O inverno que desfavorece Aníbal 0 602

por Rafael.

A vida de Aníbal era interessante como a de todos nós, preenchida com situações extraordinárias e irrelevantes diariamente. Todos estes momentos eram tratados da mesma maneira por ele.

Os dias de sua vida eram burocraticamente cumpridos, como executados. Orgulhava-se se sua eficácia no trabalho. Poderia passar horas falando de suas superações, dos dias difíceis que venceu, pois a vida é assim, sofrida mesmo, e não é à toa que vencedor rima com dor (seu bordão favorito na firma).

Mas não passa horas falando, sequer um minuto, pois não há público para isso.

Aníbal cumpre suas tarefas sozinho, dia a dia, das seis e vinte da manhã, quando acorda sozinho, e volta pra cama, próximo à meia noite, sozinho.

A solidão combina mais com Aníbal do que a jaqueta herdada de seu pai, que usa nos dias de frio. Grande demais para ele e gasta, dá a Aníbal uma fisionomia apática, quase doente. O inverno desfavorece Aníbal.

E foi justamente no dia mais frio deste ano (31 de julho, uma terça-feira) que Aníbal decidiu dar voz ao que lhe consumia há tempos. Possuía um amor, daqueles que não revelamos sequer ao papel, com medo de que nos descubram.

Era Ana, a esposa de seu chefe, por quem ele cultivava um tipo de amor que nos machuca, pois o mantemos no escuro e jamais somos (e sabemos disso, o pior é que sabemos) correspondidos. Mas isso chega a ser confortável, um alívio, pois sentimos medo de que nos amem.

Naquela noite, seu chefe serviria um jantar em seu apartamento, para os cinco funcionários da firma, em comemoração a algum número que interessaria mais a ele do que a estas linhas.

No cardápio, sopas e vinhos. Nada mais eficiente para o dia mais frio do ano.

Desde a chegada, Aníbal evitava os olhos de Ana, com medo de revelar algo inconveniente para o momento. Mas olhava seus pés. Apesar do frio, Ana calçava um par de sandálias simples, deixando à mostra a graciosidade de seus pés. Calçava 34, ele já descobrira.

Após rasparem as panelas na mesa, sentaram-se nos sofás da sala para darem conta dos vinhos.

As conversas iam e vinham com poucas participações de Aníbal, que só pensava no que trazia no bolso, e olhava aqueles pés com tanta afeição que já se sentia correspondido por eles.

Ana estava ao lado do marido. Descalçou-se das sandálias e ergueu os pés no sofá, dobrando os joelhos, feito criança. Eram dedos branquíssimos. As unhas rosadas, impecáveis, sem esmalte. Aníbal não ouvia as vozes ao seu redor. Sentia que aqueles pés eram parte de si.

Talvez por causa do vinho, talvez pelo que os pés lhe despertavam, suas mãos suavam, mas sequer percebia.

De tempo em tempo, desviava os olhos, passando por todos, em olhadas burocráticas e voltava a se entregar àqueles pés. Os pés dignos de seu amor clandestino.

Aníbal já não suportava mais a situação de estar ali e não poder se atirar aos pés que personificaram tudo o que sente. E com a segurança dos que sabem exatamente o que fazer para atingirem suas vidas, levantou-se e anunciou: “Estou indo embora”.

Como bom anfitrião, o chefe falou que era cedo, Aníbal respondeu com alguns poréns, despediu-se e deixou o apartamento.

Já na rua, fechou a jaqueta até o pescoço, reforçando a aparência de doente, foi até a esquina e olhou a janela do segundo andar, buscando uma última imagem de Ana, em vão. As cortinas estavam fechadas, revelando apenas uma penumbra, onde se viam algumas cabeças que se movimentavam como estivessem felizes.

Do bolso, tirou o pedaço de papel que trouxera de casa, para entregar a Ana. O suor de sua mão no bolso havia umedecido e borrado um pouco da letra verde que declarava:

“Dê um beijo de boa noite no seu marido, derrube seu castelo de cartas, que já derrubei o meu. Não importa onde isso vai acabar, pois estaremos juntos. Nós. Eu e você. Dois, jamais um.”

O trecho era da música que Aníbal ouvia diariamente, como fossem as palavras que trariam Ana para sua vida.

Aníbal jamais havia se sentido tão só. Amassou o pedaço de papel e o engoliu, como garantia de que jamais descobririam aquele seu amor.

Com uma expressão ainda mais doente, caminhou até sua casa, onde pendurou a jaqueta ao lado da cama em que deitou, sozinho.

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Escala de Baumé 0 2207

Já não se criam mais homens de barro, apesar de continuarmos nos esfarelando. É aceito que hoje somos compostos por água e ansiedade. De barro só os tijolos, com que se ergueram os muros de nossas casas e prisões. A ansiedade só cresce.

Na primeira vez em que fui visitar o Jaime na clínica ficamos em silêncio por quase uma hora, quinze anos de amizade nos poupam de certos diálogos dispendiosos. No momento de ir embora ouvi com clareza o que seus olhos me diziam, não podia abandoná-lo, e não o fiz. Na semana seguinte houve a necessidade de falar, de abraçar, de chorar; é difícil permanecer impassível quando seu colega de quarto é internado após tentar serrar os pulsos com um serrote, dessa vez era isso que seus olhos e braços me diziam. Os suicidas estão à procura de sua própria justiça, na qual a morte é a sentença final. O Jaime não era um suicida, ao menos não nos moldes convencionais, já que tomar uma garrafa de destilado por dia vinha se mostrando uma técnica efetiva para findar com sua vida. Seus sorrisos tornaram-se raros, pequenas ilhas de alívio no caos murado da instituição; os espaços cada vez menores, a alma tumultuada, a mente entulhada. Não sei o que tive mais medo de ver, se um surto ou a depressão profunda, um conforto mórbido me tomava ao vê-lo flutuar entre ambas hipóteses. Foi na décima terceira semana que decidimos que algo precisava ser feito.

Nunca concordei com essa internação, entendo-a, não é fácil para família alguma ter alguém fora de controle, mas não posso compactuar com isso. Lá fora o Jaime era a materialização da beleza na desordem, um furacão que arrasa um campo de rosas para se encher de cor, aqui ele não passa de um sopro, incapaz de espalhar as pétalas de um dente de leão. Onde esse ímpeto se perdeu? Na abstenção do álcool ou da vontade própria? Troquei minhas mágoas pela vergonha depois de descobrir o motivo de não ter sido ouvido em algumas visitas; certo dia trocaram o Jaime de quarto, sem consentimento algum ele foi amarrado em sua cama e transferido para outro cômodo, frio e com janelas menores. A crise de identidade se apossou dele, não se sentia mais um homem, era agora objeto. Não tinha mais nome, por isso não atendia quando o chamavam, tornou-se coisa, dessas que trocamos de lugar por mero paisagismo e descartamos quando causam problemas. Definitivamente, não existe amor sem empatia.

Uma hóstia podre e carcomida pelos vermes ainda é o corpo de cristo? Era a pergunta que me fazia todos os dias em que tinha que encarar um Jesus deteriorado na sala de espera da clínica. Dois mil anos com os pulsos pregados, quanto tempo mais era possível aguentar esse tipo de tortura? Na décima quarta semana cumpri com o combinado, depois que o Jaime voltou a ser alguém, a gente mergulhou num saudosismo afável, de quando éramos quem queríamos ser: bêbados que culpavam o álcool pelas próprias frustrações artísticas.

Pouco dormi na semana que antecedeu esse dia, nos momentos em que o cansaço venceu a angústia sonhei com prédios ruindo, maldito sonho que não me abandona. Deixei o carro embaixo da figueira de sempre, há quem diga que ela é a árvore da vida, também dizem que foi onde se deu o enforcamento de Judas Iscariotes. Minhas mãos suam, agora seria incapaz de dar um nó em qualquer corda. Como já me é habitual, encaro Jesus, com todas as minhas dúvidas.

Enfim chamam pelo meu nome. No caminho até o quarto o enfermeiro elogia minha decisão de trazer toddynho e trakinas para meu amigo, diz que nos últimos dias os internos passaram à pão e água, só meneio com a cabeça. É minha vez de engolir as palavras, sento em frente a ele e respondo com os olhos o seu questionamento. Trouxe? Estico a mão e lhe entrego, sinto medo, receio, vontade de me livrar logo disso e seguir em frente. Ele sorri nervosamente, a ansiedade lhe obriga a contrair seu maxilar, tomado pela dúvida, se espera o momento certo ou se entrega agora. Suo frio, quero ir embora, mas não consigo nem me levantar, nem virar o rosto, ele fura a superfície de alumínio com o canudinho e bebe tudo num gole só. Sorri com leveza, me abraça com calor, me pede pra voltar na semana seguinte. Vou embora me arrastando, as costas arqueadas carregam o peso de uma cruz, quantas mentiras conseguimos contar durante a vida?

Procuro no calendário onde foram parar os dias da semana que se foi, não há negociação, já é véspera de visita novamente. Encaro a prateleira do supermercado, água de coco ou suco de laranja? Nunca fui um bom alquimista, li dia desses que vão menos conservantes na água de coco, sei lá que diferença isso faz. A cena é cinematográfica, chego em casa e busco a sacola com meu kit, me sinto um coadjuvante de Trainspotting com uma seringa pontuda em mãos. Furo o fundo da caixinha de água de coco e retiro metade do líquido, a mão que segura a garrafa de vodka treme, encho novamente a seringa e preencho a embalagem usando o mesmo furo de antes, tapo a abertura com um pedaço milimétrico de durex. Torno a pegar a garrafa de vodka, a mão ainda tremendo, sirvo uma dose e bebo num gole só. Choro, por mim e por todos os bêbados que insistiram em criar descrença em seus queridos. Sóbrios ou não, permanecemos assistindo a ansiedade tomar conta.

Crédito da Imagem: Robert Mapplethorpe

Chegada 0 3467

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai