Meritíssimo passageiro 2 1

Cinco ou quatro ou três ou duas ou uma. Quantas estrelas ele merecia? Na frente do edifício, noite fria e úmida, aguardei o Uber por longos nove minutos. A bateria do celular quase acabando, como se minha vida dependesse dela. Enfim, o carro chegou. “Desculpe a demora, eu fui pelo gps e me perdi.” “Ah, tudo bem…”

O mais estranho é que aquele motorista de Uber parecia um taxista. Na verdade, era igual um taxista. Típico: homem entre 55 e 60 anos, chamado Alceu – ou Seu Alceu, para os fãs da arte da rima boba – pele morena, cabelo bem branquinho, óculos de velho, camisa de velho, barba feita e dirigia assim meio inclinado pra frente com as duas mãos no volante, exceto quando mexia no celular preso ao painel. Nada de água, balinha ou ar-condicionado. O cheiro do carro também era de táxi. Seria um taxista infiltrado? Traidor do movimento? Seria o Gugu?

Partimos e logo tive a impressão de que ele estava se perdendo de novo. A cada dois minutos o celular alertava “sinal de gps perdido”, porém percebi que o Seu Alceu sabia o caminho de cabeça, como os meio-velhos geralmente sabem. Perguntei onde estávamos e ele disse que na rápida do Portão. Putz, ainda? Tanto tempo e ainda nessa rua? Esse motora tá dando umas voltas nada a ver, pensei. Calma, deve ser a bebida, eu tô bêbado. Não vá julgar um senhorzinho honesto antes de ter certeza!

Dizem que capricornianos são aficionados por julgamentos. Julgam os outros, julgam a si mesmos e acham que os outros julgam como eles julgam. Eu só acho que quem inventou isso estava falando besteira. Ou será que quem está falando besteira sou eu?

Epa, que viaduto é esse? Esse cara tá me levando pro Pinheirinho? Calma, eu tô bêbado. É um motorista de Uber, dizem que são superconfiáveis. Qualquer coisa você pode dar uma avaliação negativa depois… é isso! Vai tomar uma estrela só esse sem vergonha. Ouvi dizer que os motoristas precisam de uma média 4,5 para continuarem trabalhando. Imagina o estrago de uma estrela só. Vou acabar com a carreira desse cara.

Calma, cara, calma.

De repente o Seu Alceu coloca pra tocar uma rádio religiosa. Irreverente, começa também a mexer nas fotos do celular, com o carro em movimento. Poxa, campeão, ô ô ô faixa-preta, calma lá, mermão, assim você não tá me ajudando a te ajudar. Não rola uma musiquinha? Pensei, mas não falei. Ele deve ter família, deve estar orando por eles enquanto dirige de madrugada pra complementar a renda da casa. Mas pô, gps com defeito, rotas duvidosas, rádio crente, distração com o celular e esse cheiro de carro suado? Assim fica difícil.

Cinco estrelas: inocente. Quatro: prisão domiciliar. Três: regime semiaberto. Duas: 30 anos em regime fechado. Uma estrela: sozinho em uma cela com taxistas raivosos.

Defensores e promotores perlustravam os autos e a conduta delitiva atribuída ao indiciado na exordial acusatória. Interpelei o réu: “E o dia dos pais?”, mas ele foi evasivo. Será que era um pai tão bom que trabalhava em pleno dia dos pais? Ou um pai relapso que abandonou seus filhos com a progenitora? Aí, de repente, o Seu Alceu disse: “Olha só, apareceu um Pokémon”. Oh meu deus, ele era um Mestre Pokémon de 60 anos de idade, caçando com seu Uber por aí! Mas afinal, isso depunha contra ou a favor?

“Desembargador Motta com a Vicente?” “Não, não, um pouco mais pra cima. “Ah, então é ali pela Saldanha… vamos ter que pegar a Augusto Stellfeld pra virar”. Finalmente cheguei em casa e o senhorzinho me desejou um “Boa noite, guri.” – Epa epa, guri, não! Meritíssimo. Meritíssimo Senhor Guri!

Eu estava ébrio e decidi que teria que prorrogar o julgamento para o dia seguinte. Não seria justo dar-lhe poucas ou muitas estrelas naquele momento. Seu Alceu teria que dormir sem a consciência tranquila de uma avaliação positiva. Teria que dormir encolhido no cantinho da cama pensando em tudo que fez. Bato o malhete, todos podem se retirar.

 

Murilo.

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a mente enquanto objeto quebradiço 0 14

I

 

a noite aqui fora tá um pouco opressiva, graças ao bafo úmido que levanta do asfalto depois dessas chuvas de verão. passa pouco das oito da noite e eu mando um zap pra Cíntia, ver se ela precisa de algo em casa. “Traz um pão de azeite de oliva pra mim”, ela pede num áudio. quase envio uma mensagem perguntando onde encontrar um negócio tão específico, mas assim que olho pra frente me deparo com um local metido a besta, o típico estabelecimento que venderia pão de azeite de oliva. nunca vi esse prédio. entro, o lugar é descolado, projetado pra ricos moderninhos. uma espécie de galpão abandonado, de pé direito alto e arquitetura estranha, com várias lojas e restaurantes que ficam nas paredes, pelas quais o cliente passeia usando rampas. roupas, massas, eletrônicos, brinquedos artesanais. tipo um shopping pra quem quer se sentir integrado à região mas sem correr riscos.

um conjunto formado por vozes masculinas e femininas, flautas e percussões está distribuida ao longo do térreo e toca uma música em tom menor, bem bonita, lindíssima. é emocionante. choro um pouquinho e sinto uma vontade inexplicável de comprar romãs. peço por romãs, não as encontro, mas de rolê pelo galpão sou abordado por uma senhora, sentada num café afetado. “Psiu. Você quer romãs? Eu sei onde tem”, ela fala, feito gato, e me estica um cartão pessoal com nome que nem leio. “Lá perto de casa as romãzeiras estão carregadíssimas”, mia. sorri.

 

II

 

quando noto, estou descendo de um carro. percurso curto, que rua é essa? a velha me convence a entrar na casa porque precisa avisar qualquer coisa pra filha antes de me mostrar onde acho romãs. ela tem um desenho excêntrico, me deixa confuso, como se um sorrisinho malicioso estivesse grudado pra sempre em um rosto antigo e marcado por muitas mudanças. o cabelo platinado, quase branco. ela começa a falar estranho comigo, “Nossa, você é muito lindinho”, pergunta meu nome, respondo “Paulo. Paulo Braga”. meu nome não é Paulo e meu sobrenome não é Braga e eu não entendo mais o que estou fazendo. a senhora me pede licença e sai do cômodo e nisso a filha entra. igual, mas o cabelo é preto e o rosto é jovem. começa a fazer perguntas inúteis, ela também fala miando. “De onde você é?”, questiona, respondo “Minas”, mas eu não sou de Minas. “Ai, que fofo! Que bom que você vai vir pra cá, passar sotaque pra minha mãe”.

vir pra cá? passar sotaque? do que essa moça tá falando? explico que na verdade sou gaúcho, de Pelotas, e nada muda na dinâmica da conversa. tento me distrair pensando em quando vou finalmente comer as romãs, mas o cômodo tem um ar estranho, um perfume me sufoca e confunde. enquanto a jovem mia bobagens e amenidades, tiro o celular do bolso e jogo no Google o nome da coroa, que copiei do cartão. nome diferente, nunca li nada assim. “Que línguas você fala?”, ela, “Inglês e espanhol”, eu, “Ótimo, mamãe fala muitas outras, já podem viajar bastante”. o clima não tá legal, eu não quero viajar com ninguém, eu fico tenso, o 4G não funciona direito. “Mamãe teve vários homens mas nenhum nunca deu certo. Acho que nenhum estava realmente pronto, sabe? E sempre acabam sumindo, hehe”.

 

III

 

fito a tela. a busca está completa. leio os resultados.

 

travo.

congelo.

 

IV

 

reúno forças e levanto e percebo a velha de volta ao quarto. sorrisinho, vestido e véu vermelho-sangue, quase flutua. penso em correr, mas um miado calmo soa como se viesse por toda parte, formando palavras que mais soam como portas que se fecham.

 

“Aonde é que você pensa que vai? Você fica. Você não vai a lugar nenhum”.

 

 

 

 

 

texto do Rômulo Candal

visual do Marco Antonio

Alvoradas 0 13

desentristecer
é iluminar a alma
como renascer

algo que insiste
que conduz
do triste
ao tecer

é persistir
na felici

No instante em que o sol se depositava feito moeda no dourado do mar, Pérsio estancou seus versos. Sabia que letras teriam força alguma para lhe conduzir para além do esquecimento.

Talhara em si um emaranhado de signos para forjar a própria memória. Diluiu-se em palavras-dispersas e estava só. Era agora um infinito de páginas inacabadas, abrigadas num todo que era nada. Uma luz vista por ninguém.

Mergulhado na escuridão, baixou o olhar até doer. Via ausência em si. Mesmo diante do mais límpido espelho encontraria cumplicidade alguma. Tudo era noite.

Sem seus versos, Pérsio era lágrima que escorre só, que seca com vestígio algum. Feito nunca existido.

Feito esperança, buscou lembranças de luz. Como as registradas por relógios de sol, que ignoram momentos menores. Tinha para si que, para a felicidade, palavra alguma seria necessária. Que é na plenitude do silêncio que as verdades se eternizam em nossas almas e nos conduzem às alvoradas de si.

 

texto: Rafael Antunes
ilustração: Nina Zambiassi