Mad Vallis 0 627

As botas estavam tingidas de castanho avermelhado. Era o efeito de caminhar naquele solo oxidado. Fazia vinte e cinco dias que Daren explorava aquela região, conhecida como Mad Vallis. Nesse período, cobriu pouco mais de um terço de todo o território, que não passava de um grande cânion forjado pelo impacto de um cometa, um pouco menor que Caronte. O evento havia acontecido há cerca de dez anos. A tempestade formada em Mad Vallis impediu a aproximação durante este período. Agora, quando o turbilhão havia passado, restava investigar. “Afinal a poeira cósmica é a mãe de todos”, brincou Daren consigo mesmo. Já estava na décima segunda hora de caminhada, do vigésimo quinto dia de exploração. Precisava encontrar logo um lugar para abrigar-se e dar início ao processo de reciclagem do tanque de água e oxigênio. No pulso esquerdo, preso como um bracelete, estava o computador. A tela mostrava o mapa de Mad Vallis com as rotas de travessia possíveis. Haviam sido traçadas com ajuda de imagens da sonda deixada na órbita. Aquela cratera tinha capacidade de abarcar quase duas vezes o pequeno país onde Daren havia nascido.

Quando criança, ele costumava ouvir uma música que contava a história de um garoto. A letra falava que o menino vivia em uma cidade tempestuosa e que costumava caminhar sozinho pelas ruas desertas. Perambulava por becos com grandes latões de lixo, paredes exibindo gigantescos desenhos grafitados e postes de madeira. A música dizia que a criança era boa, a cidade é que era insana. Certa vez, Daren escreveu seu nome na parede de um beco, parecido com os descritos na música. Na verdade escreveu um breve recado destinado ao menino solitário e assinou embaixo: “de seu amigo, Daren”. Agora, caminhando por Mad Vallis, desejava encontrar um recado esquecido, um recado amigável, um recado verossímil, gravado em uma das pedras oxidadas daquele grande cânion. Mas seria impossível. Ele era o primeiro humano a caminhar por aquele buraco vermelho e gigantesco chamado Mad Vallis. Mesmo que alguém, em algum tempo da história, tivesse anotado mensagem para ele em uma daquelas pedras enferrujadas e a tivesse deixado ali, naquele lugar inóspito, a noite eterna e pródiga em nuvens teria apagado a inscrição para sempre.

Daren continuou caminhando e fazendo anotações no computador. Fazia fotografias e vídeos curtos, de vinte e cinco segundos cada, mostrando desde visões gerais da paisagem até pequenos detalhes do solo. Os equipamentos respondiam por comandos de voz e transferiam as informações para o banco de dados da sonda em órbita. A visão de Daren ia até o horizonte e voltava. Às vezes passava horas olhando os próprios pés se movendo.

Tinha a impressão de ter o corpo empurrado para trás. Atravessou cadeias de dunas que desapareciam à medida que se distanciava delas. Depois de escalar um grande paredão de rocha ferrosa, avistou um desfiladeiro, seguido por uma longa planície. No meio da paisagem era possível enxergar uma gruta de quartzo rosado. No topo da gruta havia uma abertura e Daren percebeu que poderia passar as cinco horas de descanso (tempo necessário para o equipamento de reciclagem terminar o processo) deitado, observando as estrelas por aquela janela natural.

Após quarenta e cinco minutos, terminou a descida e caminhou até a gruta de quartzo. Retirou a bagagem das costas e montou o equipamento de reciclagem. Instalou as placas solares para abastecer o aparelho e armou a superfície plana, sobre dois tripés, na qual deitou. Depois de encaixar os grampos traseiros do traje na plataforma, a meio metro do chão, Daren esticou as pernas. Abriu um compartimento no peito, uma espécie de bolso, e retirou uma lente fina, então a colou no vidro do capacete. Apesar de bastante tênue, a lente tinha distância focal de cinco mil milímetros e decodificava os espectros luminosos, assim Daren podia identificar qual estrela estava observando, a que distância estava dela e quais os principais gases e demais componentes que a formavam. Era um trabalho de mapeamento secundário, inspirado nos grandes navegadores do passado e motivado muito mais pelo desejo de observar os astros do que por alguma necessidade de referenciamento estratégico.  As sondas espaciais já haviam feito quase todo o trabalho. Aquela observação manual era apenas um jogo para passar o tempo. “Não importa o objetivo da viagem, em terra estranha, sempre somos turistas”, murmurou Daren sorrindo antes de pegar no sono.

Dormiu por três horas e quando acordou o equipamento de reciclagem tinha quase terminado seu trabalho.  Mais doze dias e chegaria ao centro de Mad Vallis. Era a zona mais baixa de todo o cânion. Talvez lá encontrasse um portal para o subsolo. O computador mostrava que as temperaturas seriam as mais altas enfrentadas desde a entrada naquela atmosfera hostil. “O vale da morte fica no coração de Mad Vallis”, pensou. “Vou mensurá-lo, desvendá-lo e enviar os dados para a sonda, então seguirei até o outro lado”, concluiu otimista. Empacotou o equipamento e seguiu para mais uma etapa da jornada.

Escrito por Jadson André
Ilustrado por Caroline Rehbein

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Escala de Baumé 0 1920

Já não se criam mais homens de barro, apesar de continuarmos nos esfarelando. É aceito que hoje somos compostos por água e ansiedade. De barro só os tijolos, com que se ergueram os muros de nossas casas e prisões. A ansiedade só cresce.

Na primeira vez em que fui visitar o Jaime na clínica ficamos em silêncio por quase uma hora, quinze anos de amizade nos poupam de certos diálogos dispendiosos. No momento de ir embora ouvi com clareza o que seus olhos me diziam, não podia abandoná-lo, e não o fiz. Na semana seguinte houve a necessidade de falar, de abraçar, de chorar; é difícil permanecer impassível quando seu colega de quarto é internado após tentar serrar os pulsos com um serrote, dessa vez era isso que seus olhos e braços me diziam. Os suicidas estão à procura de sua própria justiça, na qual a morte é a sentença final. O Jaime não era um suicida, ao menos não nos moldes convencionais, já que tomar uma garrafa de destilado por dia vinha se mostrando uma técnica efetiva para findar com sua vida. Seus sorrisos tornaram-se raros, pequenas ilhas de alívio no caos murado da instituição; os espaços cada vez menores, a alma tumultuada, a mente entulhada. Não sei o que tive mais medo de ver, se um surto ou a depressão profunda, um conforto mórbido me tomava ao vê-lo flutuar entre ambas hipóteses. Foi na décima terceira semana que decidimos que algo precisava ser feito.

Nunca concordei com essa internação, entendo-a, não é fácil para família alguma ter alguém fora de controle, mas não posso compactuar com isso. Lá fora o Jaime era a materialização da beleza na desordem, um furacão que arrasa um campo de rosas para se encher de cor, aqui ele não passa de um sopro, incapaz de espalhar as pétalas de um dente de leão. Onde esse ímpeto se perdeu? Na abstenção do álcool ou da vontade própria? Troquei minhas mágoas pela vergonha depois de descobrir o motivo de não ter sido ouvido em algumas visitas; certo dia trocaram o Jaime de quarto, sem consentimento algum ele foi amarrado em sua cama e transferido para outro cômodo, frio e com janelas menores. A crise de identidade se apossou dele, não se sentia mais um homem, era agora objeto. Não tinha mais nome, por isso não atendia quando o chamavam, tornou-se coisa, dessas que trocamos de lugar por mero paisagismo e descartamos quando causam problemas. Definitivamente, não existe amor sem empatia.

Uma hóstia podre e carcomida pelos vermes ainda é o corpo de cristo? Era a pergunta que me fazia todos os dias em que tinha que encarar um Jesus deteriorado na sala de espera da clínica. Dois mil anos com os pulsos pregados, quanto tempo mais era possível aguentar esse tipo de tortura? Na décima quarta semana cumpri com o combinado, depois que o Jaime voltou a ser alguém, a gente mergulhou num saudosismo afável, de quando éramos quem queríamos ser: bêbados que culpavam o álcool pelas próprias frustrações artísticas.

Pouco dormi na semana que antecedeu esse dia, nos momentos em que o cansaço venceu a angústia sonhei com prédios ruindo, maldito sonho que não me abandona. Deixei o carro embaixo da figueira de sempre, há quem diga que ela é a árvore da vida, também dizem que foi onde se deu o enforcamento de Judas Iscariotes. Minhas mãos suam, agora seria incapaz de dar um nó em qualquer corda. Como já me é habitual, encaro Jesus, com todas as minhas dúvidas.

Enfim chamam pelo meu nome. No caminho até o quarto o enfermeiro elogia minha decisão de trazer toddynho e trakinas para meu amigo, diz que nos últimos dias os internos passaram à pão e água, só meneio com a cabeça. É minha vez de engolir as palavras, sento em frente a ele e respondo com os olhos o seu questionamento. Trouxe? Estico a mão e lhe entrego, sinto medo, receio, vontade de me livrar logo disso e seguir em frente. Ele sorri nervosamente, a ansiedade lhe obriga a contrair seu maxilar, tomado pela dúvida, se espera o momento certo ou se entrega agora. Suo frio, quero ir embora, mas não consigo nem me levantar, nem virar o rosto, ele fura a superfície de alumínio com o canudinho e bebe tudo num gole só. Sorri com leveza, me abraça com calor, me pede pra voltar na semana seguinte. Vou embora me arrastando, as costas arqueadas carregam o peso de uma cruz, quantas mentiras conseguimos contar durante a vida?

Procuro no calendário onde foram parar os dias da semana que se foi, não há negociação, já é véspera de visita novamente. Encaro a prateleira do supermercado, água de coco ou suco de laranja? Nunca fui um bom alquimista, li dia desses que vão menos conservantes na água de coco, sei lá que diferença isso faz. A cena é cinematográfica, chego em casa e busco a sacola com meu kit, me sinto um coadjuvante de Trainspotting com uma seringa pontuda em mãos. Furo o fundo da caixinha de água de coco e retiro metade do líquido, a mão que segura a garrafa de vodka treme, encho novamente a seringa e preencho a embalagem usando o mesmo furo de antes, tapo a abertura com um pedaço milimétrico de durex. Torno a pegar a garrafa de vodka, a mão ainda tremendo, sirvo uma dose e bebo num gole só. Choro, por mim e por todos os bêbados que insistiram em criar descrença em seus queridos. Sóbrios ou não, permanecemos assistindo a ansiedade tomar conta.

Crédito da Imagem: Robert Mapplethorpe

Chegada 0 3211

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai