Em Algum Jardim 0 78

Imagem por Sebastião Salgado

Trabalhos chatos levam as pessoas a pensarem mais na vida. Vidas chatas fazem as pessoas pensarem mais fixamente na morte.

 

Rodrigo nunca gostou de reuniões. Em especial as que costumam demorar mais de trinta minutos. Em muito especial as que são feitas numa sala escura, onde um orador que não seria capaz de entreter um bingo para senhoras carentes, repete tudo o que já diz os longos textos do ppt que o acompanha. Não precisa de muito para se teletransportar, basta ouvir três termos empresariais proferidos em outro idioma para ir direto para as montanhas do Congo. Foi até lá quatro vezes, só nesse mês. Na primeira vez foi bem difícil achar a trilha que leva ao vilarejo mais próximo, teve a impressão que andou em círculos por umas duas horas. Agora sempre leva uma bússola consigo.

 

Ao leste, onde a mata é mais fechada é o lar de gorilas enormes, que em geral pesam mais de duzentos quilos. Já os tinha visto nos livros do Sebastião Salgado, mas não deixou de se surpreender ao vê-los de tão perto. Ainda tem medo de se aproximar muito, apesar deles já estarem habituados com a presença humana. Madia, uma jovem congolesa que mora na região, jura que o gorila mais alto é a encarnação do seu irmão mais novo. Que morreu ao pisar numa mina terrestre, fruto da interminavel guerra civil que assola o país.

 

Madia é linda, definitivamente é diferente de tudo que já se viu nesse mundo. Seu corpo brilha como se tivesse sido esculpido num enorme pedaço de ouro, antes de ser tingido por tons mais escuros. Seus olhos são intensos, dois lagos profundos. Nesse momento, Rodrigo está a caminho de um belo jardim de proteas. Foi lá onde viu Madia pela última vez. E é lá que pretende revê-la.

 

Até chegar na trilha certa, é preciso passar por um trecho extenso de floresta fechada. Mal dá pra se ver o sol em meio a arvores tão frondosas. Está no caminho certo, quem o avisa disso é aquela árvore enorme com um característico buraco triangular em seu tronco. Apesar da pressa, não consegue parar de contemplar a antiga arvore. Tudo nela é colossal, suas raízes são tão grandes, que acha que nada é capaz de tirá-la desse mundo. Já é hora de ir, mas as pernas permanecem imóveis. Merda, isso só quer dizer uma coisa, já é mesmo hora de ir. O sol enfim resolve brilhar com força. A luz é tão forte que parecem ter quatro sóis o cercando. As arvores, os gorilas, as proteas, tudo se desintegra. Inclusive Madia.

 

O relatório da reunião é pra amanhã no primeiro horário. Eles precisam enviar os relatórios e planilhas para a sede administrativa em São Paulo. E mais que nunca, Rodrigo espera fazer um call, para pegar o briefing referente ao business intelligence que ele precisa fazer logo cedo, no primeiro horário.

 

Gabriel Protski

 

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Vida comum parte 1 0 107

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.

Chegada 0 671

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai