Entre um Cigarro e Outro 0 115

Naquela primeira manhã de outono, ao acordar tive a sensação de que meu dia seria muito melhor, afinal, o clima estava ameno, nem tão calor a ponto do velho do andar de cima ficar reclamando, nem tão frio a ponto da quarentona do café da esquina reclamar que ainda não encontrou o seu cobertor de orelha.

Como de costume, me levantei e fui até o banheiro, olhei para a pia, a mesma parecia estar desesperada pelo seu gole de água matinal, escovei os dentes, tomei uma ducha, coloquei meu roupão de seda, desci as escadas, acendi um careta e fui até a esquina comprar um café, dois maços de cigarros e uma vodka, paguei e estava indo embora, sentindo que todos me olhavam e posso garantir a vocês que aqueles mesmos olhos não gostariam de presenciar os piores dias da minha vida.

Aqui quem vos fala é Renato, esse pigarro na voz é devido aos dois maços de Marlboro vermelho que fumo durante o dia, se eu falar a vocês que um dia tentei parar de fumar, estarei mentindo, fumo pelo simples motivo de gostar e também tem toda uma história por trás desse bendito vício, peço humildemente que prestem bastante atenção.

Nascido no ano de 1944, meu pai Fernando, de família humilde, porém bastante conhecida na pequena e pacata cidade de Assis Chateaubriand, um bebê saudável e um tanto quanto chorão, como contava Dona Armelinda, minha avó. Fernando teve uma infância um pouco conturbada, por assim dizer, já que ele era um moleque arteiro por demais e vivia machucado ou com fraturas em um dos braços ou pernas, aliás, uma vez minha avó me contou que ele conseguiu a proeza de quebrar os dois braços ao mesmo tempo.

Um bom tempo depois, já não tão arteiro e completando 18 anos, como era filho único não teve de servir ao quartel, e então o herdou de seu pai a tabacaria da família. Seu Roberto, meu avô não estava mais em condições de cuidar dos negócios, já que ele estava com câncer nos pulmões, adquirido fumando excessivamente de dois a três maços de cigarros por dia, sem contar nos charutos que hora ou outra dava umas tragadas.

Fernando estava preocupadíssimo com a saúde do seu velho, e não sabia quanto tempo mais o seu pai iria sobreviver, meu avô teimoso como sempre não queria saber de tratamento nenhum e continuava fumando sem parar, não escutava ninguém e nem se dava ao trabalho de ir aos médicos, assim contava meu pai.

Mais 2 anos se passaram e meu avô cada vez pior, em uma noite, Roberto chamou o Fernando para conversar, acendeu um cigarro, conversaram por horas e deram muitas risadas juntos, meu pai já havia aceitado que meu avô não queria fazer tratamento nenhum e a qualquer momento faleceria.

Foi então, que Roberto proferiu suas últimas palavras – Fernando, eu te amo, cuide de sua mãe e seja feliz – então, fechou os olhos, segurando o seu último cigarro e nunca mais os abriu.

E era entre um cigarro e outro que meu pai me contava essas e muitas outras histórias, peço que aguardem fielmente, logo lhes trarei um pouco mais dessa minha vida conturbada.

 

Giovane Santos

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Vida comum parte 1 0 129

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.

Chegada 0 676

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai