TML. Um legado, uma história. 5 44

Narrado por Muriloco

Há três anos, dois jovens estudantes do cursinho Positivo decidiram matar aula em busca de um objetivo comum, se preparar para a faculdade. Não para aulas e estudos, mas sim para as partidas de sinuca que lá esperavam ter. Como toda sinuca pede cerveja, ocasionalmente saíam para jogar e beber, inicialmente num ritmo leve e moderado.

Foi assim que um dia, convidados pela irmã de um deles, desbravaram novos caminhos e foram até a reitoria. Lá encontraram universitários de vida boêmia, ilustres pessoas como Karkão, Maroba, Pagode e outros amigos. Eles se reuniam nos primórdios do que viria a ser um prodigioso evento: a terça-feira muito louca.

Ao ouvirem esse nome, os dois jovens ficaram fascinados, pois era justamente às terças que matavam aula no cursinho. A partir daquele momento, toda terça seria muito louca. Vasculhando bares de Curitiba (pois a reitoria era muito longe) e periodicamente aumentando a dosagem alcoólica, encontraram o lugar perfeito. Era uma boteco agradável, com duas mesas de sinuca, Bavaria a 2 reais e Rabo-de-galo a 1, chamado Bar do Seu Luís (sob o pseudônimo “lanchonete merluz”). O dono era o próprio Seu Luís, uma figura carismática e paterna.

Convidavam cada vez mais pessoas, geralmente sem sucesso. Não era fácil, afinal, convencer aqueles charlinhos a encher a cara ao invés de estudar. Mas por vezes levavam amigos que faziam cada terça ter uma cara nova. Ao longo do tempo rolaram alegrias, cervejas, mágoas, sinuca, cervejas, divisão de garotas, amizades, doses, ratos voadores e, é claro, cervejas.

Criaram regras para as terças muito loucas, para que jamais fossem pouco loucas. Assim, cada vez mais ébrios do que a vez anterior, adotaram o bar do Seu Luís como uma segunda casa, onde, diga-se, qualquer um poderia fazer uma visita.

Aos que quiserem conhecer o evento e as regras a fundo, sintam-se à vontade para falar com Murilo ou André. Mas esteja avisado: a loucura não é pouca.

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5 Comments

  1. hahaha… pior que eu não tinha certeza e fui olhar no orkut do karkão…. lá tava maroba! hauhauhau
    mas enfim, vale a intenção….

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Impressões Sinestésicas de Um Entusiasta 0 51

This Will Destroy You

Another Language | Cinderella 99

Há um sussurro quase inaudível, penetrando por debaixo da porta e passando pelas pequenas frestas na janela, carrega uma mensagem codificada de algum lugar distante, em um tom suavemente sedutor; estimula os olhos a enxergarem longe, principalmente se fechados. A esperança, natural aos novos fenômenos, abre um pequeno portal em minha frente: não enxergo nada além de sua profundidade, e, já é tarde demais para escolher não progredir através desse vórtice. A renúncia à paz, que se faz presente em toda nova empreitada ao desconhecido, sequestra-me e me lança em direção ao que nem sabia que procurava; decodifico o início da mensagem e a revelação é clara: estou prestes a descobrir um novo idioma.

 

Sou devolvido ao lugar onde comecei e não sou mais o mesmo, uma força que transmite uma paz inquieta mudou tudo de lugar, e, tanto os móveis quanto as sensações agora ocupam posições mais confortáveis. Tento me familiarizar com o novo momento, me aproximo de sentimentos que sempre me foram íntimos e os descubro restaurados, há uma nova vibração emanando em torno de mim, cada vez mais tátil; já não sei se a levo comigo ou se sou carregado por ela.

 

Viajo num mundo confortavelmente desabitado, me sinto pleno em minha solidão, contemplo o deserto em quase todo o horizonte; vejo apenas uma montanha, distante, que calmamente vem em minha direção. O chão vibra com ternura conforme o espaço entre nós diminui. Cordial, ela se abaixa para eu enxergar o que carrega em seu topo; atinjo seu ápice, e uma pequena interferência me leva para onde as nuvens nublam suavemente a visão. Viro para o outro lado, observo um abismo, que me contempla de volta. Desço como quem flutua, mas sei que o caminho reserva novas surpresas; sinto a pulsação do vento mudar, enchendo as nuvens de eletricidade enquanto algumas delas se acendem, gerando pequenas explosões que iluminam o caminho.

 

A luz que dá impressão de rarear muda de cor, assume uma dramaticidade rubra, com sombras demarcadas. Sou envolto em uma tensão que não transmite temor, necessária para a dissolução de antigos reinos. É parte da história que nos contam desde que nascemos, é objeto, mas nem por isso é obstáculo. Quando a tensão se dissolve, o chão volta a ser plano, a energia que passa a me envolver parece ter surgido de dentro para fora. Uma paz, que por mais curta que seja, traz a ideia do eterno. Para chegar mais longe, alguns passos tentam nos guiar até nossos ancestrais; somam-se a mim forças reunidas de outros tempos, calor de partículas que o cotidiano insiste em esfriar. A percepção de sua existência me convida para lugares onde se desmaterializa tudo que criei, me conforto em esquecer o que não preciso carregar.

 

Docemente, os sons começam a se esvair pelo quarto, e já não me preocupo mais em impedir que se escapem pelas frestas, volto para um lugar análogo de onde eu era, repleto de novas perspectivas. Me conforta a comprovação de que ainda vou me interessar por tanta coisa que desconheço. Trago a paz que as boas viagens nos reservam ao voltar para casa, com a convicção de que tudo é linguagem e nada é apenas ruído.

thiswilldestroyyou.bandcamp.com/album/another-language

Lembranças Azuis 0 974

Esta é a segunda vez que escrevo sobre mim, a primeira foi uma carta. Decidi começar hoje, depois de tanto papai insistir para que eu escrevesse. Ele sempre disse que é assim que os escritores descobrem o que sentem, transformando sentimentos em palavras que dão sentidos ao que sentimos. Por isso eu deveria fazer o mesmo quando estivesse triste, para transformar o que sentia em algo melhor.

Tive um dia ruim, por isso escrevo.

Primeiro vou me apresentar: meu nome é Pérsio, tenho 14 anos, gosto de jogar futebol, não gosto de azeitonas porque elas têm os caroços mais difíceis de serem arrancados, e minha cor favorita é o azul porque descobri há dois anos que sou daltônico e tudo o que é verde para os outros, é azul pra mim. Então quando vejo algo azul, fico imaginando se é mesmo azul ou é verde. O azul é uma cor desafiadora para mim, e eu gosto muito de desafios e aventuras, igual ao Dom Quixote.

No ano passado fiz uns exames e o médico falou que tenho uma síndrome.

Síndrome de Asperger é o nome. Na época eu não sabia o que significava e papai disse que era uma síndrome de pessoas que tinham a perna direita mais forte que a esquerda. Por isso deveriam se esforçar para não andarem sempre para a esquerda e cuidarem no futebol, pra não machucar o goleiro na hora de chutar para o gol.

Hoje já sei que Asperger não tem nada a ver com a força das pernas, ainda que eu tenha o chute mais forte da 5ª D. Quem tem Asperger, entre outras, não sente as coisas como nos livros, nada é tão intenso. Papai falou que os sentimentos são tão fortes assim porque aprendemos com os livros, que de tanto ler, o homem começou a viver as metáforas que só existiam nas histórias, igual ao Dom Quixote.

Eu nunca senti falta de sentir as coisas, até descobrir que o Asperger não agia na minha perna direita. A partir daí, passei a viver nas páginas dos livros, porque sabia que lá moravam as sensações. Mas nada dizia nada, ou era tudo sem sentido.

Descobri que apenas a dor física era pra mim. Desde então se tornou uma espécie de masturbação. Trancado no banheiro eu enfiava a ponta do lápis embaixo das unhas dos pés, até ver o sangue. Não gostava, mas queria sentir alguma coisa.

Um dia papai me descobriu com os dedos sangrando. Achei que ia ficar de castigo, mas não. Ele pediu para que eu escrevesse uma carta para uma pessoa desconhecida, contando por que tinha feito aquilo.

Escrevi e contei tudo sobre minha vontade de sentir as coisas. Contei também que, se tivesse um cavalo, sairia pelas ruas até os campos e descobriria finalmente o que é viver de metáforas, igual ao Dom Quixote. Não exatamente como ele, porque não seria uma figura triste.

E já que a carta seria entregue a uma pessoa desconhecida, aproveitei e perguntei a ela o que era a felicidade.

Fechei a carta num envelope e entreguei a papai para que levasse à pessoa desconhecida. Como já era nove e quarenta e cinco da noite, fui dormir, porque acordaria às quinze para as sete do dia seguinte para ir pra escola.

Cinco minutos para me vestir, dez para tomar uma xícara de café com leite e meio pão com geleia de tamarindo, vinte minutos a pé até a escola e lá estava eu, com dez minutos para jogar um pouco de futebol até bater o sinal.

Quando a aula acabou, saí correndo para chegar em quinze minutos em casa, mas encontrei papai no portão, me esperando. Fui até ele e vi que segurava minha carta. Perguntei se ele ainda não tinha entregado.

Ele disse que não, que ele era a pessoa desconhecida e ia me ensinar as coisas que eu não conhecia.

Na hora estranhei e disse que ele não era um desconhecido, mas sim o meu pai. Mas papai me explicou que as pessoas nunca são totalmente conhecidas pela gente. Sempre temos algo a aprender sobre elas, mesmo quando são nossos pais, e que isso torna as pessoas sempre um tanto desconhecidas.

Na hora eu senti uma coisa que agora sei que é o que todo mundo chama felicidade, porque sorri quando soube daquilo.

No caminho de casa passamos no bosque, onde papai falou sobre a felicidade, que a maioria das pessoas acha que felicidade é sinônimo de sorriso, e por isso riem para o vazio, para se sentirem menos sozinhas.

Naquele dia aprendi que sentimos felicidade quando o mundo parece agir de acordo com o nosso bem, e que isso se chama plenitude, que é outro sentimento. Então, a felicidade nada mais é do que uma plenitude muito intensa. É quando caminhamos sem notar que o tempo também está andando. Papai contou que em momentos de felicidade extrema esquecemos do resto do mundo e nada mais importa, só o que sentimos. Ele disse que ficou assim quando eu nasci.

Eu acho que sinto felicidade quando estou dormindo, porque não penso em mais nada. Será que plenitude é uma espécie de sono profundo? Será que a morte é uma espécie de sono profundo? Estar pleno é estar morto? Papai…

A partir deste dia papai me buscava sempre na saída da escola. Fazíamos caminhos diferentes para voltar pra casa, pois era assim que a vida deveria ser vivida: sem rumos pré-estabelecidos, e cada dia ele me ensinava um sentimento à minha escolha.

Um dia ele perguntou se eu sabia o que era o amor. Eu disse que o amor era o que fazia as pessoas casarem, e ele disse que essa é a ideia errada, que o amor era outra coisa. Uma coisa que completa a gente, mesmo que a gente tenha todos os membros, porque ele completa no sentido metafórico. É quando uma pessoa interage com você e desperta o seu melhor, mas não é como no futebol, que um zagueiro ruim faz um atacante parecer melhor, é no sentido metafórico, onde os dragões do Dom Quixote realmente batalham com ele.

Papai disse que entre eu, ele e mamãe existe amor, porque a gente sempre age querendo fazer o outro feliz, sempre queremos ser bons uns com os outros, e que isso se chama amor de família. Na hora senti que papai me amava, porque ele terminou de falar e olhou pra mim com um sorriso, e eu sorri pra ele.

Um dia perguntei a papai o que era tristeza e ele falou que eu era novo demais para essas coisas, que a vida iria me ensinar, porque é impossível viver uma vida inteira sem conhecer a tristeza. E que isso, por si só, já é algo triste.

Eu achei que ele não quisesse me ensinar porque era muito novo também. Tinha quarenta e dois anos e só descobriria o que é a tristeza quando estivesse com o cabelo cinza, e que mesmo assim não iria me ensinar porque só a vida deve ensinar a tristeza, não as pessoas que a gente ama. Mas me enganei.

Hoje, voltando do enterro de papai, chorei. Chorei porque nunca mais vou ver ele fora das lembranças, e que elas vão me causar uma dor mais forte que a ponta do lápis embaixo das unhas.

Soube que era tristeza quando mamãe me abraçou, me deu um beijo na testa, me apertou ainda mais e disse pra eu não ficar triste.

Quando olhei, ela estava sorrindo. Mas eu sabia que era um daqueles risos que as pessoas soltam para o vazio, para se sentirem menos sozinhas. As lágrimas diziam tudo, porque papai uma vez me disse que só os humanos choram lágrimas, que nos outros animais elas não passam de secreção, igual ao suor pra gente.

Não precisei ficar velho pra descobrir o que é tristeza, ou será que envelheci rápido demais?

Agora papai só existe nas minhas lembranças, e às lembranças não se pode ensinar. Papai jamais saberá o que é tristeza, e isso é bom, porque não queremos que as pessoas que amamos fiquem tristes.

Papai prometeu que quando voltasse do hospital iria me ensinar o que é saudade, mas isso vou ter que aprender sozinho.

texto: Rafael Antunes
ilustração: Rebeca Storrer