Entre um Cigarro e Outro 0 61

Naquela primeira manhã de outono, ao acordar tive a sensação de que meu dia seria muito melhor, afinal, o clima estava ameno, nem tão calor a ponto do velho do andar de cima ficar reclamando, nem tão frio a ponto da quarentona do café da esquina reclamar que ainda não encontrou o seu cobertor de orelha.

Como de costume, me levantei e fui até o banheiro, olhei para a pia, a mesma parecia estar desesperada pelo seu gole de água matinal, escovei os dentes, tomei uma ducha, coloquei meu roupão de seda, desci as escadas, acendi um careta e fui até a esquina comprar um café, dois maços de cigarros e uma vodka, paguei e estava indo embora, sentindo que todos me olhavam e posso garantir a vocês que aqueles mesmos olhos não gostariam de presenciar os piores dias da minha vida.

Aqui quem vos fala é Renato, esse pigarro na voz é devido aos dois maços de Marlboro vermelho que fumo durante o dia, se eu falar a vocês que um dia tentei parar de fumar, estarei mentindo, fumo pelo simples motivo de gostar e também tem toda uma história por trás desse bendito vício, peço humildemente que prestem bastante atenção.

Nascido no ano de 1944, meu pai Fernando, de família humilde, porém bastante conhecida na pequena e pacata cidade de Assis Chateaubriand, um bebê saudável e um tanto quanto chorão, como contava Dona Armelinda, minha avó. Fernando teve uma infância um pouco conturbada, por assim dizer, já que ele era um moleque arteiro por demais e vivia machucado ou com fraturas em um dos braços ou pernas, aliás, uma vez minha avó me contou que ele conseguiu a proeza de quebrar os dois braços ao mesmo tempo.

Um bom tempo depois, já não tão arteiro e completando 18 anos, como era filho único não teve de servir ao quartel, e então o herdou de seu pai a tabacaria da família. Seu Roberto, meu avô não estava mais em condições de cuidar dos negócios, já que ele estava com câncer nos pulmões, adquirido fumando excessivamente de dois a três maços de cigarros por dia, sem contar nos charutos que hora ou outra dava umas tragadas.

Fernando estava preocupadíssimo com a saúde do seu velho, e não sabia quanto tempo mais o seu pai iria sobreviver, meu avô teimoso como sempre não queria saber de tratamento nenhum e continuava fumando sem parar, não escutava ninguém e nem se dava ao trabalho de ir aos médicos, assim contava meu pai.

Mais 2 anos se passaram e meu avô cada vez pior, em uma noite, Roberto chamou o Fernando para conversar, acendeu um cigarro, conversaram por horas e deram muitas risadas juntos, meu pai já havia aceitado que meu avô não queria fazer tratamento nenhum e a qualquer momento faleceria.

Foi então, que Roberto proferiu suas últimas palavras – Fernando, eu te amo, cuide de sua mãe e seja feliz – então, fechou os olhos, segurando o seu último cigarro e nunca mais os abriu.

E era entre um cigarro e outro que meu pai me contava essas e muitas outras histórias, peço que aguardem fielmente, logo lhes trarei um pouco mais dessa minha vida conturbada.

 

Giovane Santos

Previous ArticleNext Article

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Geração Alpha 0 119

O comboio chega à estação. O homem a segurar a mão da sua filhinha, 3 ou 4 anos, para embarcarem.

Eis que a porta do vagão não abre sozinha. Não é automática como as portas do Metro, mas ele não sabe; é turista. Deve estar avariada, ele pensa, emperrou. Resolve forçar a porta. Usa toda a sua força mas não consegue. O comboio prestes a partir.

Na altura dos olhos da filha está o botão. Ela mete ali o dedinho e – tchanam! – a porta se abre.

O pai, misto de constrangimento e orgulho, solta um sorriso bobo. Leva a filha para dentro pela mão. Próxima paragem: Belém.

 

Murilo

 

Cruzeiro do Sul 0 119

Para Gal

 

Navegar pelo mar Mediterrâneo ou pelos outros mares interiores da pequena Europa era relativamente seguro. As distâncias sempre foram curtas e, mesmo durante as noites, Alfa de Ursa Menor oferecia aos marinheiros uma orientação segura. Todas as estrelas e constelações do hemisfério norte orbitam em torno da estrela polar e a partir dela se sabia para onde ir ou qual direção evitar.

– Você é o brasileiro mais calado que eu conheço, sabia?

– Isso não é muito, sou o único brasileiro que você conhece.

– Não é verdade. Não te contei que eu morei dois anos em Salvador?

– Ah, então é por isso. Eu sou de Curitiba, e os curitibanos não falam muito.

– Mas eu também vivi em Curitiba, por seis meses. Dava aulas de inglês em uma escola de línguas. Eles nunca me pagaram e depois disso passei uma temporada trabalhando na Ilha do Mel. E insisto que você fala muito pouco.

Os silêncios de Antonio a desesperaram desde o primeiro contato. É que apesar dele sempre ter demonstrado interesse, e de que ao longo de toda a convivência sempre tenha sido tão atencioso quanto um companheiro pode ser, ela sentia que as palavras eram a forma mais eficiente para se evitar qualquer mal entendido. Aprendeu cedo que suas atitudes eram condicionadas pelos seus discursos e, por isso, ao longo de seus relacionamentos descobriu o quanto os homens tentam por meio das palavras (ou da falta delas) manter sua liberdade de ação.

Por isso, cada demonstração de afeto desacompanhada da correspondente declaração lhe provocava calafrios. Ainda pior era ver que tinha se interessado, outra vez, por um desses homens que abraçam pouco e falam menos ainda.

– Me dá um beijo?

– Bobo, há coisas que não se pergunta.

– Mas como eu posso conseguir coisas quando elas dependem de outras pessoas?

– Aí você tem que ter a coragem de tomar uma atitude e esperar que seja correspondido.

Para ele, eram justamente as palavras que provocavam os males entendidos. Tinha muita dificuldade em traduzir ao português, e depois ao inglês, ao espanhol, ao francês, o alcance e a intensidade de seus desejos, medos e aspirações mais profundas. Acreditava sinceramente que o olhar, o sorriso e a expressão corporal eram representações muito mais inequívocas de todos os conflitos pelos quais passava.

– Me escreve uma carta?

– Esqueceu que há coisas que não se pergunta?

– Eu sei, mas eu quero uma carta. Além do mais, você é que tem que tomar a iniciativa.

– Mas eu tomei, até pedi um beijo.

Ao fim e ao cabo, ele conseguiu não só um, mas incontáveis beijos. Molhados de saliva, molhados de suor, molhados de lágrimas. Doces, salgados, amargos. Distantes, próximos, falados, abraçados. Bianca também conseguiu mais cartas do que qualquer pessoa que houvera conhecido. Cartas enviadas de outras cidades, outros países, outros continentes. Cartas pretéritas, presentes, futuras, perfeitas e mais-que-perfeitas. Algumas sequer lhe eram endereçadas, mas à mulher que um dia havia sido, ou à mulher que talvez viesse a ser.

Abaixo da linha do equador existe outro mundo. A estrela polar desaparece no horizonte e mesmo as constelações conhecidas abandonam seu comportamento habitual. Nas noites de outono o imponente caçador Órion descansa deitado, acompanhado das Três Marias que compõem seu cinturão.

Do lado de cá nada é seguro como do lado de lá. Mesmo o Cruzeiro do Sul, que serve de bússola com seu ponteiro indicando o meridiano, nasce no leste e se põe no oeste como todos os corpos celestes. Há pouco espaço para certezas quando se navega por águas desconhecidas.

Daqui é curioso olhar que Antonio e Bianca inverteram as posições. Não porque seja um fenômeno particularmente comum em relacionamentos tão duradouros, mas porque a intromissão de um terceiro elemento sempre provoca transformações profundas.

Agora é Antonio quem busca estar sempre por perto e, ao sentir que a pouca distância ainda é muito longe, se agarra desesperadamente às palavras. Fala sobre as estrelas e as constelações, e como elas não são as mesmas nos dois hemisférios. Fala sobre o regime das marés, e como eles são influenciados pelos movimentos lunares. Fala tão corretamente quanto possível, cuidando da colocação pronominal, muito mais complicada no português do que em qualquer outro idioma que conhece.

E diante da impotência em estabelecer o contato que tanto busca, se vê refletido nos olhos dela. Tenta entrar, e fala que vai cuidar de tudo. Não como quem sabe que pode cuidar de tudo. Nem como quem acha que pode cuidar de tudo. Sequer como quem acredita que pode cuidar de tudo. Fala que vai cuidar de tudo como quem implora permissão para cuidar de pelo menos uma parte de tudo o que pode acontecer dali em diante.

Para ela, as palavras já perderam muito do seu sentido. Não é insensível à cena. Tampouco é demasiado tarde para ele. Mas ela sentiu no próprio corpo o amor que ali cresceu nos últimos meses, e percebe que ele não precisa de linguagem para se expressar.

Como um marinheiro perdido, Antonio assiste cada nova estria com o mesmo estupor com que os antigos navegantes miravam o céu sem a estrela polar. Compara aquela esfera crescente com o universo em expansão e busca, nas novas formas e desenhos, algum sentido de orientação. É inútil, os dias passam e ele não sabe o que esperar.

Ela o surpreende com um olhar grato e condescendente. A gratidão por saber que tem ao seu lado a melhor pessoa possível, e a condescendência de quem sabe que pode caminhar sozinha, mas prefere ter alguém com quem compartilhar a experiência.

Esse olhar o deixa mais tranquilo. Entende que talvez não possa cuidar de tudo, mas terá o seu espaço. Afinal, lá fora estão o céu, as estrelas, as luas e as marés, tudo por ser explicado e entendido. E tudo recomeça.