Em Algum Jardim 0 681

Imagem por Sebastião Salgado

Trabalhos chatos levam as pessoas a pensarem mais na vida. Vidas chatas fazem as pessoas pensarem mais fixamente na morte.

 

Rodrigo nunca gostou de reuniões. Em especial as que costumam demorar mais de trinta minutos. Em muito especial as que são feitas numa sala escura, onde um orador que não seria capaz de entreter um bingo para senhoras carentes, repete tudo o que já diz os longos textos do ppt que o acompanha. Não precisa de muito para se teletransportar, basta ouvir três termos empresariais proferidos em outro idioma para ir direto para as montanhas do Congo. Foi até lá quatro vezes, só nesse mês. Na primeira vez foi bem difícil achar a trilha que leva ao vilarejo mais próximo, teve a impressão que andou em círculos por umas duas horas. Agora sempre leva uma bússola consigo.

 

Ao leste, onde a mata é mais fechada é o lar de gorilas enormes, que em geral pesam mais de duzentos quilos. Já os tinha visto nos livros do Sebastião Salgado, mas não deixou de se surpreender ao vê-los de tão perto. Ainda tem medo de se aproximar muito, apesar deles já estarem habituados com a presença humana. Madia, uma jovem congolesa que mora na região, jura que o gorila mais alto é a encarnação do seu irmão mais novo. Que morreu ao pisar numa mina terrestre, fruto da interminavel guerra civil que assola o país.

 

Madia é linda, definitivamente é diferente de tudo que já se viu nesse mundo. Seu corpo brilha como se tivesse sido esculpido num enorme pedaço de ouro, antes de ser tingido por tons mais escuros. Seus olhos são intensos, dois lagos profundos. Nesse momento, Rodrigo está a caminho de um belo jardim de proteas. Foi lá onde viu Madia pela última vez. E é lá que pretende revê-la.

 

Até chegar na trilha certa, é preciso passar por um trecho extenso de floresta fechada. Mal dá pra se ver o sol em meio a arvores tão frondosas. Está no caminho certo, quem o avisa disso é aquela árvore enorme com um característico buraco triangular em seu tronco. Apesar da pressa, não consegue parar de contemplar a antiga arvore. Tudo nela é colossal, suas raízes são tão grandes, que acha que nada é capaz de tirá-la desse mundo. Já é hora de ir, mas as pernas permanecem imóveis. Merda, isso só quer dizer uma coisa, já é mesmo hora de ir. O sol enfim resolve brilhar com força. A luz é tão forte que parecem ter quatro sóis o cercando. As arvores, os gorilas, as proteas, tudo se desintegra. Inclusive Madia.

 

O relatório da reunião é pra amanhã no primeiro horário. Eles precisam enviar os relatórios e planilhas para a sede administrativa em São Paulo. E mais que nunca, Rodrigo espera fazer um call, para pegar o briefing referente ao business intelligence que ele precisa fazer logo cedo, no primeiro horário.

 

Gabriel Protski

 

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Escala de Baumé 0 1915

Já não se criam mais homens de barro, apesar de continuarmos nos esfarelando. É aceito que hoje somos compostos por água e ansiedade. De barro só os tijolos, com que se ergueram os muros de nossas casas e prisões. A ansiedade só cresce.

Na primeira vez em que fui visitar o Jaime na clínica ficamos em silêncio por quase uma hora, quinze anos de amizade nos poupam de certos diálogos dispendiosos. No momento de ir embora ouvi com clareza o que seus olhos me diziam, não podia abandoná-lo, e não o fiz. Na semana seguinte houve a necessidade de falar, de abraçar, de chorar; é difícil permanecer impassível quando seu colega de quarto é internado após tentar serrar os pulsos com um serrote, dessa vez era isso que seus olhos e braços me diziam. Os suicidas estão à procura de sua própria justiça, na qual a morte é a sentença final. O Jaime não era um suicida, ao menos não nos moldes convencionais, já que tomar uma garrafa de destilado por dia vinha se mostrando uma técnica efetiva para findar com sua vida. Seus sorrisos tornaram-se raros, pequenas ilhas de alívio no caos murado da instituição; os espaços cada vez menores, a alma tumultuada, a mente entulhada. Não sei o que tive mais medo de ver, se um surto ou a depressão profunda, um conforto mórbido me tomava ao vê-lo flutuar entre ambas hipóteses. Foi na décima terceira semana que decidimos que algo precisava ser feito.

Nunca concordei com essa internação, entendo-a, não é fácil para família alguma ter alguém fora de controle, mas não posso compactuar com isso. Lá fora o Jaime era a materialização da beleza na desordem, um furacão que arrasa um campo de rosas para se encher de cor, aqui ele não passa de um sopro, incapaz de espalhar as pétalas de um dente de leão. Onde esse ímpeto se perdeu? Na abstenção do álcool ou da vontade própria? Troquei minhas mágoas pela vergonha depois de descobrir o motivo de não ter sido ouvido em algumas visitas; certo dia trocaram o Jaime de quarto, sem consentimento algum ele foi amarrado em sua cama e transferido para outro cômodo, frio e com janelas menores. A crise de identidade se apossou dele, não se sentia mais um homem, era agora objeto. Não tinha mais nome, por isso não atendia quando o chamavam, tornou-se coisa, dessas que trocamos de lugar por mero paisagismo e descartamos quando causam problemas. Definitivamente, não existe amor sem empatia.

Uma hóstia podre e carcomida pelos vermes ainda é o corpo de cristo? Era a pergunta que me fazia todos os dias em que tinha que encarar um Jesus deteriorado na sala de espera da clínica. Dois mil anos com os pulsos pregados, quanto tempo mais era possível aguentar esse tipo de tortura? Na décima quarta semana cumpri com o combinado, depois que o Jaime voltou a ser alguém, a gente mergulhou num saudosismo afável, de quando éramos quem queríamos ser: bêbados que culpavam o álcool pelas próprias frustrações artísticas.

Pouco dormi na semana que antecedeu esse dia, nos momentos em que o cansaço venceu a angústia sonhei com prédios ruindo, maldito sonho que não me abandona. Deixei o carro embaixo da figueira de sempre, há quem diga que ela é a árvore da vida, também dizem que foi onde se deu o enforcamento de Judas Iscariotes. Minhas mãos suam, agora seria incapaz de dar um nó em qualquer corda. Como já me é habitual, encaro Jesus, com todas as minhas dúvidas.

Enfim chamam pelo meu nome. No caminho até o quarto o enfermeiro elogia minha decisão de trazer toddynho e trakinas para meu amigo, diz que nos últimos dias os internos passaram à pão e água, só meneio com a cabeça. É minha vez de engolir as palavras, sento em frente a ele e respondo com os olhos o seu questionamento. Trouxe? Estico a mão e lhe entrego, sinto medo, receio, vontade de me livrar logo disso e seguir em frente. Ele sorri nervosamente, a ansiedade lhe obriga a contrair seu maxilar, tomado pela dúvida, se espera o momento certo ou se entrega agora. Suo frio, quero ir embora, mas não consigo nem me levantar, nem virar o rosto, ele fura a superfície de alumínio com o canudinho e bebe tudo num gole só. Sorri com leveza, me abraça com calor, me pede pra voltar na semana seguinte. Vou embora me arrastando, as costas arqueadas carregam o peso de uma cruz, quantas mentiras conseguimos contar durante a vida?

Procuro no calendário onde foram parar os dias da semana que se foi, não há negociação, já é véspera de visita novamente. Encaro a prateleira do supermercado, água de coco ou suco de laranja? Nunca fui um bom alquimista, li dia desses que vão menos conservantes na água de coco, sei lá que diferença isso faz. A cena é cinematográfica, chego em casa e busco a sacola com meu kit, me sinto um coadjuvante de Trainspotting com uma seringa pontuda em mãos. Furo o fundo da caixinha de água de coco e retiro metade do líquido, a mão que segura a garrafa de vodka treme, encho novamente a seringa e preencho a embalagem usando o mesmo furo de antes, tapo a abertura com um pedaço milimétrico de durex. Torno a pegar a garrafa de vodka, a mão ainda tremendo, sirvo uma dose e bebo num gole só. Choro, por mim e por todos os bêbados que insistiram em criar descrença em seus queridos. Sóbrios ou não, permanecemos assistindo a ansiedade tomar conta.

Crédito da Imagem: Robert Mapplethorpe

Chegada 0 3205

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai