Texto de em 12 de setembro de 2016 . Nenhum comentário.

O gramado atrás do museu estava ensolarado. Atmosfera quentinha, lugar perfeito para fingir ser invisível. Esses dias de Sol são raros nessa cidade que, vira e mexe, amanhece nublada. Aproveitou para desenhar. Ultimamente com a faculdade pela manhã e o estágio à tarde, pouco tempo sobrava para isso. Fingia que observava uma árvore, mas não era isso que desenhava no caderno, os pensamentos estavam longe.

Trouxera consigo o caderno de desenhos. Era caótico, fragmentado, colado, cheio de citações, rabiscado. Capa vermelha, algumas folhas eram antigos contratos, folhas recicladas, grampeadas. Sempre trazia o caderno consigo como se fosse uma carteira estufada de sonhos. Quando as páginas se esgotavam, um novo caderno era criado. Possuía uma coleção deles. Estava ali, a esboçar um nu feminino e lembrou o sonho que teve naquela noite. Sonhou que beijava Liz e nesse fragmento de imagem acordou. Perseguida por aquele mundo onírico, só esgotou-se ali, no gramado quentinho, desenhando.

Aquele dia não conseguiu ir pra aula, Liz estaria lá e, talvez, não conseguisse controlar-se. Além disso, estagiavam juntas, conviviam muito, se veriam à tarde, o que já era difícil demais de imaginar. Estava ali, sob a luz do Sol, carregando as forças e se enchendo de coragem.

Já era quase hora do almoço quando sentiu fome, era bom sentir fome, sinal de que tinha voltado ao normal. Pensou no que comer, pensou na grana curta, decidiu ir na Brasileira, ali em frente à Biblioteca Pública, melhor molhinho com pastel da cidade. Juntou o livro de bruxa, montou em sua bike e voou. Essa é a sensação quando não se tem que pedalar. Enquanto voava pensou: “Seriamos queimadas se estivéssemos na idade média.”

 

 

Texto e ilustração: Caroline Rehbein