Literatura apesar de tudo.

BigMoney parecia sempre estar com os olhos derretendo. Ele era um autêntico anjo negro. Um poser, como todos nós. Tinha uma beleza que eu não compreendia, apenas apreciava. Alto, costas largas e rosto determinado. Contudo, havia algo de estranho nos olhos dele: às vezes concentrados, às vezes sonolentos, às vezes tão brilhantes quanto a lava de um vulcão ardendo em corredeiras rumo ao mar. Ele adorava nadar em águas salgadas. Seus olhos, como eu disse, tocavam as superfícies e as incendiavam, era seu modo particular de compreender o mundo.

Sentamos em uma das mesas dos bares que ficam perto dos arcos da Lapa. Na mesa, enquanto a mulher de BigMoney conversava com a minha, nós dois permanecemos em silêncio por alguns instantes, observando a multidão na calçada, a noite ficando cada vez mais plena, os ônibus passando e nesse instante a cena que acompanhávamos lado a lado começou a se desintegrar. A visão ficou confusa. Quando olhei para minha mão esquerda, ela parecia um grande pedaço de manteiga dentro da uma frigideira quente.

A sensação de derretimento durou alguns segundos e logo fui atingido por um calafrio que correu espinha acima como um jato. Levantei e sentei novamente na cadeira e o movimento foi como um clique que trouxe os sentidos de volta. BigMoney também parecia estar bem. Ele ria e perguntava se eu tinha visto aquilo. “Aquilo o quê?”, eu disse. “O mundo cara, o mundo se dissolvendo”, e soltou uma gargalhada.

Ele estava no Brasil para conhecer os principais núcleos de “imigração” africana da era colonial. A viagem fazia parte de seu programa de estudos sociais na Universidade da Califórnia e depois de alguns dias no Rio, partiria para Salvador, onde viveria em uma comunidade estudando a cultura afro-brasileira por três meses. Faria o trajeto até lá de navio e estava bastante animado.  

Na mesa de bar da Lapa, expliquei pra ele uma das versões da etimologia do nome Brasil e ele ficou extremamente interessado com o lance da madeira vermelha que parecia um braseiro. Mesmo alguns dias depois voltou a comentar comigo como essa conclusão havia feito ele repensar alguns significados. “Estamos sentados nessa brasa sem fim, nessa brasa que nunca se apaga, acho que eu amo esse lugar”.

Foi a primeira vez que eu vi Xanax na vida. Eu nem sabia o que era. BigMoney me deu um comprimido dentro do ônibus, instantes antes de a gente chegar na Lapa naquela noite em que o cenário se dissolveu. Sentamos um ao lado do outro para ver a rota no GPS na tela do celular  dele, então me deu. Minutos depois, caminhamos feito lava pelas ruas de pedra da velha capital.

Seguimos para outro bareco onde havia mesas de sinuca. Jogamos algumas partidas enquanto as meninas comandavam a Jukebox e conversavam animadas sobre música. Mais tarde pegamos um ônibus e voltamos pro hostel. Poucos dias depois nos despedidos.

Seis meses se passaram e na época do Natal vi uma postagem da mulher de BigMoney dizendo que ele havia morrido. Uma mina dirigindo seu New Beetle tinha atropelado ele, que estava em cima de uma daquelas motos Spider, atravessando um cruzamento perto de Venice Beach. Não acreditei, fiquei em choque e chorei sim, chorei por alguns minutos e enquanto enxugava as lágrimas lembrei de como BigMoney era jovem. Ele era uns quatro anos mais novo que eu, inacreditável, inacreditável…

“Deixo você assistir minha dor se você prometer que vai me dopar depois”, já dizia o Lil Peep. Outro que morreu jovem, locão com seis Xanax, mais Fentanyl. Não sei muito bem. Sei que a dor uma hora acaba, talvez ele esteja feliz agora, com a boca aberta, olhando pro céu com os olhos fechados.

Morte em trânsito. BigMoney caiu da motocicleta, eu também caí uma ou duas vezes. Não posso dizer que foi por querer. O que você quer que eu diga? Quer que eu assuma? Fica tranquilo porque nem eu me conheço direito.

Lamentei pelos meus amigos dopeboycrybaby que se foram. Derretidos como lava ardente antes que isso tudo aqui se desintegre de vez. Um tombo mortal antes que o mundo acabe. Atropelado. Sem dor, sem grito de misericórdia.

BigMoney, morto aos 23. Lil Peep, morto aos 21. Eles me fazem concluir que eu já passei da hora, me fazem pensar que possivelmente eu já tenha vivido muito. Tô tentando não desperdiçar meu tempo. Todo mundo deseja só mais um minuto.

 

Conto de Jadson André

Imagem da Carol Rehbein

Redimunho? Uuhuulll!

A confusão – que costuma presenciar momentos singulares – toma conta da linha de raciocínio. Os olhos buscam enquadrar, a já inexistente materialização visual cristã do espírito santo: o vento. Girando a cabeça inquietamente, a adrenalina nubla o discernimento e confunde a compreensão fina do que é real e inventado. Um redemoinho passou muito rápido; as lentes da câmera não registraram o que os olhos captaram para sempre.

Seguinte, acabou de passar um tornadinho aqui.

Enfim as mãos oscilam um pouco menos, o foco volta a auxiliar o mecanismo ocular, é hora de assimilar o contato obtido – pouco frequente para habitantes de grandes centros – com as forças particulares da natureza. Todo mundo já viu um furacão na televisão e já sentiu o toque grosso do vento num dia de transtorno, guardadas dimensões, o redemoinho tropical é um fenômeno que mimetiza visualmente o furacão ao passo que tem força similar à da ventania. Numa já estabelecida era, em que boa parte do tempo é vivida através de telas, não ter filmado um evento raro, é algo, já naturalmente, passível de lamento.

Alá outro ali, olha lá. Tá formando outro, cara. E ele tá passando aqui na beirada, mãe!

Uma lufada de esperança traz a sensação de verdade e justiça. Enfim as lamúrias foram atendidas, as reclamações lançadas ao mundo surtiram efeito. A terra levanta timidamente do chão e já é possível delimitar o espaço visual do ar, agora é a hora da verdade, de sentir a benção ou as agruras do tal redemoinho. A câmera capta imagens corajosamente, como quem aperta a mão de alguém olhando nos olhos.

Olha lá, formou. E tá dando um arco-íris aqui agora! Olha a água! Olha alí! Mamãe! É Deus, Mamãe!

O redemoinho, que remexe o chão à margem do rio, parece nutrir-se da energia e empolgação humana ao seu redor, gira com maior intensidade e transfere seu espetáculo para o centro do córrego. O fenômeno, que já impressionava, torna-se épico: um magistral arco-íris se forma repentinamente na água. O entusiasmo é tão intenso quanto a paleta de cores que desponta a poucos metros das lentes. E quem mais especial para compartilhar esse instante que sua própria mãe? Mais que isso, sempre é possível duvidar de fenômenos óticos de terceiros, mesmo os registrados em vídeo podem sofrer acusações de edição tendenciosa; ninguém, no entanto, duvida da palavra de uma mamãe. Os gritos mesclam desespero e comoção, o que vem a seguir? Vozes celestiais, corpos com chagas, Deus veio nos salvar ou nos arrebatar?

Deu uma onda, cadê nossa prancha? Olha um cavalo branco ali! Olha um cavalo branco aparecendo ali do lado, olha lá!

Uma onda levanta-se sutilmente na superfície, com força suficiente para levar um barquinho de papel. O sistema todo foi afetado, tudo parece ser motivo para gritar, o exagero também insiste em ter seu nome registrado nessa história. Enquanto a câmera ainda foca na modesta onda, a locução já anuncia: um cavalo branco vai entrar em cena. Sim, aparentemente o equino simplesmente surgiu nessa já povoada trama, mas como? Quem trouxe esse animal para cá? Meu Deus, e como ele é branco e sereno, parece recém tirado de um panfleto feito por Testemunhas de Jeová. Se Drürer tivesse visitado esta cena, quinhentos anos antes, certamente teríamos uma bela gravura exposta no Louvre, ao lado da Mona Lisa.

Eu filmei tudo, mamãe! Eu filmei tudo, é Deus! Olha lá o cavalinho branco!

O enquadramento volta a ser objeto da confusão, vai de um lado a outro até se decidir pelo cavalo, que bebe água tranquilamente à margem do córrego. A mãe enfim chega na cena, discreta, emanando suavidade e plenitude; e como não poderia deixar de ser, tenta ensinar algo para o filho, enquanto também faz esforço para absorver toda a cadeia de eventos recém demonstrados.

Isso é Deus mostrando o poder dele, que ele existe. Ó Pai, eu entendo Senhor, eu entendo. O teu poder, Senhor. É o teu poder Senhor, tem misericórdia de nós, ó Pai! Somos pecadores, não merecemos o teu amor mas tu és poderoso!

A mãe começa seu discurso num tom acanhado, ainda ligando os pontos de toda essa materialização divina. Conforme as conexões vão sendo feitas a voz vai subindo e embargando. Ela luta para assumir o protagonismo da cena, é o seu ato, seu momento na peça. E o figurino não poderia ser mais adequado, despida de pudor e coberta de inocência, traja apenas um sutiã branco, imaculado.

Acabou de formar um tornado aqui, no meio da água.

O comentário do filho ignora toda a tentativa de pregação da mãe, é realmente difícil cativar a atenção dos jovens quando sugados pelos seus gadgets. Se bem que nesse caso, a distração é compreensível.

É o poder de Deus! É Deus mostrando o poder! É Deus falando: Eu estou aqui! Clamem! Me peçam e eu darei, eu tenho o poder, eu tenho o poder! Isso é ele falando eu tenho o poder, olha o que que eu faço!

Não me surpreenderia se uma bíblia surgisse nesse enredo, daquelas de bolso, tiradas de dentro do sutiã, seria a cena perfeita, mas Deus nem sempre faz as coisas do jeito que a gente deseja. Quase nunca.

E esse cavalo branco aparecendo?

O cavalo branco segue brilhantemente compondo o fundo da cena. Não existe apego ao foco, nunca vai existir. Mas e mães costumam desistir fácil? Também não podemos contar com isso.

E você viu o arco-íris? Ele mostrou o sinal da aliança! Você sabe o que é que é o arco-íris? – Deu uma onda! – Espera, presta atenção! Na bíblia tá escrito, toda vez que vocês virem um arco-íris essa é minha aliança com Noé! Nós somos a descendência de Noé! – E esse cavalo branco, ainda? – Essa é minha aliança com Noé! Olha aqui ó, aqui tá o símbolo da minha aliança! E olha aqui, cê filmou? – Filmei tudo! – Misericórdia, Senhor, eu te clamo em nome de Jesus! Eu creio no teu poder, eu creio na tua infinita bondade! Eu creio em ti Senhor, como Deus dos Deuses, como mestre dos mestres, como santo dos santos, como senhor dos exércitos celestiais; como senhor de Abraão, de Izak e de Jacó! Perdão Senhor, perdão! Perdão pela nossa desobediência, pela nossa ignorância! Perdão Senhor eu sei que nós somos imundice, trapos de imundice! Mas tu és bom! Tu manténs o Deus Poderoso! O capaz de transformar, o capaz de mudar, o capaz, Senhor, de operar nas nossas vidas! Tenha misericórdia, Senhor! Eu tô pelada, e você tá me filmando? Eu to queimando. Mas eu sou a favor, eu falei, Deus não fez o homem vestido não, Deus fez o homem foi nu!

A mãe enfim parece ter absorvido melhor as visões, começa a assimilar seu discurso com o fenômeno do arco-íris; ainda assim, sua voz apesar do tom de pregação, permanece um pouco carente. Ao que parece, a falta de atenção não denota desrespeito, é uma mistura de caos com DDA que controla voz por trás das lentes. A mãe insiste, protesta e pede atenção de forma mais incisiva; e é incrivelmente atendida, por cerca de quatro segundos. O enquadramento, que contemplava a mãe em primeiro plano – enquanto ela gesticulava de modo similar aos apresentadores de programas policiais –, muda para o cavalo. É aplicado um zoom capaz de auxiliar numa análise clínica da pelagem do animal, o bicho é realmente lindo, indubitavelmente nenhuma testemunha de Jeová seria capaz de pintar um cavalo tão perfeito. A mãe percebe o desvio, troca rapidamente o discurso por um breve diálogo e o enquadramento volta a contemplá-la. Chegou a hora de brilhar, a voz carregada de emoção começa a descrever sua paixão pelo divino. A oratória comove tanto, que o zoom chega até seus poros, mas logo vai embora (obrigado, Deus). O cavalo enfim deixa o quadro, o novo ângulo agora adiciona à cena algumas pessoas inquietas ao fundo em contraste com um carro estacionado. Mamãe sabe o peso de suas palavras, fala e já ensaia sua retirada, seu ato terá um desfecho em breve. O operador de imagem resolve nos mostrar de corpo todo o traje da interlocutora, felizmente um shortinho branco menos ousado faz par com o sutiã. Ela ensaia uma vergonha por sua falta de roupas, mas a gente sabe que tudo faz parte do roteiro, a voz vai se afastando conforme a câmera torna a focar o rio, o ato de mamãe então tem um fim.

O primeiro tornado eu perdi, mas o segundo tornadinho que passô…nós filmamos!

Não há mais discursos, redemoinho, ondas, arco-íris ou cavalo branco. Tudo foi, sobrou a insistência em permanecer filmando.

Dessa vez eu vou te falar, até eu arrepiei! – Deu pra filmar? – Eu arrepiei velho, arrepiei!

A câmera resolve se afastar da beira do riacho, vai de encontro com outro núcleo da trama, composto por espectadores menos emocionados com o acontecimento todo. Nada do que se passou foi o suficiente para tirá-los de seus afazeres: deitar na rede e beber cerveja. O nosso herói vira as lentes para si, os óculos escuros encobrem análises mais profundas, porém tais exames são dispensáveis, o próprio nos confidencia seus sentimentos.

Centraliza a Vanessa também, só virar o tripé um pouquinho. – Eu não sei pra que lado. – Pode virar, só virar. – Mais? – Tá bom. – Deus no redemoinho, Deus no redemoinho! – Cês tão vendo ocêis, né? – (Risos) – É bonito ver o povo bonito, não é? – Eu acho o maior barato. – (Voz inaudível) – Fala isso não, bate na boca. Todo mundo é bonito. – Todo mundo é bonito, só que tem uma beleza diferente. – Me desculpe as feias, mas beleza é fundamental. – Cê tá chato demais, deixa eu filmar esse meu primo aqui, gente, ele tá muito seletivo. Eu tô no politicamente correto. – Skol! Desce redondo.

A rede e a companhia de pessoas de sua idade parecem oferecer conforto, enquanto nosso provedor de imagens se acomoda é possível ver a silhueta de um cavalo no pingente em seu pescoço, é provável que ele use esse colar há anos, duvido que se lembre disso agora. Como todo bom diretor, ele preza por boas imagens, coordena o enquadramento do take que contempla sua companheira ao seu lado na rede. Ao fundo, em outra cena, ouve-se mamãe, mas logo sua voz some. Irradiam-se comentários sobre a beleza do casal, todos riem, todos dissertam sobre a beleza humana, ninguém parece se importar com o redemoinho, menos ainda com o cavalo branco. Um incômodo mal disfarçado toma conta, qualquer desculpa é válida para abandonar o posto e se reunir com quem também foi tocado pelo divino. No caminho ainda há tempo de promover mais uma interação tão bizarra quanto fugaz, com alguém que está muito contente em carregar uma cerveja cheia e que aparenta ter propensão a proferir slogans sem sentido. Fim do ato dos incrédulos.

Eu te peço ao senhor agora. – Tu és o Senhor. – Que porra é essa? Vai só o restinho. Tá fazendo gelo? Aí não tem jeito não. Vai, passa aí pra eu ver, melhorou bastante. – Cê filmou o negócio? – Filmei, tá tudo aqui.

O contraponto é parte essencial na obra: assim que o perímetro ocupado pelos descrentes é abandonado, hinos evangélicos celebrados aos berros tomam a narrativa de assalto. Duas pessoas ouvem música no banco da frente de um carro: mamãe (claro) e um menino bastante jovem, de olhos tristes. A câmera se desvia brevemente para a gênese de tudo, o rio; enquanto um diálogo, tão estranho quanto incompreensível, é abafado pela música. A criança aparentemente sofre por ter machucado o tornozelo, faz uma compressa modesta, com apenas uma pedra de gelo, no local magoado. A essa altura mamãe abandona o veículo, sem nem dizer para onde vai, provavelmente tem destino similar ao do cavalo branco. O menino não dá indícios de que gosta da cena; gelo, hino e machucado parecem só existir para punir. Preocupado em não ter presenciado os fenômenos de perto, ele quer saber se foi tudo filmado. Espero que ela não tenha visto o vídeo todo, apesar de duvidar disso. O gelo volta a queimar a pele, o registro final é de uma cara sofrida, de dor, mágoa e desgosto, como de quem acusa o golpe e está prestes a perder a luta. No entanto, fico tranquilo, refaço mentalmente os segundos seguintes que o filme não mostra, com a certeza de que nesse dia o único derrotado foi o bom senso do universo.

Escrito pelo Gabriel Protski

Na rua

Texto de em 13 de novembro de 2017. Nenhum comentário.

Ser morador de rua na época do Natal é um inferno. Eu lembro no meu primeiro ano na rua, sentado na calçada, no meio-fio, enquanto todo mundo andava com suas famílias gastando, comprando presentes, roupas, e isto e aquilo, sabendo que nenhum deles ia parar para me desejar um Feliz Natal, ou me comprar um presente.

Nessa época as pessoas ficam felizes em saber que você está só no fundo daquelas cenas bonitas cheias de luzes e vitrines brilhantes, sem fazer parte de verdade daquele cenário, mas vocês não têm ideia do quanto eu queria que minha família estivesse comigo, mesmo que sem nenhum embrulho da Renner cheio de laços vermelhos e sacolas com desenhos de festa. Eu só queria um abraço. Porra! Vocês não têm ideia do quanto essa coisa de viver na rua é difícil. Vocês não têm ideia…

Se você parar pra pensar, é engraçado porque quando eu fugi de casa, foi pra ficar livre da minha família. Eu era novo, um moleque ainda, e queria fazer as coisas do meu jeito. Saí sem olhar pra trás, e sem pensar na frente, pronto pra ser dono do meu nariz. No primeiro dia, dormi no banco da praça e acordei com a primeira luz do sol, brilhando como a minha liberdade. No segundo, deitei na frente de uma loja, mas no meio da noite os cana me acordaram e enxotaram com chute de botina. No terceiro eu senti saudade da minha cama e tentei voltar pra casa. Andei a noite inteira e, quando cheguei na porta, meu padrasto não me deixou entrar. Eu via minha mãe lá dentro chorando com a cabeça apoiada na mesa, sem fazer nada por mim enquanto aquele velho escroto gritava comigo. Entrou e bateu a porta. Da minha própria casa. Na minha cara. Vocês não sabem, mas foi difícil.

Se você me perguntar hoje onde é a minha casa, eu vou dizer que é em todo lugar. E em lugar nenhum. E onde eu quiser, ou onde vocês não quiserem mais. Igual a essas roupas que eu ganhei de alguém que não ia mais usar uma camiseta manchada. Pra mim, é melhor que morrer de frio, né? Porque à noite a rua é fria mesmo nessa época. Mas aposto que se essa mesma pessoa estivesse aqui na minha frente, ela não ia nem me olhar na cara! Nem um Feliz Natal. Vocês não têm ideia do quanto é difícil. Mas hoje eu não tô aqui pra pedir dinheiro não. Quero mesmo é um presente. Um emprego, pra eu poder sair da rua, ter uma cama, tomar um banho e café da manhã. É tudo que eu quero. Se alguém puder ajudar, eu to sempre aqui, tá? Desculpa atrapalhar a viagem de vocês, mas é que por enquanto esse trem também é minha casa hehe.

– Próxima estação: Luz. Desembarquem por ambas as portas.

Texto: André Petrini
Foto: Simon & His Camera

Vocês vendem Jesus

Texto de em 08 de novembro de 2017. 1 comentário.

“Todos os dias na escola são como fotos velhas. Amareladas e escurecidas pelo tempo, como são as paredes dos corredores. Todas as minhas expectativas e esperanças a essa altura do ano já foram postas em terra. Eu vou reprovar… de novo! Nas férias eu me iludi achando que dessa vez seria diferente. Eu não sei, sinceramente, o que torna as coisas diferentes. Pai me disse que ia parar de beber, lá no fundo eu sempre acho  que ele está prometendo mais do que deveria, mas o otimismo vence no final. É, eu fui educado a acreditar no “final feliz”. Quando descobri o mal que isso tinha. Achei maldade no começo depois achei perspicácia. Tanta ilusão nesse mundo não é mesmo, por que não ficar com a crença de que tudo dará certo no final?

 

Enfim, no fundo eu sei que eu sou trouxa, me iludo com tudo. Esse ano eu prometi pra mim que iria estudar. Já de começo deu tudo errado, eu fui pra turma E, e lá tem um povo gente boa mas com a vida pior que a minha e ter que ir todo dia e de alguma forma dividir a vida com eles, se torna algo insuportável em duzentos dias letivos. Não sei o que aquelas pessoas estavam fazendo lá. Eu não sabia o que eu estava fazendo lá… eu só queria estudar. Uns otários já vieram me provocar, briguei com três, a rotina era de provocações e perda de paciência, em um ritual de brigas, sala do diretor de disciplina, suspensões e as aulas continuavam a não ter sequência e a não fazer sentido.

 

E eu to chorando porque eles falam que eu tenho que ficar aqui conversando com a senhora… porque minhas notas dizem que eu não sou bom o suficiente. Porque eu vivo me iludindo e tendo que conviver e sobreviver com essas paradas. E sabe o que eu mais detesto? É que vir aqui, no fundo eu sei que falar tudo pra você não ajuda a resolver nada! Só ajuda na ilusão de que no final as coisas vão melhorar, mas eu não chego no final nunca! O final é um futuro inalcançável, e olhe que perspicácia, só temos o instante e o presente. Então Doutora, a senhora é psicóloga não é? Dá conselhos? Eu to precisando de milagres. Vocês vendem Jesus, mas nunca entregam!”


Carol Rehbein

dispersividade digital

Texto de em 31 de outubro de 2017. Nenhum comentário.

é um passeio entre livros (não li), entregas pelo correio, loções pós-barba, bebês fofinhos. uma jornada através de printscreens com players (músicas que nunca ouvi) e monitores com textos e mais textos (nunca lerei). são famílias (outras), países (desconheço) e gente usando uniformes de times (não o meu). notas de dinheiro, brindes, #ads. belos cabelos coloridos (me falta a coragem), nhoque orgânico, trânsito, caminhadas em pores-do-sol (aqui só chove). um gato se refestela num raio de dia, doces lindos (nunca vi e devem ser um pesadelo para diabéticos). arte bonita (não entendi mas gostei), artesanato (não gostei). um rapaz faz um solo de guitarra (jamais tocarei) enquanto um time de futebol (dessa vez o meu) termina os treinamentos para a próxima batalha (vai perder). uma escritora local (pouco li) é laureada. coisas estranhas e coisas mais estranhas (ainda não vi). voluntários (nunca fui) ajudam necessitados (também não fui). tatuagens ficam prontas (histórias que não vivi) e depois tatuadores dão voltas com seus animaizinhos (não tenho).

é um passeio entre cinzas de cigarros, entre cafés chiques, entre vinhos caros e pizzas (não provei). entre fotos de museus (não visitei) e telas de pinturas (não estão prontas). uma viagem por entre cervejas (gostaria mas não bebi), entre terminais de ônibus, pessoas sonolentas e plantas suculentas.

 

de quantas histórias precisamos para focar em nossas próprias?

 

 

por Rômulo Candal

Sua

Texto de em 26 de outubro de 2017. Nenhum comentário.

como fosse poema,
você me talha

me transforma
em versos
belos pra você

feito rima
sigo torta

nesse mundo
que tem tudo,
belez’alguma
é pra mim

ao redor,
só a dor
do que fui
até o fim.

 

texto: Rafael Antunes
ilustração: Nina Zambiassi

Ressaca

Texto de em 19 de outubro de 2017. Nenhum comentário.

Dilmara deu a última vassourada que cabia em suas forças e sentou numa cadeira de plástico, secou uma garrafinha de água em dois goles e já largou o lixo na pilha. Não era o caso de negar fogo no trabalho, só que precisava soltar as pernas antes de pegar a pá e seguir. O conflito com o chão foi longo, cheio de desentendimentos por coisas pequenas. Mas ela bem sabia que as costas não aguentavam mais algumas acrobacias do passado. Atleta, reclamava para si por amor ao esporte, sabendo que não adiantava, mas reclamava e reclamava e reclamava. Pegou um formulário de cima da mesa em frente e uma caneta promocional: “Danos às paredes: s”, “Resíduos f/ lixeiras: s”, “Chão riscado: s, “parte elétrica 100%: n (duas lâmp’s), “Louça na pia: s”, “Barulho depois das 22h: s (relato – Reginaldo/108)”. Sabia do tamanho da bomba que tinha em mãos, até soltou o papel e afastou o tronco de braços erguidos. Seria emissária de notícias desagradáveis contra sua vontade, depois quem pudesse que se salvasse. Mas alguém tinha que fazer o serviço.

O síndico, o Professor, professor de verdade (Educação Física), era um carequinha solitário, cheio de dedos com a manutenção dos espaços comuns – o que se devia a ser ao mesmo tempo um sujeito: decente; chato.

Uma ventania dominou o salão, as janelas tremeram e afinaram-se numa oitava muito alta. A zeladora pôs os pés no chão e sentou direito, sentindo coisa ruim. O Professor apareceu no rabo da lufada: “E aí? Te falei que a Administradora liberou uma comissão pra você se a gente multar esses porcos, né?”, “Não quero dinheiro sujo não, Professor, só tô na minha função de todo dia, com zona ou não. Mas que festa era essa? Trinta pessoas? Bagunça dessa não se faz”.

O homem vestiu sua satisfação como uma medalha, auto-condecorado pelo sucesso de uma missão que só ele entendia. Sentia-se um justiçador, o último dos cangaceiros, o cara que era o bichão, a própria Palas Atena renascida – o que nunca tinha conseguido por outros caminhos. Via-se disposto a fazer o máximo com o mínimo, a tirar limonada de qualquer limãozinho murcho que a vida despejasse na cestinha dele. Perdoar morador malandro de novo seria uma vergonha. Sacou o celular depois de um piiiiin que veio como flecha: “Sabia que a Claro eh a 1a a oferecer ligações ilimitadas p/ qq operadora e tem uma rede novinha c/ 4G mais rápido do Brasil? E ai ta dentro? Acesse …”. Não teve dúvida: fechou a cara, simulou falta e pediu pra sair, tratando a mensagem com uma importância que ela jamais teria. Acenou tchau de um jeitão muito estranho e deslizou para fora do salão com a mesma atitude súbita com que chegou. A mulher fechou as janelas e juntou com os pés umas latinhas que o vento desjuntou; pegou um sacolão azul e fez um sinal da cruz antes de continuar.

 

Marquinho

Desfile

Texto de em 16 de outubro de 2017. Nenhum comentário.

Não há ninguém perto de você.

 

Vanessa pousa o celular sobre a bancada, desce as calças até a altura dos joelhos, senta-se na privada, sem poder esconder o incômodo com o frio, e pensa um pouco no absurdo daquela frase. Antes de começar a fazer força, ela volta a manusear o aparelho, alterando suas preferências de idade.

O festival de homens medíocres recomeça. São muito gordos, muito magros, muito feios ou ainda uma bizarra combinação destas três características (muito gordo E muito magro ao mesmo tempo, a diversidade humana não conhece limites, pensa Vanessa). A foto sem camisa, para mostrar o diâmetro dos braços, é a única constante. Vanessa pensa nessa ironia. Com seus 55 quilos e do alto de seus 1,65 metros de altura, ela não teria coragem de publicar uma foto de biquíni nesse tipo de aplicativos.

 

*splash

It´s a match!

 

A tela diz que ele se chama Marcos e em uma das fotos aparece segurando um cartaz escrito Fora Temer, ela pensa que isso é o suficiente para elevá-lo acima dos descamisados de sempre.

Marcos diz oi, quer tc? só o que eu sei sobre você é que você gosta dos pores do sol. Ela gosta do que lê. Ele parece um homem sincero. Talvez até demais. Quase chega a ser cara de pau, e ainda parece ter algum senso de humor e autoironia.

Vanessa tem vontade de responder que até que ele já sabe o bastante. De qualquer forma, sabe mais do que alguns de meus ex-namorados. Mas, justo neste instante, a água do vaso respinga com mais força, molhando suas nádegas. Na verdade não me sinto atraente o suficiente para retribuir o flerte, ela pensa, depois eu te respondo, ela diz à tela.

Quando Vanessa termina, o assento já está quentinho e confortável, e ela decide passar mais umas fotos antes de se levantar. De repente.

 

Não há ninguém perto de você.

 

O ponto final da frase lhe confere um incômodo ar definitivo. Ela se sente tomada por uma mistura de solidão e indignação. Resolve o problema da solidão com um raciocínio bastante simples. Estou no banheiro de casa, se não tem ninguém aqui perto, tanto melhor para todos os envolvidos.

