Até que surgiram os espinhos 0 2553

O sangue que escorria pelo cabo até a lâmina do machado era o mesmo que lhe enchia o coração de um vazio sem fim. Diante da mágoa ao chão, Thales em nada lembrava a vida. Foram anos de cuidados e amor até que a frustração o trouxe à dor final da tarde de hoje.

Ainda na infância Thales havia plantado a muda do pé de limão que ganhou na escola num pote amarelo no dia da árvore.

No fundo do quintal de casa o pé de limão ganhou a terra. Ali cresceria e ultrapassaria a altura de Thales em uma trajetória rumo ao sol. E Thales sonhou dia a dia com os fortes galhos que lhe sustentariam a vida em algum futuro. O limoeiro seria seu reino.

Os alertas eram constantes. “Mas pé de limão tem espinhos”, falava o pai, “Limoeiro não foi feito pra subir”, dizia a mãe, e Thales dava de ombros como só as crianças são capazes de fazer para a realidade e seguia conversando com sua arvorezinha que passava os dias a conquistar os ares. “Quando você crescer, eu vou morar lá em cima”.

Os dias passaram, Thales cresceu e o pé de limão também. O menino ganhou tamanho mas não esqueceu o sonho de viver na árvore. Este dia estava cada vez mais próximo, até que os espinhos apareceram.

Aos poucos a realidade abraçava Thales com braços gelados para desfazer os sonhos da criança que resistia em ir embora. Aos poucos a frustração que os espinhos lhe causavam era transformada em ódio. Um rancor que crescia dentro de si mais rápido do que os galhos que retribuíam com espinhos todos aqueles anos de cuidados.

Hoje Thales decidiu subir em seu pé de limão. Contornaria os espinhos e realizaria o sonho que planejou nestes anos todos. Era pra isso que havia vivido, afinal.

Tateou o primeiro galho que sustentaria seu peso, ajustou as mãos entre os espinhos e subiu. A calça enroscou e ele puxou. Sequer percebeu rasgar. As primeiras dores nós sempre pensamos que não são nada, que vão passar.

Ajustou novamente as mãos e passou ao galho acima. Dessa vez, cortou o braço e o sangue lhe escorreu até o cotovelo. Thales havia esquecido de sentir as coisas. Queria subir. Alcançar o céu com seu pé de limão.

Pegou no próximo galho de qualquer jeito e suas mãos começavam a tingir de dores tudo por onde passavam. Aos poucos Thales transbordava e deixava um tanto de si a cada toque. Sem perceber, ele e o limoeiro tornavam-se um só. Até que chegou ao último galho, à mercê do vento, pra lá e pra cá, abraçado pelo silêncio das folhas.

Suas mãos doíam uma dor que lhe doía na vida inteira. Furos e cortes traziam à tona o sangue escuro que tingia o limoeiro.

Cego pela dor, Thales desceu ainda mais rápido do que havia subido. Já não havia mais o que machucar. O pé de limão estava vermelho.

O reinado de Thales entre os galhos durou exatos dezessete minutos e, de volta ao chão, caminhou até a despensa nos fundos de casa e pegou o machado que jamais imaginou usar. Como quem sabe o que faz, veio até seu reino que ardia em sangue.

Uma, duas, três, inúmeras dores acompanharam os golpes que causavam tremores na imponente árvore. As folhas que caíam anunciavam que o orgulho se inclinaria diante da dor, até que o reino de Thales sucumbiu ao fio sequer afiado do velho machado.

Ali, diante do pé de limão banhado de dor, a criança de Thales envelheceu e teve certeza de que havia dedicado uma vida inteira a cultivar um amor que lhe era só espinhos. Jamais frutos, sequer flores.

Sem se importar se haveria outra muda em um pote amarelo, soltou o machado na terra, virou as costas para tudo o que havia sangrado e seguiu acompanhado pelas marcas eternas que os espinhos nos deixam.

 

Texto: Rafael Antunes
Ilustração: Nina Zambiassi

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Escala de Baumé 0 1920

Já não se criam mais homens de barro, apesar de continuarmos nos esfarelando. É aceito que hoje somos compostos por água e ansiedade. De barro só os tijolos, com que se ergueram os muros de nossas casas e prisões. A ansiedade só cresce.

Na primeira vez em que fui visitar o Jaime na clínica ficamos em silêncio por quase uma hora, quinze anos de amizade nos poupam de certos diálogos dispendiosos. No momento de ir embora ouvi com clareza o que seus olhos me diziam, não podia abandoná-lo, e não o fiz. Na semana seguinte houve a necessidade de falar, de abraçar, de chorar; é difícil permanecer impassível quando seu colega de quarto é internado após tentar serrar os pulsos com um serrote, dessa vez era isso que seus olhos e braços me diziam. Os suicidas estão à procura de sua própria justiça, na qual a morte é a sentença final. O Jaime não era um suicida, ao menos não nos moldes convencionais, já que tomar uma garrafa de destilado por dia vinha se mostrando uma técnica efetiva para findar com sua vida. Seus sorrisos tornaram-se raros, pequenas ilhas de alívio no caos murado da instituição; os espaços cada vez menores, a alma tumultuada, a mente entulhada. Não sei o que tive mais medo de ver, se um surto ou a depressão profunda, um conforto mórbido me tomava ao vê-lo flutuar entre ambas hipóteses. Foi na décima terceira semana que decidimos que algo precisava ser feito.

Nunca concordei com essa internação, entendo-a, não é fácil para família alguma ter alguém fora de controle, mas não posso compactuar com isso. Lá fora o Jaime era a materialização da beleza na desordem, um furacão que arrasa um campo de rosas para se encher de cor, aqui ele não passa de um sopro, incapaz de espalhar as pétalas de um dente de leão. Onde esse ímpeto se perdeu? Na abstenção do álcool ou da vontade própria? Troquei minhas mágoas pela vergonha depois de descobrir o motivo de não ter sido ouvido em algumas visitas; certo dia trocaram o Jaime de quarto, sem consentimento algum ele foi amarrado em sua cama e transferido para outro cômodo, frio e com janelas menores. A crise de identidade se apossou dele, não se sentia mais um homem, era agora objeto. Não tinha mais nome, por isso não atendia quando o chamavam, tornou-se coisa, dessas que trocamos de lugar por mero paisagismo e descartamos quando causam problemas. Definitivamente, não existe amor sem empatia.

Uma hóstia podre e carcomida pelos vermes ainda é o corpo de cristo? Era a pergunta que me fazia todos os dias em que tinha que encarar um Jesus deteriorado na sala de espera da clínica. Dois mil anos com os pulsos pregados, quanto tempo mais era possível aguentar esse tipo de tortura? Na décima quarta semana cumpri com o combinado, depois que o Jaime voltou a ser alguém, a gente mergulhou num saudosismo afável, de quando éramos quem queríamos ser: bêbados que culpavam o álcool pelas próprias frustrações artísticas.

Pouco dormi na semana que antecedeu esse dia, nos momentos em que o cansaço venceu a angústia sonhei com prédios ruindo, maldito sonho que não me abandona. Deixei o carro embaixo da figueira de sempre, há quem diga que ela é a árvore da vida, também dizem que foi onde se deu o enforcamento de Judas Iscariotes. Minhas mãos suam, agora seria incapaz de dar um nó em qualquer corda. Como já me é habitual, encaro Jesus, com todas as minhas dúvidas.

Enfim chamam pelo meu nome. No caminho até o quarto o enfermeiro elogia minha decisão de trazer toddynho e trakinas para meu amigo, diz que nos últimos dias os internos passaram à pão e água, só meneio com a cabeça. É minha vez de engolir as palavras, sento em frente a ele e respondo com os olhos o seu questionamento. Trouxe? Estico a mão e lhe entrego, sinto medo, receio, vontade de me livrar logo disso e seguir em frente. Ele sorri nervosamente, a ansiedade lhe obriga a contrair seu maxilar, tomado pela dúvida, se espera o momento certo ou se entrega agora. Suo frio, quero ir embora, mas não consigo nem me levantar, nem virar o rosto, ele fura a superfície de alumínio com o canudinho e bebe tudo num gole só. Sorri com leveza, me abraça com calor, me pede pra voltar na semana seguinte. Vou embora me arrastando, as costas arqueadas carregam o peso de uma cruz, quantas mentiras conseguimos contar durante a vida?

Procuro no calendário onde foram parar os dias da semana que se foi, não há negociação, já é véspera de visita novamente. Encaro a prateleira do supermercado, água de coco ou suco de laranja? Nunca fui um bom alquimista, li dia desses que vão menos conservantes na água de coco, sei lá que diferença isso faz. A cena é cinematográfica, chego em casa e busco a sacola com meu kit, me sinto um coadjuvante de Trainspotting com uma seringa pontuda em mãos. Furo o fundo da caixinha de água de coco e retiro metade do líquido, a mão que segura a garrafa de vodka treme, encho novamente a seringa e preencho a embalagem usando o mesmo furo de antes, tapo a abertura com um pedaço milimétrico de durex. Torno a pegar a garrafa de vodka, a mão ainda tremendo, sirvo uma dose e bebo num gole só. Choro, por mim e por todos os bêbados que insistiram em criar descrença em seus queridos. Sóbrios ou não, permanecemos assistindo a ansiedade tomar conta.

Crédito da Imagem: Robert Mapplethorpe

Vida comum parte 1 0 2593

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.