

 

Os enunciados performativos desempenham uma das funções mais complexas da linguagem. Com eles é possível criar ou alterar realidades. É por meio da função performativa que a sentença judicial declarando a culpa do réu converte, num passe de mágica, um cidadão respeitável em um criminoso.

Com a gravidade de um magistrado que bate o martelo, o celular-juiz repete que não há ninguém perto de Vanessa. Aquele verbo haver incomoda tanto. Tudo é terminativo e definitivo demais. Não há apelação possível contra um verbo que ninguém sabe conjugar.

Percebe, por fim, que está teorizando demais para não lidar com suas responsabilidades. É que a força dos enunciados performativos se concentra nas qualidades que se atribui ao emissor. Sou eu quem se importa com o que diz o aplicativo. Sou eu que me sinto só quando ele diz que estou só. Eu desejo desinstalar o app, ela diz ao celular, você tem certeza disso, o dispositivo pergunta, eu estou certa disso. Seu desejo é uma ordem, o celular ouve e obedece.

 

*ussshhuóóórlll

 

Ela observa enquanto a água trabalha para levar o passado embora. Lá se vão Caio, o mochileiro que só falava de si, Geraldo, o advogado que reclamou de mulheres que usam maquiagem, Miguel, que buscava uma companheira para um trio com a namorada, e Marcos, o manifestante de 32 anos.

Por um instante, Vanessa se lamenta. Marcos parecia um encontro interessante. Mas sem arrependimentos, ela pensa hoje quero estar sozinha, tanto melhor que não haja ninguém perto de mim.

 

 

texto: Marcelo Silveira
ilustração: Nina Zambiassi

Voz

Texto de em 09 de outubro de 2017. Nenhum comentário.

Hoje, cheguei em casa e tive que permanecer no escuro por uma hora ouvindo música alta, na intenção de fazer minha mente mudar de velocidade, de assunto e de fugir dos pensamentos rotineiros. Foram dez aulas, volto pra casa e continuo ouvindo as vozes… ”Professora isso… Professora aquilo”. É um ritmo frenético, vivo. Participar da rotina de tantos alunos com faixas etárias tão diferentes anda me consumindo.

No começo foi legal, a curiosidade é combustível pra minha mente. Eu já sabia que escolher seguir o caminho da licenciatura me obrigaria a driblar o salário ruim, a falta de amparo do estado, as salas lotadas de alunos que precisam de um tratamento diferenciado e inclusivo, pais que dão mais trabalho que os filhos, a ignorância massificada, os celulares fora de hora e, é claro: a constante falta de interesse e de vontade em obter conhecimento por parte dos alunos. Em 50 minutos você precisa dar conta da burocracia escolar, do conteúdo acadêmico, inspirando, mediando essas informações de maneira que a aprendizagem aconteça em uma sala de 30 ou 50 alunos, que não prestam atenção ao mesmo tempo. O que se ganha em troca? Uma cirurgia nas cordas vocais para ser marcada em um sábado de manhã. Minha voz está desaparecendo. Parece assustador e realmente é. Pra que sofrer tanto nesse teatro educativo do sistema? O trabalho levado com seriedade desaparece, já não o vejo mais.

 

Hoje, limpando as mesas da sala de Artes, me vi como uma garçonete. A cada toque do sinal, trocam as turmas, os alunos se acomodam nas mesas para oito pessoas e ali ficam levantando a mão e fazendo pedidos, sejam explicações ou materiais para a realização das atividades. O sinal bate novamente, antes de a outra turma chegar, já limpei todas as mesas. Pela primeira vez nesses três anos, me perguntei, “o que estou fazendo aqui?”

 

E as vozes não param e já não penso mais com a minha voz, penso com a voz dos alunos que ficam me chamando e, às vezes, escuto tão alto na mente que acho que estou ficando louca e, quem sabe, esse seja um pré-requisito pra se aventurar pelos caminhos da realidade da educação brasileira.

 

Ali no escuro, quando cheguei em casa, esses pensamentos foram se dissipando e cada vez mais minha mente era preenchida pela música. Precisei respirar fundo incontáveis vezes, mas sem sucesso, não me senti viva. Permaneci ali e perdi a noção de tempo e espaço. De repente me percebi dançando no escuro, imaginava aquele menino barbudo, aquele que sempre toma muito cuidado com as palavras, meu tipo preferido de gente, sempre invejei quem sabe o que fala. Barbinha bonita, quis sentir mais de perto. De olhos fechados visualizo tudo. Percebo-me ali, egoísta de novo. Envergonho-me. Fervo. Continuo respirando. Eu tento não ouvir as vozes, eu quero silêncio, as vozes estão cada vez mais fracas, ainda não consigo ouvir minha voz, penso na cirurgia. Se os três primeiros anos foram assim, imaginem os próximos 22! Não. Volta a imagem do menino barbudo, me olhando aquela vez no elevador. Na liberdade da minha imaginação, dessa vez, ele usa gravata-borboleta e, quando nos despedimos, no abraço… isso! Congelei ali.


Às vezes acontece assim, os ícones de liberdade que criamos com toda essa massa disforme que chamamos de novela humana. Em 1830, a liberdade é ilustrada pela mulher despida guiando o povo. Em outras épocas é o menino de barba no elevador. Maldito escapismo de merda, malditas crises, viva a revolução. Viva o silêncio, as vozes quase nem ouço, hora de planejar as aulas de amanhã. Ascendo luz e penso nas férias. Não, ainda falta tempo, esses duzentos dias letivos são intermináveis, lá pelo dia cem, você já não suporta ouvir as mesmas vozes falando cada vez mais alto, enquanto sua própria voz já se foi, já nem é mais ouvida. Se eu mesma não consigo ouvir, imagine os outros? Me imagino como um palhaço em frente à classe. Não estou sentindo vocação para esse teatro ridículo. No começo achava que era mais. Anoto na agenda a rotina de amanhã, o pensamento que me conforta é que vai acabar rápido. Ultimamente esse pensamento tem se mostrado cada vez mais fraco. Meu corpo e minha mente querem silêncio.

 

Texto: Livro dos Novos III, 2016. Ilustração: Nó nas cordas vocais, 2017. Caroline Rehbein

Maicosuel, 24: algumas madeiras grossas e um pedaço de lona lhe trouxeram conforto que ainda não conhecia no último inverno. Contrariando os que pensam que a inteligência lhe fugiu desde que fumou crack pela primeira vez, escreveu a giz com letras bem desenhadas (frequentemente elogiadas na escola) num papelão: Minha casa, minha vida.

 

Julia, 32: construiu para sua filha de oito anos uma miniatura de carrinho de catar papel muito parecido com o que ela mesmo trabalha diariamente. Ontem, a coleta de alumínio rendeu bem, conseguiu comprar uma latinha de tinta rosa para pintar a carrocinha da sua pequena, não vai mais precisar levar a menina sentada no carrinho maior.

 

Wesley, 15: ficou algemado no balcão da delegacia do menor infrator por cinco horas, esperando sua mãe chegar para assinar alguns termos, foi pego numa operação da guarda municipal que deteve quem entrou no ônibus sem pagar. Fazia muito sol para voltar a pé e o dinheiro da condução nessa semana foi todo em arroz, macarrão e feijão.

 

Vilma, 43: voltou a estudar no começo do ano, o conteúdo da aula de matemática desse mês vai ser equivalente ao da quinta série. Não vê a hora de conquistar seu diploma do ensino médio e enfim se candidatar para a vaga de faxineira no hipermercado.

 

Sandro, 45: o ofício de cuidador de carros lhe rendeu quase cem reais nessa semana, sessenta vai para o dono da pensão, bem administrado vai dar para comprar comida e guardar um pouco num saquinho que fica debaixo do colchão. Sonha em economizar o suficiente para ir ao dentista e reaver ao menos os dois dentes da frente da sua boca despovoada.

 

Estéfany, 11: semana passada foi estuprada pelo filho do senhor que a contratou para limpar a sua casa, que fica na mesma vila onde ela mora com a mãe e os quatro irmãos. Não se sentiu mais aliviada quando seus irmãos desfiguraram o homem que a violentou e chorou tanto quanto na semana anterior: teme o que virá pelos próximos dias.

 

Ribamar, 27: os bicos em obras rarearam na proporção de seus músculos, acende o fogo que aquece sua panela com restos de madeira esquecidos nas caçambas. Vasculha o lixo dos sobrados que ajudou a construir, se sente com sorte quando acha mais que ossos e legumes podres.

 

Natalia, 20: sai de casa com o filho no colo toda terça-feira às três da manhã, munida de esperança e toda sorte de sacolas nos bolsos. Caminha por mais de duas horas para chegar na feira; ganha um pastel e um pouco de café, consegue algumas moedas no decorrer da manhã e deixa o filho sentado no meio-fio enquanto recolhe alguns alimentos que se espalham pelo chão.

 

Alberto, 62: desde que recobrou a consciência no leito do hospital ouviu ao menos sete vezes que é um milagre estar vivo após tantas facadas, logo vai ter alta, apesar das feridas ainda sangrarem. Se sente fraco, cansado, mais por conta de uma vida sob constante injúria e preconceito que pelo último incidente.

Neusa, 52: vende pirulitos no sinal já faz uns anos, com nariz de palhaço e maquiagem vermelha e branca. Sentou no meio-fio e riu sozinha dia desses, quando alguém comprou todo o pacote de doces e seu nariz vermelho, porque precisa do aparato para ir a um protesto.

 

 

Escrito pelo Gabriel Protski

Arte por Florentijn Hofman

Palavras sem letras

Texto de em 27 de setembro de 2017. Nenhum comentário.

mr Kawamura

Eu até entendo aquelas pessoas que leem diversos temas ao mesmo tempo e passam a limpo três, quatro livros em um mês. A esses leitores deixo aqui, antecipadamente, os meus aplausos. Imagino como essa habilidade deve ser útil e os deve deixar à frente de qualquer um. Eu não nasci com, nem desenvolvi tal sorte.

É claro que são fases também, dependendo da necessidade e da presença de espírito, dá até pra encarar umas leituras, digamos assim, mais dinâmicas. Enfim, o caso é que pelo terceiro ano consecutivo, na mesma época, nesses dias de fim de agosto e início de setembro, me vi encarcerado em um capítulo de livro. Pela terceira vez, só consegui atravessar o capítulo em questão após longas horas de leitura e releitura compulsiva. Obsessão? É possível que sim.

Deixando o drama de lado, talvez isso seja algo menos patológico e mais intuitivo. Apenas curiosidade. Uma busca mais intensa que perfura a epiderme da interpretação de texto e ganha volume na absorção do sentido. É quando você literalmente começa a entrar em um processo de enxergar palavras sem a necessidade de letras. Um animal desconhecedor dos signos, que apenas se orienta por sensações e sonhos. Como diz o trecho do poema de Miss Saeki:

You sit at the edge of the World
I am in a crater that’s no more
Words without letters

Esse poema se encontra justamente no trecho do capítulo ao qual permaneci preso por quase todo esse mês. É a vigésima terceira parte do romance ‘Kafka à Beira-mar’, do japonês Haruki Murakami. É nesse pedaço do livro, sem dúvida, que acontece o ponto de confrontação do herói. Porém, em um sentido mais poético e contemplativo. Não foi apenas gatilho para entronizar um certo desenrolar de acontecimentos em direção ao desfecho. Foi uma metáfora simples e muito reveladora. Uma chave que mudou a realidade. Fui Tamura, fui Nakata, fui Hoshino e, mais do que todos, fui o felino Kawamura. Grande livro de sonhos que me proporcionou um breve reencontro com aquela excitação das primeira leituras.

No início de setembro de 2016 aconteceu algo parecido. O livro era ‘O Mestre e Margarida’, de Bulgakov. Ucraniano-russo maldito! Bruxo do teatro. Rei das cenas impossíveis. Pai de Behemoth, o gato mais lokaum da literatura mundial. As pinturas desenhadas naquelas páginas até hoje habitam as profundezas dos meus sonhos. Por vezes, no ponto de ônibus ou pedalando minha bicicleta, com o vento batendo no rosto, fecho os olhos e vejo as paisagens e atos fantásticos que o velho Mikhail compôs e deixou registrados naqueles manuscritos que não arderam nas chamas. Coincidência ou não (pira influenciada pela baixa cultura de 2007 com aquele thriller com o Jim Carrey? Talvez), o capítulo deste livro que me aprisionou por mais de um mês foi também o de número vinte e três.

O grande baile do ‘mochila de criança’ – aquele que pesa nas costas dos inocentes – descrito por Bulgakov nesse capítulo me deixou tão obcecado que em uma noite, no fim daquele mês de setembro, me vi diante de uma cena muito parecida, que até hoje não tenho certeza se exatamente aconteceu. Era madrugada. Eu estava em frente a um estabelecimento comercial na Avenida Senador Souza Naves, quando de dentro de um táxi desceu um grupo de figuras extremamente semelhantes ao sombrio Woland e sua galerinha do mal. Não tive medo, mas um pouco daquele estresse me causou consequências permanentes. Sem contar que o encanto e a entrega de Margarida despertaram em mim uma paixão controversa.

Fechando (ou iniciando) o ciclo dos três anos de setembro emparedado, 2015 teve sua cota de obsessão. Acho até que, de todas, essa foi a fase mais onírica. Por esse motivo, acredito também que tenha sido a mais problemática das três compulsões.

O livro era ‘O Aleph’, do Borges. Foi meu primeiro contato com o sobrenatural. Fiquei exatos trinta e cinco dias desesperadamente trancado dentro do primeiro capítulo do exemplar que chegou até mim por intermédio de um empréstimo na Biblioteca Pública do Paraná. Renovei e atrasei pela segunda vez. Paguei multa apenas para mantê-lo mais alguns dias comigo e tentar compreender o que de fato aquele conto ‘O Imortal’ queria me dizer.

Naquele período, vivendo no Hauer e vindo ao Centro todos os dias de bicicleta, tive alucinações. Em uma dessas revelações, conversei com o centurião de Tebas, que tem a busca pela imortalidade desenhada por Jorge Luis de uma maneira (por vezes hermetista) veemente e cheia de significado. Sofri com o desapontamento de Cartaphilus. Porém, mais do que as questões filosóficas a respeito de vida e morte, sobre aventura e pesadelo, memória e admiração, o que Borges diz sobre o sentido e a importância das palavras foi a chave de libertação daquela cela:

“Quando se aproxima o fim”, escreveu Cartaphilus, “já não restam imagens da lembrança, só restam palavras”.

Palavras, palavras deslocadas e mutiladas. Palavras de outros, foi a pobre esmola que lhe deixaram as horas e os séculos.

Repito essas frases como um mantra todos os dias: só restam palavras, palavras deslocadas, palavras mutiladas. As visões desencadeadas pelo primeiro capítulo de ‘O Aleph’, transformei em contos como o ‘Gálea e Bronze’ e ‘Amedeo’. Dos enigmas de ‘O Mestre e Margarida’ escrevi ‘Factóides da Devastação’ e ‘Festival de Inverno’. Enquanto lia o capítulo vinte e três de ‘Kafka à Beira-mar’, escrevi ‘Trauma’. Fracassadas tentativas de entender os significados dos sonhos suscitados pelos três livros. Na semana passada, baixei em e-Book ‘A Interpretação dos Sonhos’ e ‘O Futuro de uma Ilusão’, pra ver se ajuda. Tenho no máximo algumas pistas esparsas, nada inteiramente decifrado. A vida nos confronta com alguns mistérios insondáveis, contudo, ainda não sinto emergência em desvendá-los. A jornada importa mais que o destino.

Texto – Jadson André

Imagem – Mr. Kawamura

aguardamento

Texto de em 22 de setembro de 2017. 1 comentário.

1.

 

era para ser apenas mais um sábado, a princípio. de onde, então, vinha aquela sensação esquisita? a intuição de vida-por-um-fio a surpreendeu logo cedo, logo ao acordar, como um vazio que dá no peito, um desconforto, uma angústia intermitente. por via das dúvidas, conferiu o horóscopo de sagitário do dia e constatou que não havia nada de errado, a princípio. tanto melhor.

 

enquanto engolia sem vontade uma pizza de quinta-feira reaquecida na sanduicheira, repassava a programação do dia. nada de muito diferente, a princípio: a lista da manhã incluía o tradicional passeio com o cachorro da namorada, aliado a uma caminhada à banquinha de jornais para comprar cigarros. na volta, passaria no açougue, para depois começar a cozinhar: já tinha em casa molho de tomate, creme de leite, cebolas, mostarda, molho inglês, conhaque e batata palha, de forma que os ingredientes para o estrogonofe já estavam quase que totalmente resolvidos. a princípio, só faltava a carne. repassou a manhã, acentuou-se a angústia.

 

ao início da tarde, começaria a cozinhar. terminaria ali por uma e meia, bem a tempo de buscar a namorada no aeroporto, cansada de mais uma entediante viagem da firma. almoçariam o estrogonofe, tomariam um banho e provavelmente dariam uma transadinha. a princípio, a namorada gostaria de dar uma cochilada pós-foda, para se recuperar, então planejou uma passada no buffet infantil onde pretendia fazer a festa de aniversário do sobrinho preferido. até porque é melhor conhecer o lugar do que marcar assim, no escuro. programou a tarde e a angústia aumentava.

 

à noite, a princípio, filmes. na volta do buffet, passaria na panificadora e buscaria uns quatro pães franceses, queijo e presunto e alguns minissonhos, a princípio, todos de nata. lanchariam, deitariam no sofá, escrutinariam o catálogo da Netflix por uns 35 ou 40 minutos até decidirem por um filme ruim qualquer. depois do primeiro filme, abririam um vinho. a princípio, veriam mais um filme e, se possível, o segundo seria mais picante para instigar, quem sabe, mais uma transadinha depois. seguiriam-se carícias, conchinha, sono gostoso. a noite planejada, a angústia ainda lá.

 

 

 

2.

 

comeu a bordinha com ketchup extra. levantou, pegou a coleira, Vamo lá passear, Tobias?, e se pôs a caminhar com o cachorro do lado. andou uma, duas, três quadras, atravessou uma esquina complicada, Me dá três maços de Marlboro, por favor, Muito obrigada, e virou sentido açougue. Seiscentos gramas de contra-filé, por favor, Se der pra ser cortadinho para estrogonofe, agradeço, Obrigada. tomou o rumo de casa, largou o akita no quintal, lavou bem as mãos, preparou com cuidado a refeição, provou, Nossa, hoje eu acertei. entrou no carro, botou para tocar uma playlist de música brasileira, cantou junto, Se não tivesse o amor, Se não tivesse essa dor, E se não tivesse o sofrer, E se não tivesse o chorar. estacionou no aeroporto, encontrou sua namorada, que sorria um sorriso enorme, Oi, meu amor!, Que saudade, Deixa que eu levo essa pra você. voltou, sentaram, almoçaram, Gostou?, Hoje eu acertei, né?. deixaram as louças na pia, as roupas no chão do quarto, foram para o banho, se banharam, se beijaram, se apertaram, se esfregaram, Nossa, eu tava com muitas saudades de você, mulher. foram para cama e continuaram o que estavam fazendo, transaram, gozaram, terminaram, Jesus, que delícia. Agora dá uma descansada, que vou passar lá no buffet onde tô querendo fazer o aniversário do Lucas, tá? pegou o carro novamente, botou uma playlist de porcarias variadas, cantou, Never made it as a wise man, I couldn’t cut it as a poor man stealing, Tired of living like a blind man, I’m sick of sight without a sense of feeling. o buffet era bem bonitinho, gostou, o Lucas iria adorar, Posso te ligar na segunda pra confirmar?, Beleza, obrigada, Até segunda, Sandra, voltou pro carro e parou na padaria. Quatro pães franceses, por favor, Ah!, Queria cento-e-cinquenta gramas de queijo e de presunto, Isso, cento-e-cinquenta de cada, E me veja também seis minissonhos, três de nata e três de goiaba. chegou, a namorada já acordada, Oi, linda!, lancharam, puxaram o assento do sofá para ficarem bem esticadinhas. olharam toda e qualquer cateoria possível de filmes do Netflix, Vamos ver esse aqui do Nicolas Cage, haha, Dizem que é o pior dele, Pelo menos deve ser engraçado. assistiram, riram bem menos do que o esperado, abriram o vinho e começaram a assistir Azul é a Cor Mais Quente, deram mais umas bitocas mas o sono começou a bater e nem transaram pela segunda vez. Vamo dormir, né?, Eu tô morta e cê ainda deve tar cansada da viagem, né?, deitaram, trocaram carícias, beijinhos, abracinhos, montaram a conchinha.

 

 

3.

 

dormiu só a namorada, porque a angústia ainda estava lá.

passou mais duas ou três horas insone, remoendo a impressão de vida-por-um-triz.

 

ela se esforçaria para relaxar e descansar muito bem se soubesse o que viria pela frente no domingo, mas, infelizmente, não sabia.

 

aquele, no fim das contas, foi apenas mais um sábado.

texto por Rômulo Candal
ilustração por Marco Antonio

Não bastassem os boletos

Texto de em 11 de setembro de 2017. Nenhum comentário.

 

Nesse domingo eu cozinhei feijão. Para o mês todo. E sabe o que eu fiz depois? Coloquei em um pote de sorvete. Acredita? É esse tipo de adulto que nos tornamos, Julie.

Eu poderia colar uma etiqueta escrita “feijão” no pote, pra nunca me confundir, mas não. A gente quer se iludir, sabe. Quer conhecer alguém e achar que será o amor da nossa vida. Quer entrar num novo emprego e achar que é o trabalho dos sonhos. A gente quer parecer que sabe o que quer.

Sabe, Ju, às vezes eu sinto que preciso trabalhar pra relaxar. Como se tivesse que resolver os pepinos dos outros pra não pensar sobre os meus. Essa foi uma semana daquelas! Como foi a sua? Não que eu queira realmente saber, pergunto mais por educação mesmo… Tô brincando, sua tonta, quero saber sim.

Se tá tudo bem comigo? De acordo com meu psicólogo ou com meu Instagram? No Insta, eu tô ótimo. Deve ser por isso que eu fico revendo minhas próprias Stories, pra acreditar que a vida é aquilo ali. Confesso que estou um pouco viciado. O Insta, o Whats, o Face, até o Tinder. Quanto o celular vibra é tipo um mini orgasminho. Eu abro a pré-visualização, vejo que é o crush e só vou olhar a mensagem um pouco depois. Não é pra ficar me fazendo, não, que não sou desses. Acho que é mais pra ficar curtindo aquela sensação, sabe, de ter alguém te dando bola.

Você já parou pra pensar como nomes com a letra J funcionam tão bem como interlocutores? Talvez seja uma coisa importada das músicas…  “Do you, Mr. Jones?”, “Jolene, Jolene, Jolene”, “Hey, Juude”, “João, o teeempo está mexendo com a gente, sim”. Não sei, mas que soa bem, soa. Todo mundo deveria ter um amigo com J pra conversar. Nem que fosse imaginário. Ainda bem que eu tenho você.

Dia desses eu cometi aquela cagada clássica, sabe? E passei as semanas seguintes achando que teria um filho não planejado. É curioso como o maior medo de muitas pessoas da nossa idade não seja morrer, e sim gerar uma vida; e ser responsável por ela. No entanto, mesmo assim a gente se arrisca. É como chegar na beira de um precipício e querer olhar pra baixo, chegar bem na pontinha pra contemplar o buraco, sabe? É que o buraco é mesmo irresistível. Risos.

Enfim, agora pode até parecer engraçado, e caso acontecesse provavelmente seria maravilhoso. Mas eu estava realmente paranoico, sabe, como se inebriado por uma dose de vida adulta. Roupinhas e comidinhas e fraldinhas e fofurinhas e tudo no diminutivo, mas adeus às transadinhas casuais e as cervejinhas. Que horror… zinho.

Sei lá, eu sempre tive a impressão de que ter um filho é o que pode fazer a sua vida ter algum sentido. Mas então será mais um ser no mundo que irá perceber que a vida não tem sentido, e então ele terá um outro filho para aliviar o problema, e assim caminha a humanidade.

Enfim, aí quando eu tive a certeza que não tinha bebê nenhum a caminho, sabe o que eu comecei a fazer? Você vai me achar louco, Julie, mas é pra isso que os interlocutores com J servem. No dia seguinte, eu sempre pego a camisinha amarrada e a suspendo na altura dos olhos. Digo para o líquido enclausurado: not today, motherfuckers! Às vezes tal qual Cléber Machado: hoje não, hoje não! Tornou-se um ritual. Coisa besta, né? Anyway, agora minha maior preocupação voltou a ser o aluguel.

Vamos pedir mais uma saideira, Ju? As últimas três passaram tão rápido. Não, não venha me falar sobre o amanhã. Vamos fazer uma Story no Insta?

Pra mostrar que a gente é jovem, ué. Que a nossa vida é de sorvete, e não de feijão.

 

Murilo.

Metas

Texto de em 04 de setembro de 2017. Nenhum comentário.

As prateleiras cheias formavam um catálogo de sonhos para Adriana, que olhava através do vidro como um neném assiste o mundo se revelar do alto do colo da mãe, de boca entreaberta em um sorriso fácil, cara de surpresa, a cabeça balançando para lá e para cá. Antes de escolher uma botinha sem salto que a deixasse diva, corria a vista por tudo que ainda não queria mas poderia querer dali um mês, quando os carnês estivessem em ordem e a conta bancária azulasse, em reconciliação entre ganhos e gastos. Do lado de dentro, Leila se destacou das colegas e chegou mais perto da porta, atenta à possível cliente, a menos de duzentão de bater a meta trimestral, em preparação serena do movimento que poderia saciar sua fome de comissão, contente porque a mulher se dedicava com mais carinho aos pares mais caros.

A luz pálida escapava da loja para fundir-se a uma garoa molha-bobo na calçada. O pessoal da rua se acotovelava pela marquise, em batalhas concomitantes por proteção individual, som de carros, motos, ônibus, pingos nos guarda-chuvas e vozes: as jaulas todas abertas.

Um homem-sob-a-marquise viu Adriana de longe e preparou sua melhor carinha de quem gostou demais, com a cabeça cheia de maldade. Ajeitou as calças para cima, redobrou a gola e as mangas da camisa e chegou junto. Resmungou um oi que ela fez questão de procurar de onde vinha para ignorar e voltar ao que lhe interessava. Ele não se deixou derrotar, ainda tinha gás. Tentou uma nova abordagem mais íntima, quase no cangote da mulher mas, na segunda vez, ela sequer se deu o trabalho de virar para o lado – deu um passo para o lado oposto ao dele e inclinou-se para frente, ligada em uma sandalinha de tiras em uma prateleira baixa.

A vendedora não gostou do intruso e acionou o segurança, já com planos para cada centavo extra que conseguisse arrancar do mês: o megahair em salão bom se materializava aos poucos e a quitação da moto era cada vez mais palpável. O careca de uniforme preto chegou perto da porta com cara de nenhum amigo, cerrou os punhos e forçou o peitoral. O mala da marquise percebeu, fingiu embaraço, repensou a postura e largou mão de encher o saco da gatinha. O homem foi embora com saudade do que não viveu, apaixonado pela dona do perfume que invadiu seu pensamento, tentando guardar os quadris largos e as roupas justas na memória, voltando à invisibilidade por motivo de multidão, um casaco preto misturado a muitos outros casacos pretos, só mais uma partícula no coro da hora do rush.

Com o campo de batalha novamente limpo, Leila fez um gesto para o careca voltar. Agora era sua vez de chegar mais e mostrar as armas, brilhar, fazer o nome, dar show, mostrar para as colegas com quantas vendas se conquistava comissão graúda atrás de outra, com quantos paus se fazia uma canoa para remar até o espaço reservado aos monstros sagrados do comércio, quanta dedicação era necessária para alcançar o posto aberto de subgerente da loja.

A senhora quer entrar?, viu algum modelinho que gostou?

 


Ilustração: Caroline Rehbein

Texto: Marco Antonio Santos

 

 

Trauma

Texto de em 01 de setembro de 2017. Nenhum comentário.

Quando chega em casa, já de madrugada, Ícaro descobre que perdeu as chaves. O motorista que o trouxe desaparece repentinamente. No escuro do inverno, sozinho e sem saber o que fazer, ainda um pouco afetado pelos efeitos da festa com amigos, Ícaro olha para os dois lados da rua e percebe que a uma quadra e meia de distância, uma pessoa estranha, de capuz, caminha em sua direção. Ícaro treme, a respiração muda de frequência. Maldita hora para perder as chaves. Maldito motorista três estrelas dos infernos. Impulsivamente pula, se agarra na grade e começa escalar para alcançar o outro lado. Mas na passagem, sem que perceba, a jaqueta fica enroscada nas lanças do portão. Ao jogar o corpo para enfim acessar o jardim da casa, Ícaro sente um puxão muito forte e leva meio segundo para entender que está pendurado na grade. Com o corpo pendendo na horizontal, sem conseguir encostar as pernas no chão, vê celular e carteira deslizando dos bolsos e causando grande impacto contra a calçadinha alongada que delimita o canteiro de flores. De longe, percebe que a tela do aparelho já era. Parece uma teia de aranha escura sobre um painel de luz inferior exibindo fragmentos indecifráveis do que, há poucos instantes, era uma conversa via mensagem de texto. Ícaro ouve o tecido das roupas estralando e abruptamente bate com a cabeça no piso esguio.

 

Abre os olhos e vê apenas vultos. Ao contrário da visão insegura, seus ouvidos parecem tatear cada pedaço de matéria ao redor. Sabe exatamente a velocidade e a distância da pessoa que se aproxima apenas prestando atenção na cadência dos passos. Por alguns segundos, muito mais longos que o relógio poderia assegurar, Ícaro sente aquele gosto acre da ansiedade que sobe das entranhas pelo conduto musculoso e atinge o fundo da boca, deixando tonto e nauseabundo a ponto de quase desmaiar. Mas é apenas um transeunte noturno. Ainda sem poder enxergar direito, Ícaro percebe que o caminhante se aproxima para em seguida se distanciar sem perder o ritmo. Um viajante determinado em chegar ao seu destino. Pisaduras rígidas e ágeis, sem nunca desconsiderar as condições da superfície do terreno e mantém os passos menos ruidosos. Depois que o viandante desaparece, Ícaro percebe o quanto se deixou levar por um medo que aparentemente não lhe pertencia. Era um problema se transformado em hábito.

 

Caminha por um longo corredor, passa pelos carros no estacionamento e entra no prédio pela porta dos fundos, que só fica encostada. Tudo escuro. Os sensores de presença que acionam as lâmpadas não funcionam. Ícaro olha para o alto e vê as escadas em espiral. Sem qualquer luz acesa, o conjunto de degraus se transforma uma serpente gigantesca, congelada pela Era glacial. Um monstro abissal e sua visão noturna que deixa Ícaro em clara desvantagem. Retorna à realidade e dá mais uns passos até o início da escada. O ambiente permanece surdo. Apenas o barulho dos radiadores a vapor do sistema de aquecimento produzem ruído no subsolo. Ícaro desce até lá e, em um dos armários do almoxarifado, apanha uma chave de fenda.

 

Armado com a pequena haste de metal, se sente mais seguro e sobe até o terceiro andar. Nenhum dos vizinhos parece estar acordado. Com auxílio da lanterna do celular, que ainda funciona, Ícaro desparafusa o espelho da fechadura e consegue observar a engrenagem lá dentro. Mete a chave de fenda em uma das aberturas e após um pouco de esforço, consegue mover a lingueta para trás. Com facilidade, gira a maçaneta e o trinco é liberado. Dentro do apartamento, acende a luz e Cassandra, sua gata persa casco de tartaruga, se espreguiça em cima de uma almofada sobre a escrivaninha e pisca os olhos lentamente. “A noite parece ter sido boa, hein”, diz ela com uma voz afetuosa, mas sem perder a ironia. “Foi demais até”, responde Ícaro tirando as roupas rasgadas, para em seguida jogá-las no corredor que dá acesso ao quarto e ao banheiro. Caminha até a cozinha e pega uma garrafinha de chá gelado na geladeira. Volta e senta no sofá vestindo apenas camiseta, cuecas e as meias. Cassandra sobe em seu colo e diz, “já passa da hora de dormir, nada de assistir essa tela ai”. Ícaro não diz nada, apenas acena com a cabeça.

 

Antes de tomar o chá em três goles rápidos, ele coloca a garrafa gelada contra a lateral direita da cabeça e sente certo alívio no calombo que se formou após a queda. Uma mariposa passa voando na sala. Ícaro observa as asas e aquele voo gracioso. Cassandra dá uns pulinhos tentando em vão alcançá-la. Ícaro se levanta e vai abrir a janela para libertar o inseto. Retorna ao sofá, puxa uma manta dobrada, se cobre e dorme subitamente, ali mesmo. É atacado pelo mesmo sonho que vem tendo há dias. Lembrança confusa de uma vez em que foi assaltado. As cenas e boa parte do enredo se alteram noite após noite, apenas o temor angustiante e a imagem da arma encostada entre os olhos, seguida do estrondo seco de um disparo que nunca aconteceu, sempre são os mesmos. Uma dissociação da psiquê longe de ser sanada. Dessa vez, porém, a mariposa estava lá, batendo as asas na substância fantasiosa do sonho, segundos antes de Ícaro ser acordado pelos raios do Sol.

escrito por Jadson André

imagem de Carol Rehbein