Literatura apesar de tudo.

Palavras ausentes

Texto de em 22 de junho de 2017. Nenhum comentário.

Para Mariana.

Dia desses peguei a caneta para poemar você num papel colorido. Seriam daquelas palavras que se lançam no desejo de sentir algo maior do que conseguimos compreender. Em vão.

Me faltaram substantivos para nominar as curvas dos seus cabelos a desenharem o vento. Desapareceram os adjetivos que ilustrariam o sorriso nos seus olhos, que piscam lentamente e desviam quando nossos amores se encontram.

Como a fotografasse, revisitei o seu corpo, palmo a palmo, como a acariciasse com a memória. E sua pele reage. Arrepia a cada toque. Na barriga, ao lado, a um beijo da costela, a sua respiração quase ofegante, como administrasse o descontrole iminente. E você dorme, logo ali, na penumbra do canto da cama, imersa em sonhos silenciosos.

Sou convencido de que palavras podem me levar para perto de você, mas que nossa totalidade só será compreendida com algum silêncio. Sei que a poesia escrita jamais chegará à de um beijo.

Sob a luminária pendente em nossa cabeceira, protagonizo o silêncio repleto das palavras que me somem quando diante do que somos. Sou agora uma amnésia léxica no centro do palco sob olhares de uma plateia inexistente.

Os aplausos foram emudecidos quando cortina alguma se fechou. Agora era eu, você e a escuridão da cama que se preenche de luz a cada vez que puxamos nossos corpos, um ao encontro do outro, e adormecemos no calor que ilumina uma eternidade.

Escrevi palavra alguma. Larguei a caneta e o papel colorido-em-branco sob a luz apagada e mergulhei no mar em mim que existe quando em você.

 

texto: Rafael Antunes
ilustração: Marco Antonio dos Santos

um vício

Texto de em 19 de junho de 2017. Nenhum comentário.

 

Estou vendendo a TV, ele disse. A vida adulta tem dessas, a gente precisa fazer alguns sacrifícios. Nem assisto muito, ele dizia, mas eu assisto, ela respondia. Discutiram, mas a TV era dele, precisava de grana e ela nem mesmo morava no apartamento, apesar de deitar várias horas da semana por ali. Quando a gente morar junto você pode decidir, ele dizia, até lá eu decido. O climão ficou por umas semanas, mas se acertaram, menos Netflix mais sexo. Daí um dia ele disse vou vender o sofá. O que?, ela não acreditava. Pois é, tô precisando de uma grana, tá foda, nem tem mais televisão, pra que ter sofá? Ela não quis nem discutir, a casa era dele, ele fazia o que quisesse. Mas tá precisando de grana pra quê? Ah pra pagar o cartão de crédito. Entendi. Noutro dia ele aparecia com umas sacolas de compras e ela já sabia: discos. Olha que massa amor, achei esses aqui na feirinha, barateza. Ela gostava, os discos eram uma das partes dele pela qual ela havia se apaixonado. Quanto foi? Ah, alguns noventa outros cento e vinte, mas olha, coisa linda. Que massa. Dali umas semanas ela chega no apê e não vê mesa nem cadeiras. O que aconteceu? Ah, vendi, amor. A gente se apega às coisas sabe, não tem porquê. Mas vai comprar outra? Vou assim que eu tiver grana. Ela quieta, após a notícia fumavam um e ficava tudo bem. Dias depois o rapaz chega com um Who´s Next, bem cuidadinho, uma relíquia. Que massa, amor, pra ir aquecendo pro show que a gente vai né. É… mas sabe, amor, na verdade eu vendi o ingresso. O quê? Como assim? Ah, tava precisando de grana, sabe, e o show tava meio caro. Mas pera aí, você tá me dizendo que vendeu o ingresso do show do Who e usou o dinheiro pra comprar um vinil do Who? Ai, cala a boca, meu, não tem nada a ver, não é a mesma grana, uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.

Ela compreendia que se tratava de uma séria adicção, mas não podia falar isso para ele, conhecia o rapaz e já previa sua reação. Não abre a boca pra falar dos meus discos, ele diria, você gasta com um monte de bosta, sapato, almoço gourmet, vinho gringo toda semana e os caralho, deixa meus discos em paz. Ele provavelmente tinha essa resposta na ponta da língua, ela pensava, pra quando precisasse usar. Mas nunca precisou, não com ela porque ela não era boba. Noutro dia o rapaz anuncia: babe, não fique brava comigo, vou ter que vender a geladeira. O que? Como você vai viver sem geladeira? Ah, sei lá, eu me viro, antigamente as pessoas viviam sem geladeira, sabe. Ela indignada, mas podia ser pior, né, quanta gente aí vendendo os móveis pra comprar pó, pedra. A casa estava vazia mas ainda tinha amor, tinha música. Quando ele voltava dos longos garimpos nos sebos, os dois compartilhavam o ritual de tirar o vinil da capa e colocá-lo na vitrola. O chiado preliminar a sussurrar-lhes sacanagens no ouvido antes que todo o  som tomasse conta do ambiente. Depois, uma pausa para trocar a posição, pousando a agulha no lado B como se entrasse direto na veia.  Assim como os boletos atrasados, a coleção aumentava a cada mês: já eram mais de cem LP´s em caixotes espalhados pelos cantos agora vazios. Quando o rapaz tentou vender a cama, no entanto, ela teve que tomar uma atitude: comprou ela mesma. Pronto, agora a cama é minha, pra você não vender, vai ficar aqui. Quem ama entende, quem entende cuida. Podiam viver de luz, amor e discos. Aí, um dia, o rapaz chega de mansinho e diz: amor, a gente precisa conversar. Ela já esperando pelo pior, pensando no álbum da fossa, se ia de Adele 21 ou Otto Certa Manhã. Acomodam-se os dois nas almofadas do chão da sala. O sol da tarde entrando pela janela, já sem cortinas. Ele diz: amor, não teve jeito, tive que vender mais um móvel. Qual? O toca-discos. Isso é sério? Uhum, aluguel tá foda né, mas olha, achei um LP ali naquele sebo do centro que você não vai acreditar.

 

Murilo.

 

Crédito Foto:paul_appleyard Flickr via Compfight cc

Eu nem gosto muito de sanduíche e fazia muito tempo que estava proibido de tomar refrigerante, uma cerveja então, nem pensar. Depois de hesitar por alguns segundos, me vi perambulando pela avenida que circunda a lagoa, na zona central da ilha. Caminhei olhando os restaurantes que se enfileiram até o fim da via, ao pé de um morro. Por instantes fiquei em frente àquelas fachadas e às vezes olhava para trás e observava a água do grande lago refletindo a luz acanhada de um Sol que custava aparecer. Tardes nubladas no litoral não deveriam existir. Eu não devia ter entrado naquele restaurante, mas entrei, meus critérios de decisão são inclinados ao fantástico e ao contraditório. Minha metanoia é contrassenso. “Arrependimento é paraíso”, como diz meu amigo Brooks.

O salão da lanchonete era comprido e não muito largo. Mesas todas muito próximas umas das outras. Me acomodei perto da coluna central. Logo uma garçonete loira, bem novinha, dessas cowgirls, usando um boné rosa, cinto brilhante e batom vermelho se aproximou. Pedi um sanduíche e uma garrafa de 1795. Ela anotou e desapareceu. Na parede do fundo havia uma tela suspensa, assim como na quadrela oposta, do outro lado da sala. Não importava em qual lado da mesa o cliente sentasse, ficaria posicionado de modo que não perdesse a programação enquanto fizesse a refeição distraído, engolindo irrefletidamente cada pedaço mal mastigado, remoendo e assistindo ao episódio de novela, ao telejornal, ao talk show engraçadão. Era fim de semana e assistíamos a uma partida de futebol entre Avaí e Tubarão. Estava quase no fim do primeiro tempo e o time da capital perdia por dois a zero.

Recebi o sanduba em um prato com garfo e faca, seguidos da garrafa e do copo, então comecei a comer e beber oferecendo a atenção de minhas córneas e escleras aos lances do jogo. O lanche estava bom. Nutrindo-me com bom nível calórico, levemente anestesiado e entretido, nada poderia abalar meu estado de conforto, a impaciência havia desaparecido e eu quase nem lembrava que ela tinha existido. Calma plena e ruminante.

Foi aí que dois homens entraram na lanchonete. Um deles era oriental, de estatura média. O outro um pouco mais alto, com os traços desses catarinas descendentes de alemães meio maltratados pelo Sol tropical. Atrás dos dois vinha uma garotinha de olhos puxados. Os três sentaram duas mesas à frente da minha. O japonês ficou de costas e o catarina voltado para minha direção. A menina, em vez de ficar ao lado do oriental, se acomodou na cadeira perto do alemão. Ela me encarou com aqueles olhos apertados em um único momento, depois não olhou mais.  Transigida, apenas observava a superfície branca da mesa e por duas vezes, muito tímidas, a vi brincar com o suor que escoria das garrafas. Fazia movimentos rápidos com seus finíssimos dedos indicadores, escorregando-os em círculos sobre o tampo molhado. Inibição e singeleza em excesso constituíam seu estratagema para manter os mecanismos de defesa em constante e silenciosa atividade. Com perspicácia, a menina disfarçava o estado de concentração que a fazia reter cada palavra que os dois homens trocavam.

Observando dissimuladamente por alguns instantes, percebi que as características orientais dela não eram tão acentuadas. Era bem provável que o pai fosse mesmo o catarina. Concluí, de forma preliminar, que o japonês de costas para mim poderia ser cunhado do alemão ou mesmo algum amigo da comunidade oriental, na qual o catarina estava inserido por causa da relação com sua esposa, uma descendente de japoneses, coreanos quem sabe. Isso explicava o motivo de a criança ter sentado daquele lado da mesa, perto de seu suposto verdadeiro pai. Ulteriormente, fui acometido por erro de percepção, algo que vem se tornando mais ordinário à medida que os anos se renovam. Quando voltei meus olhos na direção do catarina ao lado da menina, ele havia adquirido distintivas tipicamente orientais. Apesar dos cabelos claros e da pele em tons rosados, as linhas da face pareciam agora carregar caracterizantes asianos. Pisquei rapidamente algumas vezes e em seguida apertei as pálpebras com força na expectativa de que minha visão voltasse ao normal, mas não surtia efeito. Os traços de catarina haviam desvanecido, dando espaço ao fenótipo nipão.

Os dois homens conversavam com o tom de voz abafado e insuficientes ondas sonoras atingiam minhas orelhas. Pouco pude ouvir, muito do que captei foi por meio da leitura dos lábios do teuto-nipo-catarina, processo bastante prejudicado pela necessidade de ocultar meu foco de interesse e assim possibilitar que a conversação deles fluísse em ampla naturalidade. Poucos segundos de análise generalista haviam sido suficientes para assimilar as técnicas de espionagem da garotinha. Segui ruminando meu sanduíche e assistindo ao jogo. Com singeleza e descompromisso, mantive a visão frontal apontada para a televisão e a periférica scaneando as expressões faciais do suposto pai da menina.

Decifrei palavras avulsas, nenhuma oração completa se formou em meu relatório mental. Contudo, expressões-chave como “é carinhosa” ou “discreta como nenhuma” e até mesmo “não vai se arrepender” puderam ser decodificadas por intermédio da movimentação discreta dos lábios esbranquiçados, execrados pela aridez, do tutor misterioso. Não pude registrar a reação do interlocutor ao receber tal discurso. Ele permanecia de costas para mim, imóvel, apenas o braço direito se movimentava para apanhar o copo americano e dirigir o líquido fermentado garganta abaixo. Os dois homens conversaram mais um pouco e em seguida apertaram as mãos, signo universal para conclusão de um trato. Tomaram mais duas cervejas e agora, em tom descontraído, falavam sobre futebol, barcos motorizados e as dificuldades da pesca em alto mar.

Cinco minutos depois, quando eu já havia terminado de comer e navegava pelo celular, os três saíram da mesa em direção ao caixa. Aguardei por alguns segundos e virei para assisti-los deixar o estabelecimento. A menina caminhava segurando a mão esquerda do japonês. O catarina que tinha chegado com ela já havia desaparecido correndo na frente.

Paguei a conta e fui para meu apartamento alugado perto da Praia Mole. O céu do fim de tarde estava rosado, as nuvens escuras tinham ido embora. A brisa que vinha do oceano renovou minha calma. Desfrutei os momentos finais daquele dia com os pés na água gelada do mar, caminhando na areia macia sem me importar muito com as tarefas que me aguardavam.

Na madrugada que se seguiu, sonhei que ainda passeava por um carreiro de areia em meio a restinga litorânea. Perdido na noite sem estrelas, vi na praia, ao longe, a menina de olhos puxados e cabelos curtos. Ela estava em desespero e corria nua em direção ao oceano para ser engolida pela tormenta e desaparecia rapidamente na imensidão das ondas. As espumas em que ela sucumbiu vieram tocar meus pés na areia. Acordei e pela manhã, durante o café, assisti alguns episódios de desenho animado. Toda vez que assisto Knights of Sidonia lembro daquela garota sendo engolida pelos tentáculos monstruosos do oceano. Às vezes, no sonho, ela hesita em correr para o mar, então o japonês sem rosto aparece e a arrasta pelo braço.

Texto: Jadson André

Imagem: Caroline Rehbein 

(…)Em raras oportunidades perambula pelo centro, invade cafés e pequenas livrarias na ânsia de reencontrar-se com quem já foi. Folheia livros que formaram quem o é, com a impressão de terem formado quem o era. Flutua entre o passado e o presente, indeciso sobre de que ponto deve continuar. Percorre ruas que são colagens de suas memórias e teme viver apenas do que se produziu até ali. É envolto em nostalgia, essa tristeza suave que se finge asséptica. Luta para conter o avanço da melancolia sem perceber que ela já solidificou bases fortes em sua estrutura. Torna-se tarde para pensar em novos rumos, a incapacidade de criar novas situações já rompe a noite, e, novamente é engolidos pelos bares.

O copo americano, como um microfone, amplifica sua voz: discursa sobre o nada com a convicção que só um bêbado pode ter. A platéia divide opiniões com o palestrante que faz do meio-fio seu palanque, para alguns o nada é menos, para outros, curiosamente o nada representa mais. Apenas para uma espectadora dessa conferência etílica o relatório é pleno. Ela aguarda com ansiedade, perceptível apenas pelo movimento de seus dedos que martelam suavemente o copo, a conclusão das opiniões alheias para manifestar a sua. Naturalmente, quando tem sucesso em sua missão o assunto já abre lugar para outra discussão, e apenas quem prossegue com o tema é o interlocutor original. Poucos passos os aproximam, à medida que os assuntos alheios aos do restante do grupo os distanciam das demais pessoas. Com frequência os copos esvaziam, mas pouco permanecem vazios, tornando frequente os risos e num primeiro momento aproximando as bocas das orelhas. Não tarda para a divagação dar lugar ao silêncio e enfim aproximar de vez uma boca da outra. As novas perspectivas tornam a rua desinteressante, surge um convite para outro lugar. Ela não sabe, mas em breve estará deitada sob um túmulo. (…)

Gabriel Protski

Beijar meninas foi o segredo do ensino médio. Ficar com as amigas era uma opção discreta quando se queria uns amassos sem cair na falácia masculina. Mas os tempos de faculdade eram diferentes, ter relacionamentos com o sexo oposto não a deixava mais envergonhada, ruborizada, calada. Conseguia não só conversar, como também descobriu o poder que os olhos têm em deixar transparecer o desejo, a carência e as vontades.

“Ele beijava como uma menina”, pensou ela. Mexia seus lábios com falta de pressa, fazendo com que a sensação macia do seu beijo fosse maior. A situação exigia rapidez, mas o ato era vagaroso.

Viu o desejo estampado no negro dos olhos verdes de Tadeu e estremeceu. Ela continuou encarando, ingenuamente vidrada naqueles olhos que cada vez se aproximavam mais. Agora eram colegas de estágio e o encontro na escadaria de emergência do prédio coincidiu naquele beijo. Se fossem pegos, seria constrangedor. O estágio exigia uma postura profissional, mas aquele momento nas escadas os fizera esquecer disso. A partir daí, faziam tudo juntos.

Amava tudo nele, o cabelo cacheado, seu gosto artístico, seus assuntos, seu gosto musical, seus livros, suas ideias, sua rotina, seus planos, seus princípios, sua rebeldia, sua indecisão, sua melancolia. Jogou-se de cabeça. Quatro anos depois estavam morando juntos. E moraram juntos por mais três anos quando as brigas começaram. Com o tempo os assuntos pareciam ser sempre os mesmos, os planos sempre mudavam, seu gosto artístico resumia-se a vida boêmia, e seu cabelo cacheado? Ele havia vendido para investir em mais uma ideia sem sucesso. As brigas eram sempre sobre ela estar fazendo demais a ponto de querer desistir, contra o argumento que ele precisava de mais espaço.

Diferente das outras noites, naquela, os travesseiros eram novos. A casa parecia vazia demais. Já era julho, o que significava que ela já não o via há seis meses. O limite entre sentir saudade e a loucura já havia sido ultrapassado. Naqueles seis últimos meses ouviu todas as músicas que ele havia lhe mostrado, releu todos os livros que ele lhe havia indicado, revisitou os lugares que eles haviam passado, então se deu conta de cada canto da cidade a lembrava dele.

Trocou os travesseiros porque sonhou tantas vezes com ele nos últimos meses que talvez a troca de travesseiros embalasse novos sonhos. Colocava toda a culpa da separação, nos sete anos de convivência e no fato dele ser libriano. Tinha dúvidas se em algum momento ele realmente a tinha amado. Às vezes, tarde da noite, já muito alcoolizada, fumava e tinha a sensação que ele a amava e que toda vez que fizesse isso, teria a sensação de ter ele por perto. Isso foi seu escape nos três primeiros meses, nos outros três enjoou de tudo isso na intenção se enjoar dele também, inutilmente. Na manhã seguinte, encarou o envelope que havia chegado pelo correio. Ele queria o divórcio, ela recordava-se do encontro nas escadarias.

Texto e imagem: Caroline Rehbein

Poemanarco

Texto de em 29 de maio de 2017. Nenhum comentário.

quis poupar palavra
quando meia poesia
já sozinha caminhava.
– Como ousa? – ruge o verso –
pôr-me em síntese, assim?
fazer tão pouquinho de mim
que transcendo o dicionário,
que falo em francês e latim?

larga dessa, poetisa.
Deixa o verso se gastar
que ele não é teu pra fazeres economias:
trova sopra ventania,
rima voa em boa brisa.
Solta a palavra que ele te pede
mata nele toda sede
até que o novo do novo
um dia, quem sabe,
corrompa o decreto
de encaixar esse ímpeto
tão lascivo e tão sem teto
na rotina de um soneto.

Carolina Goetten

Roi-de-rats

Texto de em 22 de maio de 2017. 1 comentário.

Terceira multa em quarenta minutos, o dia estava agitado para Bianca e ela gostava disso. Era o sétimo mês trabalhando como periquita da Setran e a moça se divertia como em nenhum outro de seus empregos anteriores. Sentia prazer em multar – ela dizia “Gosto de dar multa porque é tipo um poder que eu tenho pra poder fazer um pouco de justiça”, e a jovem achava que era uma causa nobre. Mas enquanto transitava ensolarada por entre os carros, obstinada na busca pelo quarto infrator estacionado em vaga irregular naquela manhã, Bianca foi atingida por uma bicicleta e caiu de bunda no chão. Nada muito grave, exceto um roxo enorme na nádega esquerda e um baita constrangimento.

Carlos Eduardo, mais conhecido como Cadu, comemorou. Passou ao lado bem na hora, riu, desacelerou e gritou “Tinha era que ter sido um caminhão!” antes de seguir seu trajeto para entregar uns currículos no Campina do Siqueira. Ele não queria que ela se machucasse de fato, longe disso, mas odiava o ofício das moças que multavam. Achava que elas só serviam pra tirar mais dinheiro de quem não tem, e achou especialmente engraçado o fato de a moça ter sido atropelada por uma bicicleta, veículo que atrapalha o trânsito, desacelera os trajetos e nunca precisa pagar multa, “Um absurdo”. Dias antes, foi Cadu quem quase se chocou com uma bicicleta, desceu da moto e se engalfinhou com o ciclista enquanto gritava “Filha da puta! Tem que respeitar o motor!”. Em meia-hora de treta, o rapaz ganhou algumas escoriações e perdeu o prazo de uma entrega e o emprego.

A demissão dele foi a grande alegria do mês para Jorge, ex-colega e maior rival de Cadu na empresa de logística onde trabalhavam juntos. Aos amigos mais chegados, ele passou o dia do desligamento do inimigo repetindo como mantra a frase “Cada um colhe o que planta”, com um sorrisinho preso no canto da boca. O ódio nascera de uma ocasião em que Jorge faltou ao trabalho, e espalhou-se à boca pequena que a ausência se deu graças a uma ressaca violenta, devida a excessos na noite anterior. O fofoqueiro, segundo um dos mais chegados, teria sido Cadu. Sobre a falta, na verdade, a culpa era de um abuso diferente: Jorge passou uma noite e mais algumas horas na cadeia, por conta de um baseado que fumava em um coreto perto de casa, que chamou a atenção de alguns vizinhos e, consequentemente, da polícia. E, na verdade, também, não havia sido Cadu o responsável por espalhar a notícia, mas sim um dos mais chegados. Acabou dando tudo certo, pois Jorge tinha um cunhado médico da rede pública, que lhe arrumou um atestado e garantiu a manutenção de seu emprego. A única consequência, além dos dois meses de serviço comunitário, foi a alcunha de Bob Marley, que o rapaz odiava.

Não foi a primeira vez que Enzo teve de tirar Jorge de alguma enrascada. A outra foi quando o guri precisou fazer um exame toxicológico, devidamente comunicado com antecedência, mas fumou maconha na noite anterior. Enzo teve que mexer pauzinhos e fazer alguns contatos para trocar a urina de Jorge pela de alguém limpo – no caso, ele mesmo. Odiava esse hábito do cunhado, mas estava perdidamente apaixonado por Adriana e ela era meio superprotetora com o irmão mais novo. O médico ajudou mas foi à forra: em várias ocasiões fez questão de avisar “Você me deve uma, safado”, ou colocar Jorge em seu lugar, com alguns “Me respeita, rapaz… Quando precisar de mais mijo cê vai ver só”.

*

Algumas semanas depois, Enzo precisava pagar a conta do condomínio, que iria vencer naquele dia e era acrescida em 10% do valor, caso quitada com atraso. No desespero, apesar dos 17 pontos já comprometidos na CNH, estacionou em vaga de deficientes. Pagou o boleto correndo e voltou a tempo de ver uma periquita da Setran ser atropelada por uma bicicleta, menos de uma quadra pra lá do carro. Sorriu e não conseguiu deixar de soltar baixinho um “Porra, Deus é top demais mesmo”.

 
 

texto de Rômulo Candal

ilustração de Friedrich Wilhelm Schmuck, datada de 1683.

“Estou vivendo um eclipse”, disse Mariana e iluminou o mundo com o brilho dos seus olhos. Uma luz que ninguém viu. Uma luz que ela sentia e levaria uma vida inteira a tentar compreender. Um entender sem pressa, que de tanto sentir, pouco importaria chegar a alguma definição.

Pouco ou quase nada ocorre no desenrolar de um instante. Muito esperamos, mas dificilmente nos damos conta de que o que define a vida acontece durante o tempo em que o mar leva para absorver a imensidão de uma gota de chuva. A explosão da água contra o seu universo de origem dura um punhado de tempo percebido por ninguém. Logo tudo é todo. Logo é passou.

Se distraídos julgamos viver em decadência, é por perceber nunca que passamos a eternidade na busca por reacender a faísca que explodiu no momento em que acontecemos. E que passou.

Para os céticos, um eclipse acontece por uma coincidência astronômica. Uma total ausência de poesia. Algo que nos escapa a dimensão, mas que petulantemente nos atrevemos a definir e acumular junto às coisas que julgamos dominar. Sequer compreendemos a grandeza de um sol que se ergue todos os dias diante de nós, mas nos acalma limitar as coisas dentro de conceitos, sem levarmos em conta o que existe além do que vemos na nossa finita existência. O todo que nos contém.

E foi por nunca se deixar convencer da concretude da vida que Mariana viu em si o alinhamento de um eclipse. Compreendia a poesia do instante que se propõe eterno.

A visão de um pôr do sol jamais seria a ilusão de ótica que as passageiras ideias insistiam em lhe falar. Tinha a certeza de que, ao contrário das teorias, a beleza torna-se parte de quem a flagra na eternidade do instante de sua perpetuação. E foi ali, diante da imensidão de um alinhamento que ninguém mais percebeu, que Mariana reconheceu-se num eclipse e eternizou a beleza em si. Uma beleza em forma de um sorriso que se iniciava em seus olhos e descia pelo rosto, milímetro a milímetro, equilibrando-se por fim nos cantos da boca a soletrar: “E-clip-se.”

Diante do escuro de seu quarto, olhando para um teto absorvido pela luz ausente, Mariana percebeu-se maior. Compunha um eclipse. Absorvida pela beleza que brilharia consigo enquanto fechasse nunca os olhos para a imensidão das coisas que a arranjavam.

Sabia que a felicidade seria sua capacidade de reconhecer e estender instantes preciosos por todo o seu caminho. Eternizaria o vasto brilho daquela faísca que jamais lhe sairia dos olhos. Carregava consigo o cosmos. O infinito. O silêncio que tudo absorve. Que tudo é. E Mariana era tudo ao constatar-se parte de um universo. Um universo de si.

 

texto: Rafael Antunes
ilustração: Nina Zambiassi

Tudo estava virado

Texto de em 15 de maio de 2017. Nenhum comentário.

– Alô, por favor a Ana Paula.

– Oi, ela mesma, quem fala?

– Aqui é da imobiliária do Teodoro. Fomos informados que você está deixando o imóvel e gostaríamos de repassar a lista de reparos constatados na última vistoria.

– Oi? Acho que foi engano, eu não estou deixando imóvel nenhum.

– Você não é a Ana Paula Guimarães?

– Sim, mas que imóvel é esse?

– A cabeça do Teodoro, onde você estava morando pelos últimos seis meses. O proprietário solicitou a rescisão do contrato.

– O que, cabeça do Teodoro? Eu tava morando lá?

– Sim, estava. Mais precisamente desde 20 de novembro de 2016, quando vocês tiveram relações íntimas, conforme consta aqui no relatório de entrada.

– Meu Deus, mas foi só uma noite. Nunca rolou mais nada entre a gente.

– Srta. Ana Paula, isso não quer dizer que você não estava morando lá. Pelo que consta aqui, ele bem que tentou continuar a relação. Você era o crush.

– Nossa, que coisa… seis meses?

