Fim de expediente 0 707

Sempre que o relógio da parede marca 20h45, Catarina encosta a porta do bar para indicar aos clientes que o local está prestes a encerrar as atividades do dia. O gesto também evita que um ou outro retardatário apareça. Este é um hábito antigo, mas nem por isso Catarina está acostumada. Antes, era Rodela, seu marido, o responsável pelo ritual. Agora, desde que o marido passou a residir no maior hospital da cidade, “sem previsão de alta”, dizem os médicos, toda semana, há quase um ano, esta é uma tarefa para Catarina.

 

Era de se imaginar que um homem tradicional feito seu Rodela – apelido que não tem muito a ver com o nome da certidão, Tiburcio, e que ninguém nunca soube explicar a origem – se incomodasse em saber que sua esposa cuidava do estabelecimento sozinha. Mas não fechar as portas foi uma decisão do casal, que precisava do dinheiro que o negócio rendia e tinha um apreço especial pelo peculiar empreendimento.

 

A localização do negócio era privilegiada, mas nem sempre foi assim. “Antes, isso aqui era tudo mato”, contava Rodela para cada cliente novo, logo após explicar que aos poucos a vizinhança cresceu e a região passou a ficar valorizada. Não demorou muito para virar uma das áreas mais nobres da cidade.

 

O espaço reúne, todo dia, maiores de cinquenta anos e aqueles jovens-idosos, ou idosos-jovens, que gostam de viver como quem já está no segundo século de vida. Uma mesa de sinuca divide espaço com um fliperama do Street Fighter, que não funciona, e um pebolim com os dois times desfalcados. A trilha sonora, geralmente o mesmo CD gravado por um cliente solícito, vai de Raça Negra a Pink Floyd em uma mudança de faixa. E ninguém demonstra maiores preocupações com essas composições.

 

Agora o bar não vende mais cigarro. Ela prefere assim. De alguma forma, associa o tabaco ao estado de saúde do marido, embora os médicos tenham explicado que o vício de Tiburcio não foi o responsável pela doença. Os clientes não ligam muito para isso, e quando precisam vão até a banca que fica a poucos metros do boteco.

 

Desde que o marido adoeceu, Catarina se tornou uma pessoa mais fechada, de pouca conversa. É menos carrancuda quando o bar está cheio e o ambiente é de algazarra. Parece que manter o bar movimentado distrai e faz bem à Sra. Rodela, que enfim se vê à frente de pequenas decisões do cotidiano.

 

O trato com fornecedores e clientes já não trazia maiores dificuldades, mas quando o engravatado entrou no bar, Catarina não entendeu muito bem o que aquele desconhecido, tão bem vestido, poderia querer ali no recinto.

 

– Entrega para o Sr. Tiburcio – disse o homem, que logo em seguida se apresentou como advogado da família Sotto.

 

Agora, Catarina e Tiburcio têm poucos meses para desocupar o imóvel. Nunca se preocuparam em registrar o terreno e acharam que nunca teriam maiores problemas com a posse do imóvel. “Herança de família antiga, que só soube que era dona disso aqui, agora, em um novo inventário”, explicou o advogado, que passou um bom tempo esclarecendo o imbróglio, que não deu chances nem para a possibilidade de usucapião. Ao casal, na melhor das hipóteses, restaria uma modesta compensação financeira se não atrasasse a desocupação do local nem atrapalhasse a venda do terreno.

Quase 21h, hora de encostar a porta mais uma vez.

 

por Felipe Kryminice

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Escala de Baumé 0 2195

Já não se criam mais homens de barro, apesar de continuarmos nos esfarelando. É aceito que hoje somos compostos por água e ansiedade. De barro só os tijolos, com que se ergueram os muros de nossas casas e prisões. A ansiedade só cresce.

Na primeira vez em que fui visitar o Jaime na clínica ficamos em silêncio por quase uma hora, quinze anos de amizade nos poupam de certos diálogos dispendiosos. No momento de ir embora ouvi com clareza o que seus olhos me diziam, não podia abandoná-lo, e não o fiz. Na semana seguinte houve a necessidade de falar, de abraçar, de chorar; é difícil permanecer impassível quando seu colega de quarto é internado após tentar serrar os pulsos com um serrote, dessa vez era isso que seus olhos e braços me diziam. Os suicidas estão à procura de sua própria justiça, na qual a morte é a sentença final. O Jaime não era um suicida, ao menos não nos moldes convencionais, já que tomar uma garrafa de destilado por dia vinha se mostrando uma técnica efetiva para findar com sua vida. Seus sorrisos tornaram-se raros, pequenas ilhas de alívio no caos murado da instituição; os espaços cada vez menores, a alma tumultuada, a mente entulhada. Não sei o que tive mais medo de ver, se um surto ou a depressão profunda, um conforto mórbido me tomava ao vê-lo flutuar entre ambas hipóteses. Foi na décima terceira semana que decidimos que algo precisava ser feito.

Nunca concordei com essa internação, entendo-a, não é fácil para família alguma ter alguém fora de controle, mas não posso compactuar com isso. Lá fora o Jaime era a materialização da beleza na desordem, um furacão que arrasa um campo de rosas para se encher de cor, aqui ele não passa de um sopro, incapaz de espalhar as pétalas de um dente de leão. Onde esse ímpeto se perdeu? Na abstenção do álcool ou da vontade própria? Troquei minhas mágoas pela vergonha depois de descobrir o motivo de não ter sido ouvido em algumas visitas; certo dia trocaram o Jaime de quarto, sem consentimento algum ele foi amarrado em sua cama e transferido para outro cômodo, frio e com janelas menores. A crise de identidade se apossou dele, não se sentia mais um homem, era agora objeto. Não tinha mais nome, por isso não atendia quando o chamavam, tornou-se coisa, dessas que trocamos de lugar por mero paisagismo e descartamos quando causam problemas. Definitivamente, não existe amor sem empatia.

Uma hóstia podre e carcomida pelos vermes ainda é o corpo de cristo? Era a pergunta que me fazia todos os dias em que tinha que encarar um Jesus deteriorado na sala de espera da clínica. Dois mil anos com os pulsos pregados, quanto tempo mais era possível aguentar esse tipo de tortura? Na décima quarta semana cumpri com o combinado, depois que o Jaime voltou a ser alguém, a gente mergulhou num saudosismo afável, de quando éramos quem queríamos ser: bêbados que culpavam o álcool pelas próprias frustrações artísticas.

Pouco dormi na semana que antecedeu esse dia, nos momentos em que o cansaço venceu a angústia sonhei com prédios ruindo, maldito sonho que não me abandona. Deixei o carro embaixo da figueira de sempre, há quem diga que ela é a árvore da vida, também dizem que foi onde se deu o enforcamento de Judas Iscariotes. Minhas mãos suam, agora seria incapaz de dar um nó em qualquer corda. Como já me é habitual, encaro Jesus, com todas as minhas dúvidas.

Enfim chamam pelo meu nome. No caminho até o quarto o enfermeiro elogia minha decisão de trazer toddynho e trakinas para meu amigo, diz que nos últimos dias os internos passaram à pão e água, só meneio com a cabeça. É minha vez de engolir as palavras, sento em frente a ele e respondo com os olhos o seu questionamento. Trouxe? Estico a mão e lhe entrego, sinto medo, receio, vontade de me livrar logo disso e seguir em frente. Ele sorri nervosamente, a ansiedade lhe obriga a contrair seu maxilar, tomado pela dúvida, se espera o momento certo ou se entrega agora. Suo frio, quero ir embora, mas não consigo nem me levantar, nem virar o rosto, ele fura a superfície de alumínio com o canudinho e bebe tudo num gole só. Sorri com leveza, me abraça com calor, me pede pra voltar na semana seguinte. Vou embora me arrastando, as costas arqueadas carregam o peso de uma cruz, quantas mentiras conseguimos contar durante a vida?

Procuro no calendário onde foram parar os dias da semana que se foi, não há negociação, já é véspera de visita novamente. Encaro a prateleira do supermercado, água de coco ou suco de laranja? Nunca fui um bom alquimista, li dia desses que vão menos conservantes na água de coco, sei lá que diferença isso faz. A cena é cinematográfica, chego em casa e busco a sacola com meu kit, me sinto um coadjuvante de Trainspotting com uma seringa pontuda em mãos. Furo o fundo da caixinha de água de coco e retiro metade do líquido, a mão que segura a garrafa de vodka treme, encho novamente a seringa e preencho a embalagem usando o mesmo furo de antes, tapo a abertura com um pedaço milimétrico de durex. Torno a pegar a garrafa de vodka, a mão ainda tremendo, sirvo uma dose e bebo num gole só. Choro, por mim e por todos os bêbados que insistiram em criar descrença em seus queridos. Sóbrios ou não, permanecemos assistindo a ansiedade tomar conta.

Crédito da Imagem: Robert Mapplethorpe

Chegada 0 3456

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai