Texto de em 10 de julho de 2016 . Nenhum comentário.

Naquela primeira manhã de outono, ao acordar tive a sensação de que meu dia seria muito melhor, afinal, o clima estava ameno, nem tão calor a ponto do velho do andar de cima ficar reclamando, nem tão frio a ponto da quarentona do café da esquina reclamar que ainda não encontrou o seu cobertor de orelha.

Como de costume, me levantei e fui até o banheiro, olhei para a pia, a mesma parecia estar desesperada pelo seu gole de água matinal, escovei os dentes, tomei uma ducha, coloquei meu roupão de seda, desci as escadas, acendi um careta e fui até a esquina comprar um café, dois maços de cigarros e uma vodka, paguei e estava indo embora, sentindo que todos me olhavam e posso garantir a vocês que aqueles mesmos olhos não gostariam de presenciar os piores dias da minha vida.

Aqui quem vos fala é Renato, esse pigarro na voz é devido aos dois maços de Marlboro vermelho que fumo durante o dia, se eu falar a vocês que um dia tentei parar de fumar, estarei mentindo, fumo pelo simples motivo de gostar e também tem toda uma história por trás desse bendito vício, peço humildemente que prestem bastante atenção.

Nascido no ano de 1944, meu pai Fernando, de família humilde, porém bastante conhecida na pequena e pacata cidade de Assis Chateaubriand, um bebê saudável e um tanto quanto chorão, como contava Dona Armelinda, minha avó. Fernando teve uma infância um pouco conturbada, por assim dizer, já que ele era um moleque arteiro por demais e vivia machucado ou com fraturas em um dos braços ou pernas, aliás, uma vez minha avó me contou que ele conseguiu a proeza de quebrar os dois braços ao mesmo tempo.

Um bom tempo depois, já não tão arteiro e completando 18 anos, como era filho único não teve de servir ao quartel, e então o herdou de seu pai a tabacaria da família. Seu Roberto, meu avô não estava mais em condições de cuidar dos negócios, já que ele estava com câncer nos pulmões, adquirido fumando excessivamente de dois a três maços de cigarros por dia, sem contar nos charutos que hora ou outra dava umas tragadas.

Fernando estava preocupadíssimo com a saúde do seu velho, e não sabia quanto tempo mais o seu pai iria sobreviver, meu avô teimoso como sempre não queria saber de tratamento nenhum e continuava fumando sem parar, não escutava ninguém e nem se dava ao trabalho de ir aos médicos, assim contava meu pai.

Mais 2 anos se passaram e meu avô cada vez pior, em uma noite, Roberto chamou o Fernando para conversar, acendeu um cigarro, conversaram por horas e deram muitas risadas juntos, meu pai já havia aceitado que meu avô não queria fazer tratamento nenhum e a qualquer momento faleceria.

Foi então, que Roberto proferiu suas últimas palavras – Fernando, eu te amo, cuide de sua mãe e seja feliz – então, fechou os olhos, segurando o seu último cigarro e nunca mais os abriu.

E era entre um cigarro e outro que meu pai me contava essas e muitas outras histórias, peço que aguardem fielmente, logo lhes trarei um pouco mais dessa minha vida conturbada.

 

Giovane Santos