Pequeninha 0 575

Teus pés. Lembra, meu bem, como eu dizia que eram os mais bonitos que já vi? Sempre achei uma parte do corpo bela demais para ficar no chão, tão longe dos olhares. Gostava de massagear os seus. Trinta e quatro o seu número, né? Seus sapatinhos parecem de boneca.

E tuas coxas gordinhas, hoje estão mais brancas do que nunca. Como eu gostava de ficar entre elas. Sabe, eu reclamava de tuas saias curtas, mas no fundo sempre gostei. Acho que é coisa de homem reclamar dessas coisas.

Estamos quase prontos. Tenho que terminar esta mala. Será que vai caber tudo?

Ah, sua cicatriz no braço. É de infância, né? Você me contou uma vez. Foi passar por uma cerca de arame farpado e acabou se cortando. Quem dera todas as feridas fossem tão fáceis de se fechar. Olhe para você hoje. Aonde chegamos?

E tuas mãos, minha linda, veja como mesmo frias se entrelaçam às minhas. Tão miúdos os teus dedos, embora tão prazerosas fossem suas carícias. E a nossa aliança, onde está? Tirou para o banho? Bem, talvez eu deva procurá-la antes que a gente vá embora. Não podemos demorar muito.

É uma pena, meu amor, que as coisas tenham desandado desse jeito. Agora temos que partir. É, partir. Partir como esta borboleta que você leva no pescoço. Tão bela, mas tão frágil.

Você tem alguma bebida decente guardada nessa casa? Estou precisando de um trago. Aqui no armário, certo? Ah, sim, este uísque que você sempre guarda e nunca bebe. Estava guardando para mim, certo? Você é um amor, sempre me surpreende.

Isso aqui dá um trabalhão, querida, mas estou quase acabando. Posso levantar sua blusa? Quem sabe admirar seus seios me anime um pouco. Sabe, meu bem, cada partezinha do seu corpo costumava se juntar de forma tão perfeita. É mesmo uma pena que tenham que ficar separadas. Mas não há outra maneira.

Enquanto te desmancho, também me desmancho por dentro. Alguns diriam que é frieza, mas acredite, faço isso com todo o pesar deste mundo. A cada peça do teu corpo, um pedaço do meu coração é igualmente repartido. Um coração envenenado, apodrecido, mas ainda de carne, pulsante. É o instinto de sobrevivência eu acho. A gente faz coisa que nunca imaginava ser capaz.

É tão duro te perder. Não estava nos meus planos, mas aconteceu. Não posso me entregar, você entende? Você foi e sempre será a única a quem um dia eu me entreguei. Agora me resta lavar com lágrimas este chão de sangue.

Você sempre foi minha pequeninha. E veja só como isso é bom para mim agora, até nesse momento tão terrível. Acho que uma única mala bastará. Você sempre me surpreende.

 

Murilo

 

PS: Este conto inédito fez parte da edição especial do Obscenidade Digital no Jornal RelevO. Se você ainda não tem o seu exemplar em mãos, entre em contato com a gente 😉 

 

Crédito Foto:Nomadic Lass via Compfight cc

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Escala de Baumé 0 1918

Já não se criam mais homens de barro, apesar de continuarmos nos esfarelando. É aceito que hoje somos compostos por água e ansiedade. De barro só os tijolos, com que se ergueram os muros de nossas casas e prisões. A ansiedade só cresce.

Na primeira vez em que fui visitar o Jaime na clínica ficamos em silêncio por quase uma hora, quinze anos de amizade nos poupam de certos diálogos dispendiosos. No momento de ir embora ouvi com clareza o que seus olhos me diziam, não podia abandoná-lo, e não o fiz. Na semana seguinte houve a necessidade de falar, de abraçar, de chorar; é difícil permanecer impassível quando seu colega de quarto é internado após tentar serrar os pulsos com um serrote, dessa vez era isso que seus olhos e braços me diziam. Os suicidas estão à procura de sua própria justiça, na qual a morte é a sentença final. O Jaime não era um suicida, ao menos não nos moldes convencionais, já que tomar uma garrafa de destilado por dia vinha se mostrando uma técnica efetiva para findar com sua vida. Seus sorrisos tornaram-se raros, pequenas ilhas de alívio no caos murado da instituição; os espaços cada vez menores, a alma tumultuada, a mente entulhada. Não sei o que tive mais medo de ver, se um surto ou a depressão profunda, um conforto mórbido me tomava ao vê-lo flutuar entre ambas hipóteses. Foi na décima terceira semana que decidimos que algo precisava ser feito.

Nunca concordei com essa internação, entendo-a, não é fácil para família alguma ter alguém fora de controle, mas não posso compactuar com isso. Lá fora o Jaime era a materialização da beleza na desordem, um furacão que arrasa um campo de rosas para se encher de cor, aqui ele não passa de um sopro, incapaz de espalhar as pétalas de um dente de leão. Onde esse ímpeto se perdeu? Na abstenção do álcool ou da vontade própria? Troquei minhas mágoas pela vergonha depois de descobrir o motivo de não ter sido ouvido em algumas visitas; certo dia trocaram o Jaime de quarto, sem consentimento algum ele foi amarrado em sua cama e transferido para outro cômodo, frio e com janelas menores. A crise de identidade se apossou dele, não se sentia mais um homem, era agora objeto. Não tinha mais nome, por isso não atendia quando o chamavam, tornou-se coisa, dessas que trocamos de lugar por mero paisagismo e descartamos quando causam problemas. Definitivamente, não existe amor sem empatia.

Uma hóstia podre e carcomida pelos vermes ainda é o corpo de cristo? Era a pergunta que me fazia todos os dias em que tinha que encarar um Jesus deteriorado na sala de espera da clínica. Dois mil anos com os pulsos pregados, quanto tempo mais era possível aguentar esse tipo de tortura? Na décima quarta semana cumpri com o combinado, depois que o Jaime voltou a ser alguém, a gente mergulhou num saudosismo afável, de quando éramos quem queríamos ser: bêbados que culpavam o álcool pelas próprias frustrações artísticas.

Pouco dormi na semana que antecedeu esse dia, nos momentos em que o cansaço venceu a angústia sonhei com prédios ruindo, maldito sonho que não me abandona. Deixei o carro embaixo da figueira de sempre, há quem diga que ela é a árvore da vida, também dizem que foi onde se deu o enforcamento de Judas Iscariotes. Minhas mãos suam, agora seria incapaz de dar um nó em qualquer corda. Como já me é habitual, encaro Jesus, com todas as minhas dúvidas.

Enfim chamam pelo meu nome. No caminho até o quarto o enfermeiro elogia minha decisão de trazer toddynho e trakinas para meu amigo, diz que nos últimos dias os internos passaram à pão e água, só meneio com a cabeça. É minha vez de engolir as palavras, sento em frente a ele e respondo com os olhos o seu questionamento. Trouxe? Estico a mão e lhe entrego, sinto medo, receio, vontade de me livrar logo disso e seguir em frente. Ele sorri nervosamente, a ansiedade lhe obriga a contrair seu maxilar, tomado pela dúvida, se espera o momento certo ou se entrega agora. Suo frio, quero ir embora, mas não consigo nem me levantar, nem virar o rosto, ele fura a superfície de alumínio com o canudinho e bebe tudo num gole só. Sorri com leveza, me abraça com calor, me pede pra voltar na semana seguinte. Vou embora me arrastando, as costas arqueadas carregam o peso de uma cruz, quantas mentiras conseguimos contar durante a vida?

Procuro no calendário onde foram parar os dias da semana que se foi, não há negociação, já é véspera de visita novamente. Encaro a prateleira do supermercado, água de coco ou suco de laranja? Nunca fui um bom alquimista, li dia desses que vão menos conservantes na água de coco, sei lá que diferença isso faz. A cena é cinematográfica, chego em casa e busco a sacola com meu kit, me sinto um coadjuvante de Trainspotting com uma seringa pontuda em mãos. Furo o fundo da caixinha de água de coco e retiro metade do líquido, a mão que segura a garrafa de vodka treme, encho novamente a seringa e preencho a embalagem usando o mesmo furo de antes, tapo a abertura com um pedaço milimétrico de durex. Torno a pegar a garrafa de vodka, a mão ainda tremendo, sirvo uma dose e bebo num gole só. Choro, por mim e por todos os bêbados que insistiram em criar descrença em seus queridos. Sóbrios ou não, permanecemos assistindo a ansiedade tomar conta.

Crédito da Imagem: Robert Mapplethorpe

Chegada 0 3209

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai