Meritíssimo passageiro 2 149

Cinco ou quatro ou três ou duas ou uma. Quantas estrelas ele merecia? Na frente do edifício, noite fria e úmida, aguardei o Uber por longos nove minutos. A bateria do celular quase acabando, como se minha vida dependesse dela. Enfim, o carro chegou. “Desculpe a demora, eu fui pelo gps e me perdi.” “Ah, tudo bem…”

O mais estranho é que aquele motorista de Uber parecia um taxista. Na verdade, era igual um taxista. Típico: homem entre 55 e 60 anos, chamado Alceu – ou Seu Alceu, para os fãs da arte da rima boba – pele morena, cabelo bem branquinho, óculos de velho, camisa de velho, barba feita e dirigia assim meio inclinado pra frente com as duas mãos no volante, exceto quando mexia no celular preso ao painel. Nada de água, balinha ou ar-condicionado. O cheiro do carro também era de táxi. Seria um taxista infiltrado? Traidor do movimento? Seria o Gugu?

Partimos e logo tive a impressão de que ele estava se perdendo de novo. A cada dois minutos o celular alertava “sinal de gps perdido”, porém percebi que o Seu Alceu sabia o caminho de cabeça, como os meio-velhos geralmente sabem. Perguntei onde estávamos e ele disse que na rápida do Portão. Putz, ainda? Tanto tempo e ainda nessa rua? Esse motora tá dando umas voltas nada a ver, pensei. Calma, deve ser a bebida, eu tô bêbado. Não vá julgar um senhorzinho honesto antes de ter certeza!

Dizem que capricornianos são aficionados por julgamentos. Julgam os outros, julgam a si mesmos e acham que os outros julgam como eles julgam. Eu só acho que quem inventou isso estava falando besteira. Ou será que quem está falando besteira sou eu?

Epa, que viaduto é esse? Esse cara tá me levando pro Pinheirinho? Calma, eu tô bêbado. É um motorista de Uber, dizem que são superconfiáveis. Qualquer coisa você pode dar uma avaliação negativa depois… é isso! Vai tomar uma estrela só esse sem vergonha. Ouvi dizer que os motoristas precisam de uma média 4,5 para continuarem trabalhando. Imagina o estrago de uma estrela só. Vou acabar com a carreira desse cara.

Calma, cara, calma.

De repente o Seu Alceu coloca pra tocar uma rádio religiosa. Irreverente, começa também a mexer nas fotos do celular, com o carro em movimento. Poxa, campeão, ô ô ô faixa-preta, calma lá, mermão, assim você não tá me ajudando a te ajudar. Não rola uma musiquinha? Pensei, mas não falei. Ele deve ter família, deve estar orando por eles enquanto dirige de madrugada pra complementar a renda da casa. Mas pô, gps com defeito, rotas duvidosas, rádio crente, distração com o celular e esse cheiro de carro suado? Assim fica difícil.

Cinco estrelas: inocente. Quatro: prisão domiciliar. Três: regime semiaberto. Duas: 30 anos em regime fechado. Uma estrela: sozinho em uma cela com taxistas raivosos.

Defensores e promotores perlustravam os autos e a conduta delitiva atribuída ao indiciado na exordial acusatória. Interpelei o réu: “E o dia dos pais?”, mas ele foi evasivo. Será que era um pai tão bom que trabalhava em pleno dia dos pais? Ou um pai relapso que abandonou seus filhos com a progenitora? Aí, de repente, o Seu Alceu disse: “Olha só, apareceu um Pokémon”. Oh meu deus, ele era um Mestre Pokémon de 60 anos de idade, caçando com seu Uber por aí! Mas afinal, isso depunha contra ou a favor?

“Desembargador Motta com a Vicente?” “Não, não, um pouco mais pra cima. “Ah, então é ali pela Saldanha… vamos ter que pegar a Augusto Stellfeld pra virar”. Finalmente cheguei em casa e o senhorzinho me desejou um “Boa noite, guri.” – Epa epa, guri, não! Meritíssimo. Meritíssimo Senhor Guri!

Eu estava ébrio e decidi que teria que prorrogar o julgamento para o dia seguinte. Não seria justo dar-lhe poucas ou muitas estrelas naquele momento. Seu Alceu teria que dormir sem a consciência tranquila de uma avaliação positiva. Teria que dormir encolhido no cantinho da cama pensando em tudo que fez. Bato o malhete, todos podem se retirar.

 

Murilo.

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maculada 0 259

Tenho cá pra mim que deveria ser obrigatório parar pra saborear a lua por uns minutos quando ela está imensa lá no céu. Deveria ser mesmo uma lei: não admirou a lua cheia nesta quinta-feira? Vem a multa pelo correio. Não deu uma mordidinha sequer durante toda a semana? Vem a polícia da lua até a sua casa para ver o que se passa. Algo não está a correr bem.

Naquela época, as coisas não estavam mesmo bem. Quando as manchas começaram a aparecer , foi um desespero. Google, médicos, Google, exames, Google, dermatologistas, diagnósticos, tratamentos. Céus! Não era coisa que se pudesse esconder, aí é que estava o medo. Na pele. O medo era feito de manchas e as manchas eram feitas de medo. Céus! Foi minha família que me segurou, se não eu não aguentava. Juro que não aguentava. Eu queria quebrar os espelhos, queria que as selfies não estivessem mais na moda. Que as pessoas fossem um pouco mais cegas dos olhos e menos do coração.

Então uma vez estávamos eu e a minha filha sentados na varanda da casa de veraneio. Começava a anoitecer. Ela tinha nessa época uns sete anos de idade e um mundo inteiro por descobrir.  Admirávamos o céu, como há muito tempo eu não fazia.

Ela disse: “Olha, mãe, a lua tem manchas igual você”.

E depois: “Ela é linda, não é?”

E então a lua que move marés formou um oceano inteiro dentro dos meus olhos.

Nunca estivera tão feliz. Abracei a pequena; clarear a noite dela me bastava. Porque eu era também o reflexo do reflexo. Destas luas que não ficam bem em qualquer foto. Destas que têm manchas e crateras, sim, mas que balançam os mares e iluminam toda uma vida. E que giram e giram e giram e às vezes cometem suspiros dentro do peito dos poetas.

 

Murilo.

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 362

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”