Irmão 1 917

Antonio, meu irmão mais velho, é o tipo de pessoa que se sente completamente revigorada após um tempo admirando as estrelas, e eu sempre o admirei por isso. Trinta minutos são suficientes para apagar um dia inteiro de olhares desconfiados. Enquanto lavo a louça do jantar, observo ele cumprindo seu ritual no jardim, com a cabeça do Luke apoiado sobre seu peito. A melhor parte dos cachorros é que eles fazem questão de deixar claro o quanto nos amam, e talvez isso seja tudo que meu irmão precisa nesse momento. Amor e um punhado de estrelas.

As pessoas nunca acreditam quando ele diz que somos irmãos. É preciso que eu dê a notícia, para que ela pareça autêntica. Como se ele pudesse ter alguma vantagem em se passar por membro de uma família da qual não pertence. São nesses pequenos detalhes que a vida se revela. A verdade é que somos meio-irmãos, e não deve ter sido fácil para ele, na época um garoto negro de 3 anos, crescer em uma família de pessoas desastrosamente ruivas.

Eu nasci 2 anos depois e, como todo irmão mais velho, ele foi minha babá por boa parte de nossas vidas. Cresci com um guarda-costas que precisava me proteger das brigas que eu arrumava para defendê-lo. Eu me estragava profundamente cada vez que alguém lhe entortava uma palavra. Aquilo me fervia por dentro, e eu partia para cima, provavelmente pela certeza do amparo de um amigo cada vez mais alto e forte, a despeito de seus tratos amáveis com qualquer um. Além de me defender, fazia uma piada e dizia que estava tudo bem. Saía amigo de seus maltratores, ou quase isso. Voltávamos para casa andando em silêncio, enquanto eu morria de vergonha por não ser metade da pessoa que me acompanhava, e ele ia pensando na piada que faria sobre a barriga de seu pai no momento em que abríssemos a porta. Todos riam, minha mãe servia o jantar, e ele subia até o terraço para se sentir mais perto do céu, abraçado pelo acolhimento da noite.

Com o passar dos anos e a chegada da vida adulta, Antonio passou a fazer isso cada vez com mais frequência, mas raramente sabíamos o que havia motivado aquilo. Hoje, por acaso, ele me contou durante o jantar. Estando desempregado há uns 8 meses, Antonio se dirigia a mais uma entrevista em uma empresa que abrira vagas. Desceu do ônibus e caminhava em direção à entrada do prédio, quando um homem que estava estacionado em frente fechou os vidros às pressas, assustado com sua aproximação. Antonio diz ter percebido, mas ignorou e continuou andando até a entrada do prédio, de onde foi encaminhado para uma sala de espera no 13° andar. Cerca de quinze minutos depois, o mesmo homem que fechara a janela estava sentado à sua frente para entrevistá-lo, como se nada tivesse acontecido. Lágrimas corriam de seu rosto enquanto me contava “como ele iria me dar aquela vaga, depois de achar que eu estava ali para roubar seu carro?”, e eu me desfaço em pranto lembrando de suas palavras. A vontade é de me transformar em uma sombra grande o suficiente para cobrir a cidade inteira e fazer com que essas estrelas brilhem mais forte, e a luz ofusque a tristeza de seu coração. Sem perceber, a raiva me consome e quebro o copo que estava lavando. Acontece que mesmo uma vida inteira depois, ainda não sou nem metade da pessoa que ele é.

Escrito por André Petrini
Ilustrado por Caroline Rehbein

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Escala de Baumé 0 2219

Já não se criam mais homens de barro, apesar de continuarmos nos esfarelando. É aceito que hoje somos compostos por água e ansiedade. De barro só os tijolos, com que se ergueram os muros de nossas casas e prisões. A ansiedade só cresce.

Na primeira vez em que fui visitar o Jaime na clínica ficamos em silêncio por quase uma hora, quinze anos de amizade nos poupam de certos diálogos dispendiosos. No momento de ir embora ouvi com clareza o que seus olhos me diziam, não podia abandoná-lo, e não o fiz. Na semana seguinte houve a necessidade de falar, de abraçar, de chorar; é difícil permanecer impassível quando seu colega de quarto é internado após tentar serrar os pulsos com um serrote, dessa vez era isso que seus olhos e braços me diziam. Os suicidas estão à procura de sua própria justiça, na qual a morte é a sentença final. O Jaime não era um suicida, ao menos não nos moldes convencionais, já que tomar uma garrafa de destilado por dia vinha se mostrando uma técnica efetiva para findar com sua vida. Seus sorrisos tornaram-se raros, pequenas ilhas de alívio no caos murado da instituição; os espaços cada vez menores, a alma tumultuada, a mente entulhada. Não sei o que tive mais medo de ver, se um surto ou a depressão profunda, um conforto mórbido me tomava ao vê-lo flutuar entre ambas hipóteses. Foi na décima terceira semana que decidimos que algo precisava ser feito.

Nunca concordei com essa internação, entendo-a, não é fácil para família alguma ter alguém fora de controle, mas não posso compactuar com isso. Lá fora o Jaime era a materialização da beleza na desordem, um furacão que arrasa um campo de rosas para se encher de cor, aqui ele não passa de um sopro, incapaz de espalhar as pétalas de um dente de leão. Onde esse ímpeto se perdeu? Na abstenção do álcool ou da vontade própria? Troquei minhas mágoas pela vergonha depois de descobrir o motivo de não ter sido ouvido em algumas visitas; certo dia trocaram o Jaime de quarto, sem consentimento algum ele foi amarrado em sua cama e transferido para outro cômodo, frio e com janelas menores. A crise de identidade se apossou dele, não se sentia mais um homem, era agora objeto. Não tinha mais nome, por isso não atendia quando o chamavam, tornou-se coisa, dessas que trocamos de lugar por mero paisagismo e descartamos quando causam problemas. Definitivamente, não existe amor sem empatia.

Uma hóstia podre e carcomida pelos vermes ainda é o corpo de cristo? Era a pergunta que me fazia todos os dias em que tinha que encarar um Jesus deteriorado na sala de espera da clínica. Dois mil anos com os pulsos pregados, quanto tempo mais era possível aguentar esse tipo de tortura? Na décima quarta semana cumpri com o combinado, depois que o Jaime voltou a ser alguém, a gente mergulhou num saudosismo afável, de quando éramos quem queríamos ser: bêbados que culpavam o álcool pelas próprias frustrações artísticas.

Pouco dormi na semana que antecedeu esse dia, nos momentos em que o cansaço venceu a angústia sonhei com prédios ruindo, maldito sonho que não me abandona. Deixei o carro embaixo da figueira de sempre, há quem diga que ela é a árvore da vida, também dizem que foi onde se deu o enforcamento de Judas Iscariotes. Minhas mãos suam, agora seria incapaz de dar um nó em qualquer corda. Como já me é habitual, encaro Jesus, com todas as minhas dúvidas.

Enfim chamam pelo meu nome. No caminho até o quarto o enfermeiro elogia minha decisão de trazer toddynho e trakinas para meu amigo, diz que nos últimos dias os internos passaram à pão e água, só meneio com a cabeça. É minha vez de engolir as palavras, sento em frente a ele e respondo com os olhos o seu questionamento. Trouxe? Estico a mão e lhe entrego, sinto medo, receio, vontade de me livrar logo disso e seguir em frente. Ele sorri nervosamente, a ansiedade lhe obriga a contrair seu maxilar, tomado pela dúvida, se espera o momento certo ou se entrega agora. Suo frio, quero ir embora, mas não consigo nem me levantar, nem virar o rosto, ele fura a superfície de alumínio com o canudinho e bebe tudo num gole só. Sorri com leveza, me abraça com calor, me pede pra voltar na semana seguinte. Vou embora me arrastando, as costas arqueadas carregam o peso de uma cruz, quantas mentiras conseguimos contar durante a vida?

Procuro no calendário onde foram parar os dias da semana que se foi, não há negociação, já é véspera de visita novamente. Encaro a prateleira do supermercado, água de coco ou suco de laranja? Nunca fui um bom alquimista, li dia desses que vão menos conservantes na água de coco, sei lá que diferença isso faz. A cena é cinematográfica, chego em casa e busco a sacola com meu kit, me sinto um coadjuvante de Trainspotting com uma seringa pontuda em mãos. Furo o fundo da caixinha de água de coco e retiro metade do líquido, a mão que segura a garrafa de vodka treme, encho novamente a seringa e preencho a embalagem usando o mesmo furo de antes, tapo a abertura com um pedaço milimétrico de durex. Torno a pegar a garrafa de vodka, a mão ainda tremendo, sirvo uma dose e bebo num gole só. Choro, por mim e por todos os bêbados que insistiram em criar descrença em seus queridos. Sóbrios ou não, permanecemos assistindo a ansiedade tomar conta.

Crédito da Imagem: Robert Mapplethorpe

Chegada 0 3482

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai