Literatura apesar de tudo.

Crise Diplomática

Texto de em 29 de agosto de 2017. Nenhum comentário.

Havia algo de tão distante entre nós, que poderíamos ocupar o mesmo cômodo em países distintos, cada qual entrincheirado em sua nação particular. A diplomacia falhou, não há convenção de Genebra nem de lugar algum para se respeitar, todos os pactos foram rompidos. A comunicação se dá por breves gestos, mas não consigo decifrar todos seus enigmas, não existe código Morse que me ajude. Estou cercado por todas minhas insatisfações, libertadas na ânsia de me municiar na batalha, seus efeitos explosivos agrediram ambos os lados; vejo seus ferimentos expostos, quero declarar uma trégua, preciso estancar o sangue que esvai-te. Preparo-me para cruzar a fronteira, falo mas não comunico nada além de grunhidos, esquecemos do idioma que havíamos criado para nós; as pernas travam na lembrança de quantas minas terrestres se interpõem até você, não sei o que estou disposto a perder, sei que agora tenho muito pouco. Tuas tropas mudam de posição quando percebem uma aproximação que julgam sorrateira, venho em paz, mas esqueci de hastear a bandeira branca; faço tocar teu telefone vermelho, que cora teu rosto num toque mudo. Tento falar sua língua, enquanto você recorre à minha, é estranho até mesmo se entender após tantas batalhas. A paz se faz necessária para ambos os lados, há uma guerra que ninguém pode vencer e que já não me disponho a lutar, cedo-te todo o território em nosso enclave, você vai além, propõe a exclusão de toda e qualquer fronteira. Cada um realiza surdamente o julgamento de seus próprios criminosos de guerra, expurgo todos os velhos hábitos que foram estopim e armamento no conflito.

 

Planto flores sobre o campo minado, esperançoso de que nossos pés jamais tornem a pisar a beleza que cultivamos ao nosso redor.

 

Escrito pelo Gabriel Protski

Colagem feita pelo Mister Blick

AQUARIANA

Texto de em 23 de agosto de 2017. Nenhum comentário.

Maria Vitória não quis. Depois que terminou o ensino médio, achou a proposta de Fabrício, seu melhor amigo, o oposto do que planejou. O problema não era Fabrício, ele era bonito, beijava bem. Também não era a conjuntura de ter um namorado. O problema real Mavi desconhecia. Durante a sexta-série percebeu que Fabrício arrumava sempre um motivo pra sentar a seu lado, fosse a aula em dupla ou não, não só ela percebeu como a turma toda. Passou alguns recreios chorando por não saber o que fazer. Foi apenas seguindo seus instintos e pelo pouco que conhecia de si mesma, preferia entrar na faculdade sem estar namorando. No fundo sabia, que de todos aqueles anos obscuros no colégio, pouco se lembraria. As poucas lembranças, devia a Fabrício. Terminar o colégio na perspectiva de encerrar uma fase de sua vida seria uma sequência de ações bem executadas. Ao fim da formatura, Mavi recusou a carona de Fabrício e tudo o que ela significava.

 

Planejou terminar as aulas e viajar, mas, em vez de ir pra rodoviária, pegou um táxi e passou as férias no apartamento de Gabriel. Ele era fotógrafo e estudava jornalismo. Gabriel era chegado em novinhas, ela querendo conhecer caras mais velhos, não poderiam ter formado casal melhor, e foi assim que se sentiram aquele mês. Eram amigos de internet e tinham muitos interesses em comum. Foi no final de semana antes das aulas começarem. Era por volta das cinco da manhã. Mavi abriu os olhos e fitando por algum tempo o teto e a silhueta da mobília que já lhe pareciam familiar, decidiu que era hora de ir embora. Levantou-se sem acordar Gabriel, pegou suas coisas e saiu.

 

Quando as aulas começaram sentiu falta de Fabrício e de como ele tornava todas as situações mais fáceis. A solidão em que se viu foi tão grande que sentiu-se a ponto de cair. Na primeira semana estava concentrada, quando Matheus que naquele dia decidiu sentar a seu lado, aproveitou a oportunidade e perguntou o nome do perfume que ela usava. Mavi a princípio não deu bola, falou logo o nome do perfume e continuou a prestar atenção na fala do palestrante. Depois percebeu na atitude do garoto milhares de possibilidades e intenções. Na aula de fotografia quando descobriram o espaço escuro entre uma porta e outra do laboratório esperaram a aula acabar e se pegaram ali. Aconteceu que Matheus se apaixonou por Bianca nas férias de julho e da relação surgiu uma criança, o que deixou Matheus em uma situação complicada e fora do jogo.

 

Preferiu mudar de turno por Matheus e outros motivos. Na turma da noite não conhecia ninguém. Foi então que começou a reparar em Kauê, o rapaz que trabalhava na reprografia do campus. Já havia reparado nas costas e braços do garoto. Reparou também nas olhadas, piscadas e diretas. Carente e depois de beber muito, decidiu saber como era dar pra alguém com músculos. Percebeu que já havia dado por dó, por vontade, necessidade, educação, por obrigação e que por curiosidade nunca. Imaginava ela, que Kauê era o tipo de cara que recebia infinitas propostas e resolveu ser direta desde o começo. Não saiu perguntando que tipo de música ele gostava, nem o que fazia nas horas vagas. Foi logo deixando claro que queria sexo. Trocaram mensagens por dois dias até combinarem tudo. Na quarta-feira foi se encontrar com o garoto. Maria Vitória tremia. Sentiu um tesão fora do normal, o corpo do cara era realmente lindo, firme, magro, definido, duro. Pena o pau ser mole. Agradeceu ao cosmos por pelo menos não ser pequeno. Tentou não demonstrar que detestou. Aproveitou a hora que o despertador tocou lembrando de tomar o anticoncepcional, fingiu que era uma emergência e foi embora.

 

Começou a achar péssimo ter que conviver com essas situações que seus “casinhos” criavam. Baixou tinder e decidiu que não transaria mais com conhecidos, ou com pessoas que tivesse certo laço social. Essas pessoas em algum momento da relação pediam ou ofereciam romance, Mavi não queria romance, queria foder. E fodeu muito. Até que conheceu Carlos, o cara era casado. Aprendeu o que eram gozos múltiplos com Carlos. Carlos sabia fazer gostoso. Não gostava de repetir as transas porque isso implicava em se relacionar, mas com Carlos não conseguiu fazer diferente, mantinha contato e vez ou outra se encontravam. Até que Carlos ofereceu apartamento, mercado, água, luz e internet, Mavi saiu do carro e nunca mais viu Carlos na vida. Lamentou, pois no fundo, sentia amizade por ele. Na noite da proposta, saiu do carro de Carlos e foi pro apartamento de Gabriel. Lá beberam e depois que fumaram um baseado, Mavi que não era de ficar falando muito, desabafou sobre suas experiências. Gabriel usou com Mavi a palavra ninfomaníaca, o que levou os dois aos risos no chão do apartamento. Transaram e dormiram no tapete da sala. De madrugada acordou as três da manhã, ficou ali encarando a escuridão e decidiu que era hora de falar com Fabrício.

 

Mandou uma mensagem perguntando se poderiam se encontrar naquela tarde, ele respondeu sugerindo de irem ao cinema. Maria foi movida pela vertigem de reencontrar seu velho amigo. Não tinha amigas desde a época da escola, porque não suportava o convívio feminino. Aprendeu na infância que ser amiga significava apoiar ou usar como apoio as outras pessoas. Não teve boas experiências, foi excluída, excluiu e resolveu que não precisava daquilo. Depois do filme foram beber uma bera. Isso era muita novidade, costumavam dividir coca-cola e pipoteca. Não assistiram uma cena do filme, foi a luz apagar pra eles reviverem os velhos tempos. No bar, depois de se fitarem por horas, Fabrício disse: – Saudades de fazer silêncio com você. Maria sorriu. Percebeu ali que todas as lembranças que tinha com Fabrício eram momentos de silêncio. Percebeu que podia passar o resto da vida em silêncio com ele, estremeceu. O sentimento de vertigem transformou-se em refluxo. Mavi engoliu rebatendo. Era o mais perto que chegava de amar qualquer pessoa. Fabrício estudava Arte. Mavi não sabia se amava todo mundo ou não amava ninguém. Era aquariana, como o ar, não aprisionável. Em seu mapa astral, no exato momento em que nasceu, aries estava alinhado em Vênus. Ascendente capricórnio, lua escorpião. E é claro! Ela não acreditava nessas coisas.

 

Texto e ilustração: Carol Rehbein

Mãe

Texto de em 17 de agosto de 2017. Nenhum comentário.

