Irmão 1 147

Antonio, meu irmão mais velho, é o tipo de pessoa que se sente completamente revigorada após um tempo admirando as estrelas, e eu sempre o admirei por isso. Trinta minutos são suficientes para apagar um dia inteiro de olhares desconfiados. Enquanto lavo a louça do jantar, observo ele cumprindo seu ritual no jardim, com a cabeça do Luke apoiado sobre seu peito. A melhor parte dos cachorros é que eles fazem questão de deixar claro o quanto nos amam, e talvez isso seja tudo que meu irmão precisa nesse momento. Amor e um punhado de estrelas.

As pessoas nunca acreditam quando ele diz que somos irmãos. É preciso que eu dê a notícia, para que ela pareça autêntica. Como se ele pudesse ter alguma vantagem em se passar por membro de uma família da qual não pertence. São nesses pequenos detalhes que a vida se revela. A verdade é que somos meio-irmãos, e não deve ter sido fácil para ele, na época um garoto negro de 3 anos, crescer em uma família de pessoas desastrosamente ruivas.

Eu nasci 2 anos depois e, como todo irmão mais velho, ele foi minha babá por boa parte de nossas vidas. Cresci com um guarda-costas que precisava me proteger das brigas que eu arrumava para defendê-lo. Eu me estragava profundamente cada vez que alguém lhe entortava uma palavra. Aquilo me fervia por dentro, e eu partia para cima, provavelmente pela certeza do amparo de um amigo cada vez mais alto e forte, a despeito de seus tratos amáveis com qualquer um. Além de me defender, fazia uma piada e dizia que estava tudo bem. Saía amigo de seus maltratores, ou quase isso. Voltávamos para casa andando em silêncio, enquanto eu morria de vergonha por não ser metade da pessoa que me acompanhava, e ele ia pensando na piada que faria sobre a barriga de seu pai no momento em que abríssemos a porta. Todos riam, minha mãe servia o jantar, e ele subia até o terraço para se sentir mais perto do céu, abraçado pelo acolhimento da noite.

Com o passar dos anos e a chegada da vida adulta, Antonio passou a fazer isso cada vez com mais frequência, mas raramente sabíamos o que havia motivado aquilo. Hoje, por acaso, ele me contou durante o jantar. Estando desempregado há uns 8 meses, Antonio se dirigia a mais uma entrevista em uma empresa que abrira vagas. Desceu do ônibus e caminhava em direção à entrada do prédio, quando um homem que estava estacionado em frente fechou os vidros às pressas, assustado com sua aproximação. Antonio diz ter percebido, mas ignorou e continuou andando até a entrada do prédio, de onde foi encaminhado para uma sala de espera no 13° andar. Cerca de quinze minutos depois, o mesmo homem que fechara a janela estava sentado à sua frente para entrevistá-lo, como se nada tivesse acontecido. Lágrimas corriam de seu rosto enquanto me contava “como ele iria me dar aquela vaga, depois de achar que eu estava ali para roubar seu carro?”, e eu me desfaço em pranto lembrando de suas palavras. A vontade é de me transformar em uma sombra grande o suficiente para cobrir a cidade inteira e fazer com que essas estrelas brilhem mais forte, e a luz ofusque a tristeza de seu coração. Sem perceber, a raiva me consome e quebro o copo que estava lavando. Acontece que mesmo uma vida inteira depois, ainda não sou nem metade da pessoa que ele é.

Escrito por André Petrini
Ilustrado por Caroline Rehbein

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Dai-me Amor 0 248

Deus foi a primeira palavra que eu aprendi. Antes mesmo de aprender meu nome. Quando se é criança, os adultos tentam nos ensinar as coisas dos jeitos mais variados. Criança só aprende brincando. Minha mãe mandava eu pintar todos os “Deus” que eu achasse na Bíblia. Ela me disse que Deus sempre existiu e nunca nasceu. Perguntei como Ele se parecia. Ela disse que não sabia, pois a glória dEle é tão grande que era como olhar pro Sol. Tentei olhar pro Sol, ardeu.

