O Terceiro 0 78

Ninguém sabe exatamente por que fazemos o que fazemos. Nem nós. Quando nos juntamos, por exemplo, eu realmente não sabia o que viria – você me convenceu a vir para o terceiro e eu vim, mas você foi.

O terceiro é massa porque não é tão baixo que dê pra vagabundo escalar por fora, mas também não é tão alto e dá pra ir de escada, já faz um exercício, você dizia. Nunca fiz, confesso, só subo de elevador. Eu venho e você foi. De que adianta o exercício de subir se ele não nos prepara para essas coisas? Só faço mesmo o exercício de descer.

Coloco pra você um som, mas você já foi e levou seus livros. Por quê?

O terceiro é bom que não tem tanto mosquito quanto o primeiro e o segundo, porque é um pouco mais alto, você falava. Mas é bom que dá pra sua vó vir, ela é tão pequenininha e esses 24 degraus acho que ela aguenta tranquila.

Aí você pegava o violão e tocava uma música sua. Eu nunca soube as letras porque você não as escrevia, só murmurava. Conseguia pensar em sequências de notas e acordes, mas nunca em sequências de palavras. Tocava baixinho, também e não sei se até hoje você já terminou uma canção. Mas espero que sim, porque os trechos eram tão curtos mas tão bonitos.

O terceiro, aqui, é o melhor de dois mundos, porque essa região é mais elevada. Então é como se fosse um sexto ou sétimo de outras partes da cidade, né?, você comentava. Interessante o raciocínio, realmente aqui tem uma vista legal. Meu primeiro terceiro não tem mais do que três araucárias e umas ruas meio longe, com trânsito, mas, de fato, é melhor do que o segundo segundo, que só mostrava muros, os carros da garagem e um eventual vizinho preguiçoso passeando com o dog.

Por quê? Por que o terceiro se eu só queria o segundo? Mais um segundo, o terceiro segundo.

No fim, não chovia. Seria mais adequado, que chuva combina com despedidas, mas fazia um céu azul e um calor seco, quase feito fogo. Levasse junto as traças que seus livros trouxeram, ainda moram aqui. Quase feito cinzas.

O terceiro foi ruim, porque você parecia tão próximo enquanto ia. Você disse Se cuida, e três segundos depois eu ouvi um Tchau e o som da chave girando. Quem vai embora de fato deixa as chaves, eu acho. Por que levou?

Vesti todas as minhas roupas, uma por uma, e tirei selfies. Em três delas dá pra notar minha testa brilhando muito, não lembro de um dia tão abafado nessa cidade quanto aquele terceiro de março. Mas deve ser só a afeição falando mais alto.

 

Você foi e esqueceu seu violão, a chuteira e um par de fones de ouvido.

 

 

Texto e colagem por Rômulo Candal.

Fotografias de Kurayba e Manchesterfire.

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Tenho cá pra mim que deveria ser obrigatório parar pra saborear a lua por uns minutos quando ela está imensa lá no céu. Deveria ser mesmo uma lei: não admirou a lua cheia nesta quinta-feira? Vem a multa pelo correio. Não deu uma mordidinha sequer durante toda a semana? Vem a polícia da lua até a sua casa para ver o que se passa. Algo não está a correr bem.

Naquela época, as coisas não estavam mesmo bem. Quando as manchas começaram a aparecer , foi um desespero. Google, médicos, Google, exames, Google, dermatologistas, diagnósticos, tratamentos. Céus! Não era coisa que se pudesse esconder, aí é que estava o medo. Na pele. O medo era feito de manchas e as manchas eram feitas de medo. Céus! Foi minha família que me segurou, se não eu não aguentava. Juro que não aguentava. Eu queria quebrar os espelhos, queria que as selfies não estivessem mais na moda. Que as pessoas fossem um pouco mais cegas dos olhos e menos do coração.

Então uma vez estávamos eu e a minha filha sentados na varanda da casa de veraneio. Começava a anoitecer. Ela tinha nessa época uns sete anos de idade e um mundo inteiro por descobrir.  Admirávamos o céu, como há muito tempo eu não fazia.

Ela disse: “Olha, mãe, a lua tem manchas igual você”.

E depois: “Ela é linda, não é?”

E então a lua que move marés formou um oceano inteiro dentro dos meus olhos.

Nunca estivera tão feliz. Abracei a pequena; clarear a noite dela me bastava. Porque eu era também o reflexo do reflexo. Destas luas que não ficam bem em qualquer foto. Destas que têm manchas e crateras, sim, mas que balançam os mares e iluminam toda uma vida. E que giram e giram e giram e às vezes cometem suspiros dentro do peito dos poetas.

 

Murilo.

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”