Irmão 1 99

Antonio, meu irmão mais velho, é o tipo de pessoa que se sente completamente revigorada após um tempo admirando as estrelas, e eu sempre o admirei por isso. Trinta minutos são suficientes para apagar um dia inteiro de olhares desconfiados. Enquanto lavo a louça do jantar, observo ele cumprindo seu ritual no jardim, com a cabeça do Luke apoiado sobre seu peito. A melhor parte dos cachorros é que eles fazem questão de deixar claro o quanto nos amam, e talvez isso seja tudo que meu irmão precisa nesse momento. Amor e um punhado de estrelas.

As pessoas nunca acreditam quando ele diz que somos irmãos. É preciso que eu dê a notícia, para que ela pareça autêntica. Como se ele pudesse ter alguma vantagem em se passar por membro de uma família da qual não pertence. São nesses pequenos detalhes que a vida se revela. A verdade é que somos meio-irmãos, e não deve ter sido fácil para ele, na época um garoto negro de 3 anos, crescer em uma família de pessoas desastrosamente ruivas.

Eu nasci 2 anos depois e, como todo irmão mais velho, ele foi minha babá por boa parte de nossas vidas. Cresci com um guarda-costas que precisava me proteger das brigas que eu arrumava para defendê-lo. Eu me estragava profundamente cada vez que alguém lhe entortava uma palavra. Aquilo me fervia por dentro, e eu partia para cima, provavelmente pela certeza do amparo de um amigo cada vez mais alto e forte, a despeito de seus tratos amáveis com qualquer um. Além de me defender, fazia uma piada e dizia que estava tudo bem. Saía amigo de seus maltratores, ou quase isso. Voltávamos para casa andando em silêncio, enquanto eu morria de vergonha por não ser metade da pessoa que me acompanhava, e ele ia pensando na piada que faria sobre a barriga de seu pai no momento em que abríssemos a porta. Todos riam, minha mãe servia o jantar, e ele subia até o terraço para se sentir mais perto do céu, abraçado pelo acolhimento da noite.

Com o passar dos anos e a chegada da vida adulta, Antonio passou a fazer isso cada vez com mais frequência, mas raramente sabíamos o que havia motivado aquilo. Hoje, por acaso, ele me contou durante o jantar. Estando desempregado há uns 8 meses, Antonio se dirigia a mais uma entrevista em uma empresa que abrira vagas. Desceu do ônibus e caminhava em direção à entrada do prédio, quando um homem que estava estacionado em frente fechou os vidros às pressas, assustado com sua aproximação. Antonio diz ter percebido, mas ignorou e continuou andando até a entrada do prédio, de onde foi encaminhado para uma sala de espera no 13° andar. Cerca de quinze minutos depois, o mesmo homem que fechara a janela estava sentado à sua frente para entrevistá-lo, como se nada tivesse acontecido. Lágrimas corriam de seu rosto enquanto me contava “como ele iria me dar aquela vaga, depois de achar que eu estava ali para roubar seu carro?”, e eu me desfaço em pranto lembrando de suas palavras. A vontade é de me transformar em uma sombra grande o suficiente para cobrir a cidade inteira e fazer com que essas estrelas brilhem mais forte, e a luz ofusque a tristeza de seu coração. Sem perceber, a raiva me consome e quebro o copo que estava lavando. Acontece que mesmo uma vida inteira depois, ainda não sou nem metade da pessoa que ele é.

Escrito por André Petrini
Ilustrado por Caroline Rehbein

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Tenho cá pra mim que deveria ser obrigatório parar pra saborear a lua por uns minutos quando ela está imensa lá no céu. Deveria ser mesmo uma lei: não admirou a lua cheia nesta quinta-feira? Vem a multa pelo correio. Não deu uma mordidinha sequer durante toda a semana? Vem a polícia da lua até a sua casa para ver o que se passa. Algo não está a correr bem.

Naquela época, as coisas não estavam mesmo bem. Quando as manchas começaram a aparecer , foi um desespero. Google, médicos, Google, exames, Google, dermatologistas, diagnósticos, tratamentos. Céus! Não era coisa que se pudesse esconder, aí é que estava o medo. Na pele. O medo era feito de manchas e as manchas eram feitas de medo. Céus! Foi minha família que me segurou, se não eu não aguentava. Juro que não aguentava. Eu queria quebrar os espelhos, queria que as selfies não estivessem mais na moda. Que as pessoas fossem um pouco mais cegas dos olhos e menos do coração.

Então uma vez estávamos eu e a minha filha sentados na varanda da casa de veraneio. Começava a anoitecer. Ela tinha nessa época uns sete anos de idade e um mundo inteiro por descobrir.  Admirávamos o céu, como há muito tempo eu não fazia.

Ela disse: “Olha, mãe, a lua tem manchas igual você”.

E depois: “Ela é linda, não é?”

E então a lua que move marés formou um oceano inteiro dentro dos meus olhos.

Nunca estivera tão feliz. Abracei a pequena; clarear a noite dela me bastava. Porque eu era também o reflexo do reflexo. Destas luas que não ficam bem em qualquer foto. Destas que têm manchas e crateras, sim, mas que balançam os mares e iluminam toda uma vida. E que giram e giram e giram e às vezes cometem suspiros dentro do peito dos poetas.

 

Murilo.

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”