Temporal 0 155

Às vésperas de completar trinta anos, em uma pesquisa despretensiosa, descobriu que a noite em que nasceu ganhou o apelido de “noite oficial dos óvnis”. Essa nova informação a deixou contrariada, pois reparava há tempos em um fenômeno curioso: ao passar por postes de iluminação pública, não era raro que mudasse o estado da luz, que ora apagava, ora acendia. Quando isso ocorria, um largo sorriso povoava seu rosto, como se aquilo acontecesse para lembrá-la de que todo mundo é especial para alguém nesse mundo, nem que seja para os postes de luz.

Já fazia dois anos e oito meses que deixara de ser dois. Desde então, o tempo sempre sobra em seus dias, como se nenhum compromisso fosse capaz de ocupar o lugar que uma vez o pertenceu. No início, ela preencheu seu tempo com as coisas de que ele não gostava, como uma forma de rebeldia e vingança silenciosas. Quando o luto é fresco, há um comprometimento maior com o esquecimento. Mas o tempo passa e, com ele, a tarefa rotineira de deixar para trás. Então, voltam as memórias do riso contido que sempre vinha acompanhado dos mesmos movimentos de ombros. A memória do pão velho com geleia e dos bilhetes pela manhã, como se aquilo acontecesse para lembrá-la de que todo mundo é especial para alguém nesse mundo, nem que seja nos momentos de desatenção.

Desde que morreu, todos os meses, seu jazigo recebeu flores. E os dias de visita pareciam sempre iguais: tempo cinza com uma chuva tão pesada que parecia querer soterrar ainda mais seus restos mortais. As condições climáticas não colaboravam para o conformismo. Por outro lado, a chuva sempre aparenta uma autorização dos céus para o pranto. Há quem diga que o cinza servia para destacar as cores das gérberas, enquanto a chuva servia para mantê-las regadas. Mas quando o luto ainda é fresco e a luz se apaga, as flores nunca são coloridas o suficiente. O tempo cinza começou a desencorajar a visita, conforme o tempo foi passando. A sepultura não mais recebeu cores, como se aquilo acontecesse para lembrá-la que todo mundo é especial para alguém nesse mundo, nem que seja para as formigas.

por Mariana Porto, com ilustração de Gustavo Ogg

Previous ArticleNext Article

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Vida comum parte 1 0 129

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.

Chegada 0 676

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai