Carpe Diem – mergulhando de cabeça (para o fundo do poço) 0 36

postado por Murilo, o esporádico.

Não sabia se iria morrer em algumas horas ou em cinqüenta anos, mas decidiu que viveria aquele dia como se fosse o último. Estava saturado após trinta e nove anos de uma vida medíocre e insípida. Na verdade, tivera algum tipo de diversão durante sua juventude, mas há tempos não vivenciava grandes emoções.

Naquele dia aproveitou para testar seus limites no trabalho. Quando ninguém olhava, roubou meio pacote de papel sulfite do escritório. Tomou, ainda, dezessete copinhos de café durante uma mesma manhã, sem se importar com a empresa e tampouco com sua saúde. Ainda não saciado, acessou um site pornográfico no computador em que trabalhava, e assistiu um vídeo inteiro sem se preocupar em esconder a página.

Saiu para almoçar e já decidiu não voltar à tarde. Abordou um pipoqueiro no centro, mas não pediu pipoca, e sim um pacotinho cheio de bacon, e aquele foi o seu almoço. Impetuoso como estava, resolveu não pagar a prestação de seu apartamento e, como um inadimplente nato, nem mesmo a conta de luz.

No caminho para casa decidiu romper com as represálias e tabus morais. Aplicou cantadas pedreiras em quatro mulheres na rua. Em uma delas, a que mais rebolava sua enorme bunda, deu um ruidoso e abastado tapa no traseiro, saindo correndo depois. No ápice de sua adrenalina, surfou no ônibus biarticulado e curtiu o perigo de cada curva e cada tubo. Tubo de parada, não de água.

Decidiu se libertar das coerções que o reprimiam e se livrou de algumas flatulências em pleno elevador, mesmo com mais pessoas lá dentro. Mais tarde, naquele mesmo dia, se masturbou com a porta do banheiro destrancada, mesmo com a sua família em casa, sentindo o risco de ser flagrado a qualquer momento.

Abriu seu vinho chileno, que há mais de dois anos guardava para alguma ocasião especial. Aquele era, afinal, o suposto último dia de sua vida, para fazer tudo que nunca antes fizera, de experimentar novas aventuras e sensações. Na verdade, um derradeiro dia começava como se já estivesse acabado. Era como se você já não estivesse mais ali, pois vivia sob a consumidora certeza de que no dia seguinte não estaria.

Embriagou-se ao beber a garrafa inteira, enquanto assistia dois episódios seguidos de um seriado televisivo que sempre quisera ver. Adormeceu, extenuado e extasiado por um dia de tantas emoções. No dia seguinte, a ressaca seria forte, mais do que de costume.

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Vida comum parte 1 0 107

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.

Chegada 0 671

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai