Sob o assoalho 0 1231

Eu tinha acabado de almoçar e estava, há uns dez minutos, ainda sentada à mesa da copa, olhando a televisão. Olhando, mas não vendo, realmente.

Percebi então formiguinhas bem pequeninas andando sobre a mesa, perto da toalha. Eram muitas. No mínimo dez.

Saí daquela inércia e fui pegar papel toalha e álcool. Não sei por quê. Me pareceu uma boa ideia.

Tirei aquelas da mesa e as olhei, por breves segundos, se agitando no papel. Me perguntei de onde elas tinham vindo.

Afastei uma cadeira e lá estavam, várias outras, no assento. Com outro pedaço de papel recolhi aquelas, e continuei procurando de onde elas vinham.

Até que vi, próximas ao rodapé, outras tantas. Ainda com o álcool, passei outro pedaço de papel no chão, e vi muitas mais saírem debaixo dele.

Por pelo menos um minuto fiquei estupefata.

Quase sem pensar peguei uma faca da mesa e, já de cócoras, a enfiei por trás do rodapé, no vão que o separava da parede. A casa já não é tão nova, e há muito não tinha a manutenção adequada, então ele se descolou facilmente.

Mais formigas. Mais rodapé arrancado. Mais formigas.

Agora a sua trilha parecia se estender por baixo do assoalho. Os pequenos taquinhos de madeira, encaixados, se desprendiam facilmente. O que veio primeiro? O assoalho ou as formigas?

Afastei a mesa e continuei trabalhando.

O jornal virou novela, que virou filme, que virou novela e depois jornal e novela de novo. O céu lá fora foi do azul ao cinza e, depois da chuva, o sol se pôs e o pintou de tons de laranja e rosa.

A vida continuou lá fora, apesar de, aqui dentro, ela ter ficado suspensa por boa parte do dia. Eu nem havia percebido.

Tirei sofás e cadeiras e mesas e tudo o mais que pudesse haver no meu caminho. Nem me lembro quando foi que acendi as luzes.

Por todo o lado pedaços de madeira aqui e ali se empilhavam e eu parecia ter chegado, finalmente, ao centro do formigueiro.

Descobri que por baixo do assoalho houve, antes, outro; agora boa parte desse se assemelhava á terra, devido, provavelmente a ação das formigas e dos cupins.

Ou seja: a base da minha casa já estava podre.

Qualquer dia desses eu poderia acabar caindo sentada no meu porão, e, se tivesse sido no andar de cima, quem sabe um pedaço do teto aterrissaria sobre a minha cabeça.

Tá, tudo bem; talvez isso seja exagero. Mas eu já tinha visto em algum filme ou série de TV, mais de uma vez até, pessoas descompensadas revirando assoalhos atrás do barulho de algo ou de um inseto, como se tivessem sido disparados gatilhos silenciosos de loucura e busca incessante – disse isso a mim mesma, como se pudesse, dessa maneira, justificar a insanidade por trás do que eu estava fazendo.

No centro, depois de cavoucar naquela mistura já dura de sedimentos, eu a encontrei. Ela era muito maior e muito mais gorda do que todas as outras. Há quanto tempo ela estava lá, naquela mesma posição, sem sair sequer um centímetro do lugar, ano após ano?!

E, mais importante: o que fazer com ela?!

Levantei. Meus joelhos e cotovelos doíam, após eu ter passado tanto tempo sobre eles. Meus olhos também; mesmo os meus óculos não poderiam ter protegido minha vista cansada por tanto tempo.

Passei a mão suja na testa, pra impedir que o suor salgado ardesse nos meus olhos. Fui para a cozinha, e na pia lavei meu rosto. Peguei um pouco de gelo para as minhas mãos, que agora latejavam (mais do que a minha cabeça), e percebi como elas estavam avermelhadas, arranhadas e cheias de farpas.

Engoli vários copos de água gelada, e, com o canto dos olhos, vi a hora no relógio pendurado na parede. “Caralho, eu tinha consulta marcada pra hoje! E aula também! Quanta ligação perdida não deve ter no celular?!… Merda… Espero que ninguém tenha deixado recado de voz. Meus créditos estão acabando, e eu odeio ver aquele simbolozinho na tela. Parece que ele é um lembrete da minha infinita falta de interesse nessa vida que eu venho levando”.

Pela porta vi tudo revirado e amontoado, as pilhas de taquinhos aqui e ali, e aqueles montinhos que lembravam terra.

A vida se infiltrou, de uma maneira estranha e única, por entre frestas, nichos, sedimentos e pó, e se estabeleceu, já há anos, logo abaixo dos nossos pés. Transitamos sobre ela vezes incontáveis, totalmente ignorantes quando a sua existência.

“O que diabos eu vou fazer com essa bagunça agora? Encaixar tudo de volta no lugar, como se nada tivesse acontecido?!”. E se chegasse alguém pra visitar?

Esse pensamento até me provocou uma risada, que saiu da minha boca como uma tosse (há horas eu não dizia nada – em voz alta); há dias, meses, e talvez anos ninguém aparecia para visitar.

Mas e o que fazer com ela?!

“Me desculpem por ter matado outras companheiras… Mas eu posso ser sua nova rainha!… Se bem que eu mal consigo reinar na minha própria vida…”.

Caí então num transe incrédulo: como é que eu fui fazer aquilo?! Eu nem mesmo me considero uma pessoa impulsiva!

Mas elas mexeram comigo… Pequenas, curiosas, errantes, andando e explorando pra lá e pra cá. Perseverantes, escusas, infiltradas. O que é e onde se escondem de mim?!

Hoje ela vive. Hoje o ponto é de vocês.

“Eu preciso ir tirar essas farpas das mãos, se os meus olhos e coordenação motora me permitirem. Preciso tomar um banho e ir dormir, porque amanhã de manhã eu tenho que tentar remarcar a consulta e a aula”.

Subi as escadas e tomei um banho frio, pra tentar aplacar o inchaço e o calor.

Eu poderia dizer que deitei, mas na verdade tombei na cama, ao som do mala do vizinho, mais uma vez abrindo incontáveis latas de cerveja, e ouvindo e cantando Capital Inicial. Que vibe

Pensei comigo que isso era pra fechar a surrealidade do dia de hoje com chave de ouro, pouco antes dos meus olhos fecharem e ele cantar desafinado “… e eu acordei sem saber se era um sonho…”.

 

Texto da amiga Maritsa Kantikas.

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Frio de matar Mendigo 0 2393

Estamos na copa de 2018, no Brasil, uma manhã chuvosa e um frio de matar mendigo, enfim, o descrito se consumou, estava indo até o posto próximo a minha casa e para chegar até o posto eu tinha que passar por uma trincheira, estava eu, fumando meu cigarrinho, eram exatamente 6:48 da manhã, quando, começo escutar um som de um violão e uma voz meio rouca, com soluços e demonstrando um tanto de álcool no sangue do seu portador, cantando o seguinte refrão:

– um toque de bola

– é nossa escola

– nossa maior ambição

– estou nas trincheiras

– Minha companheira pro frio, não resistiu

– enfim, esse é nosso Brasil

Em seu violão de apenas 3 cordas, esse mendigo, parecia ser o melhor no que fazia, chegando mais perto, percebi que ao seu lado, havia um corpo, enrolado em uma coberta, creio eu, que a única coberta que existia para eles dois, então, decidi parar e perguntar a ele o que havia acontecido, claro, que, eu já tinha uma certa noção do que tinha se passado, afinal, como disse no começo, estávamos na época em que o frio avassalador das cidades do Sul matavam mendigos.

– Olá meu amigo, desculpa lhe interromper, mas será que eu posso lhe ajudar de alguma forma?

– Olá meu senhor, eu não quer ser grosso com o senhor, mas, você só poderá me ajudar se tiver uma forma de voltar no tempo, você consegue?

– Pouts, infelizmente eu não consigo te ajudar desta forma, mas, me conte o que realmente aconteceu e vejo como posso te ajudar.

– Então senhor, essa é a resposta que eu estou acostumado a ouvir todos os dias, me perdoe, qual é seu nome?

– Meu nome é Roberto, amigo, e o seu qual é?

– Então seu Roberto, eu já não consigo lembrar meu nome, pois, de tão acostumado que estou em ouvir as pessoas me chamarem de mendigo, vagabundo, sem vergonha e ladrão, acabei que esqueci o meu nome verdadeiro, mas, se quiser, pode me chamar Zé, afinal, sou um Zé ninguém.

Nesse momento, eu fiquei sem palavras, por pelo menos uns 2 minutos, olhando para aquele mendigo que estava desacreditado totalmente da vida e de sua existência e claro, não conseguia deixar de olhar para aquilo enrolado no coberto, que parecia realmente um corpo, quando consegui voltar daquele “transe” eu criei coragem e perguntei.

– Então, não vou lhe chamar de Zé, pois, pra mim, você não é um Zé ninguém, irei lhe chamar de amigo, até que você consiga lembrar o seu nome e queira me falar, até lá, me perdoe, você pode me dizer quem está deitado aí do seu lado? Aquilo que você estava cantando realmente aconteceu?

– HAHAHAHA, Senhor Roberto, o senhor é engraçado, nunca, desde que eu perdi tudo, ninguém parou para me ouvir por mais de 1 minuto e agora você me aparece querendo conversar comigo, olha, eu não sou de falar meu nome para os outros, afinal, ninguém se preocupou em perguntar, eu não esqueci meu nome não, como você me parece ser alguém legal, meu nome é Heitor, a, em relação ao que você me perguntou sobre o que estava cantando, sim, é verdade.

Mais alguns minutos de silêncio, pois, foi a primeira vez que eu vi o fato consumado de algo que eu sempre ouvi falar.

– Heitor, poxa, que nome forte meu amigo, fico infeliz pelo que aconteceu, mas, quem de fato era essa pessoa que estava lhe acompanhando?

– Então, essa pessoa que estava me acompanhando, desde que perdi tudo é alguém que eu encontrei nas ruas meu nobre, é a única pessoa que me ofereceu metade da comida que ela tinha, metade do cobertor, metade da bebida, metade do dinheiro e o seu coração, ela, enxergou em mim o que mais ninguém da minha “família” conseguiu enxergar, logo que perdi todo o dinheiro que eu tinha, o emprego, eu fui expulso de casa, com uma mão na frente e outra atrás, eu não gosto de lembra dessa época, então, vou para de falar por aqui e agora, sabe aquele pergunta que o senhor me fez? Sobre me ajudar de alguma forma? O Senhor pode sim, me faz o favor de ligar para alguém e pedir para vir aqui e outro favor que lhe peço, de coração, me deixe sozinho com a minha amada, preciso me despedir, por favor, vá, sem falar uma palavra e nem sequer olha para trás, pois, nos dias em que eu precisava, foi exatamente o você e milhares de pessoas fizeram, um forte abraço e reflita.

Eu já não queria mais importunar o Heitor, porém, peguei uns trocados do meu bolso, como um sinal de rendição por todas as vezes que o ignorei e coloquei ao lado do corpo enrolado na coberta, voltei a acender o meu cigarro que havia apagado por falta de tragadas, não olhei para ele, nem para o corpo e apertei o passo em direção ao posto, comprei mais uma carteira de cigarro, uma bebidas e voltei pelo mesmo caminho, desta vez, preferi atravessar a rua, desde então, nunca mais o vi.

Texto: Giovane Santos
Ilustração: Helton de Prado Carvalho

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 2645

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”