Uma tentativa de eternidade 0 670

Estas linhas são sobre o momento em que o sol se lançou corajoso no abismo do horizonte de ontem. Carregava consigo a invejável certeza de que teria forças para regressar pelo lado de lá. É sobretudo uma daquelas tentativas de promover o efêmero à eternidade –  com algo de poesia.

Um olhar descolorido poderia até dizer que o sol sequer saiu do lugar, que nós é que feito mariposas ofuscadas giramos em torno da lâmpada, sem nos importarmos com um pra-onde-ir.

Verdade é que nunca nos preocupamos com as coisas como de fato são. Queremos apenas classificá-las de acordo com nossas percepções. Se sentei aqui, foi para escrever sobre o que senti ao ser tragado pelo vazio da noite de ontem, que sequer-um-abraço.

Em momento algum nos deixamos avisar pela vida sobre o que ela pretende de nós. Se nos detemos diante do orvalho na flor, é pela nossa necessidade de um suspiro n’alma. Queremos o sorriso da criança para o nosso deleite. Não nos importamos com a felicidade que ali brotou.

Sentimos o mundo à nossa disposição, sem nos darmos conta de que somos apenas mais uma alegoria na beleza de uma grandiosidade que nos foge à compreensão. Algo que já foi Deus. Que hoje é mistério. E que amanhã estará passível de uma nova interpretação.

Algo que tentaremos eternizar, com a mesma eficácia com que buscamos absorver a vida que nos envolve por esses dias em que a noite absorve o sol. E que passam. Um a um.

texto: Rafael Antunes
colagem: Katia Villagra

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Vida comum parte 1 0 129

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.

Frio de matar Mendigo 0 132

Estamos na copa de 2018, no Brasil, uma manhã chuvosa e um frio de matar mendigo, enfim, o descrito se consumou, estava indo até o posto próximo a minha casa e para chegar até o posto eu tinha que passar por uma trincheira, estava eu, fumando meu cigarrinho, eram exatamente 6:48 da manhã, quando, começo escutar um som de um violão e uma voz meio rouca, com soluços e demonstrando um tanto de álcool no sangue do seu portador, cantando o seguinte refrão:

– um toque de bola

– é nossa escola

– nossa maior ambição

– estou nas trincheiras

– Minha companheira pro frio, não resistiu

– enfim, esse é nosso Brasil

Em seu violão de apenas 3 cordas, esse mendigo, parecia ser o melhor no que fazia, chegando mais perto, percebi que ao seu lado, havia um corpo, enrolado em uma coberta, creio eu, que a única coberta que existia para eles dois, então, decidi parar e perguntar a ele o que havia acontecido, claro, que, eu já tinha uma certa noção do que tinha se passado, afinal, como disse no começo, estávamos na época em que o frio avassalador das cidades do Sul matavam mendigos.

– Olá meu amigo, desculpa lhe interromper, mas será que eu posso lhe ajudar de alguma forma?

– Olá meu senhor, eu não quer ser grosso com o senhor, mas, você só poderá me ajudar se tiver uma forma de voltar no tempo, você consegue?

– Pouts, infelizmente eu não consigo te ajudar desta forma, mas, me conte o que realmente aconteceu e vejo como posso te ajudar.

– Então senhor, essa é a resposta que eu estou acostumado a ouvir todos os dias, me perdoe, qual é seu nome?

– Meu nome é Roberto, amigo, e o seu qual é?

– Então seu Roberto, eu já não consigo lembrar meu nome, pois, de tão acostumado que estou em ouvir as pessoas me chamarem de mendigo, vagabundo, sem vergonha e ladrão, acabei que esqueci o meu nome verdadeiro, mas, se quiser, pode me chamar Zé, afinal, sou um Zé ninguém.

Nesse momento, eu fiquei sem palavras, por pelo menos uns 2 minutos, olhando para aquele mendigo que estava desacreditado totalmente da vida e de sua existência e claro, não conseguia deixar de olhar para aquilo enrolado no coberto, que parecia realmente um corpo, quando consegui voltar daquele “transe” eu criei coragem e perguntei.

– Então, não vou lhe chamar de Zé, pois, pra mim, você não é um Zé ninguém, irei lhe chamar de amigo, até que você consiga lembrar o seu nome e queira me falar, até lá, me perdoe, você pode me dizer quem está deitado aí do seu lado? Aquilo que você estava cantando realmente aconteceu?

– HAHAHAHA, Senhor Roberto, o senhor é engraçado, nunca, desde que eu perdi tudo, ninguém parou para me ouvir por mais de 1 minuto e agora você me aparece querendo conversar comigo, olha, eu não sou de falar meu nome para os outros, afinal, ninguém se preocupou em perguntar, eu não esqueci meu nome não, como você me parece ser alguém legal, meu nome é Heitor, a, em relação ao que você me perguntou sobre o que estava cantando, sim, é verdade.

Mais alguns minutos de silêncio, pois, foi a primeira vez que eu vi o fato consumado de algo que eu sempre ouvi falar.

– Heitor, poxa, que nome forte meu amigo, fico infeliz pelo que aconteceu, mas, quem de fato era essa pessoa que estava lhe acompanhando?

– Então, essa pessoa que estava me acompanhando, desde que perdi tudo é alguém que eu encontrei nas ruas meu nobre, é a única pessoa que me ofereceu metade da comida que ela tinha, metade do cobertor, metade da bebida, metade do dinheiro e o seu coração, ela, enxergou em mim o que mais ninguém da minha “família” conseguiu enxergar, logo que perdi todo o dinheiro que eu tinha, o emprego, eu fui expulso de casa, com uma mão na frente e outra atrás, eu não gosto de lembra dessa época, então, vou para de falar por aqui e agora, sabe aquele pergunta que o senhor me fez? Sobre me ajudar de alguma forma? O Senhor pode sim, me faz o favor de ligar para alguém e pedir para vir aqui e outro favor que lhe peço, de coração, me deixe sozinho com a minha amada, preciso me despedir, por favor, vá, sem falar uma palavra e nem sequer olha para trás, pois, nos dias em que eu precisava, foi exatamente o você e milhares de pessoas fizeram, um forte abraço e reflita.

Eu já não queria mais importunar o Heitor, porém, peguei uns trocados do meu bolso, como um sinal de rendição por todas as vezes que o ignorei e coloquei ao lado do corpo enrolado na coberta, voltei a acender o meu cigarro que havia apagado por falta de tragadas, não olhei para ele, nem para o corpo e apertei o passo em direção ao posto, comprei mais uma carteira de cigarro, uma bebidas e voltei pelo mesmo caminho, desta vez, preferi atravessar a rua, desde então, nunca mais o vi.

Texto: Giovane Santos
Ilustração: Helton de Prado Carvalho