Texto de em 13 de Março de 2017 . Nenhum comentário.

Ninguém sabe exatamente por que fazemos o que fazemos. Nem nós. Quando nos juntamos, por exemplo, eu realmente não sabia o que viria – você me convenceu a vir para o terceiro e eu vim, mas você foi.

O terceiro é massa porque não é tão baixo que dê pra vagabundo escalar por fora, mas também não é tão alto e dá pra ir de escada, já faz um exercício, você dizia. Nunca fiz, confesso, só subo de elevador. Eu venho e você foi. De que adianta o exercício de subir se ele não nos prepara para essas coisas? Só faço mesmo o exercício de descer.

Coloco pra você um som, mas você já foi e levou seus livros. Por quê?

O terceiro é bom que não tem tanto mosquito quanto o primeiro e o segundo, porque é um pouco mais alto, você falava. Mas é bom que dá pra sua vó vir, ela é tão pequenininha e esses 24 degraus acho que ela aguenta tranquila.

Aí você pegava o violão e tocava uma música sua. Eu nunca soube as letras porque você não as escrevia, só murmurava. Conseguia pensar em sequências de notas e acordes, mas nunca em sequências de palavras. Tocava baixinho, também e não sei se até hoje você já terminou uma canção. Mas espero que sim, porque os trechos eram tão curtos mas tão bonitos.

O terceiro, aqui, é o melhor de dois mundos, porque essa região é mais elevada. Então é como se fosse um sexto ou sétimo de outras partes da cidade, né?, você comentava. Interessante o raciocínio, realmente aqui tem uma vista legal. Meu primeiro terceiro não tem mais do que três araucárias e umas ruas meio longe, com trânsito, mas, de fato, é melhor do que o segundo segundo, que só mostrava muros, os carros da garagem e um eventual vizinho preguiçoso passeando com o dog.

Por quê? Por que o terceiro se eu só queria o segundo? Mais um segundo, o terceiro segundo.

No fim, não chovia. Seria mais adequado, que chuva combina com despedidas, mas fazia um céu azul e um calor seco, quase feito fogo. Levasse junto as traças que seus livros trouxeram, ainda moram aqui. Quase feito cinzas.

O terceiro foi ruim, porque você parecia tão próximo enquanto ia. Você disse Se cuida, e três segundos depois eu ouvi um Tchau e o som da chave girando. Quem vai embora de fato deixa as chaves, eu acho. Por que levou?

Vesti todas as minhas roupas, uma por uma, e tirei selfies. Em três delas dá pra notar minha testa brilhando muito, não lembro de um dia tão abafado nessa cidade quanto aquele terceiro de março. Mas deve ser só a afeição falando mais alto.

 

Você foi e esqueceu seu violão, a chuteira e um par de fones de ouvido.

 

 

Texto e colagem por Rômulo Candal.

Fotografias de Kurayba e Manchesterfire.