Literatura apesar de tudo.

Constantinopla, 25 de março de 1830.

 

– As coisas não andam nada bem. Por que diabos fomos matar aquele inglês intrometido? Se o tivéssemos capturado e dado um título no nosso império, é bem capaz que até escreveria alguns poemas a nosso favor.

 

– Sei lá, filelenos, vai entender…

 

– É, vai saber o que esses aí têm na cabeça. Ficar cultuando um troço que teve seu auge já faz dois mil anos. É muita falta do que fazer.

 

– Pior nem é isso. O que mais irrita é essa coisa de ficar enchendo a bola dos gregos, como se eles tivessem inventado tudo.

 

– Outra guerra que estamos perdendo. Já é chato vê-los se vangloriando pela independência, vê-los tomando o crédito até pelas colunas jônicas, aí já é demais.

 

– Eles têm tomado o crédito por isso também?

 

– Aham!

– Cretinos! Perderam os limites mesmo.

 

– Olimpíadas, filosofia, democracia, churrasquinho e até aquele arroz com uva passa. De uma hora pra outra tudo virou o não-sei-o-que da Grécia.

 

– Isso não pode ficar assim. Precisamos exaltar nossa cultura e tomar o que nos pertence.

– Acho que só reclamar os nossos direitos não é o suficiente.

 

– Qual a sugestão? Voltaremos a pegar em armas?

– Ainda não, calma, podemos enfraquecê-los de outras formas. A gente tem que desmoralizar esses caras, pra não ter risco de ter europeu metendo o nariz onde não é chamado. Eles ficam nessa frescura de gostar dos gregos porque eles parecem ser educados, sofisticados, limpinhos. Precisamos provar que não é bem assim.

 

– Mas como acabar com essa fama? Os caras são bons em se vender desse jeitinho aí.

 

– Nem que seja espalhando algo que não necessariamente é verdade.

 

– A gente pode falar que eles comem criancinhas?

 

– Pode! Mas eu tava pensando em algo com mais embasamento. Tipo da vez em que eles mandaram aquele ataque surpresa contra os troianos, aquela vez do cavalo. Sabe? Dava pra gente chamar isso de algo como, não sei, presente de grego?

 

– Olha, eu gostei!

– Mas será que não pega mal pra gente? Tipo, Troia é aqui né? Vai parecer que eles fizeram a gente de trouxa.

– É, tem essa.

– A gente precisava de algo mais incisivo.

 

– Alguma coisa marcante, desmoralizadora…

– Tive uma ideia! E se a gente falar que eles gostam de beijar cus?

 

– …

– Ousado! Mas eu gostei, é tão esquisito que soa como verdade.

 

– Fato! Acho que temos.

 

– Aham! É esse tipo de coisa que vende, é isso que as pessoas querem ouvir.

 

– Malditos gregos nojentos!

 

 

Gabriel Protski

Texto e ilustração: Caroline Rehbein

 

Resolveu entrar no bar. Pediu uma cerveja e um pastel, enquanto esperava permaneceu contando as gotículas que compunham o gelo da garrafa estampada no refrigerador. Gostava de comer sozinho, de andar sozinho, como também morar e passar todo tempo livre que podia sozinho. Era professor. Passava horas por semana rodeado de gente. E essas horas viravam semanas. Era bom quando passavam rápido. Às vezes, quando se dava conta, nove meses haviam sido gastos com os mesmos casos sem esperança e as férias vinham aí. Sentia-se a maior parte do tempo sem tolerância.

Diferente da maioria, naquela noite entrou no estabelecimento a procura de companhia. Nas férias, em alguns momentos, sentia saudade das pessoas. Passava tanto tempo sozinho que sentia vontade de se relacionar, as férias eram um período nebuloso, chegava a quase criar relacionamentos amorosos caóticos, baseados em supostas emoções que costumavam surgir nessa época. Sentiu um calafrio ao lembrar-se de quando havia se apaixonado pela moça da padaria por sempre atendê-lo com um sorriso no rosto, mal sabia ele que a menina não batia bem.

O “quase” era o máximo de comprometimento que conseguia manter com as pessoas. Não que demorasse a gostar delas. Sofria exatamente pelo contrário. Era com o tempo que o sentimento acabava. Conhecer um pouco mais era o que bastava para perder o interesse inicial.

Sentou-se de frente para entrada do estabelecimento. Observou as pessoas que ali estavam e se deu conta que conhecia os jovens hipsters e os velhos bêbados, eram todos da vizinhança. Como ele, também moravam por ali, frequentavam muito o lugar e algumas daquelas pessoas já lhe pareciam familiar. Ali, quase sem querer, esperava encontrar companhia em cada um que entrava.

O pastel veio. Comeu a metade e um pouco mais. O tempo passava e ele ficava ali, fingindo. Fingia não se importar, fingia não ouvir as conversas, fingia não conhecer as pessoas e, é claro, fingia não estar só.

Tomou outra cerveja, arrependeu-se de não ter o que fumar. Nenhuma companhia apareceu. Colecionava situações como aquela.

Meu pai foi um professor de sonhos.

Minha mãe, sol a pino entre os temporais.

Enquanto ele nos ensinava que havia sempre novos caminhos e formas inexploradas entre as paisagens regulares, ela deixava aflorar suas profundezas. Havia muitas ali dentro. Acho que nem ela soube dizer quantas eram.

Com ele, aprendemos a enxergar as amarras, a vislumbrar trechos em que seria possível caminhar com mais folga, para ser um pouco mais de quem a gente é e um pouco menos de um número aprisionado a somar nos indicadores da vida na Terra. Era sempre um trajeto de muitos livros sobre a mesa, de humildade no trato com os outros, de educação e ponderação enrijecido em rebeldia sempre que se impunha uma premissa questionável.

Com ela, aprendemos a noção de libertar-nos de tudo o que nos acorrenta, e que isso leva um tempo enorme: demora mais que a vida inteira. Mas vem de minha mãe a certeza de que a voz pode falar mais firme a cada novo passo, o que não torna nada mais fácil, mas nos fortalece pra encarar os cadeados e encontrar a chave para abri-los um por um. Enquanto eu respirar e a vida for assim, condicionada, lucratória, servirei à desestrutura. Quem sabe até o fim já terei superado fechaduras o bastante para abrir as portas de uma existência um pouquinho mais livre, a mim e a tantos irmãos quanto possível.

Foram felizes como são as pessoas que tentam viver de verdade, e tristes como tais.

Levo deles um amor que tem o maior dos tamanhos dentre as alturas que já conheci. Não sei de muitas, menos ainda de todas. Mas já vi o Pão de Açúcar de pertinho e a Floresta Amazônica da janela do avião. Foi quando meu pai apontou para o chão e disse: “Ali tem bichos e plantas que a humanidade ainda nem sabe que existem”. Eu me impressionei com a possibilidade de haver um livro inteiro de biologia só com imagens de espécies desconhecidas. Vi a natureza de uma forma outra, que se abriu como um aposento escondido no meu raciocínio. Ela é perfeita em seus processos.

Eu sigo os passos que aprendi a trilhar, agora ao lado dos meus filhos. Tento ser-lhes professora de sonhos sem dominá-los, a manter-se em equilíbrio sem calar.

Meu pai e minha mãe não me deixaram grandes propriedades, não engrandeciam o que era dispensável. Nunca me levaram ao Mc Donalds para voltar pra casa com a barriga cheia de batatas fritas e um brinquedinho de montar. Em compensação, já fomos a quase todos os bons-e-baratos restaurantes da cidade, quando sempre aproveitávamos para mergulhar em digressões. Comer, fosse o que fosse, era uma celebração muito respeitosa, que comemorávamos entoando filosofias.

Eu ganhei deles uma existência que começou sólida e lúdica; que foi sensível desde o primeiro choro e fez pergunta da palavra inicial. Também de mãe e pai herdei a dedicação ao ofício dos versos, que levo comigo como uma marca de nascença. Eu manipulo palavras. É o que hoje se chama de “profissão”. Penso que é o que tenho de verdade e que não me pode ser tirado. Eu sou as ideias e histórias que eu já li, todas as pessoas com quem conversei, as viagens que eu fiz e o que ainda posso fazer com meu corpo e meu sorriso enquanto viver na Terra. Tudo o mais é frágil como a própria vida.

Pequena que sou, fui, junto a meus irmãos, a maior herança dos meus pais.

Tão grandiosos, tão presentes nessa vida, marcando cada canto da passagem com novas tentativas, restou na essência apenas nós. Mais um motivo para acusar a vida de muito-injusta.

Em gratidão por ser, pelo amor que jamais me faltou, tento ser ainda mais. Pra que eles se orgulhem da passagem sem bens e do carinho com que executaram uma de suas milhares de tarefas, todas sempre duras, mas cheias de grandes belezas: a de mostrar um caminho diferente, que se trilha pensando. Os poros estão continuamente abertos na festa das sensações. Sentir é obrigatório, é involuntário; mas o pensamento se constrói, e divide com o peito a tarefa de iluminar os nossos passos.

Assim eu vejo um adendo à herança, como uma joia rara bem protegida no cofre da família: a nossa harmonia. Conduzidos pelo tentar entender, a gente se entende. Eu acho que de tanto amar os meus irmãos eu aprendi a amar os outros. E tento olhar por dentro dos seus olhos, mesmo quando me olham de volta sem me enxergar.

Eu não sei, papai, mamãe, se eu estou fazendo render os seus investimentos.

Mas eu fiz uma poupança de muitas ideias, que engordo um pouquinho todos os dias. Deposito dentro dela meus novos livros, palavras abundantes, um pouco de choro quando a vaca está magra (acho que prefiro dizer: quando o caqui está marrento. Pode ser assim?), muito riso e danças festas travessuras quando o caqui está maduro e até algum dinheiro de vez em quando. Mas isso é só quando o mundo à minha volta decide que eu lhe tenho algum valor.

Acho que até o fim da minha vida vai dar pra comprar alguma coisa. Se não um terreno à beira do mar, pelo menos a coleção inteira dos irmãos Grimm para a Miranda e o Augusto. Mas se não der, tudo bem. Acho que me bastará a delicadeza de saber, como vocês souberam, mostrar a direção do outro caminho, para que os carros e as roupas caras não façam a menor diferença quando há tantos livros e pessoas especiais. Se eu puder fazer isso, minha herança será a mais rica dentre todos os inventários de reis e rainhas que já desgovernaram a nossa civilização.

por Carolina Goetten

Partida

Texto de em 26 de Abril de 2017. Nenhum comentário.

Foi fazendo as malas para ir à cidade, que senti o peso das minhas decisões cair sobre as costas pela primeira vez. Dobrando as roupas ao meu modo rústico, empurrando para que coubessem dentro da mala, e tentando fazer de cabeça, mas com a ajuda dos dedos, a matemática de cuecas X meias X calças X número de dias, foi que percebi que talvez não estivesse pronto para ser adulto sozinho.

Foi fazendo as malas para ir à cidade, que senti desabar sobre mim a montanha de ausências da semana seguinte. A casa vazia ecoando os silêncios das horas úteis, o meu lado gelado na cama pela metade, e o despertador adormecido sem ninguém para acordar, gritaram a minha partida pela casa inteira.

Foi fazendo as malas para ir à cidade, que senti o medo da morte. Sempre amei a vista da janela do nosso apartamento, com árvores e pássaros escondendo o olhar curioso da rua como uma redoma de vida, mas agora ameaçadas pela chegada implacável do ar fresco de outono, talvez não estivessem mais presentes no meu retorno.

Foi fazendo as malas para ir à cidade, que senti o peso da bagagem que levava comigo cheia da saudade que viria. Dos almoços, das cervejas, dos cafés, dos jantares, e dos abraços. Das ruas, das cores, dos parques, dos caminhos, e dos bares.

Foi fazendo as malas para ir à cidade, que senti. E muito.

Foto: paxpuig

Um dia eu chego lá

Texto de em 18 de Abril de 2017. 1 comentário.

Desde menina – mais especificamente dos nove anos em diante –, decidi que, quando morrer, quero ser das que deixam algo pra trás. Não uma história de superação em vida, fortuna pra família nem atos heroicos. Só quero causar uma última impressão críptica, dessas que, depois do ocorrido, alguém acaba comentando e sentindo um arrepio. Por isso, o padrão para me despedir de conhecidos não-tão-próximos é o uso do “Adeus” ao invés do “Tchau”.

Desenvolvi também uma frase pr’aquelas situações em que ambos os lados fingem querer aumentar a frequência dos encontros, uma resposta para o famigerado “Vamos marcar uma cervejinha qualquer hora”. Consiste em “Vamos sim, com certeza. A gente nunca sabe quando pode ser a última cerveja, né?”. O interlocutor tende a devolver um receoso “Credo, hahaha, para com isso”, seguido por três batidinhas em alguma superfície de madeira ao alcance das mãos, porque acha que espanta. Mas imagina se não espantar?

Recentemente tenho tentado plantar essa pulga atrás da orelha do meu avô. Pergunto sobre as posições da Igreja Católica sobre a morte, iniciando as questões com “Mas, vô, digamos que eu morra hoje…”, ao que ele responde “Credo-em-cruz!”, crendo que a menção à cruz vai afastar os maus espíritos, para só depois responder à pergunta. Mas digamos que eu falecesse de fato, digamos que a cruz de Jesus não servisse pra esse tipo de mau espírito em específico?

Aos doze, tive um diálogo interessante com uma professora de biologia. Depois de uma nota ruim em uma prova sobre aves, abordei dona Marília com uma fúria que não me era comum. Ela foi bem mais polida do que eu, e me explicou que infelizmente não era assim que as coisas funcionavam e que me faltava um pouco mais de dedicação e interesse. Praguejei, soltei uma mistura de ameaça com provocação: “E se eu morrer amanhã?”, arrisquei. Ela, sorrindo irônica, respondeu “Se morrer amanhã, morre reprovada em biologia”. Gente, que retórica. Acho que esse foi o único caso em que a raiva falou mais alto e eu usei a ideia da minha morte com o objetivo único de causar mal estar, e acabou não dando certo. Mas e se eu tivesse batido as botas, imagina o peso na consciência de dona Marília?

Ao fim das contas, eu acho que gosto é de gerar essa tensão. Criar esse “Será?”, esse “Nossa, tomara que não” que eu imagino cada uma dessas pessoas digerindo ao se despedir de mim. Só espero que, depois de eu fazer a minha passagem definitiva, muita gente pense “Bem que ela avisou” ou “Ela estava estranha mesmo na última vez em que falamos”. Espero expressões de confusão. Não sei se isso é bom ou ruim, mas espero que o leitor não se importe. Um dia eu vou morrer.

Aliás, vai saber?, eu posso inclusive já estar morta no momento em que você lê esse texto.

 

texto e colagem por Rômulo Candal.

fotos de RealMattKane, stevenbates e Hombit.

Mar de si

Texto de em 11 de Abril de 2017. Nenhum comentário.

texto: Rafael Antunes
ilustração: Nina Zambiassi

Com a manga da blusa Mariana enxugou o rosto, virou-se para lá e fingiu dormir. Do lado de cá, Pérsio, a escuridão e o mar de lágrimas a transbordar da cama. As roupas jogadas no chão agora boiavam espalhadas ao redor de um mundo em prantos. Metamorfoseada em choro, nadou até a janela e a água chegara à rua. As árvores respiravam apenas com a ponta dos galhos alaranjados sob a luz dos postes. Os pássaros desesperados mergulhavam como procurassem cegamente ovos afogados. O mundo era Mariana, que diluía.

No escuro, Pérsio tateava a vida com Mariana e tentava alcança-la, sem êxito. De longe tentava dizer eu te amo. Era a primeira vez que revelava tamanho afeto, mas dizia mais por saber precisar dela do que por realmente saber amar. O silêncio era a resposta.

O mar engolia a cama e Pérsio submergia junto. Tornara-se parte da cama. Jamais sairia dali com Mariana, que leve flutuava em suas próprias lágrimas.

Aos poucos ele se tornava um dos ovos dos pássaros que mergulhavam cegos em busca de algo que já não era na escuridão.

Pérsio era desespero. Prantos. Soluços. Era engolido por um mar que crescia a cada peso libertado do peito de Mariana. Pouco a pouco via-se integrado ao nada que o abraçava dia a dia. Cama a cama pelas quais amanhecia suas manhãs.

A cada instante transformava-se em quase nada. Tomou consciência de que a memória era o resto da realidade que lhe cabia. Precisou de uma vida inteira, segundo a segundo, para chegar até aqui e constatar que o amor era para si uma proibição de estar só. Então suplicou para que o tempo se demorasse, para que pudesse enfim sentir o que agora julgava ser o amor.

Mariana, sentada à janela, descobria que somente-só conseguiria escapar daquele mundo inundado e partir para um outro.

Pela janela saiu num nado que em nada lembrava a sobrevivência, mas sim uma libertação. Era leve e a levava para si. Para ensimesmar-se. De costas para todas as direções.

O primeiro batismo aconteceu aos quinze. Não que ele fosse desprovido de apelidos antes disso, é que aquele foi seu primeiro nome genuíno. Nada genérico como peru, benga, jeba, ciclope, carequinha ou quaisquer outras alcunhas que usam por aí. Não é dessa espécie de nome que estou falando. Estou me referindo aos nomes de verdade, e o primeiro deles foi “Jr.”. Com a primeira namorada, descobri que as coisas especiais em nossas vidas deveriam possuir um nome e, portanto, foi isso que passei a ter entre as pernas: o Jú.

Tenho amigos que dão nome a toda sorte de coisas. O carro chamado Astolfo, a viola chamada Hilda, a rede da casa de veraneio chamada Zulmira, e por aí vai. Eu nunca tive o costume de nomear objetos inanimados, mas o meu objeto, bem, de inanimado não tinha nada.

Posso dizer que o Jr. foi um explorador, tinha um mundo novo a conquistar. Com ele as coisas tinham o gosto bobo e despretensioso da adolescência, da descoberta, do amor escondido. Das intermináveis horas ao telefone fixo e da prata fina no anelar direito. No entanto, a gente cresceu e, um dia, o Jr. infelizmente morreu. Algum tempo depois foi rebatizado com um novo nome. Para a segunda namorada, chamava-se o Fera.

Foi aí, então, que algumas diretrizes ficaram mais claras para mim.

Primeira: o nome deveria ser único para cada relacionamento e momento da vida; proibido repetir.

Segunda: o nome deveria surgir espontaneamente, assim como se dá nome a animais de estimação ou bandas de garagem. Pá-pum: se o dog tem cara de Tobias, pronto, é Tobias; se a banda tem cara de Chips of Death, pronto, não tem erro, é batata.

Terceira regra: eram vedados os nomes depreciativos. Já bastava a insegurança martelada em nossas cabeças desde a infância com essa história de tamanho e documento. Ou seja, fosse grande ou pequeno, se fizesse bem o serviço ou sofresse lapsos ocasionais, não importava: nada de nomes com “inho”, Pequeno Príncipe, Peter Pan (o que nunca quer crescer) ou coisa parecida.

