Gálea de bronze 0 86

Parado na porta, observando o movimento, vi do outro lado da rua quando o cara, de roupas largas e correntes prateadas no pescoço, abriu fogo. Não foi apenas um tiro ou dois, ele descarregou a arma. Fiquei paralisado. Ele atirou à queima-roupa, contra um grupo de pessoas. Três foram atingidas. Estavam em frente ao cinema de rua, conversando, já era quatro e pouco da manhã, não sei o que tanta gente fazia naquela encruzilhada. De frente para o cinema, há uma casa noturna. No terceiro lado da cruz fica o restaurante, de onde parte nosso ponto de vista e, completando a quarta metade da esquina, está o casarão histórico, abandonado. Era o cenário de uma festa que já deveria ter acabado.

Enquanto os tiros aconteciam, o mundo ficou em câmera lenta. Vi cada disparo ser acionado, não vi apenas a fumaça. Eu olhava pra arma e decifrava o modo como o atirador a apertava: era força, ódio, violência, loucura.

Na atmosfera lenta, os movimentos são estratificados, cada camada de intenção é aguda, salta aos olhos. Ele disparava como alguém que faz vingança; como um carrasco que executa a pena capital ou um publicano cobrando devedores. A coronha parecia morder a mão. O braço era um fuzil e o revólver a fria baioneta. O vingador fazia mira em alguém, mas agia com o desleixo de quem atira a esmo. A arma não expelia as cápsulas fumegantes; o tambor girava com cadência precisa em seu eixo e as guardava para sí.

Desde aqueles tiros, mudei a vida para sempre e não foi por medo. Talvez, o caminho escolhido me dirigiu a um nível metafísico diferente, me levou até uma fenda no espaço e torceu o tempo. Ali, parado na porta, fechei os olhos e entrei na sala branca, sem gravidade. Quando os abri, um segundo depois, olhei para os lados e não havia mais ninguém. A multidão na rua, na entrada da casa noturna e nas mesas e balcão do restaurante havia evaporado. Em toda a paisagem, a única coisa animada que ainda restava era um homem, de rosto triangular, com uniforme de centurião romano do século III, olhando em minha direção. Voltei a ficar paralisado.

“Pegue meu capacete e fuja, corra enquanto é tempo. Esse lugar não é para sempre”. Em seguida, ele me entregou o Gálea de bronze e permaneceu ali até eu colocar na cabeça. Meu guardião. O centurião vigilante é o despertar da autodefesa. Com ele, eu dividia aquela visão solitária. Ainda vi o atirador correndo rua acima, carregando a arma que expelia fumaça e entrando em um carro preto. As pessoas começaram a voltar aos poucos. Haviam se refugiado no banheiro, outras no terreno do casarão abandonado, outras atrás dos carros estacionados.

Desci a rua correndo e no meio do quarteirão vi um dos que havia sido baleado. Estava caído na calçada. Outros estavam em volta e uma mulher gritava: “chamem uma ambulância!”.

O capacete imperial gaulês era pesado e tinha um cheiro forte dentro. Depois de chegar à avenida do palácio, retirei a proteção de metal e a carreguei segurando na crina vermelha até chegar em casa, ainda pensando no que tinha visto.

 

 

Escrito por Jadson André

Ilustrado por Caroline Rehbein

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maculada 0 203

Tenho cá pra mim que deveria ser obrigatório parar pra saborear a lua por uns minutos quando ela está imensa lá no céu. Deveria ser mesmo uma lei: não admirou a lua cheia nesta quinta-feira? Vem a multa pelo correio. Não deu uma mordidinha sequer durante toda a semana? Vem a polícia da lua até a sua casa para ver o que se passa. Algo não está a correr bem.

Naquela época, as coisas não estavam mesmo bem. Quando as manchas começaram a aparecer , foi um desespero. Google, médicos, Google, exames, Google, dermatologistas, diagnósticos, tratamentos. Céus! Não era coisa que se pudesse esconder, aí é que estava o medo. Na pele. O medo era feito de manchas e as manchas eram feitas de medo. Céus! Foi minha família que me segurou, se não eu não aguentava. Juro que não aguentava. Eu queria quebrar os espelhos, queria que as selfies não estivessem mais na moda. Que as pessoas fossem um pouco mais cegas dos olhos e menos do coração.

Então uma vez estávamos eu e a minha filha sentados na varanda da casa de veraneio. Começava a anoitecer. Ela tinha nessa época uns sete anos de idade e um mundo inteiro por descobrir.  Admirávamos o céu, como há muito tempo eu não fazia.

Ela disse: “Olha, mãe, a lua tem manchas igual você”.

E depois: “Ela é linda, não é?”

E então a lua que move marés formou um oceano inteiro dentro dos meus olhos.

Nunca estivera tão feliz. Abracei a pequena; clarear a noite dela me bastava. Porque eu era também o reflexo do reflexo. Destas luas que não ficam bem em qualquer foto. Destas que têm manchas e crateras, sim, mas que balançam os mares e iluminam toda uma vida. E que giram e giram e giram e às vezes cometem suspiros dentro do peito dos poetas.

 

Murilo.

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”