O mal estar pela indignação é bastante mais indigesto. Em um ato de extrema revolta, ela diz que vive em uma das maiores cidades de um mundo com sete bilhões de habitantes, não faz sentido algum aquela afirmação.

O celular permanece impassível. Da foto de perfil de Vanessa partem círculos concêntricos, como as ondas de um radar, em busca de pessoas que atendam as configurações de Vanessa. E como quem está apenas fazendo seu trabalho, ele repete.

 

Não há ninguém perto de você.

 

Os enunciados performativos desempenham uma das funções mais complexas da linguagem. Com eles é possível criar ou alterar realidades. É por meio da função performativa que a sentença judicial declarando a culpa do réu converte, num passe de mágica, um cidadão respeitável em um criminoso.

Com a gravidade de um magistrado que bate o martelo, o celular-juiz repete que não há ninguém perto de Vanessa. Aquele verbo haver incomoda tanto. Tudo é terminativo e definitivo demais. Não há apelação possível contra um verbo que ninguém sabe conjugar.

Percebe, por fim, que está teorizando demais para não lidar com suas responsabilidades. É que a força dos enunciados performativos se concentra nas qualidades que se atribui ao emissor. Sou eu quem se importa com o que diz o aplicativo. Sou eu que me sinto só quando ele diz que estou só. Eu desejo desinstalar o app, ela diz ao celular, você tem certeza disso, o dispositivo pergunta, eu estou certa disso. Seu desejo é uma ordem, o celular ouve e obedece.

 

*ussshhuóóórlll

 

Ela observa enquanto a água trabalha para levar o passado embora. Lá se vão Caio, o mochileiro que só falava de si, Geraldo, o advogado que reclamou de mulheres que usam maquiagem, Miguel, que buscava uma companheira para um trio com a namorada, e Marcos, o manifestante de 32 anos.

Por um instante, Vanessa se lamenta. Marcos parecia um encontro interessante. Mas sem arrependimentos, ela pensa hoje quero estar sozinha, tanto melhor que não haja ninguém perto de mim.

 

 

texto: Marcelo Silveira
ilustração: Nina Zambiassi

Voz

Texto de em 09 de outubro de 2017. Nenhum comentário.

Hoje, cheguei em casa e tive que permanecer no escuro por uma hora ouvindo música alta, na intenção de fazer minha mente mudar de velocidade, de assunto e de fugir dos pensamentos rotineiros. Foram dez aulas, volto pra casa e continuo ouvindo as vozes… ”Professora isso… Professora aquilo”. É um ritmo frenético, vivo. Participar da rotina de tantos alunos com faixas etárias tão diferentes anda me consumindo.

No começo foi legal, a curiosidade é combustível pra minha mente. Eu já sabia que escolher seguir o caminho da licenciatura me obrigaria a driblar o salário ruim, a falta de amparo do estado, as salas lotadas de alunos que precisam de um tratamento diferenciado e inclusivo, pais que dão mais trabalho que os filhos, a ignorância massificada, os celulares fora de hora e, é claro: a constante falta de interesse e de vontade em obter conhecimento por parte dos alunos. Em 50 minutos você precisa dar conta da burocracia escolar, do conteúdo acadêmico, inspirando, mediando essas informações de maneira que a aprendizagem aconteça em uma sala de 30 ou 50 alunos, que não prestam atenção ao mesmo tempo. O que se ganha em troca? Uma cirurgia nas cordas vocais para ser marcada em um sábado de manhã. Minha voz está desaparecendo. Parece assustador e realmente é. Pra que sofrer tanto nesse teatro educativo do sistema? O trabalho levado com seriedade desaparece, já não o vejo mais.

 

Hoje, limpando as mesas da sala de Artes, me vi como uma garçonete. A cada toque do sinal, trocam as turmas, os alunos se acomodam nas mesas para oito pessoas e ali ficam levantando a mão e fazendo pedidos, sejam explicações ou materiais para a realização das atividades. O sinal bate novamente, antes de a outra turma chegar, já limpei todas as mesas. Pela primeira vez nesses três anos, me perguntei, “o que estou fazendo aqui?”

 

E as vozes não param e já não penso mais com a minha voz, penso com a voz dos alunos que ficam me chamando e, às vezes, escuto tão alto na mente que acho que estou ficando louca e, quem sabe, esse seja um pré-requisito pra se aventurar pelos caminhos da realidade da educação brasileira.

 

Ali no escuro, quando cheguei em casa, esses pensamentos foram se dissipando e cada vez mais minha mente era preenchida pela música. Precisei respirar fundo incontáveis vezes, mas sem sucesso, não me senti viva. Permaneci ali e perdi a noção de tempo e espaço. De repente me percebi dançando no escuro, imaginava aquele menino barbudo, aquele que sempre toma muito cuidado com as palavras, meu tipo preferido de gente, sempre invejei quem sabe o que fala. Barbinha bonita, quis sentir mais de perto. De olhos fechados visualizo tudo. Percebo-me ali, egoísta de novo. Envergonho-me. Fervo. Continuo respirando. Eu tento não ouvir as vozes, eu quero silêncio, as vozes estão cada vez mais fracas, ainda não consigo ouvir minha voz, penso na cirurgia. Se os três primeiros anos foram assim, imaginem os próximos 22! Não. Volta a imagem do menino barbudo, me olhando aquela vez no elevador. Na liberdade da minha imaginação, dessa vez, ele usa gravata-borboleta e, quando nos despedimos, no abraço… isso! Congelei ali.


Às vezes acontece assim, os ícones de liberdade que criamos com toda essa massa disforme que chamamos de novela humana. Em 1830, a liberdade é ilustrada pela mulher despida guiando o povo. Em outras épocas é o menino de barba no elevador. Maldito escapismo de merda, malditas crises, viva a revolução. Viva o silêncio, as vozes quase nem ouço, hora de planejar as aulas de amanhã. Ascendo luz e penso nas férias. Não, ainda falta tempo, esses duzentos dias letivos são intermináveis, lá pelo dia cem, você já não suporta ouvir as mesmas vozes falando cada vez mais alto, enquanto sua própria voz já se foi, já nem é mais ouvida. Se eu mesma não consigo ouvir, imagine os outros? Me imagino como um palhaço em frente à classe. Não estou sentindo vocação para esse teatro ridículo. No começo achava que era mais. Anoto na agenda a rotina de amanhã, o pensamento que me conforta é que vai acabar rápido. Ultimamente esse pensamento tem se mostrado cada vez mais fraco. Meu corpo e minha mente querem silêncio.

 

Texto: Livro dos Novos III, 2016. Ilustração: Nó nas cordas vocais, 2017. Caroline Rehbein

Maicosuel, 24: algumas madeiras grossas e um pedaço de lona lhe trouxeram conforto que ainda não conhecia no último inverno. Contrariando os que pensam que a inteligência lhe fugiu desde que fumou crack pela primeira vez, escreveu a giz com letras bem desenhadas (frequentemente elogiadas na escola) num papelão: Minha casa, minha vida.

 

Julia, 32: construiu para sua filha de oito anos uma miniatura de carrinho de catar papel muito parecido com o que ela mesmo trabalha diariamente. Ontem, a coleta de alumínio rendeu bem, conseguiu comprar uma latinha de tinta rosa para pintar a carrocinha da sua pequena, não vai mais precisar levar a menina sentada no carrinho maior.

 

Wesley, 15: ficou algemado no balcão da delegacia do menor infrator por cinco horas, esperando sua mãe chegar para assinar alguns termos, foi pego numa operação da guarda municipal que deteve quem entrou no ônibus sem pagar. Fazia muito sol para voltar a pé e o dinheiro da condução nessa semana foi todo em arroz, macarrão e feijão.

 

Vilma, 43: voltou a estudar no começo do ano, o conteúdo da aula de matemática desse mês vai ser equivalente ao da quinta série. Não vê a hora de conquistar seu diploma do ensino médio e enfim se candidatar para a vaga de faxineira no hipermercado.

 

Sandro, 45: o ofício de cuidador de carros lhe rendeu quase cem reais nessa semana, sessenta vai para o dono da pensão, bem administrado vai dar para comprar comida e guardar um pouco num saquinho que fica debaixo do colchão. Sonha em economizar o suficiente para ir ao dentista e reaver ao menos os dois dentes da frente da sua boca despovoada.

 

Estéfany, 11: semana passada foi estuprada pelo filho do senhor que a contratou para limpar a sua casa, que fica na mesma vila onde ela mora com a mãe e os quatro irmãos. Não se sentiu mais aliviada quando seus irmãos desfiguraram o homem que a violentou e chorou tanto quanto na semana anterior: teme o que virá pelos próximos dias.

 

Ribamar, 27: os bicos em obras rarearam na proporção de seus músculos, acende o fogo que aquece sua panela com restos de madeira esquecidos nas caçambas. Vasculha o lixo dos sobrados que ajudou a construir, se sente com sorte quando acha mais que ossos e legumes podres.

 

Natalia, 20: sai de casa com o filho no colo toda terça-feira às três da manhã, munida de esperança e toda sorte de sacolas nos bolsos. Caminha por mais de duas horas para chegar na feira; ganha um pastel e um pouco de café, consegue algumas moedas no decorrer da manhã e deixa o filho sentado no meio-fio enquanto recolhe alguns alimentos que se espalham pelo chão.

 

Alberto, 62: desde que recobrou a consciência no leito do hospital ouviu ao menos sete vezes que é um milagre estar vivo após tantas facadas, logo vai ter alta, apesar das feridas ainda sangrarem. Se sente fraco, cansado, mais por conta de uma vida sob constante injúria e preconceito que pelo último incidente.

Neusa, 52: vende pirulitos no sinal já faz uns anos, com nariz de palhaço e maquiagem vermelha e branca. Sentou no meio-fio e riu sozinha dia desses, quando alguém comprou todo o pacote de doces e seu nariz vermelho, porque precisa do aparato para ir a um protesto.

 

 

Escrito pelo Gabriel Protski

Arte por Florentijn Hofman