Retrato do artista quando praticante do equívoco 0 72

Não importa quem esteja jogando, futebol sempre vai me trazer a imagem do meu pai. Quando é jogo do Coxa, sua imagem além de ganhar uns bons vinte anos de jovialidade, vem acompanhada de um extenso pacote de memórias: desde os gols do Pachequinho, aos os gols que não vi porque estava mais preocupado com o amendoim ou com o sorvete, até a caminhada da João Gualberto para o estádio, passando ao lado do muro pixado do cemitério. Quando assisto a uma partida, presto uma homenagem aos mais de quinhentos jogos que vi com meu pai, e a toda minha infância. Mesmo quando vou ao estádio sozinho, levo meu pai comigo.

Hoje, o cara que senta ao meu lado no trabalho não veio, dizem que é gripe suína. Eu tô com uma tosse chata faz uns dias, mas acredito que não é nada, já estava antes dele adoecer. O jogo começa às oito e meia, minha aula vai até as nove. Apresento o trabalho antes e vou embora como quem vai tomar água, já vou deixar a mochila perto da porta. A partida é em casa, mas em terreno inimigo, estão trocando o gramado do Couto, vamos jogar em estádio emprestado pelo rival. Que até é simpático, mas não passa disso.

Ao que tudo indica, Curitiba planeja entrar em alguma bíblia moderna ao tentar reproduzir o dilúvio, iniciando-o uma hora antes da aula. O guarda-chuva não suporta nem a caminhada até o ônibus, em dez segundos não me resta um fio de cabelo seco. Os pés encharcados, a aula arrastada, o plano de fugir frustrado. A professora sentou ao lado da porta. Entrego minha angústia ao lance-a-lance online, que me confidencia que já vencemos por um a zero. Observo a chuva minguar pela janela. Uso a desculpa dos pés molhados, reforço a ideia com um tossido, alio ao conchavo o argumento que em breve voltará a chover. Sucesso, corro para o estádio.

Pouco depois de descer do ônibus, se reinicia uma garoa. Ao pisar na arquibancada, a chuva volta. Pior, cheguei com o jogo empatado, vi a virada antes do intervalo. Reviro a mochila em busca de algo seco, tem um cachecol que só está um pouco úmido. Com muita imaginação transformo-o num guarda-chuva. Essa busca me fez lembrar que trago um livro do James Joyce na mochila. O início do segundo tempo não me deixa esquecer o quanto sou um idiota por molhar um livro do Joyce. O terceiro gol do adversário obriga-me a rever meu conceito de sanidade. E sim, a chuva apertou e o time continua mal, tal qual meu juízo.

O bandeira marca equivocadamente um impedimento, passo a me entreter mais com a criatividade das ofensas proferidas a ele, que com o jogo. E, ao que parece esse sentimento não me é exclusivo. Alguns sorriem e outros gargalham a cada grito dado. A chuva permanece imóvel. Suspeito que isso é o pátio de um manicômio. A bola para numa poça, um bico pra frente, os zagueiros batem cabeça, nosso atacante faz um lindo gol de canela. Abraço desconhecidos. Cantamos ainda abraços. Somos todos irmãos, ninguém mais se importa com o bandeira. Até a chuva dá uma trégua, alguém acende um baseado, de mão em mão sete fumam. Recebo a ponta de um cara que nunca vi, dou duas bolas e passo pra outro que jamais pensei conhecer.

Meus pés boiam dentro do meu tênis. A fumaça resinada agride meus pulmões. A tosse que andava discreta resolve ser mais presente que o mau futebol. Acho que é gripe suína. Tomara que o time empate antes de eu acordar numa ambulância. Destemida, a chuva volta, se James Joyce ainda fosse vivo, teria morrido afogado. Três minutos de acréscimo, escanteio, até o goleiro foi pra área. O cara ao meu lado me oferece um Dallas vermelho para eu parar de tossir, não entendo a lógica, aceito e fumo. Os zagueiros disputam a bola na área, que explode no travessão. Contra-ataque, três contra dois, o lateral tenta puxar a camisa para fazer uma falta, sem sucesso, gol dos caras.

Metade do público deixa o estádio antes dos três apitos, sofro até o fim. Na falta de quem culpar, alguns voltam a xingar o bandeirinha. Não sei o que pensar sobre a vida, nem quem culpar se eu morrer de gripe suína. Lembro da sequência de mais de vinte vitórias seguidas do time, e de outras em que ele não se saía bem nem no par ou ímpar. Lembro de jogos que não valiam nada em que fui com o meu pai. No fim, nenhum vale. Nunca importou quanto deu o jogo. Não amo minhas recordações pelos resultados, mas pelos lugares em que elas me levam.

 

Gabriel Protski

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O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”

Lembranças Azuis 0 1058

Esta é a segunda vez que escrevo sobre mim, a primeira foi uma carta. Decidi começar hoje, depois de tanto papai insistir para que eu escrevesse. Ele sempre disse que é assim que os escritores descobrem o que sentem, transformando sentimentos em palavras que dão sentidos ao que sentimos. Por isso eu deveria fazer o mesmo quando estivesse triste, para transformar o que sentia em algo melhor.

Tive um dia ruim, por isso escrevo.

Primeiro vou me apresentar: meu nome é Pérsio, tenho 14 anos, gosto de jogar futebol, não gosto de azeitonas porque elas têm os caroços mais difíceis de serem arrancados, e minha cor favorita é o azul porque descobri há dois anos que sou daltônico e tudo o que é verde para os outros, é azul pra mim. Então quando vejo algo azul, fico imaginando se é mesmo azul ou é verde. O azul é uma cor desafiadora para mim, e eu gosto muito de desafios e aventuras, igual ao Dom Quixote.

No ano passado fiz uns exames e o médico falou que tenho uma síndrome.

Síndrome de Asperger é o nome. Na época eu não sabia o que significava e papai disse que era uma síndrome de pessoas que tinham a perna direita mais forte que a esquerda. Por isso deveriam se esforçar para não andarem sempre para a esquerda e cuidarem no futebol, pra não machucar o goleiro na hora de chutar para o gol.

Hoje já sei que Asperger não tem nada a ver com a força das pernas, ainda que eu tenha o chute mais forte da 5ª D. Quem tem Asperger, entre outras, não sente as coisas como nos livros, nada é tão intenso. Papai falou que os sentimentos são tão fortes assim porque aprendemos com os livros, que de tanto ler, o homem começou a viver as metáforas que só existiam nas histórias, igual ao Dom Quixote.

Eu nunca senti falta de sentir as coisas, até descobrir que o Asperger não agia na minha perna direita. A partir daí, passei a viver nas páginas dos livros, porque sabia que lá moravam as sensações. Mas nada dizia nada, ou era tudo sem sentido.

Descobri que apenas a dor física era pra mim. Desde então se tornou uma espécie de masturbação. Trancado no banheiro eu enfiava a ponta do lápis embaixo das unhas dos pés, até ver o sangue. Não gostava, mas queria sentir alguma coisa.

Um dia papai me descobriu com os dedos sangrando. Achei que ia ficar de castigo, mas não. Ele pediu para que eu escrevesse uma carta para uma pessoa desconhecida, contando por que tinha feito aquilo.

Escrevi e contei tudo sobre minha vontade de sentir as coisas. Contei também que, se tivesse um cavalo, sairia pelas ruas até os campos e descobriria finalmente o que é viver de metáforas, igual ao Dom Quixote. Não exatamente como ele, porque não seria uma figura triste.

E já que a carta seria entregue a uma pessoa desconhecida, aproveitei e perguntei a ela o que era a felicidade.

Fechei a carta num envelope e entreguei a papai para que levasse à pessoa desconhecida. Como já era nove e quarenta e cinco da noite, fui dormir, porque acordaria às quinze para as sete do dia seguinte para ir pra escola.

Cinco minutos para me vestir, dez para tomar uma xícara de café com leite e meio pão com geleia de tamarindo, vinte minutos a pé até a escola e lá estava eu, com dez minutos para jogar um pouco de futebol até bater o sinal.

Quando a aula acabou, saí correndo para chegar em quinze minutos em casa, mas encontrei papai no portão, me esperando. Fui até ele e vi que segurava minha carta. Perguntei se ele ainda não tinha entregado.

Ele disse que não, que ele era a pessoa desconhecida e ia me ensinar as coisas que eu não conhecia.

Na hora estranhei e disse que ele não era um desconhecido, mas sim o meu pai. Mas papai me explicou que as pessoas nunca são totalmente conhecidas pela gente. Sempre temos algo a aprender sobre elas, mesmo quando são nossos pais, e que isso torna as pessoas sempre um tanto desconhecidas.

Na hora eu senti uma coisa que agora sei que é o que todo mundo chama felicidade, porque sorri quando soube daquilo.

No caminho de casa passamos no bosque, onde papai falou sobre a felicidade, que a maioria das pessoas acha que felicidade é sinônimo de sorriso, e por isso riem para o vazio, para se sentirem menos sozinhas.

Naquele dia aprendi que sentimos felicidade quando o mundo parece agir de acordo com o nosso bem, e que isso se chama plenitude, que é outro sentimento. Então, a felicidade nada mais é do que uma plenitude muito intensa. É quando caminhamos sem notar que o tempo também está andando. Papai contou que em momentos de felicidade extrema esquecemos do resto do mundo e nada mais importa, só o que sentimos. Ele disse que ficou assim quando eu nasci.

Eu acho que sinto felicidade quando estou dormindo, porque não penso em mais nada. Será que plenitude é uma espécie de sono profundo? Será que a morte é uma espécie de sono profundo? Estar pleno é estar morto? Papai…

A partir deste dia papai me buscava sempre na saída da escola. Fazíamos caminhos diferentes para voltar pra casa, pois era assim que a vida deveria ser vivida: sem rumos pré-estabelecidos, e cada dia ele me ensinava um sentimento à minha escolha.

Um dia ele perguntou se eu sabia o que era o amor. Eu disse que o amor era o que fazia as pessoas casarem, e ele disse que essa é a ideia errada, que o amor era outra coisa. Uma coisa que completa a gente, mesmo que a gente tenha todos os membros, porque ele completa no sentido metafórico. É quando uma pessoa interage com você e desperta o seu melhor, mas não é como no futebol, que um zagueiro ruim faz um atacante parecer melhor, é no sentido metafórico, onde os dragões do Dom Quixote realmente batalham com ele.

Papai disse que entre eu, ele e mamãe existe amor, porque a gente sempre age querendo fazer o outro feliz, sempre queremos ser bons uns com os outros, e que isso se chama amor de família. Na hora senti que papai me amava, porque ele terminou de falar e olhou pra mim com um sorriso, e eu sorri pra ele.

Um dia perguntei a papai o que era tristeza e ele falou que eu era novo demais para essas coisas, que a vida iria me ensinar, porque é impossível viver uma vida inteira sem conhecer a tristeza. E que isso, por si só, já é algo triste.

Eu achei que ele não quisesse me ensinar porque era muito novo também. Tinha quarenta e dois anos e só descobriria o que é a tristeza quando estivesse com o cabelo cinza, e que mesmo assim não iria me ensinar porque só a vida deve ensinar a tristeza, não as pessoas que a gente ama. Mas me enganei.

Hoje, voltando do enterro de papai, chorei. Chorei porque nunca mais vou ver ele fora das lembranças, e que elas vão me causar uma dor mais forte que a ponta do lápis embaixo das unhas.

Soube que era tristeza quando mamãe me abraçou, me deu um beijo na testa, me apertou ainda mais e disse pra eu não ficar triste.

Quando olhei, ela estava sorrindo. Mas eu sabia que era um daqueles risos que as pessoas soltam para o vazio, para se sentirem menos sozinhas. As lágrimas diziam tudo, porque papai uma vez me disse que só os humanos choram lágrimas, que nos outros animais elas não passam de secreção, igual ao suor pra gente.

Não precisei ficar velho pra descobrir o que é tristeza, ou será que envelheci rápido demais?

Agora papai só existe nas minhas lembranças, e às lembranças não se pode ensinar. Papai jamais saberá o que é tristeza, e isso é bom, porque não queremos que as pessoas que amamos fiquem tristes.

Papai prometeu que quando voltasse do hospital iria me ensinar o que é saudade, mas isso vou ter que aprender sozinho.

texto: Rafael Antunes
ilustração: Rebeca Storrer