Edmundo  0 76

Texto e ilustração: Caroline Rehbein

Entre choros e soluços, Maria se rendeu ao sono. Passou a madrugada entre um pesadelo e outro. Pela manhã, acordou de cara inchada. Foi ensinada quando criança que “após uma noite de choro, a alegria viria pela manhã”, entretanto, esse pensamento parecia não surtir efeito algum e contrariando a máxima, Maria não sorriu, sua expressão não esboçava linha alguma de felicidade. Encarava-se no espelho a procura de si mesma.

Não era mais menina. O tempo cruelmente a lembrava de seus fracassos. Até os 16 anos não faltou em um culto da igreja, sentia-se fervorosa, sentia-se parte de toda aquela liturgia. Seu coração era de Jesus. E cresceu cercada dessa inocência, acreditando que havia verdade nessa doutrina. Maria estava completamente convencida que preferia o céu a ser feliz no inferno. Então conheceu Edmundo, foi paixão à primeira vista.

Quando Maria parou para pensar onde tudo aquilo daria, já havia se entregado de corpo e alma a Edmundo. É claro que a atitude foi impensada e precipitada, ninguém conhece alguém em um mês. Edmundo se revelou o capeta. Agora já era tarde, Maria estava grávida e seus pais a estavam expulsando de casa.

Edmundo bebia, fumava e com o tempo, Maria foi descobrindo que ele usava outras drogas. No começo conversou, pediu, clamou que Edmundo abandonasse esses comportamentos, ela estava convencida de que o amava e não entendia porque ele se mostrava tão contrário. Não soube apelar de forma eficaz, pois tudo que conseguiu foram as inflexíveis palavras de Edmundo: “eu não vou mudar”.

Não existe palavras para descrever o tamanho da decepção que Maria sentiu. A amargura e a decepção foram tão venenosas a sua mente que sentiu-se só e desesperada, como poderia ter sido tão imatura? Como poderia ter feito isso consigo mesma?

“Onde estava Deus que não a impediu de fazer aquilo?” Quando fez a Edmundo essas perguntas, ele riu de sua cara e perguntou: “Que Deus? Você acredita mesmo nesse papo de Idade de média? O mundo evoluiu”, dizia ele. Maria queria pegar suas coisas e ir embora…mas pra onde iria? Sentiu medo.

O tempo foi passando e Edmundo era irreversível. Maria preferiu mudar. Preferiu ser feliz no inferno porque a ilusão do paraíso parecia cada vez mais distante. Começou a beber, fumar…depois foi para as drogas mais pesadas… Preferia sentir alguma coisa. O mundo era vazio demais sem suas doces ilusões. Brigou com Deus alegando que a ignorância era a única bondade nesse mundo.

A cada semana que se passava, Maria estava mais afundada em frustrações e vícios. Perdeu aquele bebê e foi assim toda vez que engravidou.  A cada aborto, sentia-se mais e mais distante de si mesma. A base de lágrimas desfez cada princípio de sua vida. De uma realidade baseada em princípios os desconstruiu um a um.

Alguém precisava mudar. Perder mais um bebê afastou para longe a última parte da ilusão que agora parecia ter ludibriado a vida toda. Começou enfim a achar que o problema não era Edmundo e sim toda aquela ladainha ao qual foi ensinada a viver. Ninguém, nem ela conseguiria ser perfeita.

“Ensina a criança no caminho que deve andar e quando for velho não se desviará dele”. Deve ser isso, pensou ela. Talvez eu só não seja velha o bastante. Porque pensar diferente disso seria ficar entre a loucura e o sentimento de vazio completo. Viu que não conseguiria ter Jesus e Edmundo ao mesmo tempo, não sabia se amava os dois ou a nenhum. Achava que amava. Acreditava que logo morreria. Guardava consigo o desejo pelo paraíso, porque o inferno foi sua vida, a cada dia de submissão.

 

 

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Tenho cá pra mim que deveria ser obrigatório parar pra saborear a lua por uns minutos quando ela está imensa lá no céu. Deveria ser mesmo uma lei: não admirou a lua cheia nesta quinta-feira? Vem a multa pelo correio. Não deu uma mordidinha sequer durante toda a semana? Vem a polícia da lua até a sua casa para ver o que se passa. Algo não está a correr bem.

Naquela época, as coisas não estavam mesmo bem. Quando as manchas começaram a aparecer , foi um desespero. Google, médicos, Google, exames, Google, dermatologistas, diagnósticos, tratamentos. Céus! Não era coisa que se pudesse esconder, aí é que estava o medo. Na pele. O medo era feito de manchas e as manchas eram feitas de medo. Céus! Foi minha família que me segurou, se não eu não aguentava. Juro que não aguentava. Eu queria quebrar os espelhos, queria que as selfies não estivessem mais na moda. Que as pessoas fossem um pouco mais cegas dos olhos e menos do coração.

Então uma vez estávamos eu e a minha filha sentados na varanda da casa de veraneio. Começava a anoitecer. Ela tinha nessa época uns sete anos de idade e um mundo inteiro por descobrir.  Admirávamos o céu, como há muito tempo eu não fazia.

Ela disse: “Olha, mãe, a lua tem manchas igual você”.

E depois: “Ela é linda, não é?”

E então a lua que move marés formou um oceano inteiro dentro dos meus olhos.

Nunca estivera tão feliz. Abracei a pequena; clarear a noite dela me bastava. Porque eu era também o reflexo do reflexo. Destas luas que não ficam bem em qualquer foto. Destas que têm manchas e crateras, sim, mas que balançam os mares e iluminam toda uma vida. E que giram e giram e giram e às vezes cometem suspiros dentro do peito dos poetas.

 

Murilo.

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”