O Número Que Você Ligou Encontra-se Desligado Ou Fora Da Área De Serviço 0 183

O ônibus? Acho que daqui uns dez minutos ele passa, não demora muito não.

Já, já peguei sim. Pegava bastante pra ir pro trabalho.

Não vou pegar hoje não. Faz tempo que não pego ônibus. Tô só me protegendo do sol mesmo.

Onde eu moro? Depende da hora do dia. As vezes aqui nesse ponto mesmo.

Não precisa me pagar um lanche não. O seu Otávio ali da panificadora sempre me dá um almoço.

 

É sim, um homem de bom coração.

 

Quando eu tinha emprego eu sempre tomava um pingado ali, de vez em quando até comia um chineque.

Um gole eu aceito, tá calor né?

Vixe, faz um tempinho já. Eu trabalhava na construção civil, mas aí sofri um acidente. Cai de um andaime, machuquei feio a coluna.

Não tinha registro não, a gente nessa área trabalha tudo na informalidade.

É, né, diz que daqui uns dias vai ser assim pra todo mundo.

Aham, eu morava numa pensão aqui perto.

 

Até tentei voltar pra labuta umas semanas depois, mas não aguentei, acho que até machuquei mais.

 

Agora eu tô bem. No que dá, né? Só tá difícil arrumar uns bicos.

Ah, o pessoal da agência de empregos pede pra eu deixar um telefone pra eles me ligarem, mas tive que vender o meu pra garantir mais um mês na pensão.

Te falar que não adiantou muito, no outro mês ainda não conseguia carregar um saco de palha. É, aí me expulsaram da pensão. Mas também, sem dinheiro pra pagar, né?

Faz uns meses já.

Minha família é do interior de São Paulo, mas não tenho quase ninguém mais por lá.

O seu Otávio até rachou comigo uma passagem pra eu visitar minha mãe, pra ver se achava alguma coisa por aqueles cantos.

Rapaz, você acredita que ela tinha falecido, já fazia uns vinte dias?

É, ninguém tinha como me avisar, sem celular, né?

Fui embora de lá já no outro dia. Não sei. Lá nunca foi o meu lugar, sem ela então…

Obrigado!

Por um acaso você não tem um celular sobrando em casa? Pode ser um bem velhinho mesmo, só pro pessoal da agência de empregos conseguir me ligar.

A é? Sério? Poxa, que maravilha.

Eu tô sempre por aqui. Se você achar ele na gaveta então, nossa, me ajudaria um montão.

Obrigado mesmo.

Aham, aceito mais um gole sim.

Ah, não esquenta não. Com esse celular você já tá fazendo muito por mim.

Acho que a vida é desse jeito mesmo. Tudo passa rápido demais. Muda de uma hora pra outra. Quando a gente vê, ficou esquecido no fundo de uma gaveta, tipo um celular velho.

 

Gabriel Protski

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Tenho cá pra mim que deveria ser obrigatório parar pra saborear a lua por uns minutos quando ela está imensa lá no céu. Deveria ser mesmo uma lei: não admirou a lua cheia nesta quinta-feira? Vem a multa pelo correio. Não deu uma mordidinha sequer durante toda a semana? Vem a polícia da lua até a sua casa para ver o que se passa. Algo não está a correr bem.

Naquela época, as coisas não estavam mesmo bem. Quando as manchas começaram a aparecer , foi um desespero. Google, médicos, Google, exames, Google, dermatologistas, diagnósticos, tratamentos. Céus! Não era coisa que se pudesse esconder, aí é que estava o medo. Na pele. O medo era feito de manchas e as manchas eram feitas de medo. Céus! Foi minha família que me segurou, se não eu não aguentava. Juro que não aguentava. Eu queria quebrar os espelhos, queria que as selfies não estivessem mais na moda. Que as pessoas fossem um pouco mais cegas dos olhos e menos do coração.

Então uma vez estávamos eu e a minha filha sentados na varanda da casa de veraneio. Começava a anoitecer. Ela tinha nessa época uns sete anos de idade e um mundo inteiro por descobrir.  Admirávamos o céu, como há muito tempo eu não fazia.

Ela disse: “Olha, mãe, a lua tem manchas igual você”.

E depois: “Ela é linda, não é?”

E então a lua que move marés formou um oceano inteiro dentro dos meus olhos.

Nunca estivera tão feliz. Abracei a pequena; clarear a noite dela me bastava. Porque eu era também o reflexo do reflexo. Destas luas que não ficam bem em qualquer foto. Destas que têm manchas e crateras, sim, mas que balançam os mares e iluminam toda uma vida. E que giram e giram e giram e às vezes cometem suspiros dentro do peito dos poetas.

 

Murilo.

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”