Edmundo  0 105

Texto e ilustração: Caroline Rehbein

Entre choros e soluços, Maria se rendeu ao sono. Passou a madrugada entre um pesadelo e outro. Pela manhã, acordou de cara inchada. Foi ensinada quando criança que “após uma noite de choro, a alegria viria pela manhã”, entretanto, esse pensamento parecia não surtir efeito algum e contrariando a máxima, Maria não sorriu, sua expressão não esboçava linha alguma de felicidade. Encarava-se no espelho a procura de si mesma.

Não era mais menina. O tempo cruelmente a lembrava de seus fracassos. Até os 16 anos não faltou em um culto da igreja, sentia-se fervorosa, sentia-se parte de toda aquela liturgia. Seu coração era de Jesus. E cresceu cercada dessa inocência, acreditando que havia verdade nessa doutrina. Maria estava completamente convencida que preferia o céu a ser feliz no inferno. Então conheceu Edmundo, foi paixão à primeira vista.

Quando Maria parou para pensar onde tudo aquilo daria, já havia se entregado de corpo e alma a Edmundo. É claro que a atitude foi impensada e precipitada, ninguém conhece alguém em um mês. Edmundo se revelou o capeta. Agora já era tarde, Maria estava grávida e seus pais a estavam expulsando de casa.

Edmundo bebia, fumava e com o tempo, Maria foi descobrindo que ele usava outras drogas. No começo conversou, pediu, clamou que Edmundo abandonasse esses comportamentos, ela estava convencida de que o amava e não entendia porque ele se mostrava tão contrário. Não soube apelar de forma eficaz, pois tudo que conseguiu foram as inflexíveis palavras de Edmundo: “eu não vou mudar”.

Não existe palavras para descrever o tamanho da decepção que Maria sentiu. A amargura e a decepção foram tão venenosas a sua mente que sentiu-se só e desesperada, como poderia ter sido tão imatura? Como poderia ter feito isso consigo mesma?

“Onde estava Deus que não a impediu de fazer aquilo?” Quando fez a Edmundo essas perguntas, ele riu de sua cara e perguntou: “Que Deus? Você acredita mesmo nesse papo de Idade de média? O mundo evoluiu”, dizia ele. Maria queria pegar suas coisas e ir embora…mas pra onde iria? Sentiu medo.

O tempo foi passando e Edmundo era irreversível. Maria preferiu mudar. Preferiu ser feliz no inferno porque a ilusão do paraíso parecia cada vez mais distante. Começou a beber, fumar…depois foi para as drogas mais pesadas… Preferia sentir alguma coisa. O mundo era vazio demais sem suas doces ilusões. Brigou com Deus alegando que a ignorância era a única bondade nesse mundo.

A cada semana que se passava, Maria estava mais afundada em frustrações e vícios. Perdeu aquele bebê e foi assim toda vez que engravidou.  A cada aborto, sentia-se mais e mais distante de si mesma. A base de lágrimas desfez cada princípio de sua vida. De uma realidade baseada em princípios os desconstruiu um a um.

Alguém precisava mudar. Perder mais um bebê afastou para longe a última parte da ilusão que agora parecia ter ludibriado a vida toda. Começou enfim a achar que o problema não era Edmundo e sim toda aquela ladainha ao qual foi ensinada a viver. Ninguém, nem ela conseguiria ser perfeita.

“Ensina a criança no caminho que deve andar e quando for velho não se desviará dele”. Deve ser isso, pensou ela. Talvez eu só não seja velha o bastante. Porque pensar diferente disso seria ficar entre a loucura e o sentimento de vazio completo. Viu que não conseguiria ter Jesus e Edmundo ao mesmo tempo, não sabia se amava os dois ou a nenhum. Achava que amava. Acreditava que logo morreria. Guardava consigo o desejo pelo paraíso, porque o inferno foi sua vida, a cada dia de submissão.

 

 

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Dai-me Amor 0 124

Deus foi a primeira palavra que eu aprendi. Antes mesmo de aprender meu nome. Quando se é criança, os adultos tentam nos ensinar as coisas dos jeitos mais variados. Criança só aprende brincando. Minha mãe mandava eu pintar todos os “Deus” que eu achasse na Bíblia. Ela me disse que Deus sempre existiu e nunca nasceu. Perguntei como Ele se parecia. Ela disse que não sabia, pois a glória dEle é tão grande que era como olhar pro Sol. Tentei olhar pro Sol, ardeu.

Depois de pintar tudo, eu aprendi a palavra Jesus. Ela me disse que Jesus é a encarnação do amor, é quem criou todas as coisas. É filho de Deus com uma humana, Maria. Me disse que tem barba e cabelo grande. E que seu olhar muda e transforma escuridão em luz.

Mais tarde ela me falou pra pintar o “Espírito Santo” e disse que Ele não tem forma, corpo ou manifestação material. Já foi pomba no batismo de Jesus, mas também é descrito como o brilho da Glória de Deus. Ela me explicou que Deus se manifesta na trindade. E que eu podia falar com Ele(s) quando eu quisesse. Bastava orar e, é claro, com todo o respeito. E que quando eu orasse deveria confessar meus erros e pedir perdão. Deveria agradecer pelas dádivas e pela bênção da vida. Que deveria contar sobre meu dia, sobre meus medos, descobertas e felicidades. Foi assim que Jesus se tornou meu melhor amigo. Meu amigo imaginário. Meu Deus. Minha mãe me ensinou um bocado de coisas sobre a Bíblia, o céu e sobre como a vida nessa terra é passageira, é escola, é aprendizado, nada é por acaso, nada é destino. Tudo é providencial. Providência divina. Tudo de bom e tudo de ruim tem como propósito nos ensinar sobre Deus, e como Ele age em nossas vidas. Ela me contou que se eu deixasse, Ele poderia morar dentro do meu coração, e assim, o divino habitaria em mim. Disse também, que Jesus vai voltar pra levar os justos pro céu. Perguntei como eu fazia pra ir pro céu, ela me disse que imitando a Jesus, O aceitando como meu Deus e salvador, sua Graça me salvaria independente das obras. Me ensinou que só a religião dela era a correta e junto com essa religião muitas regrinhas, que eu nunca consegui seguir. Por muito tempo achei que por causa da parte que eu não cumpria, Deus não habitava em mim. Me senti perdida, vazia. Comecei a me odiar. Acelerar minha morte. A vida muitas vezes deixa de fazer sentido. Acontece que eu sou muito como Tomé, só acredito vendo. E como acreditar em alguém que eu só ouvi falar e que ninguém nunca viu? Com nove anos veio a primeira dúvida sobre a volta de Jesus. Junto com a dúvida veio a primeira vez que senti Deus falando comigo. Foi diferente de pensar. Foi quase como ouvir palavras que não foram pensadas. Eu ouvi: “Não desista, porque Eu não desisti de você”. Depois desse episódio nunca mais ouvi ele nos meus pensamentos, achei que era coisa de criança ter amigos imaginários, mas vira e mexe alguém usado por Ele me lembrava sobre não desistir de conhecê-Lo e procurá-Lo. E nessa eu vi que Ele não estava na religião. Não estava em uma igreja específica, não era o “não pode” tão popular. Compreendi o que significava Graça e aceitei a minha salvação. Aceitei a trindade e aceitei a minha mãe. Compreendi que amar nada tem haver com sexo ou paixão. Amor transcende toda essa metáfora feita de carbono que chamamos de realidade. Aceitei meu corpo, que foi presente de Deus pro meu espírito habitar. Espírito esse que saiu dEle.

A segunda vez que Deus falou comigo eu já não era mais criança, foi quando percebi que Deus não é religião e um bocado de regrinhas. Ele está onde há luz. E Ele deixou luz em tudo. Tomei um chá com Ele. Meu espírito saiu do corpo e subiu. Contemplei a Glória divina e senti meu espírito ir alto e mais alto. Eu vi a Deus e diferente do que minha mãe dizia, é como olhar pro Sol, mas os olhos não ardem. E Ele me disse: você é um anjo. Você é luz! Você está pronta!

Mateus 5:8 “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.”

 

 

Vida comum parte 1 0 225

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.