A cidade que não há 0 98

sinto falta, doce falta, saudosa
daquela cidade imaginária
onde as teias de relações não são assim tão emaranhadas
de bares irregulares
a que nunca fui, e
não sei onde fica o banheiro

de calçadas, ruas e museus
todos inauditos
de esquinas cruzadas
pela primeira vez

falta de não guardar na memória
de não me contarem histórias
dos outros
sempre vistos
conhecidos carimbados notórios
no falatório do bairro

quero ver rostos de sombras
que são gente
o universo por dentro do corpo
que jamais conheci

sinto falta do anonimato
coletivo
da vida a correr sem intriga
no respeito discreto dos segredos
falta de ver quem nunca vi
quem não sei o que é
o que faz, onde esteve
de não ser identificada
nem reconhecer
aquele pobre sujeito, pressuposto
que fez isso a quem fizeram aquilo que viu tudo ou não sabe de nada nunca, coitado

quero ser ninguém

e logo ver outras gentes
que não falem de gente
que falem de ideias
de sonhos
do solo de guitarra
de borboletas
do tão lindo poema
que precisa ser recitado
interpretado e cuspido e chorado
a tomar-nos tanto tempo, tanta vida
que nenhum segundo é gasto
em sentenças ordinárias
de supremos juízes da banalidade

porque há tantos
e tantos
poemas
e versos
há tantas borboletas
que o ato bobo
de alguém bobo
comentado por bobos
não importa,
nem por um segundo
nem nunca importará
aos raios cósmicos
da imensidão da vida.

essa cidade, onde fica?
quero passagem
só de ida.

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Vida comum parte 1 0 108

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.

Chegada 0 671

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai