Texto de em 02 de julho de 2016 . Nenhum comentário.

Às vésperas de completar trinta anos, em uma pesquisa despretensiosa, descobriu que a noite em que nasceu ganhou o apelido de “noite oficial dos óvnis”. Essa nova informação a deixou contrariada, pois reparava há tempos em um fenômeno curioso: ao passar por postes de iluminação pública, não era raro que mudasse o estado da luz, que ora apagava, ora acendia. Quando isso ocorria, um largo sorriso povoava seu rosto, como se aquilo acontecesse para lembrá-la de que todo mundo é especial para alguém nesse mundo, nem que seja para os postes de luz.

Já fazia dois anos e oito meses que deixara de ser dois. Desde então, o tempo sempre sobra em seus dias, como se nenhum compromisso fosse capaz de ocupar o lugar que uma vez o pertenceu. No início, ela preencheu seu tempo com as coisas de que ele não gostava, como uma forma de rebeldia e vingança silenciosas. Quando o luto é fresco, há um comprometimento maior com o esquecimento. Mas o tempo passa e, com ele, a tarefa rotineira de deixar para trás. Então, voltam as memórias do riso contido que sempre vinha acompanhado dos mesmos movimentos de ombros. A memória do pão velho com geleia e dos bilhetes pela manhã, como se aquilo acontecesse para lembrá-la de que todo mundo é especial para alguém nesse mundo, nem que seja nos momentos de desatenção.

Desde que morreu, todos os meses, seu jazigo recebeu flores. E os dias de visita pareciam sempre iguais: tempo cinza com uma chuva tão pesada que parecia querer soterrar ainda mais seus restos mortais. As condições climáticas não colaboravam para o conformismo. Por outro lado, a chuva sempre aparenta uma autorização dos céus para o pranto. Há quem diga que o cinza servia para destacar as cores das gérberas, enquanto a chuva servia para mantê-las regadas. Mas quando o luto ainda é fresco e a luz se apaga, as flores nunca são coloridas o suficiente. O tempo cinza começou a desencorajar a visita, conforme o tempo foi passando. A sepultura não mais recebeu cores, como se aquilo acontecesse para lembrá-la que todo mundo é especial para alguém nesse mundo, nem que seja para as formigas.

por Mariana Porto, com ilustração de Gustavo Ogg