Admito que o Jr. havia beirado esse limite, mas era um nome apropriado para um iniciante. Já o Fera – olha essa fera, bitcho! – tinha a segurança que o primeiro não tinha. Aos dezoito, a vida tinha outro tom, a liberdade do recém-adulto dentro de uma garrafa de Fontana. Menos cinema, mais filme nas cobertas. Menos festinha em casa, mais pileque na rua. Quando o porre vinha, segurávamos-nos: os cabelos, os vexames e os chororôs. A gente se entendia, mas como a vida dá voltas, o Fera também se foi.

O terceiro batismo foi ao fim da faculdade: era o Tonhão, proveniente de meu nome, Antônio. Cumpriu em cheio a terceira regra: nada de Toninho, aqui era A-O-Til, porra. Tonhão tinha experiência, mas, como disse o poeta, ainda era jovem o suficiente pra achar que sabia de tudo. Nessa época, a gente viajou pelo mundo e também abriu a cabeça. Deixamos o hardcore empoeirar e redescobrimos a MPB nos vinis. Esgotamos Hollywood e fomos assistir aos europeus. Não, a Fontana a gente não trocou por vinho de verdade; como disse, ainda éramos jovens. Tonhão viveu por uns bons anos; achou até que seria para sempre. Contudo, um dia se acabou.

Depois disso, ele ficou por um bom tempo sem nome nenhum. Entre uma relação líquida e outra, voltou a ser o pau, o pinto… No começo foi uma maravilha, mas logo a crise de identidade começou a bater. Curiosamente, não aconteceu apenas com ele; o Tonho aqui de cima também estava perdidão. Balada atrás de balada, a ressaca a inutilizar os domingos, os corpos que vem e vão sem se dar nomes, o retrogosto dessa tal liberdade – o que é eu vou fazer… – Tal qual cão de rua, comendo de tudo mas sempre com fome.

E aí, um dia, surgiu aquela menina do olhar franzido que estudava arte e era uma coisinha linda-maravilhosa. A gente se sintonizou por umas poucas semanas e assim, sem cerimônia, ela resolveu chamá-lo Pablo.

“Pablo, por quê? Neruda? Escobar?”

“Não, seu burro. O pintor.”

Eu ri. E por um momento me pareceu que aquele trocadilho bobo me bastava, que o nome não poderia ser melhor.

Ela provavelmente sabia que o artista havia sido um homem de muitas mulheres e relações turbulentas, mas não temeu que isso fosse acontecer com ela; não com este Picasso.

O tempo mostraria que estava certa. Se eu me tornei homem de muitas mulheres, foi porque ela própria era, a cada dia, uma mulher diferente. Vez ou outra, chamava meu Pablo pelos demais nomes do pintor… Diego, Juan, Cipriano de la Santíssima Trinidad e os outros tantos. Tão inconstante ela era que também me modelava assim.

Esse foi o quarto batismo e, sabe, eu não duvido que seja para sempre. Não que eu seja desses que acreditam em amor eterno. Mas acredito no poder das risadas.

 

Imagem: Carol Rehbein.

Texto: Murilo.

Disciplina

Texto de em 04 de Abril de 2017. Nenhum comentário.

Walter abriu os olhos e gastou atenção com a rua, um fio de silêncio violentado por grilos, tapas de vento nas janelas e o inferno tímido das pombas de uma árvore na rua de seu prédio. Cinco e dez de seu aniversário de 77 anos. Passou café fraco para tomar com leite especial e mandou para dentro com cálcio, ômega 3, comprimido para pressão e sanduíches de forno. Ligou baixinho o microsystem num CD perene do Cauby Peixoto e se banhou cantando. Os filhos, tão atarefados como ele enquanto os via crescer, o visitariam à noite, em um velho esquema de sair para jantar em um velho restaurante que ele gostava e de cujas receitas velhas não abria mão por nada, ainda menos quando podia escolher onde comer. “Ele é teimoso”, diziam seus pequenos, agora adultos e quase responsáveis, com ternura tão rala quanto a alegria que sentiam em se reunir.

Vestido para sair, pegou a vassoura menos surrada de casa e uma garrafa vazia. Entrou em modo missão: hora de varrer e regar flores no São Francisco.

Limpou Maria Tereza Bauer, nenhum sinal. Ajeitou a morada de Elisabethe, seu amor, mas ela também cagou para ele, a despeito da importância da data. Walter encostou a vassoura e deu dois passos para trás. Limpou as lentes dos óculos nas mangas da camisa, secou a testa e o pescoço c parou para regular a respiração. Perguntou ao guardinha se ele sabia quando limparam o mármore dos Schinn pela última vez, mas o quepe não fazia ideia.

