O Terceiro 0 331

Ninguém sabe exatamente por que fazemos o que fazemos. Nem nós. Quando nos juntamos, por exemplo, eu realmente não sabia o que viria – você me convenceu a vir para o terceiro e eu vim, mas você foi.

O terceiro é massa porque não é tão baixo que dê pra vagabundo escalar por fora, mas também não é tão alto e dá pra ir de escada, já faz um exercício, você dizia. Nunca fiz, confesso, só subo de elevador. Eu venho e você foi. De que adianta o exercício de subir se ele não nos prepara para essas coisas? Só faço mesmo o exercício de descer.

Coloco pra você um som, mas você já foi e levou seus livros. Por quê?

O terceiro é bom que não tem tanto mosquito quanto o primeiro e o segundo, porque é um pouco mais alto, você falava. Mas é bom que dá pra sua vó vir, ela é tão pequenininha e esses 24 degraus acho que ela aguenta tranquila.

Aí você pegava o violão e tocava uma música sua. Eu nunca soube as letras porque você não as escrevia, só murmurava. Conseguia pensar em sequências de notas e acordes, mas nunca em sequências de palavras. Tocava baixinho, também e não sei se até hoje você já terminou uma canção. Mas espero que sim, porque os trechos eram tão curtos mas tão bonitos.

O terceiro, aqui, é o melhor de dois mundos, porque essa região é mais elevada. Então é como se fosse um sexto ou sétimo de outras partes da cidade, né?, você comentava. Interessante o raciocínio, realmente aqui tem uma vista legal. Meu primeiro terceiro não tem mais do que três araucárias e umas ruas meio longe, com trânsito, mas, de fato, é melhor do que o segundo segundo, que só mostrava muros, os carros da garagem e um eventual vizinho preguiçoso passeando com o dog.

Por quê? Por que o terceiro se eu só queria o segundo? Mais um segundo, o terceiro segundo.

No fim, não chovia. Seria mais adequado, que chuva combina com despedidas, mas fazia um céu azul e um calor seco, quase feito fogo. Levasse junto as traças que seus livros trouxeram, ainda moram aqui. Quase feito cinzas.

O terceiro foi ruim, porque você parecia tão próximo enquanto ia. Você disse Se cuida, e três segundos depois eu ouvi um Tchau e o som da chave girando. Quem vai embora de fato deixa as chaves, eu acho. Por que levou?

Vesti todas as minhas roupas, uma por uma, e tirei selfies. Em três delas dá pra notar minha testa brilhando muito, não lembro de um dia tão abafado nessa cidade quanto aquele terceiro de março. Mas deve ser só a afeição falando mais alto.

 

Você foi e esqueceu seu violão, a chuteira e um par de fones de ouvido.

 

 

Texto e colagem por Rômulo Candal.

Fotografias de Kurayba e Manchesterfire.

Previous ArticleNext Article

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Chegada 0 1275

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai

Vida comum parte 1 0 796

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.