– É, isso mesmo. Posso prosseguir com a lista de reparos?

– Po.. pode, mas como assim?

– Primeiramente será necessária a pintura padrão, tendo em vista que o imóvel está sem cor e bastante desgastado com a situação. Além disso, há alguns cômodos com rachaduras, como o coração, por exemplo, que deverá ser restaurado.

– Mas o coração nem na cabeça fica!

– É claro que fica, Ana. Tudo fica na cabeça, você não sabia? Ah, e há também algumas manchas, como a tatuagem no pulso esquerdo, que deverá ser removida.

– Tatuagem? Ele tatuou meu nome?

– Não, querida, não seu nome. É um pássaro negro. Quando ele olha, lembra da vez em que você tocou Blackbird no violão e isso machuca bastante.

– Mas como eu vou tirar essa tattoo?

– Aí é com você. Não nos responsabilizamos.

– Gente, que absurdo.  Vocês de imobiliária são bem safados, né?

– Que horror, Ana! Espero que compreenda que as coisas funcionam assim. Usou, tem que arcar com os custos. Nós só estamos prezando pela integridade do imóvel e do proprietário. E bem, não dá para dizer que você foi uma inquilina muito cuidadosa.

– Mas eu nunca tratei ele mal. Só não rolou, sei lá. Não deu mais liga.

– Não é bem isso que consta no relatório. Provocações, respostas secas, falsas esperanças, pity likes… uma bagunça.

– Mas isso é tudo coisa da cabeça dele!

– Justamente!

– Afff…

– Ah, e há também algumas taxas administrativas, como a das cervejas.

– Cervejas?

– As que ele bebeu para te esquecer.

– Ah, pode parar. Aliás, acabei de me lembrar que ele andou pegando umas e outras nesse tempo. Eu não fui a única moradora, não!

– Sinto muito, Ana Paula, mas eram todas visitas. A inquilina efetiva é você.

– Que diabos! E aquela guria que ele pegou na minha frente?

– Ah… aquilo… foi apenas uma estratégia fracassada para lhe causar ciúmes. Sabe como é, ameaçar vender o imóvel para agregar valor. Porém nada aconteceu, devido ao seu claro desinteresse.

– Que merda, hein…

– Ana Paula, estaremos enviando o orçamento completo para o seu e-mail. Gostaria de lembrar que após a entrega das chaves, será necessário solicitar o desligamento da luz.

– Luz?

– A luz dos olhos do Teodoro quando ele te vê. Ainda brilham.

– Entendi…

– Muito obrigada por sua atenção. Tenha um bom dia.

 

Murilo.

 

Crédito Foto:Alex E. Proimos Flickr via Compfight cc

Ester queria porque queria uma azinheira nos fundos da chácara. Contava com a devoção por Fátima como arma, mas também fazia sua parte de insistir com Vilson. “Cê tá duro que é um tijolo. Vai ficar lindinha, mandamo trazer grande já”. E se ele queria plátanos para o caminho entre a casa e o bosque, que desse jeito de conseguir também uma cópia fiel da sombra dos pastorinhos. Quem faz um truque faz dois, ué. Ela terminou um chá de boldo, deitou a caneca na grama e livrou as mãos para apontar pontos virgens no terreno em defesa de sua árvore, tapando com o chapéu a vista para o reflexo de sol no lago. A ventilação, mais humanitária que a que enfrentaram na missa, estimulava a troca de ideias, mas Vilson estava em outra, com um olho na mulher e o outro numa condecoração de trabalho. Polia a placa escura de metal, as letras douradas e a pedra lilás como se fossem medalhas, revezando cotonetes entre os dedos, levantando os óculos que recorriam em cair pelo nariz. Queria se exibir para as filhas e netas que os visitariam em algumas horas, dividir novidades, falar de suas vitórias para alguém além dos cachorros de todo dia.

As convidadas começaram a chegar às dez e meia e foram recebidas por Galvão Bueno e sua trupe, GP da Rússia de Fórmula 1 na tv: vinte profissionais do perigo descendo pé nos aceleradores, correndo mais que notícia ruim, ao vivo da Pátria Mãe para o mundo. A reunião familiar prometia mais solenidade e menos barulho que aquilo, marchas mais lentas e menos animosidade.

Eliane, primogênita, levou a maionese que roubou horas de seu dia anterior e a filha Beatriz, dezoito anos, malabarista de tupperwares e de panelas, preparou uma farofa magra e um creme brulée de sobremesa. Sônia, a do meio, chegou com as filhas Valentina e Alice, desde casa desoladas com a falta de wi fi por algumas horas, cheias de assuntos virtuais que só tratariam depois das lições de casa, sofredoras de suas primeiras abstinências. Janete, a caçula, chegou sedenta de caipirinha e mostrou serviço assumindo o fogo. Temperou a alcatra, cortou pepino em rodelas, quebrou folhas de alface e acendeu a churrasqueira. Queimou um pedacinho da camiseta ao aproximar demais o corpo do buraco na parede, mas se recompôs para continuar o trabalho sem interrupções, tomando cerveja como quem só vê chance de satisfação com a próxima. O carvão estalava, pedia mais. Linguiça, pão de alho e carne dividindo harmoniosamente a grelha, uma moldura de aço inox ideal para o domingo. Richard II, o golden retriever, ao lado, deitado sobre as patas dianteiras e esperando pela benevolência de seus donos, faminto do que quer que fosse desde que não fosse ração mais uma vez. Laffayette, o outro cachorro da casa, um cocker spaniel preto, nadava no laguinho.

O pai cruzou garfo e faca no prato e saiu. Largou um “deixa a louça comigo” nada convicto, já sentado na varanda, com as mãos na barriga. Juntou alpiste e aveia e jogou a mistura em cima do muro que separava sua propriedade da rua.  A calopsita Rosário se aproximou devagar, com as asas em v, sendo acompanhada pelas rolinhas da região. Os pássaros saciaram o desejo do velho de ver um esbalde, ele cheio da graça de um bom anfitrião, alegre em promover o banquete. Eliane se aproximou com um aparelho de pressão em mãos e esperou o pai oferecer o braço esquerdo. “Ninguém é de ferro, pode vir medir sem chororô”. Ele ergueu a manga da camisa de olho nas abóboras e repolhos que nasciam num canto, querendo envolver-se para sempre no amparo daquela mulher que já tinha sido bebê em seus braços. “12 por 8, cara, se livrou da dieta que eu ia sugerir, pode comemorar”. “Então traz meu copinho e aquela garrafa de Seleta de cima da geladeira, por favor”.

“A Era do Gelo 4” freou todo gasto de energia. Nem as crianças aguentaram. Hora de dormir. A tropa só acordou no segundo gol de Ponte Preta x Corinthians, pela final do Paulistão.

Ester pôs água para ferver e caçou o controle remoto para abaixar o volume. Arrumou o coador na garrafa, juntou pó de café, açúcar e adoçante em cima do balcão. Ouviu um guincho – terror sobre patas – um rato na porta. Valentina e Alice viram a mesma coisa e não quiseram ignorar o monstro – subiram no sofá gritando abraçadas, num misto de pavor e excitação. A senhora se armou de uma vassoura e expulsou a ameaça, o roedor que voltasse para o mato de onde saiu, que sumisse em nome da paz, ali não tinha nada para ele. As netas, reverentes, ainda viram a vovó heroína ajeitar a barra do vestido antes de voltar para o café com seu sorriso largo e vaidoso.

Laffayette, sujo de cavar no gramado, pulava e rodopiava na sala. Ainda não sabia, mas estava em preparação avançada para ser o novo detentor exclusivo dos carinhos da casa. Sônia levantou exalando desgraça, e o bicho fez cara de que entendia tudo. “O Richard II já tá com 13 anos e tá pra ir pra fita. Nessa idade, golden retriever não dura muito. Se passar desse Natal, não vai até o próximo, é articulação, é o veneno que ele tomou esses dias, é uma porrada de coisas”. As crianças abaixaram os olhos em silêncio, virgens de período de luto. Vilson não fazia média e respondeu a filha. “Sempre fui mais de mato que de bicho. E eu ainda vou pegar o safado que jogou chumbinho pra esse coisa, tô pra colocar câmeras na propriedade, o rapaz vem nessa semana mesmo, vocês que me esperem pra ver”.

Faustão parecia se divertir com alguém que caiu de bunda no chão. Vilson ainda enterrado no sofá, sem coragem de levantar nem para ir ao banheiro. Ester firme, recomposta pelo café e com uma bula de remédio na mão, trombou com a placa de homenagem do marido e pendurou no lugar certo, num quadro de madeira que tinha mandado instalar havia dias na parede da sala. A honraria ornava com o lugar. O circo se preparando para ir embora, os velhos loucos para esquentar água e, nela, misturar hortelã e alecrim para um escalda pés ao som dos grilos. Mas Ester nunca desistiu, e não estava disposta a começar. “Se você não quer trazer minha azinheira por bem, que seja pelo menos pra eu me esconder dessas porcarias de câmeras que cê quer colocar na chácara, homem. Toma jeito, rapaz”.

 

 

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Marco Antonio Santos