Literatura apesar de tudo.

Fila

Texto de em 18 de julho de 2017. Nenhum comentário.

Quando os velhos entraram rearranjando cadeiras para não desagrupar no almoço, Jonathan escolheu o caminho da confusão. Ele passou a expirar forte enquanto o grupo se arrastava, de cabeça quente e coração pesado, mas aguentou no seu canto, de costas na parede, tomando refri. Tinha recebido outros golpes mais cedo: a gargalhada do professor de matemática ao deixá-lo de recuperação, o desmascaramento na frente da turma e, ai meu Deus, de Lúcia, com quem sonhava namorar, casar e ter filhos – se tudo saísse como queria. O mestre disse que a nota chegou a quatro e meio porque tolerou um trabalhinho mais ou menos para ajudar, senão era menos. A exposição incomodou o menino, como também incomodavam aquelas feras antigas que lembravam a todos de suas presenças a cada pedido de porção, mais selvagens que equações de segundo grau, cálculo de volumes, Bháskara ou logaritmos.

O garoto queria evitar vermes insolentes, moscas que passassem ilesas do descuido de pousar em sua roupa, torcendo para nenhum rato cruzar seu horizonte. Começou a retorcer o rosto.

Mãe, cê tem um antiácido?

Não, meu filho. Por quê?, tá mal?

A comida não desceu bem, essa lasanha sem vergonha, esse bifinho xoxo, esse arroz raspado de fundo de panela. Tem nada, nada aí?

Quer água?

Os técnicos do ar-condicionado desligaram o sistema para fazer testes e sentaram para comer, afinal, a refeição era parte do pagamento. O quilo a mais de quarenta e cinco reais completava o cenário macabro.

Os velhos começaram a levantar para ir embora sem levar prisioneiros, satisfeitos como abutres, uns amparando os outros, bêbados de batida de maracujá. A mãe e o filho aceitaram a derrota e entraram na fila de pagamento em sétimo, sabendo que alguns minutos resolveriam o inconveniente – se tudo saísse como queriam. Jonathan começou a fechar e abrir as mãos dentro dos bolsos, doido para socar até se machucar, com o aquecimento acobertado pelo tecido grosso. Observava seus rivais de butuca, prevendo alguma sacanagem desde que o garçom tentou acertar a conta deles direto na mesa – um benefício exclusivo para amigos da casa. Para os dois o tratamento foi outro: o funcionário sacou a calculadora do bolso sem emoção, riscou mais alguma coisinha no papel, soltou a bomba e saiu, tirando os óculos para limpar na camisa. Já para a corte o súdito pediu desculpas, era uma infelicidade que não pudesse cuidar deles nas melhores condições.

É que a maquininha ficou fora da tomada a manhã inteira, é que aqui das onze e meia às três é essa loucura, a fila é porque o novato do caixa ainda não tá no jeito para o serviço.

Mãe, e esses 10%? Não dou nenhum centavo, é opcional.

O desconforto amassava os órgãos do garoto, o que piorou quando o líder dos velhos, um de jaqueta Nederland, avançou pela esquerda fazendo vento, mais nervoso que ladrão em carro furtado. Todo mundo atrás da linha amarela, mas o Nederland não gostava de seguir, preferia ser seguido; fazia chover e fazia secar depois; mandava morrer e mandava viver de novo; orientava o sol e a lua de sua bolha de superioridade, amparado em uma autoimagem generosa; enfim, não era acostumado a ser impedido de fazer o que quisesse.

A mãe sacudiu os ombros do filho, ansiosa com sua ansiedade, e lhe estapeou a gola da jaqueta repetidamente, indicando os velhos com a cabeça. O Nederland largou a chave do carro em cima do balcão e já sacou celular e carteira. O novato do caixa considerou as possíveis mediações para o conflito que se desdobrou. A pouca experiência sugeriu resposta ao seu instinto incipiente: de polegar amassado contra indicador, piscou para a cliente da vez, pedindo uma anuência tão opcional quanto a colaboração para o caixinha dos empregados, e voltou-se inteiro ao, vai que era, amigo dos patrões.

Jonathan gostou de ver que o Usain Bolt que coube no orçamento era do seu tamanho e, assim, passou a odiar tudo que via nele: a cútis bem tratada, o olhar de sono, a jaqueta, o bigode, o topete, a chave do carro, as companhias, a tela grande do celular, os óculos pendurados no buraco do cinto da calça.

Ô campeão.

O cara entregou o cartão ao novato, naturalizando seu desrespeito, preparado para continuar invicto na vida. O pessoal se comoveu, começou a trocar olhares. Então uma janela de afeto se abriu na casa de terrores: Lúcia surgiu na fila, melhor posicionada que seu pretendente, escondida entre os ombros dos pais e irmãos, linda como desde o começo do ano letivo passado, tímida como sempre. Jonathan aproveitou a brisa de amor para se inflar ainda mais: se não impressionaria a menina com boas notas, com extraordinárias habilidades atléticas e nem com, ué, algum charme pessoal, que fosse na base da porrada. Era hora de começar a criar a história que contariam aos netos e a todo jovem que se dispusesse a ouvi-los quando os velhos do mundo fossem eles, quando preparassem a comemoração de suas bodas de ouro, quando escolhessem o plano funerário mais adequado para ambos. Ela arregalou os olhos, surpresa com o colega por nunca tê-lo visto tão irritado. E se bem lembrava, nem sabia direito como era sua voz.

Eu tô falando com você, jaquetinha.

A mãe segurou os braços do filho, mas ele se soltou num passo de recuo, ajustou a base de luta, levantou as mangas e ajeitou o penteado.

Respeita sua mãe, Jonathan, volta aqui.

O Nederland virou o rosto e emprestou metade da sua atenção ao agito.

Ouve a sua mãe e baixa a bola, moleque.

Os velhinhos chegaram mais para conter a animosidade, embarreiraram o menino e pediram para seu ponta-de-lança voltar ao lugar que lhe pertencia, sem atrapalhar, sem arranjar briga com uma criança em um restaurante.

É, faixa-preta: volta pro seu lugar pra eu não limpar o chão com sua cara feia.

Cê quer confusão, piazinho?

E se eu quiser? – empurrando o velho que estava mais perto, fazendo-o tropeçar na barra da própria calça e cair de quatro.

Dois outros velhos empurraram Jonathan, em vingança. Outros clientes separaram essa briga secundária e reagruparam ao redor do menino, meio interessados no desenrolar da baderna principal, meio fazendo coro ao pedido de que a ordem de pagamento fosse respeitada, porque todo mundo estava com a mesma pressa. Mas agora O Nederland não queria saber de fila e nem de pagamento, queria resolver um problema pessoal.

Então vamo lá fora dançar, piazinho.

Vamo sim, vou massagear seu cérebro com o seu nariz, bonitão. Cê só foge desse atraso se tiver um berro aí contigo.

Os velhos imploraram para Nederland sair, que entrasse no carro e voltasse ao escritório numa boa, eles dividiriam a conta. Ele acatou e andou para fora apontando os olhos do menino com indicador e dedo médio, o braço reto, o queixo recolhido ao peito. Jonathan, contido pela mãe e mais quatro, a cada ciclo recuperava mais tranquilidade na respiração, cada vez menos interessado em briga, voltando as atenções para a musa, tão perto e tão longe de seus carinhos.

 

—-

Marco Antonio Santos

Crianças, afastem-se, eu cuido disso

Melhor começar esse show logo!

Que crianças encantadoras!

É melhor você começar isso logo, vamos lá, trompetes e saxofone!

Eu não acredito em instrumentos, a alegria deles é equivalente a uma punição

Calma, calma, a cabeça deles que é um buraco de fezes asqueroso

Não existe pessoa no mundo com a capacidade de cultivar genuinamente feliz esse hábito edificante

Os nazistas nunca conseguirão entrar aqui

Sério? Eu achei que nós éramos os nazistas

Por que os seus amigos são tão sujos?

Sai fora! Por que os seus são tão bêbados?

Com vocês, os poderes do crescimento da hipófise

O que você está lendo, algo sobre cães?

Não, algo sobre meninos perdidos no deserto de Sonora

Só ouvi quando tocaram a marcha fúnebre

Aquela noite foi uma loucura

Será que posso rezar por aqui?

Veja, são os soldados de Deus!

Alguém aqui já leu Levíticos?

Alguém aqui já assistiu “Uma linda mulher”?

Foi assim, perfeitamente

Um tribunal juvenil, uma corte regida por crianças, é uma infantocracia?

Trompetes soando e os saxofones introduzindo um solo novo

Jamais será possível reconhecê-los a partir destas imagens

Um retrato do protestantismo e do revisionismo contemporâneos

Não, nada disso, são textos soltos sobre gente que nunca brigou

Eu apoio os direitos individuais

Apoia porra nenhuma!

Precisa-se de uma babá ou de um general de verdade?

Os dois, e que de preferência saiba jogar Xadrez!

Vamos lá tomar a sopa da sopeira

Lei do ataque sem trégua

Mergulho até as profundezas

De olhos bem abertos

Então você verá

Vai ser perfeito

Pique esconde

White peaks after shift

Three times per week

Me and my Goodfellas

Parece uma boa tentativa

Eu tinha planos, eu ia ser um cara daqueles vidrados

Você sabe como são os homens

Nós temos de ficar lendo isso tudo que está impresso, são muitas horas

Ele vai levantar, espera só um minutinho

É uma honra senhor

Ovelha perdida, é isso aí

Acho que não tem lugar pra mim aqui

Tô meio tremendo

Descobriu quem será o homenageado desta semana?

Você ficará chocado!

A única coisa maior que você é você amanhã

Foi o que disse Bartolomeu pra Homero

Day by day

Ninguém pode tocar neles: são os intocáveis, hihihi

Óh jovens sem rumo, sem censura, sem cabelo suficiente para colorir

Me solte, me solte e saia daqui

Mãe, esse é o seu vestido de casamento?!

Eu odeio ficar neurótico

Leva de volta as que sobraram

Então eu não posso sair todo fim de semana?

Eu já tenho 18 anos!!!! HUUUGRAA!

Chimpanzé xacoco

Eu vou dizer o que ninguém quer ouvir

Chega dessa palhaçada de dia dia

Esse pacote não me convence mais

Você abriu um precedente de testemunho contra todas a pessoas do mundo

Defesa, ataque, são todos amigáveis

É apenas um ritual

Você quer brinca ou não?

Eu gritei: alguém ai está disposto! Porque isso dói, isso dói tanto!

Vai, julgue senhora controladora, só você foi intimidada nesse contexto todo? Acha mesmo

Meu irmão vai ser condenado injustamente

Agora some logo daqui

É hora de ir embora, você não pode realmente ajudar

Bondade é pura covardia

Ei, mas que droga é essa?!

Estão me chamando

Crianças, como eu amo todas elas

Às vezes nem tanto

Eu não conheço bem os apóstolos originais

Apenas aprendi o necessário

Pra dizer a verdade, eu sempre prestei bastante atenção nas aulas

Justiça seja feita

Sem trilha sonora de Star Wars

De que lado você está?

Do lado do meio!

Difícil de acreditar

Eis aqui a verdade sobre um doador de órgãos

Caso encerrado

Espero que você siga a tendência de ser bom daqui pra frente

Em último caso, se torne um herói

Mas não daqueles que acaba com as mãos na cabeça

Que bom, amei essas suas flores na barba

Se eu te disser uma coisa, você diz que acredita?

Ahahahahahaha

Não acostuma, não posso ficar sempre falando que é aniversário da minha avó

Mano, se liga, tem um percevejo vivo ainda!!!

Sério, parei agora, chega desse negócio de meme verbalizado

South America MOTHER FUCKER

Eu tô engolindo muito sapo, óh

O tempo tá acabando

There’s moonlight on the river

Todo mundo morre no final

Deitar-me faz em verdes pastos

Eu rezo todo dia

Talvez essa vez seja a minha

The end

Bj

 

Texto: Jadson André

Ilustração: Caroline Rehbein 

Quando Nos Anoitece

Texto de em 10 de julho de 2017. Nenhum comentário.

Nos subterrâneos de nossas lembranças guardamos recordações que não conseguimos mais enxergar.

 

Tateamos o obscuro na esperança de reconhecer as peças que nos formaram. A luz entra apenas por pequenas frestas, reavivando objetos que nos conectam com o passado, que vivemos e que inventamos.

 

Pintamos quadros com formas conhecidas apenas por nós, mesmo quando retratamos algo natural à todos.

 

Enfim, chega a penumbra e as frestas vão se fechando. Já nem lembramos mais o que os quadros vazios – que enchem a parede – emolduravam.

 

Comparado ao todo, tudo não passou de um instante.

 

Escrito pelo Gabriel Protski

Fotografado pela Marcella Borba

Não demorou para que Mariel se tornasse Marigol para os torcedores do Tricolor da capital. Quando ele apareceu, contratado como destaque de algum clube pequeno do campeonato estadual gaúcho, o time vinha jogando bem e criava muitas oportunidades no Brasileirão, mas a bola não entrava de jeito nenhum. Marigol tratou de suprir a necessidade: fez logo três gols nos dois jogos em que entrou no segundo tempo, dando a entender que a sina acabara e que o torcedor tinha um novo artilheiro para chamar de seu.

Nunca foi craque – na verdade, tinha alguma dificuldade nos fundamentos mais básicos do futebol, como domínio de bolas e passes curtos – mas conquistou a Demônios das Três Cores, torcida organizada da agremiação, dando tudo de si em todas as partidas e estando sempre no lugar certo, como se Deus sussurrasse em seu ouvido aonde deveria ficar para empurrar a bola pra dentro das traves, com a parte do corpo que fosse.

Logo ganhou a camisa 9 e a boa fase se consolidou. O time voava e mais três gols decisivos de Marigol em quatro partidas transformaram o Tricolor, que havia recém subido à primeira divisão, em candidato cada vez mais forte a ganhar uma vaga para a Taça Libertadores do próximo ano. Cada partida era como uma nova página na bonita história de amor construída entre atleta e clube. Nos poucos combates em que a bola não entrava, disposição não faltava, e qualquer tentativa de salvar uma saída de bola pela linha lateral era comemorada pela galera.

Tudo vinha bem até o meio do ano. O campeonato nacional foi paralisado por um mês para a realização da Copa das Confederações, que trouxe, com ela, a abertura da janela de transferências e o inevitável desmanche do elenco. Marquinhos, o “Canhota de Ouro” dono da 10, foi negociado com o futebol chinês, e o lateral-direito Tiago Matos – “Diabo Matos”, para os adeptos – foi seduzido por um investidor e partiu para a série B da França.

Com o time desfigurado, a esperança da Demônios das Três Cores tinha nome e apelido: Mariel, o popular Marigol. Mas depois de três jogos após a pausa, as coisas já mudaram bastante de figura. O centroavante ainda metia seus golzinhos, mas recebia menos assistências e a regularidade foi diminuindo. Marcava um tento aqui e outro ali, mas a queda na confiança o levou a perder gols fáceis com uma frequência cada vez maior. O tricolor passou a cair vertiginosamente na tabela, e não tardou para que o sentimento da geral atravessasse a famigerada tênue linha e se transformasse em ódio – os mais maldosos passaram a chamá-lo de MariSemGol.

Numa jornada especialmente triste, na penúltima rodada do campeonato, Marigol conseguiu a façanha de arruinar três excelentes jogadas de ataque no mesmo domingo. A primeira foi um cruzamento açucarado: se ficasse parado, a bola bateria na testa e entraria, mas Marigol tentou um movimento ousado e foi como trocasse a cabeça por um travesseiro fofíssimo, que apenas amorteceu a bola para o goleiro. Na segunda, o 9 recebeu dentro da área, livre de marcação, mas apelou para a ignorância e isolou a bola no terceiro anel do estádio. Já a terceira e mais emblemática foi num contra-ataque em que Mariel ganhou do zagueiro adversário, em um misto de força e velocidade, e saiu cara-a-cara com o goleiro. Ao invés de finalizar fácil, rasteiro e na saída do atleta de luvas, porém, tentou calar os críticos e encobrir o arqueiro com uma cavadinha. Dada a falta do talento, porém, pegou de forma estranhíssima na pelota, que saiu mais fraca do que o planejado e completamente sem direção. A bola fez uma curva bizarra, triscou a trave direita e morreu ainda antes das placas de publicidade na linha de fundo.

O estádio veio abaixo. Nunca se ouviu, naquela região, uma vaia tão sonora – moradores de mais de um bairro de distância relataram uma vibração considerável no chão. No próximo lance, sob o burburinho pesado das arquibancadas, Mariel tropeçou com a bola dominada e ouviu gargalhadas intensas da própria torcida. Ainda no chão, tomado pela ira, desferiu uma bicuda no tornozelo do adversário que lhe tomou a redonda e foi punido com o cartão vermelho. A massa vociferava e Marigol perdeu a cabeça – se levantou do relvado, foi em direção ao setor onde ficava a torcida organizada e baixou o calção, mostrando a todos que infelizmente não utilizava cuecas durante a prática desportiva.

A maioria dos colegas estava ao lado de Marigol, mas o consenso era de que não havia mais clima para o atleta no clube. Logo após o apito final, ainda no vestiário, Dr. Reginaldo, presidente do tricolor à época, foi ter com Mariel. Era aquilo: não tinha mais jeito, rapaz. Aquela fora a gota d’água, e ele precisaria vir rapidamente a público avisar que o jogador não fazia mais parte dos planos da diretoria, ou passaria por frouxo perante a opinião pública. O ex-artilheiro já imaginava e, no fim das contas, sentia mais raiva dos torcedores e injustiça do que arrependimento pelas atitudes. Tinha apenas um último pedido: fazer apenas mais um último treino no gramado daquele palco de algumas glórias e tantas tristezas.

Dr. Reginaldo acatou sem pestanejar, pois guardava ainda bastante simpatia pelo garoto. Na terça-feira seguinte, portanto, Marigol se apresentou como de costume, vestiu o fardamento de treino e foi em direção ao campo. O clima era péssimo e os companheiros o receberam com um silêncio tão desconfortável quanto honesto. Ele quebrou o gelo com alguma piada sobre o fato de que agora estariam livres do futebol dele, todos riram tristemente e se puseram a trabalhar. Errou passes, errou finalizações mas contagiou a todos os colegas com uma alegria que já denotava nostalgia.

Após o treinamento, Mariel se despediu do pessoal e pediu alguns momentos sozinho ao lado das traves onde perdera seus três últimos e fatídicos gols com a camisa tricolor. Passou meia hora – cravada – falando sozinho, sentando, levantando, apontando para os quatro cantos da meta e para o local da arquibancada reservado à Demônios. Conta a lenda que, no momento da despedida derradeira, agradeceu Dr. Reginaldo pela oportunidade e sugeriu, em tom entre piada e profecia, que o clube deveria aposentar para sempre a camisa 9 que vestira naquele campeonato inesquecível.

*

Fala-se muito sobre objetos enterrados e más energias. Os mais céticos atribuem o azar à pressão que a posição carrega nas costas após essa passagem meteórica. Ninguém sabe ao certo que tipo de artimanha Marigol fez por lá, mas já são três anos e uns poucos meses que nenhum atleta trajado com a 9 tricolor consegue converter um mísero golzinho naquele lado do campo. Nem de pênalti.

 

 
 

texto de Rômulo Candal

ilustração de Nina Zambiassi

Palavras ausentes

Texto de em 22 de junho de 2017. Nenhum comentário.

Para Mariana.

Dia desses peguei a caneta para poemar você num papel colorido. Seriam daquelas palavras que se lançam no desejo de sentir algo maior do que conseguimos compreender. Em vão.

Me faltaram substantivos para nominar as curvas dos seus cabelos a desenharem o vento. Desapareceram os adjetivos que ilustrariam o sorriso nos seus olhos, que piscam lentamente e desviam quando nossos amores se encontram.

Como a fotografasse, revisitei o seu corpo, palmo a palmo, como a acariciasse com a memória. E sua pele reage. Arrepia a cada toque. Na barriga, ao lado, a um beijo da costela, a sua respiração quase ofegante, como administrasse o descontrole iminente. E você dorme, logo ali, na penumbra do canto da cama, imersa em sonhos silenciosos.

Sou convencido de que palavras podem me levar para perto de você, mas que nossa totalidade só será compreendida com algum silêncio. Sei que a poesia escrita jamais chegará à de um beijo.

Sob a luminária pendente em nossa cabeceira, protagonizo o silêncio repleto das palavras que me somem quando diante do que somos. Sou agora uma amnésia léxica no centro do palco sob olhares de uma plateia inexistente.

Os aplausos foram emudecidos quando cortina alguma se fechou. Agora era eu, você e a escuridão da cama que se preenche de luz a cada vez que puxamos nossos corpos, um ao encontro do outro, e adormecemos no calor que ilumina uma eternidade.

Escrevi palavra alguma. Larguei a caneta e o papel colorido-em-branco sob a luz apagada e mergulhei no mar em mim que existe quando em você.

 

texto: Rafael Antunes
ilustração: Marco Antonio dos Santos

um vício

Texto de em 19 de junho de 2017. Nenhum comentário.

 

Estou vendendo a TV, ele disse. A vida adulta tem dessas, a gente precisa fazer alguns sacrifícios. Nem assisto muito, ele dizia, mas eu assisto, ela respondia. Discutiram, mas a TV era dele, precisava de grana e ela nem mesmo morava no apartamento, apesar de deitar várias horas da semana por ali. Quando a gente morar junto você pode decidir, ele dizia, até lá eu decido. O climão ficou por umas semanas, mas se acertaram, menos Netflix mais sexo. Daí um dia ele disse vou vender o sofá. O que?, ela não acreditava. Pois é, tô precisando de uma grana, tá foda, nem tem mais televisão, pra que ter sofá? Ela não quis nem discutir, a casa era dele, ele fazia o que quisesse. Mas tá precisando de grana pra quê? Ah pra pagar o cartão de crédito. Entendi. Noutro dia ele aparecia com umas sacolas de compras e ela já sabia: discos. Olha que massa amor, achei esses aqui na feirinha, barateza. Ela gostava, os discos eram uma das partes dele pela qual ela havia se apaixonado. Quanto foi? Ah, alguns noventa outros cento e vinte, mas olha, coisa linda. Que massa. Dali umas semanas ela chega no apê e não vê mesa nem cadeiras. O que aconteceu? Ah, vendi, amor. A gente se apega às coisas sabe, não tem porquê. Mas vai comprar outra? Vou assim que eu tiver grana. Ela quieta, após a notícia fumavam um e ficava tudo bem. Dias depois o rapaz chega com um Who´s Next, bem cuidadinho, uma relíquia. Que massa, amor, pra ir aquecendo pro show que a gente vai né. É… mas sabe, amor, na verdade eu vendi o ingresso. O quê? Como assim? Ah, tava precisando de grana, sabe, e o show tava meio caro. Mas pera aí, você tá me dizendo que vendeu o ingresso do show do Who e usou o dinheiro pra comprar um vinil do Who? Ai, cala a boca, meu, não tem nada a ver, não é a mesma grana, uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.

Ela compreendia que se tratava de uma séria adicção, mas não podia falar isso para ele, conhecia o rapaz e já previa sua reação. Não abre a boca pra falar dos meus discos, ele diria, você gasta com um monte de bosta, sapato, almoço gourmet, vinho gringo toda semana e os caralho, deixa meus discos em paz. Ele provavelmente tinha essa resposta na ponta da língua, ela pensava, pra quando precisasse usar. Mas nunca precisou, não com ela porque ela não era boba. Noutro dia o rapaz anuncia: babe, não fique brava comigo, vou ter que vender a geladeira. O que? Como você vai viver sem geladeira? Ah, sei lá, eu me viro, antigamente as pessoas viviam sem geladeira, sabe. Ela indignada, mas podia ser pior, né, quanta gente aí vendendo os móveis pra comprar pó, pedra. A casa estava vazia mas ainda tinha amor, tinha música. Quando ele voltava dos longos garimpos nos sebos, os dois compartilhavam o ritual de tirar o vinil da capa e colocá-lo na vitrola. O chiado preliminar a sussurrar-lhes sacanagens no ouvido antes que todo o  som tomasse conta do ambiente. Depois, uma pausa para trocar a posição, pousando a agulha no lado B como se entrasse direto na veia.  Assim como os boletos atrasados, a coleção aumentava a cada mês: já eram mais de cem LP´s em caixotes espalhados pelos cantos agora vazios. Quando o rapaz tentou vender a cama, no entanto, ela teve que tomar uma atitude: comprou ela mesma. Pronto, agora a cama é minha, pra você não vender, vai ficar aqui. Quem ama entende, quem entende cuida. Podiam viver de luz, amor e discos. Aí, um dia, o rapaz chega de mansinho e diz: amor, a gente precisa conversar. Ela já esperando pelo pior, pensando no álbum da fossa, se ia de Adele 21 ou Otto Certa Manhã. Acomodam-se os dois nas almofadas do chão da sala. O sol da tarde entrando pela janela, já sem cortinas. Ele diz: amor, não teve jeito, tive que vender mais um móvel. Qual? O toca-discos. Isso é sério? Uhum, aluguel tá foda né, mas olha, achei um LP ali naquele sebo do centro que você não vai acreditar.

 

Murilo.

 

Crédito Foto:paul_appleyard Flickr via Compfight cc

Eu nem gosto muito de sanduíche e fazia muito tempo que estava proibido de tomar refrigerante, uma cerveja então, nem pensar. Depois de hesitar por alguns segundos, me vi perambulando pela avenida que circunda a lagoa, na zona central da ilha. Caminhei olhando os restaurantes que se enfileiram até o fim da via, ao pé de um morro. Por instantes fiquei em frente àquelas fachadas e às vezes olhava para trás e observava a água do grande lago refletindo a luz acanhada de um Sol que custava aparecer. Tardes nubladas no litoral não deveriam existir. Eu não devia ter entrado naquele restaurante, mas entrei, meus critérios de decisão são inclinados ao fantástico e ao contraditório. Minha metanoia é contrassenso. “Arrependimento é paraíso”, como diz meu amigo Brooks.

O salão da lanchonete era comprido e não muito largo. Mesas todas muito próximas umas das outras. Me acomodei perto da coluna central. Logo uma garçonete loira, bem novinha, dessas cowgirls, usando um boné rosa, cinto brilhante e batom vermelho se aproximou. Pedi um sanduíche e uma garrafa de 1795. Ela anotou e desapareceu. Na parede do fundo havia uma tela suspensa, assim como na quadrela oposta, do outro lado da sala. Não importava em qual lado da mesa o cliente sentasse, ficaria posicionado de modo que não perdesse a programação enquanto fizesse a refeição distraído, engolindo irrefletidamente cada pedaço mal mastigado, remoendo e assistindo ao episódio de novela, ao telejornal, ao talk show engraçadão. Era fim de semana e assistíamos a uma partida de futebol entre Avaí e Tubarão. Estava quase no fim do primeiro tempo e o time da capital perdia por dois a zero.

Recebi o sanduba em um prato com garfo e faca, seguidos da garrafa e do copo, então comecei a comer e beber oferecendo a atenção de minhas córneas e escleras aos lances do jogo. O lanche estava bom. Nutrindo-me com bom nível calórico, levemente anestesiado e entretido, nada poderia abalar meu estado de conforto, a impaciência havia desaparecido e eu quase nem lembrava que ela tinha existido. Calma plena e ruminante.

Foi aí que dois homens entraram na lanchonete. Um deles era oriental, de estatura média. O outro um pouco mais alto, com os traços desses catarinas descendentes de alemães meio maltratados pelo Sol tropical. Atrás dos dois vinha uma garotinha de olhos puxados. Os três sentaram duas mesas à frente da minha. O japonês ficou de costas e o catarina voltado para minha direção. A menina, em vez de ficar ao lado do oriental, se acomodou na cadeira perto do alemão. Ela me encarou com aqueles olhos apertados em um único momento, depois não olhou mais.  Transigida, apenas observava a superfície branca da mesa e por duas vezes, muito tímidas, a vi brincar com o suor que escoria das garrafas. Fazia movimentos rápidos com seus finíssimos dedos indicadores, escorregando-os em círculos sobre o tampo molhado. Inibição e singeleza em excesso constituíam seu estratagema para manter os mecanismos de defesa em constante e silenciosa atividade. Com perspicácia, a menina disfarçava o estado de concentração que a fazia reter cada palavra que os dois homens trocavam.

Observando dissimuladamente por alguns instantes, percebi que as características orientais dela não eram tão acentuadas. Era bem provável que o pai fosse mesmo o catarina. Concluí, de forma preliminar, que o japonês de costas para mim poderia ser cunhado do alemão ou mesmo algum amigo da comunidade oriental, na qual o catarina estava inserido por causa da relação com sua esposa, uma descendente de japoneses, coreanos quem sabe. Isso explicava o motivo de a criança ter sentado daquele lado da mesa, perto de seu suposto verdadeiro pai. Ulteriormente, fui acometido por erro de percepção, algo que vem se tornando mais ordinário à medida que os anos se renovam. Quando voltei meus olhos na direção do catarina ao lado da menina, ele havia adquirido distintivas tipicamente orientais. Apesar dos cabelos claros e da pele em tons rosados, as linhas da face pareciam agora carregar caracterizantes asianos. Pisquei rapidamente algumas vezes e em seguida apertei as pálpebras com força na expectativa de que minha visão voltasse ao normal, mas não surtia efeito. Os traços de catarina haviam desvanecido, dando espaço ao fenótipo nipão.

Os dois homens conversavam com o tom de voz abafado e insuficientes ondas sonoras atingiam minhas orelhas. Pouco pude ouvir, muito do que captei foi por meio da leitura dos lábios do teuto-nipo-catarina, processo bastante prejudicado pela necessidade de ocultar meu foco de interesse e assim possibilitar que a conversação deles fluísse em ampla naturalidade. Poucos segundos de análise generalista haviam sido suficientes para assimilar as técnicas de espionagem da garotinha. Segui ruminando meu sanduíche e assistindo ao jogo. Com singeleza e descompromisso, mantive a visão frontal apontada para a televisão e a periférica scaneando as expressões faciais do suposto pai da menina.

Decifrei palavras avulsas, nenhuma oração completa se formou em meu relatório mental. Contudo, expressões-chave como “é carinhosa” ou “discreta como nenhuma” e até mesmo “não vai se arrepender” puderam ser decodificadas por intermédio da movimentação discreta dos lábios esbranquiçados, execrados pela aridez, do tutor misterioso. Não pude registrar a reação do interlocutor ao receber tal discurso. Ele permanecia de costas para mim, imóvel, apenas o braço direito se movimentava para apanhar o copo americano e dirigir o líquido fermentado garganta abaixo. Os dois homens conversaram mais um pouco e em seguida apertaram as mãos, signo universal para conclusão de um trato. Tomaram mais duas cervejas e agora, em tom descontraído, falavam sobre futebol, barcos motorizados e as dificuldades da pesca em alto mar.

Cinco minutos depois, quando eu já havia terminado de comer e navegava pelo celular, os três saíram da mesa em direção ao caixa. Aguardei por alguns segundos e virei para assisti-los deixar o estabelecimento. A menina caminhava segurando a mão esquerda do japonês. O catarina que tinha chegado com ela já havia desaparecido correndo na frente.

Paguei a conta e fui para meu apartamento alugado perto da Praia Mole. O céu do fim de tarde estava rosado, as nuvens escuras tinham ido embora. A brisa que vinha do oceano renovou minha calma. Desfrutei os momentos finais daquele dia com os pés na água gelada do mar, caminhando na areia macia sem me importar muito com as tarefas que me aguardavam.

Na madrugada que se seguiu, sonhei que ainda passeava por um carreiro de areia em meio a restinga litorânea. Perdido na noite sem estrelas, vi na praia, ao longe, a menina de olhos puxados e cabelos curtos. Ela estava em desespero e corria nua em direção ao oceano para ser engolida pela tormenta e desaparecia rapidamente na imensidão das ondas. As espumas em que ela sucumbiu vieram tocar meus pés na areia. Acordei e pela manhã, durante o café, assisti alguns episódios de desenho animado. Toda vez que assisto Knights of Sidonia lembro daquela garota sendo engolida pelos tentáculos monstruosos do oceano. Às vezes, no sonho, ela hesita em correr para o mar, então o japonês sem rosto aparece e a arrasta pelo braço.

Texto: Jadson André

Imagem: Caroline Rehbein 

(…)Em raras oportunidades perambula pelo centro, invade cafés e pequenas livrarias na ânsia de reencontrar-se com quem já foi. Folheia livros que formaram quem o é, com a impressão de terem formado quem o era. Flutua entre o passado e o presente, indeciso sobre de que ponto deve continuar. Percorre ruas que são colagens de suas memórias e teme viver apenas do que se produziu até ali. É envolto em nostalgia, essa tristeza suave que se finge asséptica. Luta para conter o avanço da melancolia sem perceber que ela já solidificou bases fortes em sua estrutura. Torna-se tarde para pensar em novos rumos, a incapacidade de criar novas situações já rompe a noite, e, novamente é engolidos pelos bares.

O copo americano, como um microfone, amplifica sua voz: discursa sobre o nada com a convicção que só um bêbado pode ter. A platéia divide opiniões com o palestrante que faz do meio-fio seu palanque, para alguns o nada é menos, para outros, curiosamente o nada representa mais. Apenas para uma espectadora dessa conferência etílica o relatório é pleno. Ela aguarda com ansiedade, perceptível apenas pelo movimento de seus dedos que martelam suavemente o copo, a conclusão das opiniões alheias para manifestar a sua. Naturalmente, quando tem sucesso em sua missão o assunto já abre lugar para outra discussão, e apenas quem prossegue com o tema é o interlocutor original. Poucos passos os aproximam, à medida que os assuntos alheios aos do restante do grupo os distanciam das demais pessoas. Com frequência os copos esvaziam, mas pouco permanecem vazios, tornando frequente os risos e num primeiro momento aproximando as bocas das orelhas. Não tarda para a divagação dar lugar ao silêncio e enfim aproximar de vez uma boca da outra. As novas perspectivas tornam a rua desinteressante, surge um convite para outro lugar. Ela não sabe, mas em breve estará deitada sob um túmulo. (…)

Gabriel Protski

Beijar meninas foi o segredo do ensino médio. Ficar com as amigas era uma opção discreta quando se queria uns amassos sem cair na falácia masculina. Mas os tempos de faculdade eram diferentes, ter relacionamentos com o sexo oposto não a deixava mais envergonhada, ruborizada, calada. Conseguia não só conversar, como também descobriu o poder que os olhos têm em deixar transparecer o desejo, a carência e as vontades.

“Ele beijava como uma menina”, pensou ela. Mexia seus lábios com falta de pressa, fazendo com que a sensação macia do seu beijo fosse maior. A situação exigia rapidez, mas o ato era vagaroso.

Viu o desejo estampado no negro dos olhos verdes de Tadeu e estremeceu. Ela continuou encarando, ingenuamente vidrada naqueles olhos que cada vez se aproximavam mais. Agora eram colegas de estágio e o encontro na escadaria de emergência do prédio coincidiu naquele beijo. Se fossem pegos, seria constrangedor. O estágio exigia uma postura profissional, mas aquele momento nas escadas os fizera esquecer disso. A partir daí, faziam tudo juntos.

Amava tudo nele, o cabelo cacheado, seu gosto artístico, seus assuntos, seu gosto musical, seus livros, suas ideias, sua rotina, seus planos, seus princípios, sua rebeldia, sua indecisão, sua melancolia. Jogou-se de cabeça. Quatro anos depois estavam morando juntos. E moraram juntos por mais três anos quando as brigas começaram. Com o tempo os assuntos pareciam ser sempre os mesmos, os planos sempre mudavam, seu gosto artístico resumia-se a vida boêmia, e seu cabelo cacheado? Ele havia vendido para investir em mais uma ideia sem sucesso. As brigas eram sempre sobre ela estar fazendo demais a ponto de querer desistir, contra o argumento que ele precisava de mais espaço.

Diferente das outras noites, naquela, os travesseiros eram novos. A casa parecia vazia demais. Já era julho, o que significava que ela já não o via há seis meses. O limite entre sentir saudade e a loucura já havia sido ultrapassado. Naqueles seis últimos meses ouviu todas as músicas que ele havia lhe mostrado, releu todos os livros que ele lhe havia indicado, revisitou os lugares que eles haviam passado, então se deu conta de cada canto da cidade a lembrava dele.

Trocou os travesseiros porque sonhou tantas vezes com ele nos últimos meses que talvez a troca de travesseiros embalasse novos sonhos. Colocava toda a culpa da separação, nos sete anos de convivência e no fato dele ser libriano. Tinha dúvidas se em algum momento ele realmente a tinha amado. Às vezes, tarde da noite, já muito alcoolizada, fumava e tinha a sensação que ele a amava e que toda vez que fizesse isso, teria a sensação de ter ele por perto. Isso foi seu escape nos três primeiros meses, nos outros três enjoou de tudo isso na intenção se enjoar dele também, inutilmente. Na manhã seguinte, encarou o envelope que havia chegado pelo correio. Ele queria o divórcio, ela recordava-se do encontro nas escadarias.

Texto e imagem: Caroline Rehbein

Poemanarco

Texto de em 29 de maio de 2017. Nenhum comentário.

quis poupar palavra
quando meia poesia
já sozinha caminhava.
– Como ousa? – ruge o verso –
pôr-me em síntese, assim?
fazer tão pouquinho de mim
que transcendo o dicionário,
que falo em francês e latim?

larga dessa, poetisa.
Deixa o verso se gastar
que ele não é teu pra fazeres economias:
trova sopra ventania,
rima voa em boa brisa.
Solta a palavra que ele te pede
mata nele toda sede
até que o novo do novo
um dia, quem sabe,
corrompa o decreto
de encaixar esse ímpeto
tão lascivo e tão sem teto
na rotina de um soneto.

Carolina Goetten