Às vezes eu imaginava ser o homem que mais suava no mundo. Com pouco esforço, vertia-me em mim mesmo, e por muitas vezes suei enquanto almoçava, aquecido pelos temperos de minha mãe que confortavam meu coração. Na minha juventude, a solução foi entrar para o time de natação, onde era possível tomar banho ao mesmo tempo em que se suava. Não há constrangimento em estar suado dentro d’agua.

Eu descobri muito cedo, o suor faria parte da minha vida, tal qual fez do meu pai. Era como se, depois de sua partida, eu suasse por nós dois. Suava para subir as escadas, comer o molho apimentado, fazer a contabilidade do mês, trocar as lâmpadas, falar em público, e para levar minha mãe até a estação de metrô.

Naquele dia não havia sol, e os vendedores de rua corriam na indecisão entre oferecer guarda-chuvas e hand spinners. Pareciam apostar entre si qual teria feito a melhor escolha à espera do inevitável. Eu votaria nos spinners e sua preferência desastrosa, levantando as mãos para fazer com que os brinquedos se agitassem ao vento que bagunçava os cabelos e levantava a sujeira da rua. É como ver alguém apostar todas as fichas no zero verde da roleta: está claro que não vai funcionar, mas não se pode negar a beleza do brilho nos olhos de um otimista.

Como em todas as vezes em que caminhei aquelas três quadras, cheguei suado e atrasado, com o único pensamento possível ao momento. Qual é a dificuldade em calcular o tempo para algo que se faz diariamente? Talvez eu, ao meu próprio jeito, também estivesse escolhendo um spinner em meio à tempestade.

Levava em um braço a mala com poucas roupas, e no outro minha mãe e a constatação cada vez mais óbvia de nosso envelhecimento e inversão de papéis. Via-me andando à frente em passos rápidos, apurado com os mesmos horários e obrigações que ela tinha quando me puxava ainda criança pela rua. Estava virando minha mãe para minha mãe.

Na estação, passei-lhe todas as instruções agoniado ao ver seu olhar disperso, e repeti tudo mais duas vezes com um esforço vigoroso em não aparentar o nervosismo em deixá-la andar de metrô sozinha. Entramos no trem e me dirigi imediatamente ao banco preferencial que lhe é de direito, ajudei a minha cada-vez-mais anciã a se acomodar e arrumei a malinha de roupas entre seus pés, já preocupado em como aquilo poderia ser pesado para ela carregar sozinha depois. Em pé à sua frente, olho com tanta ternura que o trem parece diminuir a velocidade para que aquelas duas estações possam ser o suficiente para reduzir a saudade das semanas que virão. Enquanto miro sua fragilidade, sou transportado não para o meu destino, mas para um passado até então esquecido em minha memória. É minha mãe me ensinado a ir para a escola sozinho pela primeira vez. Via-me ao seu lado em cima do morro, olhando para o meu eu-criança ao longe aguardando o ônibus em uma parada tão próxima da favela, que a faz repensar tantas vezes quanto possível sobre aquela escolha necessária. Braços cruzados, uma das mãos à frente da boca disfarçando o choro para não assustar a cria que vai desbravar o mundo onde tudo pode dar errado, em uma época em que o celular era um luxo de gente que não precisava de transporte público. O ônibus chega e ela acena um tchau que há de não ser um adeus, pelo amor de tudo que for sagrado. As mães são como os anjos, que não têm tempo para ficar tranquilas. Ela continua olhando pelas janelas do coletivo, agarrando a si mesma em uma tentativa de segurar o pranto. Ao seu lado, minha memória a abraça como se confortasse a nós dois em um momento em que entendemos que criamos um ao outro sem nos ensinarmos a sobreviver no transporte público da saudade. No trem, desço na minha estação e continuo olhando para ela, sentadinha ao lado da janela. Aceno um tchau apreensivo e percebo que, além de seus cuidados, tenho também os seus olhos. Os olhos que mais suavam no mundo.

 

Texto: André Petrini
Foto: Konstantin Filatov

vontade

Texto de em 07 de agosto de 2017. 2 Comentários.

só fica aí deitada. por que não se levanta?
só se faz de vítima. que vantagem vê nisso?

basta levantar. por que não se levanta?

é só porque eu estou lhe mantendo presa ao chão?

 

 

 

texto e imagem por Rômulo Candal
fotografia de eflon via Flickr. cc

Memória

Texto de em 25 de julho de 2017. Nenhum comentário.

texto: Rafael Antunes
ilustração: Nina Zambiassi

Fila

Texto de em 18 de julho de 2017. Nenhum comentário.

Jonathan viu os velhos rearranjando cadeiras para não desagrupar no almoço e escolheu o caminho da confusão. O menino passou a expirar forte enquanto o grupo se arrastava, o coração pesando no peito, mas aguentou em seu canto, costas na parede, refri no copo. Tinha recebido outros golpes mais cedo: a gargalhada do professor de matemática ao deixá-lo de recuperação, o subsequente desmascaramento na frente da turma e, ai meu Deus, de Lúcia, com quem sonhava namorar, casar e ter filhos – se tudo saísse como queria. O mestre disse que a nota chegou a quatro e meio porque tolerou um trabalhinho mais ou menos para dar uma moral. A exposição incomodou tanto quanto incomodavam as feras que, mais selvagens que qualquer ideia de qualquer um dos Bháskara, lembravam a todos de suas presenças a cada pedido gritado de porção ou bebida.

O garoto queria evitar que outros vermes insolentes lhe enchessem a paciência, que quaisquer moscas passassem ilesas do descuido de pousar em sua roupa, na torcida sincera para nenhum rato cruzar seu horizonte. Começou a retorcer o rosto.

Mãe, cê tem antiácido?

Não, meu filho. Por quê?, tá mal?

A comida não desceu bem, essa lasanha sem vergonha, esse bifinho xoxo, esse arroz raspado de fundo de panela. Peguei coisa demais. Tem nada, nada aí?

Tem água, quer?

Os técnicos do ar-condicionado desligaram o sistema para fazer testes e sentaram para comer, já que a refeição era parte do pagamento. O ventilador fraco, insuficiente para a demanda e mambembe em seu eixo no teto, e o quilo a mais de quarenta e cinco reais completavam o cenário macabro.

Os velhos começaram a levantar para ir embora sem ter feito prisioneiros, satisfeitos como abutres, uns amparando os outros, todos bêbados de batida de maracujá. A mãe e o filho aceitaram a derrota e entraram na fila de pagar em sétimo, cientes de que a paciência os ajudaria a vencer o inconveniente do desperdício de tempo – se tudo saísse como queriam. O garoto começou a fechar e abrir as mãos dentro dos bolsos, doido para socar alguém até se machucar, com o aquecimento acobertado pelo tecido grosso. Observava os rivais de butuca, prevendo alguma sacanagem desde que o garçom tentou acertar a conta deles direto na mesa – um benefício exclusivo para amigos da casa. Para os dois o tratamento foi outro: o funcionário sacou a calculadora do bolso sem emoção, riscou mais alguma coisinha no papel, soltou a bomba e saiu, limpando os óculos na camisa. Já para a corte o súdito pediu desculpas, considerava uma infelicidade não poder cuidar deles nas melhores condições.

É que a maquininha ficou fora da tomada a manhã inteira, é que aqui das onze e meia às três é essa loucura mesmo, a fila é porque o novato do caixa ainda não tá no jeito para o serviço.

Mãe, e esse papo de 10%? Não dou nenhum centavo, é opcional. Eles que deviam pagar a gente.

O desconforto amassava os órgãos do menino, o que piorou quando o líder dos velhos, um de jaqueta Nederland, avançou pela esquerda fazendo vento, nervoso que nem ladrão em carro furtado. A linha amarela no chão não tinha valor para o Nederland, que não gostava de seguir, preferia ser seguido; fazia chover e secar depois; mandava morrer e viver de novo; orientava o sol e a lua de sua bolha de superioridade, amparado por uma autoimagem generosa; enfim, não era um homem acostumado a ser impedido de fazer o que quisesse.

A mãe sacudiu os ombros do filho, ansiosa com sua ansiedade, e lhe estapeou a gola da jaqueta repetidamente, indicando os velhos com a cabeça. O Nederland largou a chave do carro em cima do balcão e já sacou celular e carteira. O novato do caixa considerou as possíveis mediações para o conflito que se desdobrou à sua frente. A pouca experiência soprou uma resposta ao seu instinto incipiente: de polegar amassado contra indicador, piscou para a cliente da vez, pedindo uma anuência tão opcional quanto a colaboração para o caixinha dos empregados, e voltou-se inteiro ao, vai que era, amigo dos patrões.

Jonathan gostou de ver que o Usain Bolt possível era do seu tamanho e, assim, passou a odiar tudo que via nele: o rosto de traços harmoniosos, a cútis bem hidratada, o olhar de sono, a jaqueta mais cara que a sua, o bigode delineado em alguma barbearia chique, o topete, a chave do carro, o carro que ele tivesse estacionado lá fora, os amigos, o celular de tela grande, os óculos escuros pendurados num passante das calças skinny pretas.

Ô, campeão.

Pode ser no débito, querido.

O cara esticou o cartão ao novato, naturalizando o desrespeito, preparado para continuar invicto na vida. O pessoal se comoveu, começou a se olhar de lado. Então uma janela de afeto se abriu, um mar de possibilidades amorosas: Lúcia surgiu lá na frente da fila, escondida entre os ombros dos pais e irmãos, linda como desde o começo do ano passado, tímida como sempre. Jonathan aproveitou a brisa boa para se inflar ainda mais: se não tinha fé de que algum dia conseguiria impressionar a menina com boas notas, com extraordinárias habilidades atléticas, com os segredos da boa convivência na escola e nem com, ué, algum charme pessoal, que fosse na base da porrada. Era hora de começar a criar a história que contariam aos netos e a todo jovem que se dispusesse a ouvi-los quando os velhos do mundo fossem eles, quando tivessem bodas de ouro para comemorar, quando escolhessem juntos algum plano funerário para a família, quando partilhassem a mesa em algum churrasco de domingo, a cada faxina que fizessem quando morassem sob o mesmo teto. Ela arregalou os olhos, surpresa com a irritação do colega e com seu timbre porque, se bem lembrava, nem conhecia sua voz.

Eu tô falando com você, jaquetinha.

A mãe segurou o filho pelos dois braços, mas ele recuou num passo e ajustou as pernas em base de luta, levantando as mangas e ajeitando o penteado.

Respeita sua mãe, Jonathan, volta aqui.

O Nederland virou o rosto e emprestou metade da atenção ao agito.

Baixa bem a bolinha, moleque, ouve tua mãe.

Os velhos embarreiraram o menino, contendo a animosidade, e pediram a Nederland para que voltasse ao lugar que lhe pertencia, não tinha problema pegar fila, ninguém precisava atrapalhar ninguém, ninguém precisava brigar com nenhuma criança em nenhum restaurante.

É, faixa-preta: volta pra eu não limpar esse chão com sua cara.

Cê quer confusão?

E se eu quiser? – empurrando o velho que estava mais perto, fazendo-o tropeçar nas barras das próprias calças.

Dois outros velhos cobraram o que sentiam ter a receber e empurraram Jonathan de volta, em vingança. Outros clientes separaram a briga secundária e reagruparam ao redor do menino, meio por interesse na baderna principal, meio para fazer coro ao pedido de que a ordem de pagamento fosse respeitada, todo mundo tinha a mesma pressa. Mas agora o Nederland não queria saber de pagar ou não, queria resolver um problema pessoal.

Então vamo lá fora, piazinho.

Até melhor pra massagear teu cérebro com teu narizinho, bonitão. Cê só foge desse atraso se tiver uma UZI no porta-malas. Cê já tomou facada, infeliz?

Os velhos imploraram para Nederland sair, ele que entrasse no carro e voltasse ao escritório, mais tarde conversavam, que deixasse a conta para os remanescentes, eles dividiriam numa boa. Ele acatou e andou para fora apontando os olhos do menino com indicador e dedo médio, de braço reto, queixo recolhido ao peito. Jonathan, enclausurado por desconhecidos, inspirava e expirava, cada vez menos interessado em briga, cada vez mais atento aos sinais de sua musa, tão perto e ainda tão longe de seus carinhos.

 

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Marco Antonio Santos

Crianças, afastem-se, eu cuido disso

Melhor começar esse show logo!

Que crianças encantadoras!

É melhor você começar isso logo, vamos lá, trompetes e saxofone!

Eu não acredito em instrumentos, a alegria deles é equivalente a uma punição

Calma, calma, a cabeça deles que é um buraco de fezes asqueroso

Não existe pessoa no mundo com a capacidade de cultivar genuinamente feliz esse hábito edificante

Os nazistas nunca conseguirão entrar aqui

Sério? Eu achei que nós éramos os nazistas

Por que os seus amigos são tão sujos?

Sai fora! Por que os seus são tão bêbados?

Com vocês, os poderes do crescimento da hipófise

O que você está lendo, algo sobre cães?

Não, algo sobre meninos perdidos no deserto de Sonora

Só ouvi quando tocaram a marcha fúnebre

Aquela noite foi uma loucura

Será que posso rezar por aqui?

Veja, são os soldados de Deus!

Alguém aqui já leu Levíticos?

Alguém aqui já assistiu “Uma linda mulher”?

Foi assim, perfeitamente

Um tribunal juvenil, uma corte regida por crianças, é uma infantocracia?

Trompetes soando e os saxofones introduzindo um solo novo

Jamais será possível reconhecê-los a partir destas imagens

Um retrato do protestantismo e do revisionismo contemporâneos

Não, nada disso, são textos soltos sobre gente que nunca brigou

Eu apoio os direitos individuais

Apoia porra nenhuma!

Precisa-se de uma babá ou de um general de verdade?

Os dois, e que de preferência saiba jogar Xadrez!

Vamos lá tomar a sopa da sopeira

Lei do ataque sem trégua

Mergulho até as profundezas

De olhos bem abertos

Então você verá

Vai ser perfeito

Pique esconde

White peaks after shift

Three times per week

Me and my Goodfellas

Parece uma boa tentativa

Eu tinha planos, eu ia ser um cara daqueles vidrados

Você sabe como são os homens

Nós temos de ficar lendo isso tudo que está impresso, são muitas horas

Ele vai levantar, espera só um minutinho

É uma honra senhor

Ovelha perdida, é isso aí

Acho que não tem lugar pra mim aqui

Tô meio tremendo

Descobriu quem será o homenageado desta semana?

Você ficará chocado!

A única coisa maior que você é você amanhã

Foi o que disse Bartolomeu pra Homero

Day by day

Ninguém pode tocar neles: são os intocáveis, hihihi

Óh jovens sem rumo, sem censura, sem cabelo suficiente para colorir

Me solte, me solte e saia daqui

Mãe, esse é o seu vestido de casamento?!

Eu odeio ficar neurótico

Leva de volta as que sobraram

Então eu não posso sair todo fim de semana?

Eu já tenho 18 anos!!!! HUUUGRAA!

Chimpanzé xacoco

Eu vou dizer o que ninguém quer ouvir

Chega dessa palhaçada de dia dia

Esse pacote não me convence mais

Você abriu um precedente de testemunho contra todas a pessoas do mundo

Defesa, ataque, são todos amigáveis

É apenas um ritual

Você quer brinca ou não?

Eu gritei: alguém ai está disposto! Porque isso dói, isso dói tanto!

Vai, julgue senhora controladora, só você foi intimidada nesse contexto todo? Acha mesmo

Meu irmão vai ser condenado injustamente

Agora some logo daqui

É hora de ir embora, você não pode realmente ajudar

Bondade é pura covardia

Ei, mas que droga é essa?!

Estão me chamando

Crianças, como eu amo todas elas

Às vezes nem tanto

Eu não conheço bem os apóstolos originais

Apenas aprendi o necessário

Pra dizer a verdade, eu sempre prestei bastante atenção nas aulas

Justiça seja feita

Sem trilha sonora de Star Wars

De que lado você está?

Do lado do meio!

Difícil de acreditar

Eis aqui a verdade sobre um doador de órgãos

Caso encerrado

Espero que você siga a tendência de ser bom daqui pra frente

Em último caso, se torne um herói

Mas não daqueles que acaba com as mãos na cabeça

Que bom, amei essas suas flores na barba

Se eu te disser uma coisa, você diz que acredita?

Ahahahahahaha

Não acostuma, não posso ficar sempre falando que é aniversário da minha avó

Mano, se liga, tem um percevejo vivo ainda!!!

Sério, parei agora, chega desse negócio de meme verbalizado

South America MOTHER FUCKER

Eu tô engolindo muito sapo, óh

O tempo tá acabando

There’s moonlight on the river

Todo mundo morre no final

Deitar-me faz em verdes pastos

Eu rezo todo dia

Talvez essa vez seja a minha

The end

Bj

 

Texto: Jadson André

Ilustração: Caroline Rehbein 

Quando Nos Anoitece

Texto de em 10 de julho de 2017. 1 comentário.

Nos subterrâneos de nossas lembranças guardamos recordações que não conseguimos mais enxergar.

 

Tateamos o obscuro na esperança de reconhecer as peças que nos formaram. A luz entra apenas por pequenas frestas, reavivando objetos que nos conectam com o passado, que vivemos e que inventamos.

 

Pintamos quadros com formas conhecidas apenas por nós, mesmo quando retratamos algo natural à todos.

 

Enfim, chega a penumbra e as frestas vão se fechando. Já nem lembramos mais o que os quadros vazios – que enchem a parede – emolduravam.

 

Comparado ao todo, tudo não passou de um instante.

 

Escrito pelo Gabriel Protski

Fotografado pela Marcella Borba

Não demorou para que Mariel virasse Marigol entre os torcedores do Tricolor da capital. Quando ele apareceu, contratado como destaque em algum clube pequeno do campeonato estadual gaúcho, o time vinha jogando bem e criava muitas oportunidades no Brasileirão, mas a bola não entrava de jeito nenhum. Marigol tratou de suprir a necessidade: fez logo três gols nos dois jogos em que entrou no segundo tempo, dando a entender que a sina acabara e que o torcedor tinha um novo artilheiro para chamar de seu.

Nunca foi craque – na verdade, tinha até alguma dificuldade nos fundamentos mais básicos do futebol, como domínio de bolas e passes curtos – mas conquistou a Demônios das Três Cores, torcida organizada da agremiação, dando tudo de si em todas as partidas e estando sempre no lugar certo, como se Deus sussurrasse em seu ouvido aonde deveria ficar para empurrar a bola pra dentro das traves, com a parte do corpo que fosse.

Logo ganhou a camisa 9 e a boa fase se consolidou. O time voava e mais três gols decisivos de Marigol em quatro partidas transformaram o Tricolor, que havia recém subido à primeira divisão, em candidato cada vez mais forte a ganhar uma vaga para a Taça Libertadores do próximo ano. Cada partida era como uma nova página na bonita história de amor construída entre atleta e clube. Nos poucos combates em que a bola não entrava, disposição não faltava, e qualquer tentativa de salvar uma saída de bola pela linha lateral era comemorada pela galera.

Tudo vinha bem até o meio do ano. O campeonato nacional foi paralisado por um mês para a realização da Copa das Confederações, que trouxe, com ela, a abertura da janela de transferências e o inevitável desmanche do elenco. Marquinhos, o “Canhota de Ouro” dono da 10, foi negociado com o futebol chinês, e o lateral-direito Tiago Matos – “Diabo Matos”, para os adeptos – foi seduzido por um investidor e partiu para a série B da França.

Com o time desfigurado, a esperança da Demônios das Três Cores tinha nome e apelido: Mariel, o popular Marigol. Mas depois de três jogos após a pausa, as coisas já mudaram bastante de figura. O centroavante ainda metia seus golzinhos, mas recebia menos assistências e a regularidade foi diminuindo. Marcava um tento aqui e outro ali, mas a queda na confiança o levou a perder gols fáceis com uma frequência cada vez maior. O tricolor passou a cair vertiginosamente na tabela, e não tardou para que o sentimento da geral atravessasse a famigerada tênue linha e se transformasse em ódio – os mais maldosos passaram a chamá-lo de MariSemGol.

Numa jornada especialmente triste, na penúltima rodada do campeonato, Marigol conseguiu a façanha de arruinar três excelentes jogadas de ataque no mesmo domingo. A primeira foi um cruzamento açucarado: se ficasse parado, a bola bateria na testa e entraria, mas Marigol tentou um movimento ousado e foi como trocasse a cabeça por um travesseiro fofíssimo, que apenas amorteceu a bola para o goleiro. Na segunda, o 9 recebeu dentro da área, livre de marcação, mas apelou para a ignorância e isolou a bola no terceiro anel do estádio. Já a terceira e mais emblemática foi num contra-ataque em que Mariel ganhou do zagueiro adversário, em um misto de força e velocidade, e saiu cara-a-cara com o goleiro. Ao invés de finalizar fácil, rasteiro e na saída do atleta de luvas, porém, tentou calar os críticos e encobrir o arqueiro com uma cavadinha. Dada a falta do talento, porém, pegou de forma estranhíssima na pelota, que saiu mais fraca do que o planejado e completamente sem direção. A bola fez uma curva bizarra, triscou a trave direita e morreu ainda antes das placas de publicidade na linha de fundo.

O estádio veio abaixo. Nunca se ouviu, naquela região, uma vaia tão sonora – moradores de mais de um bairro de distância relataram uma vibração considerável no chão. No próximo lance, sob o burburinho pesado das arquibancadas, Mariel tropeçou com a bola dominada e ouviu gargalhadas intensas da própria torcida. Ainda no chão, tomado pela ira, desferiu uma bicuda no tornozelo do adversário que lhe tomou a redonda e foi punido com o cartão vermelho. A massa vociferava e Marigol perdeu a cabeça – se levantou do relvado, foi em direção ao setor onde ficava a torcida organizada e baixou o calção, mostrando a todos que infelizmente não utilizava cuecas durante a prática desportiva.

A maioria dos colegas estava ao lado de Marigol, mas o consenso era de que não havia mais clima para o atleta no clube. Logo após o apito final, ainda no vestiário, Dr. Reginaldo, presidente do tricolor à época, foi ter com Mariel. Era aquilo: não tinha mais jeito, rapaz. Aquela fora a gota d’água, e ele precisaria vir rapidamente a público avisar que o jogador não fazia mais parte dos planos da diretoria, ou passaria por frouxo perante a opinião pública. O ex-artilheiro já imaginava e, no fim das contas, sentia mais raiva dos torcedores e injustiça do que arrependimento pelas atitudes. Tinha apenas um último pedido: fazer apenas mais um último treino no gramado daquele palco de algumas glórias e tantas tristezas.

Dr. Reginaldo acatou sem pestanejar, pois guardava ainda bastante simpatia pelo garoto. Na terça-feira seguinte, portanto, Marigol se apresentou como de costume, vestiu o fardamento de treino e foi em direção ao campo. O clima era péssimo e os companheiros o receberam com um silêncio tão desconfortável quanto honesto. Ele quebrou o gelo com alguma piada sobre o fato de que agora estariam livres do futebol dele, todos riram tristemente e se puseram a trabalhar. Errou passes, errou finalizações mas contagiou a todos os colegas com uma alegria que já denotava nostalgia.

Após o treinamento, Mariel se despediu do pessoal e pediu alguns momentos sozinho ao lado das traves onde perdera seus três últimos e fatídicos gols com a camisa tricolor. Passou meia hora – cravada – falando sozinho, sentando, levantando, apontando para os quatro cantos da meta e para o local da arquibancada reservado à Demônios. Conta a lenda que, no momento da despedida derradeira, agradeceu Dr. Reginaldo pela oportunidade e sugeriu, em tom entre piada e profecia, que o clube deveria aposentar para sempre a camisa 9 que vestira naquele campeonato inesquecível.

*

Fala-se muito sobre objetos enterrados e más energias. Os mais céticos atribuem o azar à pressão que a posição carrega nas costas após essa passagem meteórica. Ninguém sabe ao certo que tipo de artimanha Marigol fez por lá, mas já são três anos e uns poucos meses que nenhum atleta trajado com a 9 tricolor consegue converter um mísero golzinho naquele lado do campo. Nem de pênalti.

 

 

texto de Rômulo Candal

ilustração de Nina Zambiassi

Palavras ausentes

Texto de em 22 de junho de 2017. Nenhum comentário.

Para Mariana.

Dia desses peguei a caneta para poemar você num papel colorido. Seriam daquelas palavras que se lançam no desejo de sentir algo maior do que conseguimos compreender. Em vão.

Me faltaram substantivos para nominar as curvas dos seus cabelos a desenharem o vento. Desapareceram os adjetivos que ilustrariam o sorriso nos seus olhos, que piscam lentamente e desviam quando nossos amores se encontram.

Como a fotografasse, revisitei o seu corpo, palmo a palmo, como a acariciasse com a memória. E sua pele reage. Arrepia a cada toque. Na barriga, ao lado, a um beijo da costela, a sua respiração quase ofegante, como administrasse o descontrole iminente. E você dorme, logo ali, na penumbra do canto da cama, imersa em sonhos silenciosos.

Sou convencido de que palavras podem me levar para perto de você, mas que nossa totalidade só será compreendida com algum silêncio. Sei que a poesia escrita jamais chegará à de um beijo.

Sob a luminária pendente em nossa cabeceira, protagonizo o silêncio repleto das palavras que me somem quando diante do que somos. Sou agora uma amnésia léxica no centro do palco sob olhares de uma plateia inexistente.

Os aplausos foram emudecidos quando cortina alguma se fechou. Agora era eu, você e a escuridão da cama que se preenche de luz a cada vez que puxamos nossos corpos, um ao encontro do outro, e adormecemos no calor que ilumina uma eternidade.

Escrevi palavra alguma. Larguei a caneta e o papel colorido-em-branco sob a luz apagada e mergulhei no mar em mim que existe quando em você.

 

texto: Rafael Antunes
ilustração: Marco Antonio dos Santos