Literatura apesar de tudo.

postado por Marcola.

Às vezes acontece que o sujeito, por não identificar opção melhor na hora, presta atenção às conversas do ambiente. Ater-se aos métodos narrativos, histórias, estórias e contextos que não tem a ver com você gera uma espécie de conforto. Aquele que sente a pessoa que olha as situações de fora. Que não pertence ao mundo retratado e, por isso, não precisa se preocupar com os problemas dele. E é sempre uma massagem no ego a idéia de que seria possível lidar melhor com algumas das mazelas do mundo dos outros.

O rapaz entrou no ônibus e sentou-se perto do cobrador, que conversava com o motorista, e tornou-se ouvinte atento. E por alguma razão que Deus deve saber e não conta para ninguém, o cobrador deixou de lado o papo-que-não-leva-a-lugar-nenhum, e resolveu apresentar uma autobiografia, sem se preocupar com a idéia de escolher o público. E começou.

Era homem de quase 30 anos, casado, uma filha pequena, turno de pouco menos de seis horas no trabalho, salário aproximado que não publicarei para evitar atitude deselegante, assinante descontente de uma empresa de TV a cabo,  sócio do Coritiba Football Club, e com a mente cheia de lembranças divertidas da juventude. De quando era mais jovem no caso, que a juventude tem muito a ver com a atitude mental, e pouco com o número de outonos vividos (e os dele nem eram tantos, de qualquer forma).

Das lembranças da juventude do cobrador, no entanto, um personagem chamou a atenção do ouvinte mais que os demais personagens e situações.

Um garoto com problemas psicológicos que queria bater nos amigos, quando bêbado em eventos sociais. Com uma poupança estimada em R$ 35,000, B. era filho de um empresário, e promovia festas quase semanalmente em sua casa, que parecia um palácio. O curioso é que lá pelas tantas da bebedeira, B. resolvia agredir os colegas, com socos e ofensas verbais. Fazia-se necessário então que uma comitiva de “amigos próximos” (e isso incluía o hoje cobrador, que dava risadas nesse momento da narração) prendesse B. em seu quarto, isolando o dono da casa dentro de casa. Privando o festejador da festa.

Enfim. Disse algum sábio que existem três verdades. A de um lado da história, a do outro, e a que de fato aconteceu. Fato é que o jovem ouvinte pensou, depois de descer do ônibus, que havia aprendido uma lição naquele dia. Ouvir a conversa dos outros pode ser entediante, em algumas vezes. Noutras, pode ser apenas inútil.

postado por Ander.

Ele deitou em minha cama porque queria conversar, mas não foi essa a desculpa usada pelo capricorniano que sozinho do alto de seu penhasco chegava com uma pomada de canfora pedindo massagem nas costas. A cada movimento circular que gelava a sua dor muscular soltava um desabafo. E quem lê assim, até pode pensar que k. é calado. Não, não é, ele fala o tempo todo: o que pensa sobre o corpo, o movimento, a poesia, o individualismo, o amor. Ele é artista e agora finalmente sinto que estamos ficando próximos. Ficou horas aqui no meu quarto, falamos sobre tantas coisas(ele estava com insônia). Eu? Na verdade poderia dormir a qualquer momento, se quisesse, mas fiquei ali escutando o bodezinho de cabeça dura que na juventude em Salvador foi salvo da loucura por uma tendinose no ombro. Isso mesmo, ele estava indo embora, descolando-se da realidade, então se machucou e a dor no ombro esquerdo provou pra ele que alguma coisa existia. Realidade. Ele buscou a cura, a família desistiu de interná-lo, ele foi embora da Bahia e hoje mora aqui no quarto ao lado, sempre anda de cueca pela casa e me ensina a cozinhar.

saudades…

Texto de em 07 de agosto de 2009. Nenhum comentário.

postado por Saul

Sobre o trilho de trem ela observa a paisagem e sons que aquele cenário emana. Calma. Simone está calma. Pensa em como é boa àquela sensação, talvez seja o momento, ou porque ali tem tudo que almejava. Solidão. Completa solidão, só interrompida por ruído e tremor crescentes. O ruído remete a sua infância. Passava três ansiosos meses esperando por ele. Ao acordar escutava o ruído crescendo, assim como sua ansiedade, corria em direção a estação, a qual residia próxima, e aguardava vagão por vagão. Com olhos atentos – tão atentos que observavam todas as pessoas e suas expressões, dando uma história pra cada uma delas – para não perder nenhum momento que poderia olhar para ele. Seu pai era viajante. Regressava a cada três meses, permanecia em casa duas semanas depois iniciava mais uma jornada. Simone decorou todos os trejeitos de seu pai, quando estava com saudades ela fechava os olhos e desenhava na escuridão todos os movimentos dele, o jeito exagerado de dar risada, a pressa em comer e o olhar de carinho com um sorriso maroto que era o que mais gostava de recordar e desenhar em sua mente.

 Agora ali sentindo novamente saudades de seu pai – percebendo a solidão, já não queria mais ficar só –, saudade de todos. Será que eles também estavam sentindo saudades dela. Seu marido, filhos e netos, seus funcionários, tratados como se pertencessem à família, todas as pessoas próximas. O tremor foi aumentando e a contagiando de alguma forma inexplicável. Corpo mexendo-se involuntariamente, jogando pra fora todos os temores da vida, preenchendo com uma felicidade imensa. Ela estava liberta de qualquer compromisso e obrigação, sempre quis fugir de tudo, mas adiou para fazer as obrigações impostas por todos, agora era livre. Ruído e tremores intensos. Ela não quis abandonar a liberdade e não se moveu. Em seu rosto manifestou um sorriso sincero. 

postado por Rafaé.

Apesar das férias prolongadas, Emilia não estava feliz. Trancada em casa há uma semana, vivia os fantasmas de uma tal gripe suína, que até onde sabia, poderia matar a todos. O que restava à pequena era o fantástico mundo da Internet. Foram seis horas diárias em média, até aqui. Mas essa rotina já estava cansando Emilia, que conversava sempre com as mesmas pessoas. Sem uma rotina real, não se tem assunto no mundo virtual – é assim que ela pensa.

Apesar de seus quinze anos, somente hoje Emilia teve curiosidade em saber a origem de seu nome. Como estava sozinha em casa, seu tutor foi a Wikipédia. Logo no primeiro resultado: Emilia era o nome de uma boneca-de-pano-com-vida, personagem de um livro antigo: o “Sítio do Picapau Amarelo”. Continuando sua pesquisa, conheceu um mundo que havia encantado crianças que hoje – crescidas – não acreditariam em uma boneca-de-pano-com-vida.

Na verdade, nem mesmo Emilia (a humana) acreditou. A web possui personagens bem mais interessantes para acompanhar. Mas a curiosidade da internauta não parou no primeiro resultado. Através dos links contidos no site, chegou até a biografia do autor. Um tal Monteiro Lobato. Advogado, escritor, editor, caricaturista e – pasme! – vendedor de livros. “Com tanto trabalho, pra que vender livros?”. É, nem tudo faz sentido na adolescência.

Mais alguns cliques e a revelação: neste mesmo dia (4 de agosto) há 41 anos morreu o criador da Emilia (boneca-de-pano-com-vida). Aos 66 anos o autor padeceu, vítima de um espasmo cerebral. “Espasmo cerebral?”. A jovem, que não era reconhecida por possuir grandes conhecimentos sobre medicina, não soube o que era. A solução foi automática: clicou no link da moléstia e foi saber o que era.

E mais uma vez, o computador supriu todas as necessidades de um dia na vida de Emilia. Agora ela dorme, ansiosa pelo lançamento do novo CD do Jonas Brothers, amanhã. Não. Ela não irá ao shopping comprar, pois a fobia da gripe a impede de sair à rua. Mas ela entrará no Google e encontrará a versão digital pra baixar.

Descobertas tardias

Texto de em 04 de agosto de 2009. Nenhum comentário.

postado por Rafaé.

A casinha branca, de longe, se confunde às vacas, em meio ao verdidão do pasto. Vista daqui não se percebe vida, salvo os dias em que o fogão a lenha trabalha. A chaminé baforando me parece um convite para um agradável refúgio do frio. Nunca soube nada a respeito de quem alimentava a tal chaminé. Até que minha curiosidade superou a prudência.

Naquela quarta-ou-sexta-feira o tédio me consumia. Após envelhecer aqui, o único local que ainda não explorei é essa tal casa – que de longe parece uma vaca fumegante. Pra ser sincero, há uns cinquenta anos que não me aventurava em explorações. É, mais um prazer guardado no passado. Novamente o novo me seduziu. Desconforto a parte, embarquei.

Camuflado no pomar, me aproximava. Em meio àquela tensão, o nó na garganta me lembrava as inseguranças da adolescência; ou as malditas provas de aritmética. Mas, assim como na juventude, estava decidido a encarar mais esse desafio. A única diferença é que certamente não teria o mesmo fôlego pra fugir, caso ocorresse algum provável-imprevisto. Assim fui.

Chegando próximo às goiabeiras, me distraí com o aroma. Aquele cítrico reforçava ainda mais minha jovialidade. Podia sentir o azedo em minha língua – salivei. Mas como nem só de lembranças se faz uma exploração, continuei. De bruços avancei e, assim que saí de trás das árvores, o diagnóstico: não havia casa alguma naquela localidade. Apenas umas três dúzias de vacas. Quanto à fumaça, descobrirei em minha próxima expedição.

postado por Rafaé.

Duas derrotas seguidas e rebaixamento eminente. Estes são os fantasmas responsáveis pelo clima tenso na casa 187 da rua Andirá. Terezinha reza todos os dias pela reabilitção do Paraná Clube. Não por torcer pelo time, mas para que Toninho – este sim, paranista fervoroso – coloque seu humor no eixo. Dentro de tudo tende às infindáveis discussões. Apenas Sanduba, que não tem consciência do que acontece, balança o rabo atrás dos donos, na esperança de ganhar um mimo. Ele não percebeu, mas há mais de uma semana que ninguém o agrada nessa casa. Tudo bem. Cachorros nunca foram reconhecidos por possuírem ‘memória de elefante’.

Sábado foi um dia difícil pra Toninho. Desde as sete da manhã na oficina em que trabalha, parou às quatro pra acompanhar o time do Paraná enfrentar o semi-rebaixado Duque de Caxias. Logo no primeiro tempo os paranistas abriram o placar. A euforia começava a se formar no coração tricolor do Bigode. Tudo correu bem, até que “FILHO DAS PUTA!” pênalti pro time carioca. Roer as unhas engraxadas não adiantou. Gol dos caras, que viraram o jogo logo em seguida.

Bigode não podia acreditar. O tricolor perdeu mais uma. A ascensão que parecia certa foi interrompida por tempo indeterminado. Ao final do jogo, Bigode fecha a oficina e vai pra casa. Anda duas quadras a mais pra desviar do bar da vila, onde todos teriam piadas intermináveis para fazer sobre o seu time. Chegando em casa, chutou Sanduba, que correu pra casinha (sem ter consciência do que acontece). Entrando em casa, nem cumprimentou Terezinha, que já sabia do resultado e lamentava pela certeza de não receber o carinho do marido naquela noite.

O dia anoiteceu e, com a escuridão da noite, veio o silêncio. A cama do casal era gelada, assim como os pensamentos de Bigode, que só fazia praguejar os demais times da cidade, que jogariam no dia seguinte. Terezinha sofria em silêncio. Seu tesão estava tão reprimido que bastaria um abraço para desencadear todas aquelas sensações que ela tem vergonha de possuir. Já Sanduba, por não ter consciência do que acontece, caça lagartixas no muro, como se não houvesse o amanhã.

Descoberta

Texto de em 30 de julho de 2009. Nenhum comentário.

postado por Saul

Ela reclamava demais, sempre estava chorando, nada do que tinha era suficiente e sempre alguma uma doença a incomodava. Melissa vivia debilitada, raras vezes em plenitude com sua saúde. Nervos em colapso. Sintomas de todas as enfermidades existentes. Quase todos fictícios. Médico algum jamais desvendou o mistério. Seu físico foi explorado a exaustão. Exames sem necessidade sempre com a palavra negativo em destaque.

 Algo que nunca foi explorado – claro que não foi descartado o problema psicológico, mas não analisado de maneira correta – sua psique. Tudo que ela sentia: dores, tristeza e solidão, era por ter ausência de sentimentos. Ela sempre ouviu falar no afeto, sempre quis experimentar esse sentimento, nunca apreciou e ninguém por ela também. Por isso criara todos esses problemas pra ver se alguém demonstrava algo, mesmo que pena, mas não.

 Agora ela achou algo que lhe dá todos esses sentimentos e principalmente prazer. Foi de forma inesperada. Estava em transito para ser submetida a mais um exame, que no fundo ela sabia que não teria resultado satisfatório, mas o que ela avistou naquela tarde encheu o seu corpo com um sentimento antes nunca sentido. Não soube nomear aquilo, mas era bom. O que ela avistou ali era um acidente, um motoqueiro colidiu de frente com um ônibus, ele estava em agonia e sofrimento. Seu sofrimento, principalmente os gritos de dor, sangue e fratura exposta, inundava Melissa de alegria e prazer.

 Hoje ela não é mais atormenta por aqueles sintomas. Sua saúde é perfeita. Tristeza, que acreditava ser acometida por tal, nunca mais. Agora tem amigos, para encaixar na sociedade é claro. Namorado, não o ama, mas é cômodo ter alguém para família achar que ela é normal, e para o sexo também. Toda semana, de forma metódica, ela causa sofrimento a alguém, nesse momento é quando ela está livre, vivencia as melhores sensações: prazer, satisfação e nenhuma culpa.

postado por Rafaé.

Hoje dona Terezinha não tem medo. Pratos não serão quebrados e o tapete do banheiro não será sujo. Isso é um alívio, pois as marcas do último derby ainda ardem em suas costas. Sanduba, o cachorro, não tem consciência do que acontece. Por isso está sempre esperando, independente de apanhar ou não. Enfim, dia de vitória é sinônimo de prazeres pela casa, forçados ou não. Mas pra Terezinha, isso não importa. O que realmente conta é a certeza de que não haverá violência.

A razão desse clima de alívios na casa 187 da Rua Andirá se deve à suada vitória do Paraná Clube. Um a zero sobre o São Caetano. O rebaixamento é passado e novas vitórias seduzem em um horizonte-quase-palpável. Toninho Bigode é dono de Sanduba, e casado – pela segunda vez – com Terezinha. Hoje ele é só euforia. Já na saída do estádio compra três latinhas de cerveja por dez reais, sem se importar com o preço alto e muito menos em ceder o último dinheiro do bolso. É comemoração. É hora de mostrar orgulhosamente a gralha tatuada no peito, independente dos oito graus, inutilmente informados pelos termômetros.

O jogo acabara às onze da noite e agora, às duas da manhã, Terezinha aguarda ansiosa na janela pelo vulto errante do marido. Nada. Alguns cachorros e andarilhos, apenas. Até que a realidade vira a esquina e estremece o corpo da mulher. Luzes de giroflex surgem e param em frente ao seu portão. Como que por reflexo, esconde-se atrás da estante. Sanduba, que não tem consciência do que acontece, balança o rabo freneticamente ao portão.

Ao atender a viatura, o alívio. Bigode havia dormido no ponto de ônibus, sem camisa, sem dinheiro, embriagado e agora vinha de carona com a polícia. Após receber os puxões de orelha do policial, Terezinha recolheu Bigode e o colocou pra dormir em sua cama. Lá ele despertou e balbuciou algumas palavras: “Dorme bem, benzinho. Agora ninguém segura o tricolor. A gente vai ser muito feliz, você vai ver”.

Terezinha deitou sorrindo ao lado do marido. Não sabia o porquê, mas o Paraná em boa fase era sinônimo de harmonia em casa. Assim como os torcedores do time, ela ainda espera a época de ouro, com alegria todos os dias do ano.

Crueldade

Texto de em 21 de julho de 2009. Nenhum comentário.

postado por Saul

Johnny. Garoto chinês muito precoce. Nasceu prematuro, sete meses para ser exato. Começou a andar aos cinco meses, falar aos oito meses e tomar suas próprias decisões com um ano de idade. Depois dessa precocidade toda ele não parou mais e acabou se envolvendo com o crime. Sua baixa estatura nunca o atrapalhou. Tem contatos em todas as áreas, muito dizem que a economia da china, mesmo em tempo de crise, cresce graças as suas ações. Claro que ninguém o conhece. Quem realmente tem dinheiro não está nas revistas e listas dos mais ricos. Todos o temem – poucos presenciaram sua crueldade em estado máximo e ninguém quer ver até onde vai sua paciência – respeitam, admiram e acima de tudo acham que ele é uma gracinha…[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=M9mDjITNzHM]

Convite

Texto de em 17 de julho de 2009. 1 comentário.

postado por Marcola.

É, meu amigo. Por muito tempo eu guardei o universo sozinho, mas agora nos encontramos. Um companheiro na minha trajetória rumo ao ideal de rebanhar todos os terroristas do país sob o cajado que levamos, o da justiça e da sabedoria.

E que fantástico treinamento o senhor realizou. Me fez lembrar do meu. Acompanhei um pouco da lenda que você criou para si próprio através de links, e admirei desde o princípio o fato de que a sua concentração não se abala de maneira nenhuma. Nem tomando uma martelada na cabeça, e sangrando muito por isso.

“Quando o caso é verdade, até o elemento aparece”, é o que disseram pra te difamar (ou seria pra te enaltecer?), mas esse é um comentário sem valor para pessoas do nosso nível, não? Você decepcionou o seu irmão, e assustou os moradores da sua cidade. Talvez essa seja a nossa maldição, afinal. As pessoas se assustam com o nosso poder e com o nosso potencial destrutivo (QUE É INCRÍVEL).

Lideremos, pois. Entremos em mentes.Exterminemos os imbecis, e o futuro deles.

Nos encontramos em breve, com certeza.

Um Abraço.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=kaO-v2v8xVo&feature=related]