Depois de pintar tudo, eu aprendi a palavra Jesus. Ela me disse que Jesus é a encarnação do amor, é quem criou todas as coisas. É filho de Deus com uma humana, Maria. Me disse que tem barba e cabelo grande. E que seu olhar muda e transforma escuridão em luz.

Mais tarde ela me falou pra pintar o “Espírito Santo” e disse que Ele não tem forma, corpo ou manifestação material. Já foi pomba no batismo de Jesus, mas também é descrito como o brilho da Glória de Deus. Ela me explicou que Deus se manifesta na trindade. E que eu podia falar com Ele(s) quando eu quisesse. Bastava orar e, é claro, com todo o respeito. E que quando eu orasse deveria confessar meus erros e pedir perdão. Deveria agradecer pelas dádivas e pela bênção da vida. Que deveria contar sobre meu dia, sobre meus medos, descobertas e felicidades. Foi assim que Jesus se tornou meu melhor amigo. Meu amigo imaginário. Meu Deus. Minha mãe me ensinou um bocado de coisas sobre a Bíblia, o céu e sobre como a vida nessa terra é passageira, é escola, é aprendizado, nada é por acaso, nada é destino. Tudo é providencial. Providência divina. Tudo de bom e tudo de ruim tem como propósito nos ensinar sobre Deus, e como Ele age em nossas vidas. Ela me contou que se eu deixasse, Ele poderia morar dentro do meu coração, e assim, o divino habitaria em mim. Disse também, que Jesus vai voltar pra levar os justos pro céu. Perguntei como eu fazia pra ir pro céu, ela me disse que imitando a Jesus, O aceitando como meu Deus e salvador, sua Graça me salvaria independente das obras. Me ensinou que só a religião dela era a correta e junto com essa religião muitas regrinhas, que eu nunca consegui seguir. Por muito tempo achei que por causa da parte que eu não cumpria, Deus não habitava em mim. Me senti perdida, vazia. Comecei a me odiar. Acelerar minha morte. A vida muitas vezes deixa de fazer sentido. Acontece que eu sou muito como Tomé, só acredito vendo. E como acreditar em alguém que eu só ouvi falar e que ninguém nunca viu? Com nove anos veio a primeira dúvida sobre a volta de Jesus. Junto com a dúvida veio a primeira vez que senti Deus falando comigo. Foi diferente de pensar. Foi quase como ouvir palavras que não foram pensadas. Eu ouvi: “Não desista, porque Eu não desisti de você”. Depois desse episódio nunca mais ouvi ele nos meus pensamentos, achei que era coisa de criança ter amigos imaginários, mas vira e mexe alguém usado por Ele me lembrava sobre não desistir de conhecê-Lo e procurá-Lo. E nessa eu vi que Ele não estava na religião. Não estava em uma igreja específica, não era o “não pode” tão popular. Compreendi o que significava Graça e aceitei a minha salvação. Aceitei a trindade e aceitei a minha mãe. Compreendi que amar nada tem haver com sexo ou paixão. Amor transcende toda essa metáfora feita de carbono que chamamos de realidade. Aceitei meu corpo, que foi presente de Deus pro meu espírito habitar. Espírito esse que saiu dEle.

A segunda vez que Deus falou comigo eu já não era mais criança, foi quando percebi que Deus não é religião e um bocado de regrinhas. Ele está onde há luz. E Ele deixou luz em tudo. Tomei um chá com Ele. Meu espírito saiu do corpo e subiu. Contemplei a Glória divina e senti meu espírito ir alto e mais alto. Eu vi a Deus e diferente do que minha mãe dizia, é como olhar pro Sol, mas os olhos não ardem. E Ele me disse: você é um anjo. Você é luz! Você está pronta!

Mateus 5:8 “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.”

 

 

Vida comum parte 1 0 389

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.