Em Algum Jardim 0 44

Imagem por Sebastião Salgado

Trabalhos chatos levam as pessoas a pensarem mais na vida. Vidas chatas fazem as pessoas pensarem mais fixamente na morte.

 

Rodrigo nunca gostou de reuniões. Em especial as que costumam demorar mais de trinta minutos. Em muito especial as que são feitas numa sala escura, onde um orador que não seria capaz de entreter um bingo para senhoras carentes, repete tudo o que já diz os longos textos do ppt que o acompanha. Não precisa de muito para se teletransportar, basta ouvir três termos empresariais proferidos em outro idioma para ir direto para as montanhas do Congo. Foi até lá quatro vezes, só nesse mês. Na primeira vez foi bem difícil achar a trilha que leva ao vilarejo mais próximo, teve a impressão que andou em círculos por umas duas horas. Agora sempre leva uma bússola consigo.

 

Ao leste, onde a mata é mais fechada é o lar de gorilas enormes, que em geral pesam mais de duzentos quilos. Já os tinha visto nos livros do Sebastião Salgado, mas não deixou de se surpreender ao vê-los de tão perto. Ainda tem medo de se aproximar muito, apesar deles já estarem habituados com a presença humana. Madia, uma jovem congolesa que mora na região, jura que o gorila mais alto é a encarnação do seu irmão mais novo. Que morreu ao pisar numa mina terrestre, fruto da interminavel guerra civil que assola o país.

 

Madia é linda, definitivamente é diferente de tudo que já se viu nesse mundo. Seu corpo brilha como se tivesse sido esculpido num enorme pedaço de ouro, antes de ser tingido por tons mais escuros. Seus olhos são intensos, dois lagos profundos. Nesse momento, Rodrigo está a caminho de um belo jardim de proteas. Foi lá onde viu Madia pela última vez. E é lá que pretende revê-la.

 

Até chegar na trilha certa, é preciso passar por um trecho extenso de floresta fechada. Mal dá pra se ver o sol em meio a arvores tão frondosas. Está no caminho certo, quem o avisa disso é aquela árvore enorme com um característico buraco triangular em seu tronco. Apesar da pressa, não consegue parar de contemplar a antiga arvore. Tudo nela é colossal, suas raízes são tão grandes, que acha que nada é capaz de tirá-la desse mundo. Já é hora de ir, mas as pernas permanecem imóveis. Merda, isso só quer dizer uma coisa, já é mesmo hora de ir. O sol enfim resolve brilhar com força. A luz é tão forte que parecem ter quatro sóis o cercando. As arvores, os gorilas, as proteas, tudo se desintegra. Inclusive Madia.

 

O relatório da reunião é pra amanhã no primeiro horário. Eles precisam enviar os relatórios e planilhas para a sede administrativa em São Paulo. E mais que nunca, Rodrigo espera fazer um call, para pegar o briefing referente ao business intelligence que ele precisa fazer logo cedo, no primeiro horário.

 

Gabriel Protski

 

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Geração Alpha 0 118

O comboio chega à estação. O homem a segurar a mão da sua filhinha, 3 ou 4 anos, para embarcarem.

Eis que a porta do vagão não abre sozinha. Não é automática como as portas do Metro, mas ele não sabe; é turista. Deve estar avariada, ele pensa, emperrou. Resolve forçar a porta. Usa toda a sua força mas não consegue. O comboio prestes a partir.

Na altura dos olhos da filha está o botão. Ela mete ali o dedinho e – tchanam! – a porta se abre.

O pai, misto de constrangimento e orgulho, solta um sorriso bobo. Leva a filha para dentro pela mão. Próxima paragem: Belém.

 

Murilo

 

Cruzeiro do Sul 0 119

Para Gal

 

Navegar pelo mar Mediterrâneo ou pelos outros mares interiores da pequena Europa era relativamente seguro. As distâncias sempre foram curtas e, mesmo durante as noites, Alfa de Ursa Menor oferecia aos marinheiros uma orientação segura. Todas as estrelas e constelações do hemisfério norte orbitam em torno da estrela polar e a partir dela se sabia para onde ir ou qual direção evitar.

– Você é o brasileiro mais calado que eu conheço, sabia?

– Isso não é muito, sou o único brasileiro que você conhece.

– Não é verdade. Não te contei que eu morei dois anos em Salvador?

– Ah, então é por isso. Eu sou de Curitiba, e os curitibanos não falam muito.

– Mas eu também vivi em Curitiba, por seis meses. Dava aulas de inglês em uma escola de línguas. Eles nunca me pagaram e depois disso passei uma temporada trabalhando na Ilha do Mel. E insisto que você fala muito pouco.

Os silêncios de Antonio a desesperaram desde o primeiro contato. É que apesar dele sempre ter demonstrado interesse, e de que ao longo de toda a convivência sempre tenha sido tão atencioso quanto um companheiro pode ser, ela sentia que as palavras eram a forma mais eficiente para se evitar qualquer mal entendido. Aprendeu cedo que suas atitudes eram condicionadas pelos seus discursos e, por isso, ao longo de seus relacionamentos descobriu o quanto os homens tentam por meio das palavras (ou da falta delas) manter sua liberdade de ação.

Por isso, cada demonstração de afeto desacompanhada da correspondente declaração lhe provocava calafrios. Ainda pior era ver que tinha se interessado, outra vez, por um desses homens que abraçam pouco e falam menos ainda.

– Me dá um beijo?

– Bobo, há coisas que não se pergunta.

– Mas como eu posso conseguir coisas quando elas dependem de outras pessoas?

– Aí você tem que ter a coragem de tomar uma atitude e esperar que seja correspondido.

Para ele, eram justamente as palavras que provocavam os males entendidos. Tinha muita dificuldade em traduzir ao português, e depois ao inglês, ao espanhol, ao francês, o alcance e a intensidade de seus desejos, medos e aspirações mais profundas. Acreditava sinceramente que o olhar, o sorriso e a expressão corporal eram representações muito mais inequívocas de todos os conflitos pelos quais passava.

– Me escreve uma carta?

– Esqueceu que há coisas que não se pergunta?

– Eu sei, mas eu quero uma carta. Além do mais, você é que tem que tomar a iniciativa.

– Mas eu tomei, até pedi um beijo.

Ao fim e ao cabo, ele conseguiu não só um, mas incontáveis beijos. Molhados de saliva, molhados de suor, molhados de lágrimas. Doces, salgados, amargos. Distantes, próximos, falados, abraçados. Bianca também conseguiu mais cartas do que qualquer pessoa que houvera conhecido. Cartas enviadas de outras cidades, outros países, outros continentes. Cartas pretéritas, presentes, futuras, perfeitas e mais-que-perfeitas. Algumas sequer lhe eram endereçadas, mas à mulher que um dia havia sido, ou à mulher que talvez viesse a ser.

Abaixo da linha do equador existe outro mundo. A estrela polar desaparece no horizonte e mesmo as constelações conhecidas abandonam seu comportamento habitual. Nas noites de outono o imponente caçador Órion descansa deitado, acompanhado das Três Marias que compõem seu cinturão.

Do lado de cá nada é seguro como do lado de lá. Mesmo o Cruzeiro do Sul, que serve de bússola com seu ponteiro indicando o meridiano, nasce no leste e se põe no oeste como todos os corpos celestes. Há pouco espaço para certezas quando se navega por águas desconhecidas.

Daqui é curioso olhar que Antonio e Bianca inverteram as posições. Não porque seja um fenômeno particularmente comum em relacionamentos tão duradouros, mas porque a intromissão de um terceiro elemento sempre provoca transformações profundas.

Agora é Antonio quem busca estar sempre por perto e, ao sentir que a pouca distância ainda é muito longe, se agarra desesperadamente às palavras. Fala sobre as estrelas e as constelações, e como elas não são as mesmas nos dois hemisférios. Fala sobre o regime das marés, e como eles são influenciados pelos movimentos lunares. Fala tão corretamente quanto possível, cuidando da colocação pronominal, muito mais complicada no português do que em qualquer outro idioma que conhece.

E diante da impotência em estabelecer o contato que tanto busca, se vê refletido nos olhos dela. Tenta entrar, e fala que vai cuidar de tudo. Não como quem sabe que pode cuidar de tudo. Nem como quem acha que pode cuidar de tudo. Sequer como quem acredita que pode cuidar de tudo. Fala que vai cuidar de tudo como quem implora permissão para cuidar de pelo menos uma parte de tudo o que pode acontecer dali em diante.

Para ela, as palavras já perderam muito do seu sentido. Não é insensível à cena. Tampouco é demasiado tarde para ele. Mas ela sentiu no próprio corpo o amor que ali cresceu nos últimos meses, e percebe que ele não precisa de linguagem para se expressar.

Como um marinheiro perdido, Antonio assiste cada nova estria com o mesmo estupor com que os antigos navegantes miravam o céu sem a estrela polar. Compara aquela esfera crescente com o universo em expansão e busca, nas novas formas e desenhos, algum sentido de orientação. É inútil, os dias passam e ele não sabe o que esperar.

Ela o surpreende com um olhar grato e condescendente. A gratidão por saber que tem ao seu lado a melhor pessoa possível, e a condescendência de quem sabe que pode caminhar sozinha, mas prefere ter alguém com quem compartilhar a experiência.

Esse olhar o deixa mais tranquilo. Entende que talvez não possa cuidar de tudo, mas terá o seu espaço. Afinal, lá fora estão o céu, as estrelas, as luas e as marés, tudo por ser explicado e entendido. E tudo recomeça.