Gente de bem não explica tatuagem 0 662

Toda festa tem suas peculiaridades.

Nessa, os presentes pegam os telefones dos bolsos e das bolsas para falar com gente que não está lá, para twittar sobre cada tópico discutido em tempo real, para atualizar seus status no facebook ou para usar outras redes sociais. Muita previsibilidade e elaborações banais sobre tudo e nada, como esta anterior, aliás. No salão enorme, mas pequeno demais para tanta gente que, ao menos autodeclaradamente, brilha, admitem inconscientemente que prefeririam outras companhias. Pelo menos neste momento, ou em todos os outros que ocorram dentro dessa noite tão pobre de emoções.

As mulheres e os homens são bonitos, ou estão arrumados, o que costuma ser mais ou menos a mesma coisa nesse tipo de contexto.

Representantes do empresariado local e dos poderes municipal, estadual e federal fazem discursos mais longos que os temas merecem. Mas disso eles não podem ser culpados, porque os discursos são sempre assim. São palavras e palavras e palavras e sorrisos e aplausos protocolares que parecem não ter fim e que conseguem irritar, mesmo que em pequena escala, 298 pessoas que os assistem (dentre um número total de 316 espectadores). Os discursadores no entanto acham que estão fazendo um trabalho agradável, mas disso também não podem ser culpados, já que a autocrítica nunca é a qualidade mais presente ou evidente no comportamento de quem quer que seja.

Definição boba da ideia de guerra contra o ego: é mais comum declarar que deflagrar.

Esta e outras frases feitas de palavras ao vento certamente continuarão vindo, carregando pesadamente conceitos batidos, verdadeiros ou não, mas que continuam a ganhar resistência com o tempo, curtidos em seus próprios usos irrestritos.

Já na porta, uma dupla de tequileiros faz um show pirotécnico para servir uma bebida que é etilicamente próxima do conhaque, do uísque, da vodka e da cachaça, mas que é apresentada como uma porta de entrada a um terreno de diversão descontrolada, passional, intensa. As razões para que isso aconteça são tão obscuras quanto os filmes de cinema e peças de propaganda que inicialmente começaram a difundir a ideia. Eles, os tequileiros, são pagos para emular o México que é visto nos filmes, que por sua vez emula o México da literatura criada por quem não vive no país, que por sua vez tem pouco ou nada a ver com o México de verdade. Não que seja necessário incutir qualquer suposta autenticidade num show assim, visto que a fascinação com o fogo e a atenção que gritos chamam jamais serão temas exclusivamente mexicanos.

Realidade, ou: uma construção de cuja origem ninguém lembra por razões mais óbvias que as culpas e os arrependimentos.

Pastiche torto. Um baile de máscaras sem música ou dança. Natimorto, então.

Muitos andam com um certo ar blasè pelo evento, apesar de estarem bastante interessados em fazer novos amigos, desde que estes sejam influentes em certos círculos da cidade.

Agora, os discursos acabaram, e iniciou-se o aproveitamento dos pratos e bebidas da noite. Esta degustação é o motivo da presença de quase todos, com exceção de um dos membros do poder municipal, que vê na parceria com os empresários que aqui estão uma plataforma eleitoral interessante e proveitosa o bastante para tirar-lhe de casa nessa data, que coincide com o aniversário do filho mais novo dele.

Daquele jeito:

ninguém é perfeito.

Ouve-se ao longe uma moça vociferando contra a configuração da sociedade, e contra a falta de oportunidades e condições iguais para que todas as pessoas possam se desenvolver bem e através dos próprios esforços. Ela acabou de ser filmada para aparecer na coluna social de um programa local de televisão, destes que cobrem este tipo de evento. Ela descobriu hoje que passará a ganhar um salário maior no emprego devido a uma promoção. A hipocrisia dos outros a irrita, só um pouco menos que a evidente falta de alguém qualificado para discutir o tema agora. Dessa forma, e a despeito de já passar da meia noite, liga para uma grande amiga, que vem a ser também sua manicure, toda vez que a agenda de ambas permite. E a agenda de ambas sempre permite, toda quinta-feira às 19h30, com raras exceções, a R$ 15,00 a sessão.

Serviçais servem serviçais que fingem não sê-los. Os serviçais que servem não conseguiriam garantir a estranheza dessa relação por causa da alta quantidade de trabalho para realizar. (A quantidade de atividades forçadas que alguém realiza é sempre inversamente proporcional ao tempo que se tem para refletir sobre a natureza delas, seja quem as pratica quem for). Mas os serviçais que estão sendo servidos sim, sabem que têm a quem se reportar em algum lugar, mas não gostam de pensar nisso. Em alguma instância, nem podem, pelo bem da continuidade de seus projetos pessoais de felicidade.

Um dos destaques positivos da noite é o sabor de um dos pratos. Trata-se de batata frita, mas com um molho de nome estrangeiro que ninguém conhece mas não tem desenvoltura para admitir. Muitos têm uma opinião bastante elaborada sobre a qualidade e o sabor deste molho, comparando-o ao original, (diz-se que) criado e servido num vilarejo na Itália. Lá, inclusive, ele parece ter algo a mais, talvez pela qualidade do terreno e dos tomates que são cultivados na região.

E a volta às obsessões, sempre as mesmas:

a penúltima linha, agitada.

A última linha, serena.

Marco Antonio Santos.

A parte um tem pouco a ver com esta, mas de qualquer forma está aqui: Gente de bem não fala esperanto

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Escala de Baumé 0 1908

Já não se criam mais homens de barro, apesar de continuarmos nos esfarelando. É aceito que hoje somos compostos por água e ansiedade. De barro só os tijolos, com que se ergueram os muros de nossas casas e prisões. A ansiedade só cresce.

Na primeira vez em que fui visitar o Jaime na clínica ficamos em silêncio por quase uma hora, quinze anos de amizade nos poupam de certos diálogos dispendiosos. No momento de ir embora ouvi com clareza o que seus olhos me diziam, não podia abandoná-lo, e não o fiz. Na semana seguinte houve a necessidade de falar, de abraçar, de chorar; é difícil permanecer impassível quando seu colega de quarto é internado após tentar serrar os pulsos com um serrote, dessa vez era isso que seus olhos e braços me diziam. Os suicidas estão à procura de sua própria justiça, na qual a morte é a sentença final. O Jaime não era um suicida, ao menos não nos moldes convencionais, já que tomar uma garrafa de destilado por dia vinha se mostrando uma técnica efetiva para findar com sua vida. Seus sorrisos tornaram-se raros, pequenas ilhas de alívio no caos murado da instituição; os espaços cada vez menores, a alma tumultuada, a mente entulhada. Não sei o que tive mais medo de ver, se um surto ou a depressão profunda, um conforto mórbido me tomava ao vê-lo flutuar entre ambas hipóteses. Foi na décima terceira semana que decidimos que algo precisava ser feito.

Nunca concordei com essa internação, entendo-a, não é fácil para família alguma ter alguém fora de controle, mas não posso compactuar com isso. Lá fora o Jaime era a materialização da beleza na desordem, um furacão que arrasa um campo de rosas para se encher de cor, aqui ele não passa de um sopro, incapaz de espalhar as pétalas de um dente de leão. Onde esse ímpeto se perdeu? Na abstenção do álcool ou da vontade própria? Troquei minhas mágoas pela vergonha depois de descobrir o motivo de não ter sido ouvido em algumas visitas; certo dia trocaram o Jaime de quarto, sem consentimento algum ele foi amarrado em sua cama e transferido para outro cômodo, frio e com janelas menores. A crise de identidade se apossou dele, não se sentia mais um homem, era agora objeto. Não tinha mais nome, por isso não atendia quando o chamavam, tornou-se coisa, dessas que trocamos de lugar por mero paisagismo e descartamos quando causam problemas. Definitivamente, não existe amor sem empatia.

Uma hóstia podre e carcomida pelos vermes ainda é o corpo de cristo? Era a pergunta que me fazia todos os dias em que tinha que encarar um Jesus deteriorado na sala de espera da clínica. Dois mil anos com os pulsos pregados, quanto tempo mais era possível aguentar esse tipo de tortura? Na décima quarta semana cumpri com o combinado, depois que o Jaime voltou a ser alguém, a gente mergulhou num saudosismo afável, de quando éramos quem queríamos ser: bêbados que culpavam o álcool pelas próprias frustrações artísticas.

Pouco dormi na semana que antecedeu esse dia, nos momentos em que o cansaço venceu a angústia sonhei com prédios ruindo, maldito sonho que não me abandona. Deixei o carro embaixo da figueira de sempre, há quem diga que ela é a árvore da vida, também dizem que foi onde se deu o enforcamento de Judas Iscariotes. Minhas mãos suam, agora seria incapaz de dar um nó em qualquer corda. Como já me é habitual, encaro Jesus, com todas as minhas dúvidas.

Enfim chamam pelo meu nome. No caminho até o quarto o enfermeiro elogia minha decisão de trazer toddynho e trakinas para meu amigo, diz que nos últimos dias os internos passaram à pão e água, só meneio com a cabeça. É minha vez de engolir as palavras, sento em frente a ele e respondo com os olhos o seu questionamento. Trouxe? Estico a mão e lhe entrego, sinto medo, receio, vontade de me livrar logo disso e seguir em frente. Ele sorri nervosamente, a ansiedade lhe obriga a contrair seu maxilar, tomado pela dúvida, se espera o momento certo ou se entrega agora. Suo frio, quero ir embora, mas não consigo nem me levantar, nem virar o rosto, ele fura a superfície de alumínio com o canudinho e bebe tudo num gole só. Sorri com leveza, me abraça com calor, me pede pra voltar na semana seguinte. Vou embora me arrastando, as costas arqueadas carregam o peso de uma cruz, quantas mentiras conseguimos contar durante a vida?

Procuro no calendário onde foram parar os dias da semana que se foi, não há negociação, já é véspera de visita novamente. Encaro a prateleira do supermercado, água de coco ou suco de laranja? Nunca fui um bom alquimista, li dia desses que vão menos conservantes na água de coco, sei lá que diferença isso faz. A cena é cinematográfica, chego em casa e busco a sacola com meu kit, me sinto um coadjuvante de Trainspotting com uma seringa pontuda em mãos. Furo o fundo da caixinha de água de coco e retiro metade do líquido, a mão que segura a garrafa de vodka treme, encho novamente a seringa e preencho a embalagem usando o mesmo furo de antes, tapo a abertura com um pedaço milimétrico de durex. Torno a pegar a garrafa de vodka, a mão ainda tremendo, sirvo uma dose e bebo num gole só. Choro, por mim e por todos os bêbados que insistiram em criar descrença em seus queridos. Sóbrios ou não, permanecemos assistindo a ansiedade tomar conta.

Crédito da Imagem: Robert Mapplethorpe

Chegada 0 3199

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai