Texto de em 25 de Fevereiro de 2016 . Nenhum comentário.

sinto falta, doce falta, saudosa
daquela cidade imaginária
onde as teias de relações não são assim tão emaranhadas
de bares irregulares
a que nunca fui, e
não sei onde fica o banheiro

de calçadas, ruas e museus
todos inauditos
de esquinas cruzadas
pela primeira vez

falta de não guardar na memória
de não me contarem histórias
dos outros
sempre vistos
conhecidos carimbados notórios
no falatório do bairro

quero ver rostos de sombras
que são gente
o universo por dentro do corpo
que jamais conheci

sinto falta do anonimato
coletivo
da vida a correr sem intriga
no respeito discreto dos segredos
falta de ver quem nunca vi
quem não sei o que é
o que faz, onde esteve
de não ser identificada
nem reconhecer
aquele pobre sujeito, pressuposto
que fez isso a quem fizeram aquilo que viu tudo ou não sabe de nada nunca, coitado

quero ser ninguém

e logo ver outras gentes
que não falem de gente
que falem de ideias
de sonhos
do solo de guitarra
de borboletas
do tão lindo poema
que precisa ser recitado
interpretado e cuspido e chorado
a tomar-nos tanto tempo, tanta vida
que nenhum segundo é gasto
em sentenças ordinárias
de supremos juízes da banalidade

porque há tantos
e tantos
poemas
e versos
há tantas borboletas
que o ato bobo
de alguém bobo
comentado por bobos
não importa,
nem por um segundo
nem nunca importará
aos raios cósmicos
da imensidão da vida.

essa cidade, onde fica?
quero passagem
só de ida.