Texto de em 30 de julho de 2015 . 1 comentário.

Antonio, meu irmão mais velho, é o tipo de pessoa que se sente completamente revigorada após um tempo admirando as estrelas, e eu sempre o admirei por isso. Trinta minutos são suficientes para apagar um dia inteiro de olhares desconfiados. Enquanto lavo a louça do jantar, observo ele cumprindo seu ritual no jardim, com a cabeça do Luke apoiado sobre seu peito. A melhor parte dos cachorros é que eles fazem questão de deixar claro o quanto nos amam, e talvez isso seja tudo que meu irmão precisa nesse momento. Amor e um punhado de estrelas.

As pessoas nunca acreditam quando ele diz que somos irmãos. É preciso que eu dê a notícia, para que ela pareça autêntica. Como se ele pudesse ter alguma vantagem em se passar por membro de uma família da qual não pertence. São nesses pequenos detalhes que a vida se revela. A verdade é que somos meio-irmãos, e não deve ter sido fácil para ele, na época um garoto negro de 3 anos, crescer em uma família de pessoas desastrosamente ruivas.

Eu nasci 2 anos depois e, como todo irmão mais velho, ele foi minha babá por boa parte de nossas vidas. Cresci com um guarda-costas que precisava me proteger das brigas que eu arrumava para defendê-lo. Eu me estragava profundamente cada vez que alguém lhe entortava uma palavra. Aquilo me fervia por dentro, e eu partia para cima, provavelmente pela certeza do amparo de um amigo cada vez mais alto e forte, a despeito de seus tratos amáveis com qualquer um. Além de me defender, fazia uma piada e dizia que estava tudo bem. Saía amigo de seus maltratores, ou quase isso. Voltávamos para casa andando em silêncio, enquanto eu morria de vergonha por não ser metade da pessoa que me acompanhava, e ele ia pensando na piada que faria sobre a barriga de seu pai no momento em que abríssemos a porta. Todos riam, minha mãe servia o jantar, e ele subia até o terraço para se sentir mais perto do céu, abraçado pelo acolhimento da noite.

Com o passar dos anos e a chegada da vida adulta, Antonio passou a fazer isso cada vez com mais frequência, mas raramente sabíamos o que havia motivado aquilo. Hoje, por acaso, ele me contou durante o jantar. Estando desempregado há uns 8 meses, Antonio se dirigia a mais uma entrevista em uma empresa que abrira vagas. Desceu do ônibus e caminhava em direção à entrada do prédio, quando um homem que estava estacionado em frente fechou os vidros às pressas, assustado com sua aproximação. Antonio diz ter percebido, mas ignorou e continuou andando até a entrada do prédio, de onde foi encaminhado para uma sala de espera no 13° andar. Cerca de quinze minutos depois, o mesmo homem que fechara a janela estava sentado à sua frente para entrevistá-lo, como se nada tivesse acontecido. Lágrimas corriam de seu rosto enquanto me contava “como ele iria me dar aquela vaga, depois de achar que eu estava ali para roubar seu carro?”, e eu me desfaço em pranto lembrando de suas palavras. A vontade é de me transformar em uma sombra grande o suficiente para cobrir a cidade inteira e fazer com que essas estrelas brilhem mais forte, e a luz ofusque a tristeza de seu coração. Sem perceber, a raiva me consome e quebro o copo que estava lavando. Acontece que mesmo uma vida inteira depois, ainda não sou nem metade da pessoa que ele é.

Escrito por André Petrini
Ilustrado por Caroline Rehbein

  • Maria Teresa Rodrigues Fanha

    Excelente …parabéns.