– Olha, no meu turno não vi nada, senhor. Mas tô no posto há duas semanas.

– Que não veio ninguém eu vejo na poeira, amigo – sorriso semiaberto – Passa o dedo aqui, ó. Mas se aparecer alguém – tirando papel do bolso para anotar telefone – você tem como me ligar? Desculpe o nervosismo. É que tá feio, um desrespeito. Pára, ô. E você deve ter pai, avô, sabe que velho é chato. O guarda aproximou o pescoço para ouvir, solidário.

Walter chegou na quadra dos luteranos, antiga periferia, hoje bairro nobre. Tirando folhas do túmulo Hoffmann deu conta da falta do epitáfio. As palavras em latim davam à peça um charme, um ar solene, uma brisa de honestidade. Tanto faz o que dizia, a intenção era positiva.

O amigo já não conseguia descansar e aproveitou para gritar de uma vez. Walter todo ouvidos, feliz por ouvir André e, de quebra, ajudá-lo, nem que fosse com a mera disposição de ajudar. Um casal atravessou o caminho. Jurema puxou Antônio, indicando com a cabeça, consciente como Romário na grande área: um velho falando com nada, como se dele arrancasse respostas ou apreendesse intenções, numa viagem de olhos abertos. Amarraram os rostos, abaixaram as cabeças e tocaram em disparada.

Hoff disse que o ladrão passava ali direto, “umas nove e pouco”. Estava possesso com o roubo, traquinagem de um morador de rua, antes sujo e sem vergonha, mas de uma semana para cá na beca, todo todo, tênis nos pés, roupas limpas, cabelos cortados. “Até nos dentes o vagabundo deu um jeito, cara”.

Mas a bronca mais forte do Alemão era mesmo com a própria família. “Os cretinos venderam o casarão do Alto da XV, amigo, é mole? Querem dividir a grana”. Nada de brigar e nem de se apegar demais. Trinta ou menos moedas de prata, dividido por quantos? “Os vermes já mexeram até em papelada, transferir no cartório e tudo. O advogado é filho do meu, que também já veio pra cá, e cobrou bem”. Walter até assentiu com a raiva do amigo. Pelo respeito que ainda nutria, silenciou para entender a lamúria, o canto de um cisne atrasado.

“E seus filhos, Walter, não vão acabar fazendo isso contigo também?”

Hoff agoniado e Walter sugado, afundando na espiral de más notícias. Era previsível que a conversa chegasse naquele ponto, sempre chegava, nem aí se era ocasião de aniversário, batismo, primeira comunhão, crisma, casamento, unção de enfermos, independência, dia da república, festa de colheita, farra do vinho, do boi, do frango, do céu, do mar, natal, reveillon, padroeira.

Walter ouviu som de metal e mexeu no aparelho auricular. Apertou os olhos e girou o pescoço para identificar o sinal: um gordinho torrado de sol, cabisbaixo, com sacolas e roupas em um carrinho de supermercado. O azul e a geografia sugeriam Condor. Hoff disse “é esse aí. Agora me ajuda, Waltinho. Desce a mão na cara desse malandro”. Walter levantou os braços para frente, na altura dos ombros: tremedeira. Não tinha mais o coração de ouro de quem corria 30k por semana até alguns anos atrás. Tinha abandonado também, em sequência, boxe, ioga, fisioterapia e pilates. O barrigudo era jovem e forte e, se tivesse mesmo roubado a tumba, parecia ter feito bom uso da moeda. Disse para André que investigaria como pudesse, aí se despediu pensando em nunca mais voltar.

Seguiu o mendigo. Disfarçado em seu sobretudo cinza, um camaleão de outono, misturou-se a detalhes que antes ignorava. O alvo estacionou o carrinho em um canto e pegou um pacote de Trakinas de uma sacola, cabeça e costas na parede, olhos para cima.

Limpando a garganta em voz alta, Walter acenou com as duas mãos, gastando energia para demonstrar que não era uma ameaça. O pançudo olhou para ele:

– Rapaz, tá com fome?

– Oi?

– Cê aí comendo bolacha. É que hoje é meu aniversário. Almoça comigo?

– Almoçar? É o quê?

– Perto daqui. Eu pago. Juro que não é palhaçada.

 

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Marco Antonio Santos

“Às vezes eu me sinto como uma criança sem mãe. Muito longe de casa”, gritou meu marido e bateu a porta do quarto, trancando com chave. Eu até podia entender, estávamos mesmo longe de casa, vivendo em um tempo obscuro. Por esse lado fazia sentido. Mas a gente tinha finalmente o que queria, aquele era um lugar especial. Neste ponto as coisas mudavam e eu passava a não entender onde ele queria chegar com aquele papo.

Enfim, eu ali sentada no sofá da sala, encarando a televisão. A máquina acendeu a tela e me disse que eu não podia fazer nada. Dizia que era melhor eu ficar ali sentada enquanto ela encontraria um programa que talvez me distraísse e agradasse. Aceitei o convite da máquina e perguntei o que ela poderia me sugerir. Me apresentou um grande número de opções. Tantas que eu tive muita dificuldade em escolher. Até que desisti e disse que colocasse qualquer coisa. Ela respondeu que não poderia fazer isso, por mais que tivesse inúmeras atrações, para todos os gostos, não funcionaria sem um ponto inicial. Era necessário que eu desse o start. “Mostre-me algo épico”, exclamei. A tela me apresentou um cenário medieval, tão imundo que me parecia especialmente realista. Era uma série chamada Charlemagne e tinha aquela coisa de império, romance, traições, guerras e sangue. Porém, o que me deixou intrigada mesmo foi como o primeiro episódio tinha um foco bem importante na relação de Carlos com a mãe dele, Berta de Laon.

O nome da minha mãe é uma variação das versões femininas da alcunha Carlos. Tem todo aquele lance do significado, da força e virilidade, que nem todos conseguem acreditar, mas que às vezes faz bastante sentido. Fiquei meio filosofando sobre esses nomes. Pausei a televisão e comecei a consultar alguns dicionários etimológicos pelo celular. Foi então que ouvi barulhos ensurdecedores. Pareciam estar vindo de muito perto do nosso prédio. A primeira memória que minha mente acessou foi a imagem de explosões coloridas no céu. Mas o ritmo que aqueles sons assumiam, a continuidade interrompida por curtos intervalos, me fizeram desacreditar que podiam ser fogos de artifício.  “São disparos!”, deduzi.

Corri até a janela Oeste, de onde conseguiria ver o Centro Cívico. Mas a Campos Sales estava diferente, não era uma rua única, de largas pistas. Haviam colocado um canteiro com árvores medianas bem no meio, separando a rua em dois lados. Olhei para a esquina de cima e vi que o som dos tiros vinha da região do Tribunal. Mas logo clarões começaram aparecer em outras partes da região Norte da cidade. Munições traçantes, com pequenas doses de fósforo queimando na ponta, cortavam o céu de nuvens baixas e avermelhadas. Apaguei todas as luzes do apartamento e percebi que, incrivelmente, meu marido ainda dormia o sono dos justos. Bati algumas vezes na porta do quarto, mas ele não atendeu. Decidi que, mesmo sem ele, iria descobrir o que estava acontecendo.

Voltei à janela com um binóculo nas mãos e comecei a observar. A cidade estava pegando fogo. Eram muitos focos de confusão. Ouvi o som de um helicóptero que parecia estar cada vez mais próximo. Quando o avistei, vi que um dos tripulantes estava pendurado na porta aberta e segurava um rifle. Voavam no escuro, não havia uma luz acesa na aeronave. Eu consegui observá-los pois chegaram muito perto do nosso prédio.  O homem que carregava a arma apontou em minha direção e me joguei no chão. Depois de um minuto, levantei vagarosamente atrás do sofá, tentando observá-los de novo e vi que ainda estavam lá, mas o atirador já havia abaixado o rifle. Voaram para a região do Tribunal e logo ouvi que o motor parou. Imaginei que haviam descido no heliponto no topo do prédio envidraçado da Mauá.

Decidi não sair de casa, tive medo, mas um segundo depois reconsiderei ao imaginar que aquela confusão poderia não terminar tão cedo, que logo poderia atingir a nossa casa. Eu tinha que descobrir o que estava acontecendo.

Desci as escadas do prédio. A rua de trás estava transfigurada, com carcaças de veículos espalhadas, alguns ainda em chamas. Como aquilo tinha se configurado tão rapidamente, enquanto eu assistia uma simples série de televisão? Não era capaz de imaginar os caminhos que haviam levado a cidade chegar a tal ponto. Nem mesmo um motivo para tamanha desordem. Caminhei até a esquina e todos os quarteirões de cima estavam sem energia. O Tribunal estava no escuro. Escondida nas sombras, do outro lado da rua, caminhei rumo ao Palácio na expectativa de encontrar lá o início da revolta. Segui por uma rua de pedra, com árvores muito altas e velhas e acabei me perdendo. Após alguns minutos perambulando para rumo ignorado, encontrei uma calçada antiga que me dirigiu até uma praça, perto de um rio.

Não conseguia me lembrar como poderia haver um rio naquela parte tão alta da cidade. Me perguntei como em tantos anos morando ali, eu nunca havia me dado conta daquela corrente de água verde e profunda. Enfim, mal tive tempo para pensar nisso, vi que um homem alto, vestindo uniforme, com os olhos pintados de preto, arma em punho, pronto para guerra, se aproximou.

Demorei para reconhecer que era Halsøy, meu amigo escandinavo. Nos conhecemos em Oslo. Ele havia sido meu guia quando fotografamos a Aurora Boreal. Perguntei o que ele fazia em minha cidade e ele me disse que a extrema direita havia iniciado uma invasão mundial. Quase um século depois, tinham resolvido retomar a guerra contra o movimento secularizado ao qual insistiam em atribuir características agnósticas neocomunistas. “Vamos resgatar os velhos costumes”, afirmava Halsøy, defensor inolvidável dos deuses antigos.

Fiquei assustada quando percebi que Halsøy iria me matar. Fechei os olhos esperando o tiro fatal. Ele estava determinado. No entanto, passou por mim em direção à Catedral, que mantinha os sinos badalando sem parar. Perguntei se ele não iria acabar comigo e ele disse que eu não era uma neocomunista como as demais, que era amiga dele e, portanto, pelo menos por enquanto, não deveria me preocupar. Eu disse que ele estava enganado, que todos os meus queridos iriam morrer pela mão dele e de seus amigos fanáticos. “Já que todos irão embora dessa vida, eu não quero ficar sozinha”, gritei com ele.

Halsøy chegou bem perto de mim, era um gigante. Olhou em meus olhos, sorriu e depois me deu uma cabeçada violenta. Virei o rosto, mas foi suficiente apenas para, em vez de me acertar a testa, atingir meu olho esquerdo em cheio. Vi estrelas, vi um buraco negro, vi a cruz e o martelo. Acordei instantes depois e percebi que o gigante Halsøy me carregava no colo. Usou minhas chaves para abrir o prédio, subiu pelas escadas e me jogou dentro do apartamento.

Acordei no sofá, na manhã seguinte, com muitas dores no corpo, principalmente na cabeça. Fiquei completamente aterrorizada. A angústia de que aquilo tudo fosse verdade me afundou em pânico que mal consegui respirar. Ofegante, caminhei até a janela, então fui invadida por grande alívio ao olhar para a Rua Campos Sales e ver que o canteiro central, de árvores medianas, nunca havia existido. Era a eterna via única, de pistas largas. Voltei meu olhar para dentro do apartamento e vi que a televisão ainda estava pausada no mesmo lugar.

 

Jadson André

O ônibus? Acho que daqui uns dez minutos ele passa, não demora muito não.

Já, já peguei sim. Pegava bastante pra ir pro trabalho.

Não vou pegar hoje não. Faz tempo que não pego ônibus. Tô só me protegendo do sol mesmo.

Onde eu moro? Depende da hora do dia. As vezes aqui nesse ponto mesmo.

Não precisa me pagar um lanche não. O seu Otávio ali da panificadora sempre me dá um almoço.

 

É sim, um homem de bom coração.

 

Quando eu tinha emprego eu sempre tomava um pingado ali, de vez em quando até comia um chineque.

Um gole eu aceito, tá calor né?

Vixe, faz um tempinho já. Eu trabalhava na construção civil, mas aí sofri um acidente. Cai de um andaime, machuquei feio a coluna.

Não tinha registro não, a gente nessa área trabalha tudo na informalidade.

É, né, diz que daqui uns dias vai ser assim pra todo mundo.

Aham, eu morava numa pensão aqui perto.

 

Até tentei voltar pra labuta umas semanas depois, mas não aguentei, acho que até machuquei mais.

 

Agora eu tô bem. No que dá, né? Só tá difícil arrumar uns bicos.

Ah, o pessoal da agência de empregos pede pra eu deixar um telefone pra eles me ligarem, mas tive que vender o meu pra garantir mais um mês na pensão.

Te falar que não adiantou muito, no outro mês ainda não conseguia carregar um saco de palha. É, aí me expulsaram da pensão. Mas também, sem dinheiro pra pagar, né?

Faz uns meses já.

Minha família é do interior de São Paulo, mas não tenho quase ninguém mais por lá.

O seu Otávio até rachou comigo uma passagem pra eu visitar minha mãe, pra ver se achava alguma coisa por aqueles cantos.

Rapaz, você acredita que ela tinha falecido, já fazia uns vinte dias?

É, ninguém tinha como me avisar, sem celular, né?

Fui embora de lá já no outro dia. Não sei. Lá nunca foi o meu lugar, sem ela então…

Obrigado!

Por um acaso você não tem um celular sobrando em casa? Pode ser um bem velhinho mesmo, só pro pessoal da agência de empregos conseguir me ligar.

A é? Sério? Poxa, que maravilha.

Eu tô sempre por aqui. Se você achar ele na gaveta então, nossa, me ajudaria um montão.

Obrigado mesmo.

Aham, aceito mais um gole sim.

Ah, não esquenta não. Com esse celular você já tá fazendo muito por mim.

Acho que a vida é desse jeito mesmo. Tudo passa rápido demais. Muda de uma hora pra outra. Quando a gente vê, ficou esquecido no fundo de uma gaveta, tipo um celular velho.

 

Gabriel Protski