Em Algum Jardim

Texto de em 16 de dezembro de 2014 . Nenhum comentário.

Imagem por Sebastião Salgado

Trabalhos chatos levam as pessoas a pensarem mais na vida. Vidas chatas fazem as pessoas pensarem mais fixamente na morte.

 

Rodrigo nunca gostou de reuniões. Em especial as que costumam demorar mais de trinta minutos. Em muito especial as que são feitas numa sala escura, onde um orador que não seria capaz de entreter um bingo para senhoras carentes, repete tudo o que já diz os longos textos do ppt que o acompanha. Não precisa de muito para se teletransportar, basta ouvir três termos empresariais proferidos em outro idioma para ir direto para as montanhas do Congo. Foi até lá quatro vezes, só nesse mês. Na primeira vez foi bem difícil achar a trilha que leva ao vilarejo mais próximo, teve a impressão que andou em círculos por umas duas horas. Agora sempre leva uma bússola consigo.

 

Ao leste, onde a mata é mais fechada é o lar de gorilas enormes, que em geral pesam mais de duzentos quilos. Já os tinha visto nos livros do Sebastião Salgado, mas não deixou de se surpreender ao vê-los de tão perto. Ainda tem medo de se aproximar muito, apesar deles já estarem habituados com a presença humana. Madia, uma jovem congolesa que mora na região, jura que o gorila mais alto é a encarnação do seu irmão mais novo. Que morreu ao pisar numa mina terrestre, fruto da interminavel guerra civil que assola o país.

 

Madia é linda, definitivamente é diferente de tudo que já se viu nesse mundo. Seu corpo brilha como se tivesse sido esculpido num enorme pedaço de ouro, antes de ser tingido por tons mais escuros. Seus olhos são intensos, dois lagos profundos. Nesse momento, Rodrigo está a caminho de um belo jardim de proteas. Foi lá onde viu Madia pela última vez. E é lá que pretende revê-la.

 

Até chegar na trilha certa, é preciso passar por um trecho extenso de floresta fechada. Mal dá pra se ver o sol em meio a arvores tão frondosas. Está no caminho certo, quem o avisa disso é aquela árvore enorme com um característico buraco triangular em seu tronco. Apesar da pressa, não consegue parar de contemplar a antiga arvore. Tudo nela é colossal, suas raízes são tão grandes, que acha que nada é capaz de tirá-la desse mundo. Já é hora de ir, mas as pernas permanecem imóveis. Merda, isso só quer dizer uma coisa, já é mesmo hora de ir. O sol enfim resolve brilhar com força. A luz é tão forte que parecem ter quatro sóis o cercando. As arvores, os gorilas, as proteas, tudo se desintegra. Inclusive Madia.

 

O relatório da reunião é pra amanhã no primeiro horário. Eles precisam enviar os relatórios e planilhas para a sede administrativa em São Paulo. E mais que nunca, Rodrigo espera fazer um call, para pegar o briefing referente ao business intelligence que ele precisa fazer logo cedo, no primeiro horário.

 

Gabriel Protski